Tuesday, March 27, 2007

Leonardo da Vinci

De Chuck Norris a panda passa para messer Leonardo. Esse bróugui é uma beleza! Abalou Bangu, abalou Bangu!
Então, eu costumo dizer pros meus alunos, olha, o "Código Da Vinci" é legal, bom entretenimento ( se bem que eu achei cacete, bobo e mal escrito, mas enfim), agora esqueçam disso quando a gente estuda a obra do grande toscano. Leonardo foi genial, sem dúvida. Leonardo sabia de milhões de coisas que a gente nunca vai passar perto, isso nem se discute. Mas quando a gente estuda História da Arte, entende que falar que Jesus foi casado com Maria Madalena é fichinha perto das realizações de Leonardo.
Os seus papéis desordenados são a prova de que a mente leonardiana era um esplendor. Conta de açougue, piadas ouvidas na rua, pequenas fábulas convivem com os desenhos espetaculares e a invenção do helicóptero, da bicicleta e receitas de sopas. Giorgio Vasari, biógrafo dos artistas do Renascimento, nos conta da beleza excepcional de Leonardo, e de sua carreira como cortesão. Sim, messer Leonardo deixou de pintar e passava de corte em corte construindo catapultas, inventando danças, tocando músicas e escandalizando com suas túnicas curtas e de cores fortes. Amigo dos rapazes, Leonardo desenvolveu uma relação estranha com Salai, um de seus discípulos, e por onde passava deixava um cartão, um desenho, uma obra inacabada e consequentemente um rastro de destruição.
Eu amo com ardor o "Tratado da Pintura", compêndio de algumas anotações do mestre sobre a arte da pintura, que ele, de maneira heterodoxa e escandalosa, considerava maior que a poesia e a escultura. Agora, eu escrevo partes dos meus capítulos da tese, um trabalho cacete e horroroso, pra entregar como relatório à famigerada FAPESP. E Leonardo veio ao meu socorro, porque, como contemporâneo de messer Sandro ( os dois tinham três anos de diferença e estiveram juntos no ateliê de Andrea del Verocchio), alguma coisa poderia dizer sobre o embate entre poesia e pintura. O único artista que Leonardo cita no Tratado é justamente "o nosso Alessandro", de forma negativa: Leonardo critica o desinteresse de Botticelli pela paisagem, e diz que o pintor da Vênus afirmava que "para se fazer uma paisagem, era só molhar uma esponja com tinta e pronto". Mas é o único artista citado. E a primeira parte do Tratado, sobre o paragone ( a disputa) entre poesia e pintura... e toca citação do caso de Apeles, sendo que Alessandro foi o Apeles dos florentinos daquele tempo.
Na historiografia tradicional, século XIX, Leonardo passou como um homem do século XVI, e Botticelli, um artista um tanto quanto ultrapassado, do século XV, um homem ainda ligado ao gótico, ao decorativo e à tradição artesanal, quase nada perto da explosão de três das tartarugas-ninja ( a tríade Leonardo-Michelângelo-Rafael teria ofuscado os caminhos das gerações anteriores, incluindo Donatello. O que sempre me intrigou foi a escolha dos nomes das tartarugas-ninja....risos). Vasari contribui pra isso, porque coloca Botticelli na segunda fase da sua história das artes italianas, e Leonardo no início da terceira, com Giorgione ( um esquema bem bolado do biógrafo).
É duro ter que escrever sobre Leonardo, sendo que tanta besteira é dita sobre ele hoje em dia. Eu também vou escrever um monte de bobagem. Mas a minha idéia principal é que Botticelli e Leonardo estavam mais próximos do que usualmente se supõe.

Monday, March 26, 2007

Chuck Norris

Outro dia eu tava falando com os meninos do IA, Filipe, Mário e Vitor. Todos foram meus alunos, eu já tô no IA há tempo demais. O Vitor comentou que viu na tevê um filme com o velho Chuck Norris e o Carradine, e chorou de emoção.

O meu sonho era ser o Chuck Norris, chegar resolvendo no braço, na voadora, na porrada mesmo, o que não tá certo nesse mundo sofrido de Deus. Eu vou encher de porrada esses filhos da puta! Vou chegar no Chuck Norris! Tô de saco cheio de gente idiota, estúpida, medíocre, retardada, sem noção!
Número um. Você, pessoa nefasta que me lê. Desculpem os queridos leitores do Meio, mas tem gente nefasta nesse mundo, e por increça que parível, eles podem me ler a qualquer momento. Pra quem é querido, fofo, panda, desconsidere. Mas pra você, filho da putinha. Sim, você mesmo, que maquina tretas. Vai se fuder.
Número dois. Não pense, pessoa nefasta do quinto dos infernos do cacete da puta que te pariu, que suas ninharias, mixarias, idiotices, dramas ridículos, não são percebidos e devidamente postos na lata de lixo. Sim, todo mundo percebe o que você faz, mas é tão ridículo; todos os dias todos jogam fora sua idiotice e sua perfeita falta de sentido no mundo. Quando você nos irrita, é pelo acúmulo, é porque você já abusou da boa vontade, já passou dos limites do que a gente tolera porque sim, nós, que temos nossos defeitos mas não descontamos nossa infelicidade nos outros ( e essa é a diferença das pessoas boas e das ruins: a gente não acha que o mundo nos deve nada, a gente não desconta nada nos outros e ponto) não somos melhores nem piores que você. Somos apenas mais felizes. Morra de inveja. Isso, morra mesmo, vá pro inferno, como diria Dante.

Sunday, March 25, 2007

I'll be here where the heart is

Eu li os posts desse mês encalorado e sofrido de março de 2007. Vagando pelo Orkut, dei com a relação da trilha sonora de Flashdance e me lembrei de uma música ( tá meio Em busca do tempo perdido musical, esse bróugui). Vou falar um pouco dessa música, do filme, de mim, e penso que tudo isso faz um sentido, dentro do meu coração, no dia de hoje.
Eu amava o filme Flashdance. Lembro que minha melhor amiga, a Roberta, tinha em vídeo, e a gente assistia sem parar, na casa dela, ficando vermelhas quando as moças ficavam peladas ou eles transavam. Claro que a gente dançava que nem duas possuídas, ao som de "What a Feeling" e "I love rock'n roll". Claro que a gente não entendia patavina do que se passava, pra nós a garota do Flashdance era a irmã mais velha que a gente queria ter. Tudo da Alex, personagem da Jennifer Beals, a gente queria ter: o cabelo crespo com franja ( e isso a gente teve a bela idéia de ter, claro),o moletom cinza com decote canoa, o rebolado, a resposta pronta, a cara-de-pau de tirar o sutiã de dentro da blusa, o cachorro, a bicicleta, o trabalho de soldadora, o namorado velhão, a velhinha bailarina, as amigas birutas.
O filme foi muito criticado, pelas coisas meio inverossímeis: a diferença de idade dos dois ( ela tem 18, ele 36), o trabalho de soldadora combinado com o de dançarina, o complexo de Cinderela ( muito fácil conseguir uma audiência namorando o chefe do Porsche preto, alegaram as feministas, os machistas e tout le monde), enfim, mas virou um ícone. Eu tava pensando no filme, acho que muita crítica procede. Mas me lembrei dessa música, "I'll be here where the heart is", da Kim Carnes.
http://en.wikipedia.org/wiki/Flashdance, veja o artigo na Wikipedia.
Essa música toca quando a Alex sabe que a velhinha, sua professora, morreu, o cara deu no pé, a melhor amiga escorregou no show de patinação no gelo e foi parar numa espelunca, nua, dançando pra idiotas, o namorado da amiga, cozinheiro e que sonha em ser humorista, foi tentar a sorte impossível na Califórnia, e ela tá ferrada e mal paga. Olha, querer que um filme de Hollywood seja verossímil, é pedir que laranjeira dê banana. E a vida não é verossímil.
Justamente. Assim como a Alex era soldadora e dançarina de strip-tease, andava de bicicleta por Pittsburgh, eu muitas vezes na minha vida tive que encarar audiências de dança, e sem What a Feeling atrás. Enfim. Mas eu me lembrei dessa linda balada da Kim Carnes, outra ídola, que aparecia às vezes no Fantástico.
Essa é pra quando tudo já se esfacelou, e só resta a poeira dos dias. O aperto no coração, que era constante, virou uma dor aguda que dá no meio da noite, das noites longas de inverno, quando a gente acorda e percebe que há tanto tempo, o amor existiu, deixou de existir, o mundo girou tantas vezes que se perdeu a conta, a esperança virou um vago desejo de ver o outro, só ver, há tempos que não te vejo, a delicadeza do meu sentimento se transformou na luz amarelada do abajur, na madrugada, eu acordo e percebo que o tempo passou, mas continuo aqui, o meu coração ainda está aqui, comigo. Por incrível que pareça, porque a esperança já foi, eu não sei quanto vou te ver, tudo em mim é melancolia.
Todo esse mês, eu entendi que as memórias dos anos 80 se mesclaram aos meus sofrimentos de hoje, aos meus desvãos de sentimento. Os mapas do meu coração não me deixam perder o rumo, só me construíram e me fazem ser quem eu sou, com todas as minhas inverossimilhanças. A vida são os sonhos do meio da noite, as incertezas e as lembranças, as tristezas e as nossas glórias momentâneas.

I can't help myself

Em primeiro lugar, o Celo já está bem, em casa, e ontem até jantar japonês encarou. Fiquei super feliz de estar com ele nesse momento, com a coisinha, ops, Vanessinha, e o Lelê. A gente estava alegre, e entre sushis e refrigerantes light, comemoramos a volta do ursinho.
Porque, vamos combinar, essa semana foi uma das mais difíceis que já tive. Juro mesmo. O Celo ficou hospitalizado, da UTI saiu na quarta, e enquanto isso na sala de justiça a panda teve que encarar uma barra pesada. Se não fosse Dani Nenem, Vanessinha, Lelê, Ema, minha mãe, etcs, enfim, se não fosse a guarda montada canadense, acho que a panda teria ido parar, ela própria, no hospital.
Ontem e hoje de manhã, pensei nas trocentas coisas chatas que preciso fazer, num alívio que vocês não imaginam. Eu não queria me queixar, queria escrever pra vocês que está tudo bem, que eu vivo um dia de cada vez, que entre mortos e feridos salvaram-se todos. Até ganhei uma multa porque estacionei em lugar proibido, em plena Unicamp, e alguém bateu ou eu bati, sei lá, tá lá a lataria do Gerião amassadérrima, coisa de filme, sabe? E que eu fiz tudo o que podia, supermercado, palestra, cabelereira, ver ursinho no hostipal ( ops) e lançar livro.
Pois é, a panda começa a atacar no mercado editorial brasileiro. Escrevi textos sobre três Portinari que temos no acervo do Museu de Arte Contemporânea de Campinas José Pancetti, vulgo MACC Campinas. E esses textos foram publicados num livrinho, lançado entre amigos e colegas na sexta. Eu ainda consegui desencavar uma blusinha na Renner, que não sei como vou pagar, pra aparecer no vídeo do lançamento ( além de escritora, a panda ataca agora de VJ da MTV, uma coisa pop, entende?).
E ontem, com o Celo de volta, todo fofo e serelepe, eu pude relaxar e ouvindo "Band of Gold", do Sylvester ( trilha sonora da novela Guerra dos Sexos), me lembrei da minha vizinha fofa de Chicago. A carinha querida dela ia e voltava, e um bolinho recheado que era um crime e que eu comprava na Walgreen's, assim como uma melodia, lá do fundo da memória. Tentei cantar pro Celo, mas eu não lembrava de nada, nada, e ele rindo. Só lembrava do início da música, cuja melodia parece com a da "Band of Gold", o final do refrão, "and nobody else", daí fica difícil. Mas depois eu consegui juntar as peças, Freud explica. A minha vizinha fofonilda de Chicago me chamava de sweetheart, honey e de honey bunch. Honey bunch era o bolinho recheado, tipo uma Ana Maria mais perversa, e o refrão dessa linda sixtie song começa com "sugar pie, honey bunch"! Graças ao Carioca, da super comunidade Antena 1 RJ, taí pra vocês. 'Morning, honey bunch!

Wednesday, March 21, 2007

Celo

E o Celo, ursinho-arqueólogo-escrevedor de blog, tio do Felipe e do Murilo, companheiro da panda na estrada da vida, como amigo, colega, namorado, comentador de blog e faz-tudo geral, ficou muito, muito, muito dodói.
Foi um susto tremendo, um dos maiores da minha vida. Toda dor e angústia da semana passada, eram uma premonição, um alarme, um sinal. Agora o Marcelo vai bem, o quadro dele é estável, ele estava bem, falante ontem até, com a mesma carinha lampeira de sempre, e eu fui me cuidando da melhor maneira que pude. Eu queria pedir a vocês, queridos leitores do Meio, toda força, energia positiva, pro pronto reestabelecimento do ursinho, que ele fique bem, que cumpra seu potencial, que continue sendo aquele coração imenso, e que tenha o mesmo sorriso doce, a carinha lampeira, que volte pra casa são e salvo pra se cuidar, cuidar muito, pra encontrar a gente e continuar do nosso lado.

Saturday, March 17, 2007

Sopa de feijão com macarrão

Hoje fiz uma sopa de feijão com macarrão, no improviso. Choveu pacas em São Paulo, fomos encontrar o prof. Jorge Coli na Pinacoteca, o Jorge tava nervoso porque a exposição do Almeida Júnior, como escrevi posts atrás, está muito ruim: expografia confusa, abordagem antiquada, enfim. Era o dia de graça na Pina, milhões de pessoas, chuva, meu sapato me machucou o pé, tudo ruim, e as dores de ontem ainda no peito.

Quando estou muito angustiada, não como. Dormi no ônibus, e acordei com tesão e uma fome daquelas. Ou seja... a angústia volta outro dia. Chuva, chuva, frio, essa semana peguei chuva na quarta e passei frio, e a obturação do outro lado já dói, mais CECOM na cabeça. Vi meu casaco de lã cinza no armário, me deu vontade de levar e usar. Acabou meu dinheiro, mas hoje falei com uma amiga querida, e a sopa de feijão com macarrão deu conta do recado, refoguei bacon, cebola, alho, fiz torradinhas com azeite e orégano. Tô com um saquinho de feijão branco aí, esfriando mais, cassoulet na cabeça da galera.

Dor

Ontem, fui dar aula no IA, com Paulo e André. O André falava sobre a arquitetura de Florença, Brunelleschi e a picaretagem mais linda do mundo ( a cúpula inacreditável da Catedral) e Alberti e a robustez romana. Olhando os slides de Santa Maria del Fiore, lembrei do dia que cheguei na Toscana, com o Giovanni, vinda de Milão. Paramos em Firenze Rifredi, uma estação antes de Santa Maria Novella. E o Giovanni me falou, mas tá lá algo óbvio pra você. No meio dos morrinhos azuis tipo Minas de Guignard, a cúpula. E lembrei do dia em que tomei coragem e parti de Pisa rumo a Florença, pra descer em Santa Maria Novella, a estação fascista e feia encostada na velha igreja dominicana. Fazia frio, e tudo era muito elegante pra mim: as vitrines das lojas de grife, as pessoas, os preços nas tabelas dos restaurantes. Perdida no meio da cidade, virei uma esquina qualquer e tive um dos piores ataques de asma da minha vida, quando me deparei com a Catedral. Ouvindo o André, lembrei que não existe nenhum recuo da Catedral pra cidade, ela é grande, possante, 120 metros de altura no meio de uma cidadezinha Legoland. E como chorei, desnorteada, quando vi as portas de bronze do Batistério, que eram chamadas, por Michelângelo, as portas do paraíso.
E lembrei do que sentia e das minhas esperanças nos dourados, frios, solitários e magníficos dias toscanos. E uma dor me transpassou inteira, o corpo inteiro, a alma inteira, até os ossos. Uma dor nunca sentida antes, um acúmulo de angústia, de desesperança e tristeza. Se tudo o que eu esperava, ansiava, desejava nos meus dias na Toscana, for em vão, só me restará a dor, essa mesma dor que ficou insuportável, no meio da chuva de ontem? Saí da sala. Essa semana, tive o azar de sempre sair e dar de cara com figuras nefastas ( por exemplo, a nega que batia na mãe, minha vizinha fofa, pra roubar dinheiro, lembram dela?), e assim foi. Eu sentia uma dor funda na clavícula esquerda, e sem perceber pus a mão em cima, pressionando e andando meio de lado. Uma figura que nem é tão nefasta assim, apenas equivocada, me disse, mas que horror, que que você tem? E eu, dor.
Consegui chorar depois, consegui lembrar que sentei na Basílica de Assis e pedi a São Francisco, cuja prece, comprada numa lojinha de lá, adorna minha vista nesse instante, paz, saúde, amor, consegui me lembrar que tem gente que me ama, me lembrei que perto do túmulo do santo, muitas mães colocam almofadinhas bordadas com o nome dos bebês pedidos ou salvos pelo Poverello, e numa delas eu li, Davi. E lembro que tinha um monge alemão falando coisas que pareciam ser interessantíssimas, mas eu não entendo alemão, daí entrei numa das capelas laterais da Basílica Inferior, as dos santos padroeiros ou ligados de alguma forma à fé franciscana, e caí bem na de Maria Madalena. E me lembrei que tudo o que eu mais quero na vida é algo simples. E que eu nunca vou esquecer do dia em que quase duvidei do que me é mais caro nesse mundo.

Friday, March 16, 2007

Muro

E eu precisava dar dois, três telefonemas, marcar uns encontros, essa semana. Ontem, fiquei em casa, e aconteceu uma coisa maravilhosa, duas boas e uma ruim. A maravilhosa é que eu fui ao médico e está tudo bem comigo, tudo lindo, tudo azul. Dr. Antônio me examinou e falou que eu está tudo na mais perfeita ordem comigo. Saí do consultório, passei na Francisco Glicério, na frente da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, nome de batismo da minha avó materna, e derramei uma lágrima por isso. Lindo, fui ao supermercado plena da mais delicada e linda vontade de viver.
As duas boas é que dois textos que eu escrevi/traduzi foram lançados, e as pessoas queridas que me arrumaram esses trampinhos lindos me contactaram, via emails que foram vistos porque limpei o Hotmail das porcarias acumuladas por três meses, pra me dizer pra buscar os livros. Aliás, na semana que vem, sexta-feira, dia 23, às 19 hs, estarei num debate sobre o Catálogo do Museu de Arte Contemporânea de Campinas, o velho e agora reestruturado MACC. No Catálogo, escrevi sobre os Portinari do acervo.
A ruim, é que bati num muro, numa impossibilidade. Era uma coisa tão simples, e eu não consegui. Era uma coisa tão boa, e virou uma tristeza, uma aflição medonha, daquelas tão fundas que no sono, some, mas no primeiro momento do despertar, vem com toda força estrangular o peito da gente. A pimenteira daqui de casa secou, e amigos legais me falaram, que beleza. Então, senti/pressenti e digo aos sete mares: invejosos de plantão, gente mesquinha e pequena, essa semana eu consegui me sentir como vocês, ou seja, no chão. Eu que estava alada e frágil, porém alada. A culpa não é de vocês, não se sintam tão poderosos assim: o mal é algo que se nutre de si mesmo. Mas não tem importância, prossigo no velho esquema vão-se os anéis, ficam-se os dedos, e modéstia às favas, possuo lindos dedos de pianista.

Wednesday, March 14, 2007

E lá se vai mais um dia...

Hoje o meu dia não foi muito bom. Aliás, tudo deu meio errado, sabe como?

Em primeiro lugar, eu tô em plena atividade na barraca de correio elegante da panda. Hoje, três amigos muito queridos, amados e tal, estavam com seus problemas sentimentais a toda. O problema é que eu não dei conta, pifei. Primeiro, porque ando muito, muito pensando nessas coisas, e segundo porque tese, fim de bolsa, relatório FAPESP, dente quebrado, privada quebrada... pifei, pifei. Só não pifei total porque Deus enviou Jujuba, Luís Fernando, Beto, Senhor e Lori. Moral da história: não vai dar mais pra levar barraca de correio elegante, tese, e tudo o mais, conjuntamente. Encerrei as atividades de consultora sentimental, não tô podendo nem pra mim. Estou numa ansiedade monstro, como em poucos momentos da minha vida, sofrendo ainda com as coisas do ano passado, meio depressiva, triste, melancólica e com dois capítulos pra escrever.
Eu no almoço pensava tudo isso, vendo minha amiga triste. Não deu. Me senti péssima, Jujuba me salvou e me acompanhou no que eu realmente precisava fazer, o que eu tinha que fazer, por mim, infelizmente às vezes eu preciso fazer coisas, pra mim. Não acho que o mundo deve girar ao meu redor, não acho que quem eu amo precisa me pôr em primeiro lugar, EU preciso me pôr em primeiro lugar. Ando insegura pela hora da morte. Mas não posso querer dos outros a solução. Sei lá, eu tô vivendo num countdown fudido, e aí tudo vira bosta, como diria Rita Lee. Tudo vira. Até o que seria o melhor da vida. Até o que seria o meu melhor. Até o momento mais importante, mais decisivo, pra mim, pra mim. E eu deixo passar muitas oportunidades, muitas chances de ser feliz. E lá se vai mais um dia. E eu que vou ter que correr atrás do prejuízo. Enfim. E quando eu fico assim, eu me escondo no meu bambuzal. Não, dessa vez, não, eu vou correr atrás do que eu realmente quero. Mesmo que pra isso meus amigos queridos fiquem, por uns tempos, em segundo plano.

Monday, March 12, 2007

Amar é

Dia desses, a Dani e a Vanessinha acharam e me deram um pacotinho de figurinha Amar É. Eu tinha um joguinho de lençol com os bonequinhos, imagina só.

Ouvindo "Amor I Love You", fase brega-night ( lembrem-se do Reggae Night do Cliff) da Marisa Monte, e pensando no amorrrrr. Sim, porque observo que cada dia mais a barraca de beijo da panda tá cheia de gente com problema sentimental. Daí resolver postar minhas opiniões sobre o amor. Sim, o amor. Amar é...
1)brega. Sim, não adianta, flor da samambaia. Se você ama, entrou no time. Não adianta disfarçar, você pode ser o aristocrata em pessoa, que só ouve Bach e dorme em lençol de linho egípcio, ao invés de lençol Amar É. Mas vai escorregar no bom gosto, não tem jeito: amar é flor de plástico e toalha quadriculada com bolo de fubá bem amarelinho em cima. Brega básico.
2)sofrido. Sim, também não adianta, caro leitor. Desde que o mundo é mundo, amar é sofrer. Mesmo que você seja casado/a com a figura amada, que a figura amada esteja com você 24 horas, mesmo que a figura amada até te aborreça um pouco com seus ardores: amor dói no coração.
3)roubada. Sim, todo amor, na verdade, é uma puta roubada. Eu percebo uma tendência contemporânea, todos dizem pra mim que "ai, meu amor é roubada, preciso sair dessa". Olha, nessa longa estrada da vida, nunca vi um amor que não tivesse um pé na jaca, obrigatoriamente. Sim, nenhum amor tem solução. Amor não é equação de segundo grau pra ter solução, não é cinema pra ter saída de emergência, não é um passeio no parque, é um passeio num trem fantasma. Cansa, enfastia, enlouquece, pira, cria distúrbio. E é uma puta, puta roubada.
4)igual pra todo mundo. Nem vem que não tem, não adianta você alugar a panda ou qualquer outra alma por aí dizendo que amor igual ao seu, não tem outro no mundo. Todo mundo sofre quando ama, todo mundo se lasca. Se é de verdade, se é pra valer, mesmo quem deu o pé na bunda tá sofrendo. Mesmo quando foi algo leve, queimadura de primeiro grau. Mesmo que a pessoa não te responda email, não atenda seus telefonemas, não fale com você; se um dia você olhou nos olhos do outro como a gente olha o céu estrelado, meu amigo, minha amiga... você incomoda sim. Então faz favor de ouvir "Tunnel of Love", do Dire Straits.
5)parafraseando a Cris de novo, não é Coca-cola mas é isso aê.

Alvo lírio e rubra rosa

Outro dia, encontrei uma colega no café do IEL. Papo vai, papo vem, ela me diz que pesquisa a obra de um importante escultor brasileiro, 0 Rodolfo Bernardelli. Eu tenho um lado meio obsessivo: segundo minha mãe, padeço do mesmo mal do Roberto Carlos, ou seja, tenho TOC. Bom, pelo menos o Roberto canta bem pra cacete e compôs "Cama e Mesa", com TOC e tudo. Eu nem isso. Mas voltando.Lembrei que numa das minhas fases obsessivas, eu ia pro Centro de Documentação Alexandre Eulálio, aqui no IEL, e ficava lendo as revistas do final do século XIX e início do XX, caçando os artigos de crítica de artes plásticas. Porque eu fazia isso? Porque era pesquisadora voluntária num projeto de digitalização desses trens, que eu batizei carinhosamente de Projeto Pererê: o projeto era pobre, afro-descendente, com uma perna só e mesmo assim todo mundo queria engarrafá-lo. Uma professora tentou roubar a garrafa onde a gente guardava o nosso Saci, e fim. Botei minha obsessão no blog, em baixar música na internet e outras atividades.
Bom, eu lembrei de tudo isso porque nessa fase CEDAE, eu li um artigo ilustrado, de mais de dez páginas, sobre o Túmulo-Monumento do Carlos Gomes, na nossa combalida Campinas. O Túmulo-Monumento, situado na Praça Bento Quirino, na frente da Igreja do Carmo, é obra do Bernardelli. A Maria, minha colega, ficou louca. Hoje acordei cedíssimo, dentista no CECOM, delegacia de Barão, caronas, e resolvo desencavar o tal do artigo, pra fornecer a citação pra ela. Fui no Centro de Memória e a Ema me passou a data do tal monumento: corri no CEDAE e achei artigo, na revista Renascença, e boas. A revista é bem legal, ilustrada com fotos do Brasil inteiro, cheia de coisas interessantes que dariam ótimos artigos e viagens pra congressos. Esse eu dei de presente, outros me esperam. Mas eu achei outra coisa, e vou pôr aqui, uns poemas do Anacreonte, traduzidos por alguém chamado dr. Lireu de Almeida. Coloco em português castiço pra dar mais charme à coisa:
"Lyrica Ero-Archaica
Monostrophes de Anacreonte vertidas pelo Dr. Lireu de Almeida
A uma moça
Não m'enxotes, escarninha,
Pelo branco do cabêllo,
Porque a pelle já m'enruga,
Do inverno o frio gêlo,-/
Ao passo que tu,-ó bella!-
Na seiva da puberdade
Tens o negror nas madeixas
As lavas da tenra idade.../
Nos festões que a deusa Cypria,
Em lédas justas de Amôr,
Distribui, por entre risos,
Á gloria do vencedôr,/
Bem sabes, travêssa, esquiva,
M'escapando desdenhosa
Que, enlaçados, arfam juntos,
Alvo lyrio e rubra rosa."
A revista, Renascença, dirigida pelo Henrique Bernardelli, irmão do Rodolfo ( tá explicado a publicidade em cima do túmulo do maestro campineiro), setembro de 1909, tá aqui na coleção de periódicos do CEDAE. Esse alvo lírio e rubra rosa, mas não dá um samba do bom?

Saturday, March 10, 2007

Recuerdos de Ipacaraí

O post abaixo suscitou risadas saudosistas no Clis. Resolvi então prosseguir na memorialística da década perdida.
Nos longínquos anos 80, o herói dos filmes favoritos podia ser um ferrado, como você era, sem tirar nem pôr. Vide a Molly, a garota de rosa-schocking ( sim, o título em português ficou assim). A nega não tinha onde cair morta, e da primeira vez que sai com o bonitão pretendido, pede de forma brava que ele a deixe seis quarteirões da casa onde mora, pra que ele não veja o moquifo. Ou vide mesmo o Ferriss, que vai se formar e não sabe o que vai ser do Cameron, nem da namorada que ainda vai aguentar um ano naquele colégio do diretor psicopata.
Também acontecia do herói ter manias como as suas, como dançar na frente do espelho, se esconder no banheiro porque a roupa era muito ferrada, ter chulé e cabelo mal assentado. Hoje em dia, tudo é perfeito, todo mundo usa roupa de grife, os cabelos são de propaganda de xampu e ninguém tem problema: se você faz academia, é malhado, tem dinheiro pra comprar roupa de grife, toma anti-depressivo e segue as receitas de 128.3905 posições sexuais da revista Nova, você não tem problema. Então, pra que ouvir Echo and the Bunnymen e The Smiths? Na década de 80, a gente ouvia Echo and the Bunnymen e The Smiths quando tava na fossa, além de Bonnie Tyler, Rosana e Vinícius Cantuária ( falaê, agora desenterrei!).
Você sabia exatamente que era ferrado e looser, ouvia rádio o dia inteiro, adorava um moletom ( meu Deus, durante anos e anos da minha vida eu só usava moletom) e camisetona que ia até os pés, com calça fuseau e tênis. A camiseta até os pés era o básico, mas o mais legal era quando ela te enforcava no pescoço, ou deixava seus ombros de fora, num decote canoa gigante. Você adorava Paralamas, Titãs ou Legião, mas ouvia também Ursinho Blau Blau e música da Xuxa. Lá pelos treze anos você descobria que o mundo era complexo, porque beijar na boca não significava namorar, e sim ficar, e o que era ficar era algo amplo, que ia desde os finalmentes até bitoca em bailinho, e você nunca sabia quando era a hora de ir pros finalmentes nem quando era pra só dar bitoca e sair correndo, e geralmente você tentava fazer as duas coisas nas ocasiões erradas.
Você achava ótimo ir em bailinho, porque sempre ficava com a vassoura e chorava escondido depois, numa demonstração que sim, você era masoquista, porque só masoca pra curtir uma tortura dessas, dançar com vassoura de piaçava ao som de Take My Breath Away. E nos anos 80, sim, ser peituda era motivo de crises, usar moletom ( falei, falei) embaixo de 45 graus, andar encurvada e a mãe levar no ortopedista, que olhava e falava, olha, o busto da sua filha é meio grande ( naquela época, as mulheres não tinham peito, tinham era bunda) e o seu sonho dourado era fazer uma plástica, pra, olha só, DIMINUIR a comissão de frente, não aumentar, porque ninguém nesse mundo aguentava os coleguinhas chamando de Fafá de Belém.
Se você era menino, o seu sonho era ter o cabelo reco ( raspado dos lados e cheio em cima) e seu pai queria te matar, porque nos anos 60 o véio teve que ter cabelo reco porque ele era reco, servir o Exército pro seu pai tinha sido o fim da picada. Você esperava seus pais dormirem pra assistir duas coisas: o Acredite se Quiser, que passava tarde da noite na Manchete, depois da Maitê Proença pelada em Dona Beija ( essa aí seu pai assistia escondido), e o Perdidos na Noite, na Band, e sim, o Faustão era um cara super legal, e a abertura do programa era ao som de Tarzan Boy, do Baltimora. E seu sonho máximo era entrar pra equipe do TV Pirata ou chutar uma bolinha ao lado do velho Casa e do doutor Sócrates, ou conseguir afastar seu pai da frente da tv na hora que passava a Dona Beija!

Wednesday, March 07, 2007

Ritchie e outras cositas más

Esse Orkut salva a gente. Tem uma comunidade, uma das minhas favoritas, a “Músicas Baranga dos anos 80”. Porque sim, vamos combinar, não tem nada mais baranga que ouvir bem baixinho, pros pais não acordarem, “Total Eclipse of the Heart”, da Bonnie Tyler, molhando de lágrimas sua camiseta verde-limão da Pakalolo e sua calça semi-baggy ( a famosa Saint-Tropeito) porque o Renatinho não te falou oi na escola.

O revival dos anos 80 já fez muita grana rolar na economia recessiva dos anos 2000, e até reportagem da Veja virou, ou seja, datou, mumificou há séculos. Tudo que vira reportagem na Veja, foi moda no verão retrasado, é incrível a falta de antena dos caras.

Pra mim, no entanto, foi a volta dos que não foram, porque eu nunca deixei de ouvir as pérolas do período em que eu enfiava gel com purpurina na cabeça e achava o máximo. O meu grande ídolo é o Ritchie.

O Vasari, biógrafo dos artistas do Renascimento, escreve que a grandeza do Rafael, entre outras coisas, consistia no fato de que ele fazia tudo como se esforço nenhum demandasse. Guardadas as devidas proporções ( pelamordeudeus, não me crucifiquem) eu falo o mesmo do autor de “Menina Veneno”: parece que o cara fez a música que grudou na sua cabeça a vida toda em cinco minutos.

Primeiro, são ótimos os tecladinhos, sintetizadores e solos de sax. Depois, tem o eu-lírico do cara, um sujeito melancólico no bom sentido do termo, digamos, no sentido inglês do termo. Eu adoro com todas as minhas forças “Pelo Interfone”. O cara aperta o botão no prédio da moçoila, uma luz acende na janela, e a voz no interfone lasca “ela não está/ não sei se vai chegar/volte amanhã, mas antes telefone”. E o cara, desiludido, não sabe se vai ou se fica, e disca. Toca, toca, toca, finalmente a nega atende. Minha filha, preciso falar com você pessoalmente. Que telefone, celular, msn, que Orkut, que email que nada, o negócio é ali, no duro, ao vivo, olho no olho, dente por dente, é uma noite a menos pra gente, e a noite é para a gente. Nos anos 80, a gente era brega e falava com as pessoas pessoalmente.

Na comunidade, outro dia, pelas mãos de alguém que precisa ser canonizado, ressurgiu “Sopra o Vento”, música-tema da personagem Jô, da Christiane Torloni, na antológica novela “A Gata Comeu”. A Jô tinha um cabelo que todo mundo queria, um chanel crespíssimo assimétrico, vivia de ombra de fora, cintão de couro branco e minissaia, e tinha uma família comédia, que vivia cobrando o fato da cidadã ser rabugenta, chata e encalhada, enquanto a irmã, a Bia Seidl, era meiga, doce e cheia de pretendentes ricos. Uma turma de amigos, cheia de crianças, fica presa numa ilha, e a tal da Jô conhece um professor atrapalhadíssimo, duro e cheio de problema, o Nuno Leal Maia. Foi-se o tempo que a mocinha tinha o cabelo crespo, era rabugenta e encalhada, a fim de um professor de escola pública, e com uma música do Ritchie de presente, que o britânico eu-lírico lembra que a primeira vez que viu a moça, que vive de “alô e olá”, passando como o vento, foi na praia ( e não no msn).

Tudo isso pra dizer que são onze da matina, eu perdi esse post três vezes, e em pleno IEL a tese vai aos trancos e barrancos.

Tuesday, March 06, 2007

Mallarmé

No dia triste e chato de ontem, peguei por acaso, na biblioteca do IEL, as Poesias de Stéphane Mallarmé, edição e tradução de José Lino Grünewald, Nova Fronteira. Li um poema que achei belíssimo, mas não sei porque, me deu vontade de fazer uma tradução livre, diferente da do Grünewald. Isso é de uma petulância extrema, porque não sei falar nécaras de francês, e Mallarmé foi Mallarmé, Grünewald Grünewald e tal. Então, vocês me perdoem, mas o que me consola é que essa petulância minha não sairá do Meio, prometo.
"Me introduzir na sua história
É como herói espantado
Se o calcanhar havia tocado
Qualquer grama do território/
Às geleiras atento
Desconheço o pecado ingênuo
Que tu não proibirias
De rir bem alto sua vitória/
Diga se eu não sou feliz
Eixos no meio e rubis
De ver no ar que o fogo traz/
Com os reinados nas relvas
Como morrer púrpura a roda
No vir das minhas carruagens"
O traço é pra separar os versos, esse Blogger não colabora quando o assunto é poesia.

Monday, March 05, 2007

Dito e feito- A hard day's night

Taí, o post debaixo não me deixa mentir. Tive uma puta crise de angústia, hoje, no meio do campus encalorado ( que calor dos infernosssssssss).


Foi assim, eu acordei meio tipo assim mal. Precisava ir buscar meus documentos, na casa da família legal que os guardou pra mim, passar na delegacia, antes marcar médico e dentista ( aqueles problemas passados da panda), escrever alguma coisa da tese e do relatório FAPESP (sim, olha aí o relatório FAPESP aí, genteeeeee, povo da Sapucaí). Fiquei duas horas pendurada no telefone pra marcar os compromissos saúde pública( tratamento de canal, limpeza de gengiva, retorno de tratamento do médico do pesadelo). Depois rumei pra Barão ouvindo "It's a Hard Life", do Queen. Bota hard nisso, pensando no vaso sanitário e no chuveiro quebrados, no protetor de carter do carro e na porta quebrados, no dente quebrado, final de bolsa e tese emperrada.
Cheguei no IFCH, Celo em aula, começando o doutorado. Achei Alessandro, que faz dupla dinâmica com Luís Fernando, que faz dupla sertaneja comigo. E na escadaria, vejo a fulana que mais me fez sofrer na vida. Foi horrível. Almoço na cantina da Bete com amiga, omelete e abóbora. E o povo que mais me fez sofrer na vida do outro lado, rindo, um dia na vida de seriado norte-americano da burguesia campineira feliz. Com a graça de Deus, Luís Fernando de camisa nova me oferece uma grana e almoço.
Acho Celo. O carro não tem um pingo de gasolina e eu não tenho um mínimo de saco. Vou pro IEL estudar. Por sorte, acho uma colega querida que não via há tempos. Sento no computador da salinha cheia de ielinos desesperados pra ver o Orkut. E o Landino não colabora.
Vou tomar um café com a colega. Lá está o cordão da bola preta. Nota de rodapé: a colega sempre foi ridicularizada e teve a orelha queimando durante anos por conta dessa gente. Volto pra biblioteca com outra colega fofa, essa do Latim, que me socorre no Virgílio vezinquando. Landino e Botticelli resolveram ir passear. Luto contra minha ignorância e graças a um velho caderno e linhas escritas há dois anos atrás, em São Sebastião do Rio de Janeiro, escrevo duas míseras páginas. Nunca me senti tão mal intelectualmente falando, em toda minha vida.
Tento ligar pra amigos em São Paulo, do orelhão, no cartão que achei escondido no chão do carro. Nada. Sento na calçada entre o IEL e o IFCH, e choro. Ouvindo "It's a Hard Life", do Queen, em plena crise de paranóia: ninguém me atende porque as pessoas sabem que sou eu no outro lado da linha e ninguém quer falar comigo. Deus se compadece, e manda o Celo, nessa justa hora.
Celo me consola como ninguém, super fofonildo. Vamos pra casa dele. Minha sogra leu meus pensamentos e fez sopa de músculo e legumes. Leio a Bíblia pra achar o Livro de Ester e o fio do meu último capítulo, depois de colocar uma grana emprestada de gasolina no carro. Sim, porque no meio disso tudo tentei tirar dinheiro no Nossa Caixa Nosso Problema, mas dia de pagamento é isso aê. Amanhã terei que amanhecer no lado de fora da minha agência, que vem a ser a da Reitoria da Unicamp, por infortúnio dos deuses.
No msn, Elisinha fofa fica com pena de mim, e uma ex-aluna da PUCC diz que tem saudades. E leio na Bíblia que Moisés passou 40 anos no deserto com uma gente que não colaborava em nada. Penso no Dante, no Landino e no Botticelli, e acho que eles gostariam da sopa da minha sogra.

Segunda-feira

Sou um pouco como o Garfield. Adoro lasanha e não sou fã das segundas-feiras.



Ontem fui dormir chateada. Com pessoas e situações. Quando eu fico muito chateada com alguém ou alguma coisa, eu desconto em outra, uma coisa mega ultra super racional, sabe como? Tipo, daí eu fico com vontade de ferrar uma outra relação, outra situação, esquema Apocalipse. No fundo é assim, o negócio já tá preto, que fique mais preto. Aí eu ligo em alguém de quem eu gosto pra brigar, ou crio uma arapuca pra mim mesma.
Dói ficar magoada. Ano passado, sofri demais por gente que eu considerava tudo no meu mundinho. Que saco, ontem eu lembrei dessas coisas, e cheguei em casa na beira do precipício. E eu não gosto de falar mal dos outros, fico me sentindo super culpada. Falar mal eu falo como todo mundo, mas eu não sou muito maledicente por natureza, sei lá, acho que sou cristã demais. Vai ver é isso.

Sunday, March 04, 2007

Citação, pra pequena Yna, e pra mim

"Apelli fuit alioqui perpetua consuetudo numquam tam occupatum diem agendi, ut non lineam ducendo exerceret artem, quod ab eo in proverbium venit".

Nulla dies sine linea.

Acima de tudo, era um costume regular de Apeles nunca deixar um dia ser tão ocupado a ponto de não praticar sua arte desenhando uma linha que fosse, o que se transformou para ele um provérbio: Nenhum dia sem uma linha.


Plínio, o Velho. Historia Naturalis. Livro XXXV, 84-85

Graças ao Celo, o ursinho arqueólogo, achei essa citação. A tradução, livre, é minha, em cima do inglês britânico do H. Rackham, da edição da Loeb. Apeles foi o principal pintor grego, e messer Sandro Botticelli foi considerado, por seus contemporâneos, o Apeles moderno. No Proêmio de seu Commento Sopra La Comedia, Cristoforo Landino cita Plínio sobre a arte grega, e dos gregos passa diretamente para Cimabue, Giotto e os artistas florentinos já falecidos em 1481, ano em que escreve. É interessante pensar que um artista próximo ao comentador estava a caminho de uma consagração tão absoluta, ser chamado pelo nome de quem, segundo Plínio, "Verum omnes prius genitos futurosque postea superavit Apelles Cos olympiade centesima duodecima", ou "Mas foi Apeles de Cos que superou todos os pintores que o precederam e que existiriam depois dele; e ele nasceu na 112o Olimpíada", aproximadamente de 352 a 329 a.C.

Felicidade

E tem uma hora, na vida, que a gente descobre que felicidade não é um estado geral, permanente, conquistado após guerras e guerras, e daonde se vê o resto da humanidade lá de cima, como num Forte Apache de brinquedo. Felicidade são momentos.
Hoje eu fiquei feliz porque acordei às nove da manhã e na minha janela me esperava um dia lindo, lindo, azul. Ontem eu fiquei feliz porque fui na feirinha hippie, do Centro de Convivência aqui em Campinas, e comi um espetinho de frango do japonês ( não sei qual é o tempero do cara, mas é muito bom), e depois esfarelei torta de palmito pros pombos. Saí da minha cadeira, veio um pai e sua filhinha e ela ficou feliz dos pombos estarem do lado.
Outro dia, eu fiquei feliz porque encontrei a Nenem e a gente tomou chuva indo pra DAC. E eu sempre fico feliz filando café no Luís Fernando.
Muitas vezes eu sou feliz escrevendo o Meio do Caminho, às vezes sou feliz escrevendo a minha tese, como no dia que eu descobri que o Cristóvão Colombo tinha os livros do Landino, o humanista que eu estudo, e isso é uma ótima desculpa pra ir pra Espanha ver livrinho do século XV.
E eu fico feliz quando escuto o Roberto cantando "Amor Perfeito", porque cada minuto é muito tempo sem você, e porque tristeza de amor vira parte da gente, com o tempo, vira o que talvez nos faça inteiros, mesmo quebrados.

Friday, March 02, 2007

A família Dó-Ré-Mi

Com essa comunidade Marchinhas de Carnaval, baixei músicas que eram verdadeiros sucessos no hit parade lá de casa.


Meus pais adoravam música, a gente ouvia música o dia inteiro. Todo tipo de música. Já falei aqui do Gradiente prateadão, que foi nossa alegria nos idos de 1982 ( pois é, a panda sofre de problema de dna, data de nascimento antiga)... e das fitas Basf laranjas, que eram ocupadas pelos pedidos de todos, dos meus pais, do meu irmão e meus, da Teresa, que durante algum tempo ajudou minha mãe nas lides da casa, dos nossos amigos, que partilhavam nossas famosas mesas de lanche ( lá em casa não tinha janta. Mas tinham os lanches, que começavam às três da tarde e terminavam de madrugada, se deixasse).
Mas umas músicas, digamos, mais antigas, eram esgoeladas nos nossos ouvidos, com letras trocadas, inventadas e/ou substituídas por infernais sucessões de pá pá pá, lá lá lá e tchubi tchubi du, pelo internacionalmente famoso seu Pedro, que vinha a ser, dentre outras coisas ( engenheiro, professor, torcedor enrustido do Parmeira e cantor) meu digníssimo pai.
O show de calouros começava cedo. Seu Pedro esgoelava nos meus ouvidos, enquanto minha mãe lascava a escova na minha cabeça sonolenta e preocupada com mais um dia de escola, a clássica Nega do Cabelo Duro, que ele entrecortava com trechos recitados de Nega Fulô, do Jorge de Lima. Não satisfeito, ele saía de casa gritando o lerê lerê dos Retirantes, do Dorival Caymmi.
Depois, no retorno, todos os dias, eu disse, TODOS OS DIAS, enquanto viveu, ele lascava Saudosa Maloca da porta de casa. Não, era um espetáculo, no coração do Cambuci, a poucas quadras de onde vivia Alfredo Volpi e Dani Mônica, da baixada do Glicério e da igreja neogótica agulhão, o cara trotava o samba do Adoniran na maior. Depois, no sopé da Serra do Japi, e no chapadão de Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, era a Saudosa Maloca, às sete da noite, de um lado, e o Guarani do Gomes no outro, anunciando a malfadada Voz do Brasil, e uma hora de rádio desligado, o que pra mim era uma tortura. Outra era ver o seu Pedro exigindo o café e o queijo minas dele, e chamando minha mãe de Flozudinha ( cara, daonde o cara tirava, eu não sei). De lascar.
Minha mãe tinha outro repertório. Ela é difícil de ficar alegre, sabe esse tipo? A própria rabugenta. Mas de vez em quando baixava o santo, e ela desfiava a Chiquita Bacana pra mim. Que lindo, pra um eu era a Nega do Cabelo Duro, pra outra, a Chiquita Bacana. A panda sofria. Mas às vezes, meu pai presenteava todos com sua fantástica interpretação do Leãozinho, do Caetano, ou de Eu Também Quero Beijar, do Pepeu ( vocês podem imaginar o que era!). E de Milton Nascimento, eu berrava os Peixinhos, do Sentinela, ou Não se Reprima, dos Menudos. Não é à toa que meu irmão se revoltou e anos depois era só Iron Maiden pra todos.
E era Elis, Chico, e era a rádio de música sertaneja, depois, em Campinas, pra agradar a Luzia, e todo mundo ficou fã escondido de Leandro e Leonardo. A coisa era feia lá em casa. Disso sobrou um enigmático e compulsivo amor por música, de todo naipe. Pelo menos, eu canto a letra inteira, se bem que num estilo heavy metal, segundo o Celo. Ah, e o filme preferido lá em casa era a Noviça Rebelde!

Thursday, March 01, 2007

Eita

Acharam as minhas coisas. Uma moça da minha agência, banco Nossa Caixa Nosso Problema, ligou dizendo que haviam entrado em contato. Jogaram meus documentos num quintal da irmã do namorado da minha amiga Marina. Eita.
E dá-lhe Vasari, falar com metade da banca e castigar o teclado batucando trechos da Comédia perdida. Como a Chris diz no blog dela, não é Coca-cola mas é isso aê.

Tuesday, February 27, 2007

Um conto, escrito em 1996 ou 7

"- A China já foi um império?
- Já, há muito tempo atrás. O imperador chinês ficava num grande palácio, na Cidade Proibida, onde após o entardecer só os seus criados e ele poderiam ficar. Mas, voltando pra história, naquela época, existia um grande sábio. Grande é maneira de dizer, por que ele era muito baixinho e corcunda, mas tinha uma inteligência enorme. Vivia numa casinha na beira do rio Amarelo, com umas mariposas e varas de pescar. As pessoas pediam conselhos pra ele, e ele nunca se negava a ajudar. Falava sempre por meio de metáforas.
- Meta foras? O quê? Então ele não era sábio coisa nenhuma, se só dava foras nas pessoas. Isso eu também sei fazer.
- Não é isso, espertinho. Metáfora quer dizer que você diz a mensagem que quer por meio de uma história, de outras palavras. Por exemplo, quando se diz “fulano é um leão”.
- E porquê ele falava assim?
- Isso era o segredo mais precioso da vida dele. Por que um dia, na sua juventude, ele estava pescando e de dentro do rio surgiu a deusa do amor. Era uma dama maravilhosa, de dois metros de altura, pele muito branca, rosto perfeito, manto vermelho com estampas de dragões coloridos com pedras preciosas, sapatos de bicos prateados e olhos pretos que pareciam dois vulcões. Ela não o assustou, porque sua voz era mais doce que todas as vozes do mundo, e lhe disse: “Você ganha de mim, a partir de hoje, o dom da sabedoria. Irá falar com outras palavras, mas suas mensagens indiretas tocarão o coração de todos como os meus olhares diversos, que fazem as pessoas se apaixonarem sem motivo.” A partir daquele dia, ele começou a viver sempre perto do rio, esperando ela aparecer de novo. A sua sabedoria vinha da deusa, ele pensava, e para ela deveria retornar, no dia em que assim o quisesse.
- Hummm...
- Bem, acontece que o imperador começou a ter um problema, um problema muito sério. Suas dez mulheres não conseguiam parar de engravidar. Já existiam vinte bebês e criancinhas, e todos os ministros previam a confusão que seria quando o trono tivesse que ser passado adiante. Seria inevitável a briga entre os irmãos, pensaram, o que era uma pena, porque eram crianças muito bonitas e inteligentes, que se davam muito bem, assim como suas mães.Até que um dia um dos conselheiros lembrou que perto da sua cidade natal, na margem do rio Amarelo, vivia o grande sábio. E só ele poderia ajudar o imperador de maneira sensata.
- Esses bebês davam muito trabalho?
- Não, até que não, por que existiam muitos criados para cuidarem deles. O problema estava no futuro. O tal ministro pegou o cavalo e viajou até o sábio. Chegou lá e foi tratado com muita amabilidade pelo velhinho, explicou-lhe a situação e pediu-lhe que o acompanhasse até a Cidade Proibida, para conversar com o imperador. O velhinho ficou com muita dor ao pensar que estaria longe do rio, da deusa, mas depois conclui que estava de acordo ajudar o imperador, já que o problema era causado justamente pelo amor de Sua Majestade das dez mil estrelas por suas esposas, e por um capricho da deusa que às vezes era muito brincalhona e que de mais a mais adorava crianças.
- E o velhinho gostou da Cidade Proibida?
- Era impossível não gostar dos palácios, da comida e da companhia daquelas crianças e damas que cantavam lindas músicas para as flores. O velhinho realmente não sabia o que fazer. Todas as criancinhas eram muito bonitas, e o primogênito, Yan-Kai-Sei, tinha dois olhos pretos que encantavam a todos. O sábio pegou um tal amor pelos filhos do imperador que um dia, triste de tanto pensar, correu ao lago artificial que existia no pátio de um dos palácios, cheio de carpas, e por onde os barcos das princesas estavam ancorados. Suspirou e uma lágrima sua caiu na água. E, de repente, a linda deusa do amor apareceu. O sábio esperou e logo aquela voz maravilhosa ecoou na sua mente: “Ó grande sábio, não esquecestes de mim todos esses anos, e agora o dom que lhe ofereci está sendo posto à prova. O amor é a pluma parada no ar, é o impossível de se resolver”.

Aborrecimentos

Ontem, arrombaram meu carro e levaram uma sacolinha listrada, que comprei no Carrefour por cinco reais. Dentro estavam meu RG tirado em 1988, CPF, Carteira de habilitação tirada em 2006, cartão de pobre Nossa Caixa Nosso Problema, um caderno da Hello Kitty, uma necessáire com escova e pasta de dente, o Purgatório de Dante Alighieri e meus óculos escuros, de dez graus de miopia. Não, não perdi dinheiro. Não, o celular estava em casa carregando a bateria, e o meu i-pod estava no bolso. Não, não levaram os xerox tirados em Pisa, nem o Inferno nem os desenhos do Botticelli.
Fui à clássica delegacia de Barão Geraldo. Fechada. Os policiais na porta me informam pra fazer o B.O via internet. Eu não paguei a Net esse mês, por descuido, estou sem internet em casa. Ligo numa amiga que faz a coisa pra mim. Acabo de receber um email da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo: o B.O não foi aceito porque entenderam que havia um "obstáculo" ao furto da vítima. Que saco.

Agora, a pergunta que não quer calar: pra que arrombar um carro popular chumbado e levar uma sacola barata do Carrefour? Vamu combinar, até pra ser ladrão o cara tem que raciocinar.

Sunday, February 25, 2007

Hello, Goodbye

Outro dia tava pensando nos Beatles (????). Gente escrevendo tese é fogo. Fiquei pensando neles, no Ringo, no John, no Paul e no George, e no quanto eles fizeram,na molecagem, na pilantrice, na maluquice, e no quanto eu os amo por tudo aquilo. Eu e a torcida do Flamengo, vamos combinar, como diria o imortal samba, pra mim quem não gosta dos Beatles bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé.
Come together, baby, let it be. E eu tinha muita vontade de aprender a costurar, pra fazer bonecos. Sempre, sempre, imaginei bonecos de todas as formas e espécies, e hoje vi um que me deixou maluca, na famigerada seção Boas Compras da Vejinha ( gente, é boa compra pra quem?), um monstrinho do pântano, feito de tecido de vestido de perua, 110 reais. Mas é praticamente a mensalidade do curso de Corte e Costura do SENAC. Eu sempre quis fazer bonecos. Será que ainda dá tempo de aprender? O trágico é que minha mãe tinha máquina, costurava bem pra burro, e não me ensinou porque "era coisa de pobre".
Quando eu tinha uns 15,16 anos, eu queria fazer umas coisas que depois viraram moda e fizeram neguinho ganhar rios de dinheiro. Naquela época, ( ou seja, no tempo dos dinossauros), eu desenhava umas carinhas tipo Smile, e pensava numa loja só de coisa de Smiles, de todas as cores e formatos, expressões e tal. Eu desenhava roupas, coleções inteiras.
E eu queria aprender a tocar violão. Outro dia fui buscar o violão do meu irmão, e pensei em depois comprar as clássicas revistinhas "Aprenda a tocar Tarde em Itapuã e mate seus vizinhos de susto". Cheguei na casa da minha genitora, o meu fratello lasca, mas tá quebrado! E o instrumento, não é que estava quebrado, estava rachado pra valer. Bom, ele me passou umas instruções, fui numa loja antiga, bonita no centro aqui de Campinas. Lindos violões, negros, cor de pudim de leite condensado, assinados por Zezé di Camargo, de todo o tipo. Pensei, mas é um desperdício, eu não sei nem tocar nada, mas será que dá tempo de aprender?
Tudo isso pra falar da extrema vontade que sinto, nesse domingo quente dos infernos, em fazer outras coisas que não uma tese de doutorado. Let it be.

Friday, February 23, 2007

Work in progress

Mais um trechinho da minha introdução. Se vocês lerem o primeiro post, depois o segundo e agora esse, aí está o iniciozinho da minha tese. Hoje eu pulei pro último capítulo e pro Purgatório, Canto XVII. Minha tese tem sete capítulos. Dois estão na rés-do-chão e os outros vão que vão, o primeiro praticamente pronto. Mas lá vai:


Passei muito frio em Chicago, Pisa e em São Paulo, talvez mais do que Dante e Virgílio nos últimos círculos do Inferno, e muito calor no Rio de Janeiro e em Campinas, seguramente mais do que os dois poetas nos primeiros círculos do reino de Lúcifer, mas consultei quase todos os incunábulos e edições da Comédia, de 1471 a 1564; infelizmente, as minhas forças não me levaram a Berlim, onde repousa a maior parte dos desenhos que estudei, e fui barrada no Vaticano por um dos guardas suíços. Tudo o que não esperava aconteceu durante as pesquisas, inclusive e principalmente os bons acontecimentos, contra os quais não existem sortilégios: se não pude ir a Berlim, parei em Madri por puro acaso e no Prado consegui ver as Histórias de Nastagio degli Onesti, e, por puro acaso, encontrei dois lindos incunábulos da Comédia no Brasil. Não tinha um Gerião a postos para voar comigo pelos ares, mas Virgílios, encontrei muitos, e isso é outro consolo meu; todos os meus queridos magos-poetas-guias vieram comigo até aqui. E daqui parto para o estilo impessoal que se requer nas teses de doutorado.

Terapia no msn

Ontem tive uma das minhas crises de angústia. Tava demorando. Insônia, bloqueio na tese, problemas profissionais, medos, e ontem o caldo entornou porque tentei telefonar pra um amigo e não consegui falar com ele. Um motivo banal e eu fico transtornada, achando que tudo acabou e que eu me ferrei.
Fiz sete anos de análise. Duas vezes por semana, às vezes três ( é, pois é) eu deitava no divã e lá ia. No início do ano passado, depois dos sete anos, eu desapareci e até agora não entendi porque fiz isso. Sei que precisava voltar a me ver por dentro, com ajuda profissional; isso vale pra todo mundo, na minha opinião. Mas o fato é que eu estava cansada, meio chateada com algumas coisas da própria análise, e resolvi dar um tempo.
Mas enfim, eu tava pirada ontem. Cheguei em casa parecendo uma assombração. E aí entrei na Praça é Nossa virtual, ops, msn. A tecnologia moderna é uma maravilha: pelo msn fala-se com os quatro continentes. Tinham que fazer um sambinha em homenagem ao msn. Em tempo: essa semana até com Moçambique falei!
E aí, Luís Fernando, sediado em Areiópolis ( segundo ele, Bauru é perto de Areiópolis), e recém-feliz proprietário de um Voyage preto, que está reconstruindo pra poder, digamos, andar, me diz algo que valeu uns meses de terapia. Eu falei das minhas paranóias, o cara ficou puto e lascou a seguinte frase: "Você está angustiada. É só isso".
Eu li outro dia que amigo é aquele que fala uma coisa e tua vida muda. Taí, o cara foi meu amigo. Nada de fazer drama, quem te ama fala, isso é angústia. Vai se distrair.
Celo na outra janelinha me diz algo lindo, que o futuro não existe. Que a gente constrói. Bingo. Outra fase que só um amigo de tantos anos falaria. Beijos pros dois, né.
Tinha uma série muito bonitinha do cartunista dos Pescoçudos na Folha, o Galhardo. Era assim: Ser chamado de elefante na escola= cinco anos de terapia. Ser demitido na frente de todo mundo na firma= mais dez anos de terapia. Fazer um carinho gostoso nas costas de quem a gente tem tesão= menos três anos de terapia.


Não tô menosprezando terapia, análise e as Obras Completas de Freud, não é isso. Mas o próprio Freud concorda, impulso de vida é isso aí.

Hoje acordei com o dia lindo, fui andar no Bosque, e fiz feira. Na verdade eu acordei feliz porque ia ter feira na rua da minha casa. Segundo o Xico Sá, jornalista, escritor e profundo sábio da alma feminina, ir na feira corresponde a menos três meses de análise. Moça bonita não paga, mas também não leva: o rapaz do queijo me olhou de um jeito tão bonito, o Bosque estava tão bonito, o rapaz da alface fez pra mim o pé pela metade do preço pra eu ficar freguesa, e eu voltei, almocei super bem, até café fiz, li muita coisa do blog e fiquei feliz. A angústia, sei lá onde foi parar.



E agora, aqui no prédio do lado, alguém está ouvindo "Mania de Você", da Rita, em alto e bom som. O sol brilha lá fora, e é tão bom rolar, rolar, rolar com você...

Thursday, February 22, 2007

Mais tese

Lá vai mais um trecho da minha introdução:



Em meio a tantos turistas que chegam a Florença, numa tarde fria de novembro adentrei na estação ferroviária de Santa Maria Novella, vinda de Pisa. Com uma bronquite crônica, enfrentei o frio e parte de minha desolação e espanto para entar na Galleria degli Uffizi e sua sala 16-B. Por ser um dia muito frio, cinzento e chuvoso, tudo parecia vazio, e o olhar dos personagens na Adoração Lama (fig.1) rebatia diretamente nos retábulos espetaculares, no outro lado do salão. Muitos historiadores afirmam que, na figura de manto amarelo à nossa direita, está Alessandro Marianni di Vanni Filipepi, conhecido pelos conterrâneos e por toda a posteridade Sandro Botticelli. Estudante precária da vida e obra do mestre florentino, bem sei que isso seria uma possibilidade entre tantas, uma aposta na tradição e na continuidade de certas formas e convenções. Se naquela tarde de novembro, eu me apresentei diante dos olhos argutos da figura de amarelo, e obtive uma resposta mínima, insignificante, mas uma resposta, vi reconhecido os esforços dispersos e desatentos que fizeram surgir essa tese.

Como historiadora, aprendi a escrever sobre coisas e acontecimentos. Mas tudo se perde numa névoa, quando se escreve sobre Botticelli. São poucos os documentos que atestam sua vida, poucos os que nos levam às suas realizações. E a minha tentativa, realizada no continente descoberto por um de seus contemporâneos, era mais canhestra que qualquer historiador poderia aceitar. Muitas vezes, nos anos desse doutoramento, tive que justificar minha escolha diante de interlocutores saudavelmente céticos, e diante de parte deles apresento os parcos resultados de minhas buscas. O meu consolo é que, no último exame de parte da bibliografia, percebi que não estava sozinha nas minhas incertezas e que pelo menos especialistas experientes e que puderam passar parte de suas vidas muito mais perto da Toscana do que eu, também incorreram em erros.

A idéia inicial das pesquisas surgiu da leitura de Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Hollanda: o problema da visualidade do Renascimento, sua construção a partir da leitura e da transmissão de textos, e da produção de textos e experiências a partir dessa visualidade, me pareceu fascinante demais para permanecer no arquivo das leituras feitas por obrigações profissionais. Antes disso, tornou-se um norte, algo que sempre esteve no meu horizonte, mesmo quando tudo pareceu se esfacelar, por conta de vivências tristes. De Sérgio Buarque, passei para a tese de doutoramento de Aby Warburg, e o mundo da historiografia sobre o período se abriu.

Tuesday, February 20, 2007

Da condição feminina

Depois do post abaixo, sei lá tipo assim, resolvi escrever sobre o que tô pensando, fritando na cabeça esses últimos tempos.


Reencontrei algumas amigas queridas. Conversa vai, conversa vem, é aquilo: "os homens não prestam", "tô cansada de ficar sozinha, quero um cara legal, que faça tudo por mim", "ai, eu sofro, minha mãe foi e é muito ruim comigo, minha família não presta", "ninguém me ama, ninguém me quer, mas tem um cara a fim de mim, mas eu dei um fora nele, porque espiritualmente não me sinto pronta, mas chega a noite e eu te ligo pra dizer que queria alguém", a criatura te liga e fica três horas ali, martelando os ex, martelando teus ouvidos, e é a ansiedade, e é a ambiguidade, e é o caramba a quatro, e você ali.
Primeiro, não acho que os homens são todos uns filhos da puta. Tem muito homem que não presta, muito mesmo. Teve um que terminou comigo porque "queria uma mulher brilhante", outros terminaram porque "amavam a ex", outro fez isso na semana que eu tinha que entregar minha dissertação, outro me deixou de madrugada, chovendo, na rua, pegando um táxi, enquanto mandava um nas narinas, e assim sucessivamente. Já vi homem largar mulher e filhos, já vi cara que sumiu e nunca mais deu sinal de vida, já vi nego batendo e humilhando a companheira, etcs, e etcs. Mas ainda assim não acho que todos, todos, sem exceção, os seres do sexo masculino não prestam. E porquê?
Agora vem a segunda parte. Porque eu quero ser a responsável pela minha felicidade. 99% da vida é contingência: social, histórica, de gênero, etc e etc. Mas o 1% que me cabe, é meu. Portanto, eu quero cuidar do meu quintal. Eu muitas vezes não prestei, e muitas vezes não presto. Muitas vezes, por ansiedade, botei gente contra a parede, responsabilizei o outro pela minha alegria, pus o ônus da minha satisfação nas costas dos outros, e sim, fiz homens sofrerem. Não penso mais que o amor é ganho ou perda: é uma escolha. Não penso em conquistar ninguém: penso em compartilhar momentos, situações.
Terceiro. Parei de brigar com a minha mãe no pensamento. Minha mãe errou, e feio. Ela tem um gênio difícil, mas descobri que minha mãe fez o que pode, assim como eu faço o que posso. E que minha família tinha todas as neuroses que a família de todo mundo tem. Sofri, pra caramba. Assim como todo mundo. Errei, quebrei a cara n vezes, voltei atrás e fiz mais besteira ainda. Mas ponto. Dei o cano nas minhas amigas esse Carnaval, pra hibernar. Não quero ser mulher desse jeito, quero inventar outro jeito. Não sei qual é ainda, mas não quero me vitimizar, quero ir pra frente. Quero pensar em aliados, não em inimigos. Difícil explicar em palavras a sensação que me domina, eu fico brava e acabo brigando, briguei com as minhas amigas e disse: nessa vida, ninguém é santo. Tem homem que não presta. Mas tem mulher que, também, vou te falar uma coisa.

Bonequeiros, Dr. Lao, rede pública de ensino, que mais?

Gente, esses dias estão engraçadíssimos. Eu não tô fazendo nada, literalmente. Comendo que nem uma louca, tô chegando perto do meu peso-recorde ( believe me, tô gordinha), dormindo e enchendo o saco do alheio. Só no Ala-la-ô!

A única notícia que me chamou a atenção foi a dos bonequeiros do Carnaval de Olinda. Tenho paixão pelos bonecos de Olinda, apesar de nunca ter pisado na cidade fundada por meus ancestrais. Então, existe a profissão dos bonequeiros, que carregam os bonecos a R$60,00 por hora. Adorei as declarações de um deles: o pai era bonequeiro, e ensinou a não carregar boneco de barriga cheia, usar sunga e tênis, e a repórter pergunta: mas porque do tênis? E ele: porque às vezes o boneco dá um tapão em alguém, o povo quer bater no bonequeiro, que tem que sair correndo. A reportagem informa que não se tem notícia de bonequeiras, e cada um dos personagens pesa 20, 30 kgs. E que tem 500 bonecos rolando em Olinda esses dias.
A gente fez umas sessões de cinema na mãe do britânico Clis. Além da gente ver os filminhos do próprio na terra dos Beatles ( Clis, eu vi o pandinha no seu quarto) assistimos dois clássicos da nossa formação, "Fúria de Titãs" e "As sete faces do Dr. Lao". Bom, "Fúrias", bem convencional, e mistura todas as histórias da mitologia, mas o "Dr. Lao", é bom demais! Tem uma parte que eu tinha esquecido completamente, não sei se a Globo cortava, mas que é Dr. Freud puro. Tem muita gente que eu conheço que precisava de um Dr. Lao.
Hoje, conversando com a tia do Celo, que é professora na rede pública há mais de 20 anos, discutimos sobre a inviabilidade da política tucana pro ensino. Olha, partidarismos à parte, e hoje em dia nem faz mais sentido eu ficar com a bandeira vermelha hasteada, mas que os tucanos não dão certo na área de educação... depois dá no jornal que o ensino paulista nunca esteve tão ruim. Isso também acontece na rede particular; um dos motivos pelos quais penso duas vezes antes de um dia querer ser mãe é a porcaria das nossas escolas.
Tanto que pensei esses dias, tanto... post sei lá mil coisas. Ah, e tô colecionando Roberto Carlos, na FNAC comecei a ler a biografia não-autorizada do Rei ( aliás, o Rei entrou na justiça, reclamando da tal biografia). Não é bom o livro, mal escrito, mas vale pelas fofocas. E às vezes pela contextualização das musiquinhas que coleciono. Já peguei a música das gordinhas, das baixinhas, uma chamada "Símbolo Sexual", de 1985, que é legal demais, agora só tá faltando a das moças de óculos. E tenho dito!

Sunday, February 18, 2007

Prece na Catedral de Madri

Senhor, rezo nessa Catedral, a única coisa feia nessa cidade de Madri, nessa cidade capital de um Império, nessa cidade de homens e realizações, de espelhos e sacadas. Rezo nessa catedral e pergunto a mim mesma de onde meus antepassados espanhóis eram, não importa, em Madri me sinto em casa e em Madri enterrei minhas preocupações.
Peço, ó Virgem de Almudeña, ó mãe das flores e das mágoas, que eu seja amada pelos meus desacertos, que eu seja amada pelos meus desvãos, pelos escuros de sentimento, e não pelas minhas certezas, pelos meus momentos gloriosos, toda mulher erra ao pensar que os homens as amam por esses momentos; nos amam pela nossa fragilidade e não pela pretensa força da vaidade. Nos amam por amar; e amor não se pede nem conquista, amor não é território, é a luz do dia, existe por existir. As pessoas se encontram, não se pertencem. Peço humildade e doçura, e que eu seja flexível: é melhor que ser forte. Peço calma, paciência, serenidade: é melhor que sonhar. Peço para aprender a fazer pão, a usar as ervas na comida, a consolar, a rir e a chorar.
Meu São Francisco, que eu visitei e pedi, peço para não me deixar esmorecer, não me deixar desistir, não me deixar cair nas minhas fraquezas de caráter; que eu permaneça na simplicidade das cores. E que os momentos nessa Catedral cinza e triste se tornem o que eu preciso para viver, continuar, existir.

Friday, February 16, 2007

A chatice da panda

Os leitores amigos, tipo Dani Mônica e Chris, que me desculpem a chatice. Eu só falo da tese, só vivo na tese, tá demais.

Nem no msn entro mais. No Caronte deu pau, aqui no IEL resolveram cortar msn e Orkut ( desconfio um pouco dessas atitudes de cortar as coisas, acho paternalista demais, mas enfim). Ontem, excepcionalmente, tava no Celo e entrei no msn, e dei de cara com Nenem. Ela me contou da notícia de que 18 filhotes de panda foram batizados na China, por meio de concurso,e que os fofinhos brincam no playground e seguram suas mamadeiras:
Fiquei feliz de ver que os chineses batizaram meus amiguinhos de Sixue ( "saudade da neve"), Taotao ("brincalhão"), e que teve um baby-boom da minha espécie. Tá vendo só, Nenem? Os pandas vão dominar o mundo! Ainda mais se eles começarem a defender teses de doutorado!

É Carnaval...

E chegou o Carnaval. Tô pulando doidamente, da sala pro quarto, do quarto pra cozinha, da cozinha pro banheiro e assim sucessivamente, com paradas no camarote das bibliotecas do IFCH e do IEL. Ninguém merece tanta chatice.
Essa fase de final de tese, sinceramente, isso sim eu queria pular, acordar e ter a tese pronta. Como isso não ocorre, lá vou eu de parágrafo em parágrafo, consertando coisas. O que falta deixo em amarelo, e minha tese parece um queijo suíço, de tão amarelinha e cheia de buracos.
Ando com uma fome louca e com a bronquite a toda, acho que nunca estive tão panda em toda minha vida. Que miséria, só penso no Gerião, no Virgílio e nas duzentas páginas que já consegui ajuntar. Minha mãe foi super fofa, me mandou me concentrar na coisa e ir pra frente. Eu estou com a minha casa uma zona, dois dentes estourados esperando tratamento, IPVA pra pagar, roupa pra lavar, um inferninho, e no meio disso eu consigo quebrar todos os foninhos disponíveis. Vou na loja de 1,99 e compro foninhos que não duram uma semana, nessa rotina de ligar o Neguinho do Pastoreio a toda quando faço todo tipo de atividade, ouvindo de Milton Nascimento a Wando, de Pet Shop Boys a Barry White. Mas que desgrama.
Fico lendo os jornais, nos intervalos dos trabalhos de Hércules, e me deprimo ainda mais. Não tô podendo. Nesses anos de universidade, eu vi muitos colegas na fase de final de tese, e achava que o povo exagerava. Não, não, é um ritual de iniciação dolorido. Num certo sentido, é mais fácil que no mestrado: você já tá mais escaldado, preparou várias coisas, deixou o feijão de molho e a cebola cortada. Mas, ao mesmo tempo, é uma despedida de uma fase da vida. Depois, com o título, é outra história: você abraçou de vez a carreira acadêmica, é concurso, banca, aula, o caramba a quatro. Vejo alguns professores rodando IFCH e IEL, nesses dias, e colegas, e penso, todo mundo passou por isso um dia: o desespero de ter escrito uma mísera linha quando se deveria ter escrito cinqüenta páginas; o medo da banca te detonar; e a impressão de que se fez tudo errado, que tudo foi pro brejo sem remissão.
Que fazer, como perguntaria Lênin? Sentar a bunda na cadeira e castigar o teclado. Fazer o quê?

Wednesday, February 14, 2007

O início

Ontem, fiquei vagando pela velha biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, onde pra mim tudo começou e onde tudo recomeça, batucando em Caronte ( meu laptop, o barqueiro do Inferno) a tese onde tudo terminou e onde tudo termina.


Muito confuso isso de escrever. Peguei da estante a minha velha dissertação de Sociologia, defendida, vejo na capa assinada pelos mestres tão queridos, em 20 de fevereiro de 2001; pego uma tese, de um conhecido, e a minha dissertação parece infantil e sem sentido, perto da dele. Mas leio a lista de agradecimentos, e percebo que a minha me comove também: retorno a ela e vejo quão doce, apesar de ingênua, era a menina que "agradeceu às muitas pessoas queridas que fizeram com que meu sonho de escrever um texto sobre Adorno se tornasse realidade"...

Vejo as estantes, inexpugnáveis; a estante das monografias, onde a minha repousa também e onde celebro a memória da minha avó e de meu pai; e penso que lá em Campos dos Goitacazes, norte do estado do Rio de Janeiro, em 1950, eles não tinham a mínima idéia de que alguém escreveria sobre música popular, paixão dos dois, e que isso viraria um objeto, numa estante entre outras, numa biblioteca erguida no que naquela época era mais um canavial.


A minha mente vaga no presente, passado e futuro, e se não fosse pelo Beto, que estva junto na labuta, moquifados os dois na mal fadada salinha da História da Arte, eu ficaria com a cabeça emperrada na coroa de um monstro da Divina Comédia, nos idos de 1481.

Hoje acordei e me deparei com o início da minha tese. É assim:



No silêncio, repousam as coisas. Elas, em alguns aspectos, vencem os homens que as produziram: vencem no tempo e no espaço, atravessam séculos e giram os continentes. Um livro, uma série de papéis desenhados, três ou quatro telas pintadas com tintas feitas com ovos: depois de seis séculos, tais coisas parecem pairar sobre as cabeças de quem ousa se aproximar delas, têm vidas próprias, perderam o status de coisas e se tornaram invencíveis.

Seria possível retornar, das coisas, às pessoas que as fizeram? Ou pior, chegar às intenções desses homens, nas suas mentes, no que tinham em vista quando resolveram arrumar pincéis, papéis e palavras? Porque, materialmente, o que nos sobrou, da época em que viveram, foi isso. Jacob Burckhardt, em suas Reflexões sobre História ( aqui puxa nota, mais uma, hahahaha), diz que uma das tarefas do historiador seria, entre dar aulas, comunicando fatos passados às gerações seguintes ( como os aedos na Grécia e as velhinhas contadoras de história, em todas as partes), escrever sobre essas coisas que sobraram, para compreender melhor os homens que as fizeram. Essa tese seria mais uma frustada tentativa de se chegar perto dos florentinos do século XV, melhor dizendo, de um florentino do século XV. Talvez a inutilidade da tentativa a faça patética e mesmo bela, como todas as tentativas dos historiadores, de hoje, ontem e agora.

Sunday, February 11, 2007

Somewhere Over the Rainbow

Hoje, no msn, fiquei sabendo pelo meu amigo Flávio do falecimento duma figura querida da Unicamp.


Chegou causando polêmica no IA, contando da vida como travesti de rua, usando saias. Por onde passava, criava perplexidade, na cabeça bem comportada dos acadêmicos de plantão.


Uma noite, por acaso, fui parar na casa da figura, na moradia. Lá, ele me mostrou fotos antigas, outras nem tanto, atestando a trajetória, o caminho, tão diferente da maioria dos colegas. Depois, um dia, no café do IEL, me disse que estava no Nordeste, contou tudo do jeito debochado, inteligente e maluco de sempre, e disse que se lembrava da noite que tínhamos conversado, dez anos atrás. E se despediu. Ainda o vi na correria do campus, outras vezes, e eu botava fé na saia e no jeito maluquete.
Agora, Rogério, só te desejo muita luz, muita luz, cor e cor na sua nova morada, onde for; e que, além do arco-íris, você encontre a paz.

Noites com Sol

Ando nervosa, chata, tensa com a tese.


Nada me alivia. É triste essa fase. E o pior, a bolsa acaba, e o que vou fazer? Sei que tem gente com problemas bem piores que os meus, que isso não é nada perto de passar fome, etc, etc. No fim, até envergonhada fico, nesse escritório em plena Campinas, tamborilando sobre problemas de séculos passados, enquanto tomo chá inglês.
Também fiquei deprimida com a história do menino assassinado com brutalidade no Rio, e tudo o que se escreve depois, sobre a punição dos culpados, sendo que um é menor de idade e tal. Não tenho cabeça pra refletir agora, leio as colunas e vago num cinza de tristeza, sem conseguir proferir uma opinião inteligente. Fiquei olhando o rosto do garoto de 19 anos, suposto líder do grupo que fez o que fez, e não reconheço nem em mim nem nele piedade. O ódio é assim, frio, transforma sangue e carne em nada, uma criança num boneco, e uma mente num abismo.
No meio dessa fase delicada, triste pra burro, falta de grana, nervoso, ansiedade, vejo o jogo do Corínthians com o São Paulo, meu time, e ouço uma música que eu tenho a impressão, ser brega, do Flávio Venturini, Noites com Sol. "Hoje só tem o breu/ vem me trazer o sol/ vem me trazer amor/ Pode abrir a janela/ Noites com sol e neblina/ Deixa rolar nas cantinas/ Deixa entrar o sol/ Livre será se não te prendem/ Constelações/ Então verás que não se vendem/ Ilusões/ Vem que eu estou tão só/ Vamos fazer amor/ Vem me trazer o sol"...

Friday, February 09, 2007

O boêmio demodé e a nega do cabelo duro

Esses dias eu fiquei em casa, faxinando e tentando escrever a tese. Veio aquele bloqueio básico, o desespero que acompanha o bloqueio, a depressão e o mau humor. Lindo.
O que me salvou foi a selva escura do Orkut. Achei uma comunidade de Marchinhas de Carnaval, e gente que vive cavando em vinil as velhas marchinhas. Um senhor de Brasília muito gentilmente cedeu uma pasta enorme, compartilhando gravações originais de pérolas como Chiquita Bacana ( na voz linda da Emilinha Borba), O teu cabelo não nega ( Lamartine Babo acabou com o Carnaval de 30 e pedrinha, na voz de Castro Barbosa), Ala-la-la-ô, Aurora ( essa é uma das minhas favoritas) e outras que tais.
Nem precisa dizer que a tese foi pro buraco e eu baixei tudo que pude. Mas no meio da comunidade, representada por uma linda colombina, descobri uma música do balacobaco, como se dizia na época. Chama Boêmio Demodé, de autoria de Adelino Moreira, informa o pessoal da comunidade. Esse compositor era o favorito de ninguém menos que Nélson Gonçalves, mas na época dessa música ( 1969,70) eles estavam brigados, e quem gravou foi um cantor chamado Paulo Vinícius, de voz idêntica da do Nélson. Além de citar a conquista do homem à lua, Apolo 11, cita os acordes dissonantes tropicalistas. Demais! E peguei a original da minha querida Nega do Cabelo Duro, com os Anjos do Inferno. Pronto, tá bom, e ando morrendo de vontade de comprar confete e serpentina, andar de biquíni, e mandar a tese pro quinto dos infernos.

Monday, February 05, 2007

Bolo de fubá, autonomia universitária e Almeida Júnior

Hoje foi tese, faxina, supermercado, aquela coisa.


Resolvi fazer um bolo de fubá. Calma, gente, eu não tenho batedeira, e meus poderes bolísticos são super limitados, resolvi fazer Dona Benta mesmo pra não ter erro. Vamos ver se o bichinho sai. Tava com vontade de comer bolo de fubá.


A coisa anda preta nas universidades estaduais paulistas, quem acompanhou viu toda a discussão sobre os decretos do nosso novo governador sobre a autonomia das três Marias. Coisa horrorosa, o Serra está a fim de ferrar mesmo com a suposta elite do ensino superior brasileiro. É melhor apresentar pro eleitorado paulista, sempre inconstante, FATECs e programas como o Pró-Uni, do que segurar a barra de Unesp, Unicamp e USP da vida. Aconselho quem ainda não está a par a ler a documentação toda, no site da Unicamp.
No meio disso tudo, fui na Pinacoteca ver a exposição do Almeida Júnior. A exposição em si não está boa, mas o pintor vence a exposição. Lindos quadrinhos pequenos e uma aquarela maravilhosa,chamada Dengosa.
Tô meio dispersa, como vocês podem perceber, esse é um post sei lá mil coisas. Ah, nesses dias eu fico muito feliz em alguns momentos, e muito triste em outros. E a tese vai no ritmo de uma nota de rodapé por dia. Ando meio desligado, eu nem sinto meus pés no chão.

Tuesday, January 30, 2007

Babel e o Menino da Porteira

Tive um final de semana esquisito. Fui pra São Paulo, pra festa de amigos queridos que reencontrei nesses dias paulistanos, e foi muito legal tudo. No domingo, passeamos, coisas legais aconteceram, e fui assistir Babel. Bom, mas no meio do caminho da rua Augusta vi um amigo muito antigo. Na verdade, no início, ele foi uma grande paixão, mas depois de vários sobressaltos, desentendimentos e encontros, a gente ficou amigo. Eu sabia que meu amigo estava muito doente, mas no domingo eu descobri que infelizmente ele tem problemas bem sérios.
E assisti ao filme, que tem partes legais e outras nem tanto, mas que fala da fragilidade da vida nos dias que correm. Eu me senti muito frágil no domingo, em meio à tempestade que caía sem trégua sobre a combalida cidade em que nasci, senti medo, raiva, mas vi solidariedade, carinho, delicadeza.
Enquanto eu sofria ao constatar que o tempo passou muito mal pro meu amigo, pensei que ao mesmo tempo, algum casal fez amor e uma criança vai nascer disso, que gente morreu mas teve quem nascesse, quem trouxe uma boa notícia, quem inadvertidamente impediu um assassinato, quantos sorrisos foram dados, quantas risadas, e pela primeira vez eu vi que as coisas boas podem ser mais voláteis e frágeis, mas por elas a gente se guia em meio à metrópole.
Meu pai adorava o Menino da Porteira. Eu acho tão linda essa música, porque fala de uma lembrança, e eu lembro do meu pai chamando um colega da Cesp, que era de Ouro Fino, de Menino da Porteira ( meu pai às vezes mandava mal). Então é isso.

Wednesday, January 24, 2007

Uma nota de rodapé da minha tese

Minha tese vai na base de uma nota de rodapé por dia. Com dois canais de dente pra fazer, carro com barulho de Fusca, duas lâmpadas queimadas, um chuveiro arrancado da parede e um vaso sanitário vazando, além da perspectiva de desemprego dentro em breve, acho que vai bem a coisa. A minha favorita é essa aqui:
É o caso da lenda da relação de Virgílio com a filha de Júlio César, Febilla. Velho mago, Virgílio encanta-se com a moça, que lhe diz para vir ter com ela à noite. Para fazer o poeta subir até seu quarto, a bela deixa uma cesta pendurada a uma corda: o poeta sobe na cesta, mas Febilla não puxa a corda até o fim. No outro dia, toda Roma vê o poderoso mago pendurado numa cesta. Mas Virgílio se vinga: graças a um feitiço terrível, ele extingue o fogo de Roma, mas Febilla se incendeia, no meio das pernas. Os romanos, fazendo troça da moça, acendem suas tochas no seu sexo ardente. Existem várias representações, tanto da cena do poeta na cesta, quanto dos romanos buscando fogo em Febilla, como o capitel decorado da Igreja de Saint-Pierre, em Caen. Há vários exemplos de tais cenas em FAGGIOLO, Marcello ( a cura di). Virgilio nell’Arte e nella Cultura Europea. Roma: De Luca Editore, 1981
A moça com fogo na fofinha me alivia dos pobreumas!A erudição inútil não é ótima?

Saturday, January 20, 2007

Lentilhas e tese

Ontem fiz um bolo de caixinha ( quer dizer, hoje em dia o Dona Benta vem em saquinho) e a Yna pôs uma cobertura em cima, um brigadeiro mole com café. Hoje estava o dilúvio, a gente tinha combinado um passeio em Joaquim Egídio, pra ver o cometa no Observatório Municipal. O Observatório, que tem um dos maiores telescópios óticos do Hemisfério Sul ( believe me), fica na Serra das Cabras, uma serrinha linda, mas tem um bom pedaço de terra subindo. No caminho, tem um restaurante siciliano excelente. O Observatório é um dos meus lugares favoritos no planeta Terra.
Mas voltando, choveu demais. Meio dia me levanto, com uma fome danada pensando, mas que faço pro almoço. Fiz uma panela de arroz que ficou soltinho. Pus lentilha de molho, batatas pra cozinhar. Resolvo descer pra comprar uma linguiça de frango e uma couve, sei lá, o telefone toca, é Yna desolada com a chuva e o sábado tedioso. Convido pra almoçar, pergunto se ela tem problemas com linguiça de frango. Não sei porque, mas lentilhas me fazem lembrar linguiça de frango, e couve. Saio correndo do prédio, meu zelador que é um anjo vem atrás de mim com um guarda-chuva do Mickey, dizendo, te conheço, o que você vai querer comprar não tem na padaria da esquina.
Não tinha mesmo, rodo, vou até o restaurante português na outra esquina, restaurante velho de guerra com a clássica tv de cachorro na porta. 14 pilas o frango, qué isso. Vou no Itaú, o cartão não passa. Corro em direção ao Centro de Convivência, com fome, pressa, e a chuva molhando a barra da saia. Compro um belo dum frango assado por 5 paus, uma farofa que tava simpática do lado, maçãs, um queijinho, azeitonas. Volto mastigando um salgadinho. A batata está cozidérrima, a lentilha já vai, o pessoal chega, ajuda, a batata vira um troço com margarina e alecrim colhido do pé, o azeite libanês ajuda, asso maçãs com açúcar e canela, o papo rola na sala, uma sangria aparece, e a gente comeu, viu fotos, livros, até brigar brigamos.
Volto pra tese, junto os cacos de quatro anos de trabalho descontínuo e desorganizado, de esforços em direções equivocadas, de muita preguiça, de rolos na vida, Chicago, Pisa, Campinas, São Paulo, Rio de Janeiro, tanta vida dentro disso. Falei com amigos em São Paulo, eu queria muito fazer a tese da tese. Uma exposição de fotos, comidas, receitas, das coisas rolaram com a tese, para a tese, contra a tese, todas as posições socráticas possíveis, toda a ágora quebrando o pau, e ninguém chegando a conclusão nenhuma, mas uma coisa é certa. Esaú vendeu a primogenitura a Jacó por um prato de lentilhas, eu faria o mesmo com a minha tese...

Friday, January 19, 2007

Aos trancos e barrancos

Aos trancos e barrancos retomo a vida. Coragem falta, as pernas bambeiam, merdas acontecem, mas aos trancos e barrancos a coisa vai.

As duas semanas que passaram, estava em São Paulo, reunindo toda coragem possível pra procurar emprego, amigos queridos, laços de afeto que ficaram pra trás e ruminando a tese. Mudei o esquema da dita cuja e retomei os trabalhos de Hércules.
Tem horas que eu fico muito atrapalhada e a vida dói demais. Vem uma tristeza grande, forte, um sentimento de perda e uma desorientação. Perdi a bússola do meu coração no ano passado. Explico. Eu tinha uma amiga em quem confiei tudo da minha vida, e que me traiu dum jeito horroroso. Tô cansada de gente falando mal dos outros, desse esquema competitivo do mundinho acadêmico. Que saco, almoços e almoços de gente descendo a lenha nos outros, e o tom de quem é o juiz do mundo. Hoje aconteceu de novo com umas figuras conhecidas, eu me sinto mal, mal, mal, tô de saco cheio, não gosta de mim, fala na minha cara e pronto. Na verdade, eu sinto falta de algumas pessoas, de outras não sinto nada, nada mesmo, só lamento.
O bom foi que vi uma exposição muito bonita do Volpi no Banco Central, na Avenida Paulista. É de grátis, vale a pena ver, tem umas litografias lindíssimas do tiozinho do Cambuci. Vale a pena demais.

Friday, January 12, 2007

Cama e Mesa

Fiquei com o Meio na cabeça todos esses dias, entre Natal, Reveillon, tratamento dentário, problemas com a tese e casa, nachada, e finalmente uma temporada relâmpago no velho Piratininga. Queria postar uma música do Lucio Dalla pra vocês, de Feliz Ano Novo, e não postei, queria postar a receita recém inventada do camarão e nada, vários posts na cabeça e quando fica assim, melhor encarar de qualquer jeito e retomar os trabalhos de Hércules.

Problemas em geral, mas muita felicidade no meio, revi gente muito querida, blablabla. E ouço todo dia Cama e Mesa do Roberto, e todo homem precisa saber o que quer. Não há vento favorável pra quem não sabe onde vai, sei que parece auto-ajuda barata, mas é a verdade. Eu quando criança achava a música do Roberto breguíssima e hoje sei que Maria Bethânia tava certa quando mandou o Caetano "prestar atenção em Roberto". Hoje prestei atenção em Roberto mais uma vez e descobri que em Cama e Mesa está o mundo em que habito por vários instantes do meu dia.

Quando a gente sabe o que quer, tudo fica Roberto: a voz límpida, certeira, a paisagem se descortina, a vida se renova.

Também tive um sonho lindo. Peguei na estante do Paulo, o anjo que me recebe na velha São Paulo natal, a edição comemorativa dos 70 anos de Raízes do Brasil, que a gente chamava, carinhosamente, lá no IFCH, de Mandioca, Inhame e Batata Baroa. Muitas fotos lindas do Serjão, o fantasma que embala os sonhos dos jovens historiadores unicampistas. Eu assisti aos dois filmes-biografia do Sérgio num dia péssimo da minha vida, quando sofri um acidente de carro e quase me junto ao pai do Chico. Pois bem, vi o livro e no meio da manhã adormeci, e sonhei que estava numa casa cheia de gente, almoço na mesa, aquela zona, e eu com um cigarro nas mãos, querendo fumar, e prestando atenção e meio que não prestando atenção em nada. E aí, Sérgio Buarque de Hollanda se senta do meu lado, e gentilmente acende meu cigarro, pra minha surpresa, eu que não tava esperando nada disso de ninguém naquela cena. E pensei, homens assim não existem mais, nasci na época errada. Lindo, não?

Outra coisa foi ir na Pinatoteca, ops, Pinacoteca, e ver o Brecheret que tiraram do Cemitério, a Musa Impassível, lindo, lindo, tão lindo ver algo que nunca se viu de um artista de quem se pensa que se viu tudo. Fui almoçar no grego do Bom Retiro com velha comparsa de crimes e tramóias, fui jantar na Liberdade com velho comparsa de crimes e tramóias, tomei um café no Sujinho da São João com idem, ibidem, e agora volto a dormir pra encontrar o Serjão. Feliz 2007 pra todos.

Sunday, December 24, 2006

Feliz Natal

Esse ano foi corrido e sofrido, o Natal chegou bem antes do que eu esperava. Hoje devido ao calor, ao sono e às reflexões atrasadas, não pude contribuir muito pro espírito natalino, e os queridos e queridas que apareceram via telefone, msn, orkut, pessoal e espiritualmente, também estavam todos atribulados. A vida não está fácil, me diz o amigo querido via Telefonica; não, não consegui comprar um cartão na padaria pra ligar pros outros queridos que estão espalhados pelo mundo. Nem a torta de morango consegui encomendar na padaria, mas em compensação fiz camarão com molho branco, e servi panetone rodeado de suspiros de diferentes formatos.
Agora vou embrulhar os presentinhos trazidos da Velha Bota, tomar um banho e ajeitar qualquer roupa decente, ceia na mãe, e daqui do meu cantinho mando bons votos a todos os leitores.
Em outro blog, de um conhecido, leio a velha cantilena que o Natal é enganação, que devemos dizer não ao consumismo e bla bla bla. Eu gosto do Natal por duas razões: primeiro porque adoro panetone ( hahahaha) e segundo, e mais importante, porque no Natal a gente revê ou vê melhor quem a gente ama. Feliz Natal!!

Tuesday, December 19, 2006

Retrospectiva 2006?

Esse calor tá matando e tá deixando todo mundo louco. Não consigo dormir e estou num cansaço inacreditável, imagino que os queridos leitores do Meio estão me lendo embaixo do ventilador.

Resolvendo pinimba. Seguro do carro, PUCC ( que foi um horror), e finalmente a panda resolveu encarar um tratamento dentário, sério, no CECOM. O dr. Ricardo, que foi o dedicado profissional que tirou meus sisos, há muitos anos atrás, muitos mesmo, me deu uma das maiores broncas que eu levei na vida. Merecida. A panda é desmiolada no quesito saúde. Acordei ontem e hoje num mal estar, num cansaço novo pra mim, mas rumei pro CECOM, e assim vai ser. Preciso passar no banco, e esqueço a maldita senha da PUCC em casa.

E assim, aos trancos e barrancos, acabo 2006. Ano comprido, custou a passar pra mim, coisas muito, muito ruins, e coisas muito, muito boas. Como contrabalançar a dor pela amizade perdida, com a visão da torre torta? O sofrimento da suspeita do câncer, com a alegria de ver o Duomo? O rostinho dos meus queridos e queridas e os assaltantes? O dente quebrado, a mancada, o sorriso? As lágrimas e as alianças, antigas e novas? O Prado, o Thyssen Bornemisza, os Uffizi, os dois relatórios FAPESP, qualificação, artigos, congressos, Toscana e Minas Gerais? Curso de maquiagem, Hermes Trimegisto, músicas no i-pod, insônia, cozinhar, os segredos passados e futuros? Principalmente segredos, esses dentro do coração. Não é pra menos essas olheiras panda, no dia de hoje.

Thursday, December 14, 2006

Reflexões leves

Volta, crises emocionais, calor, chuva, pobreumas burrocráticos ( seguro de carro, diário de classe, tratamento dentário) me tiraram do sério nos últimos dias. Chatices, chatices sem fim. E eu torrando o saco do meu Sancho Pança, o Luís Fernando, e achando que os dragões na verdade são moinhos, e vice-versa.
Sabe aquelas fases onde as coisas ficam mal paradas, o camarão no congelador espera a receita, aliás no meio de tudo isso inventei uma receita nova de molho de atum, frita-se cebola e alho em azeite libanês ( vai por mim, é gostoso demais, é caro mas os libaneses sabem o que fazem), pega-se tomate italiano pelado cortado em cubos ( custa mais eu sei, mas vale a pena porque o tomate dos caras realmente não é ácido), tempera-se na panela com bastante manjericão, pimenta do reino, sal a gosto, um tiquinho de nada de noz moscada, atum light ( sei que é frescura, mas se não der pega o normal e tira aquele óleo). O toque seria gergelim torrado, põe no final e não exagera porque senão já viu. Veja, é o velho molho de atum de sempre com ingredientes bacanas. Enfim, o segredo é fazer o de sempre inovando nos fatores? Ah, eu servi com penne da Barilla, al dente, pelamor.
Recebi mensagem que me acalmou a alma, eu tava aflita demais. E botei no I-Pod Martinho da Vila, Chris Rea, Nina Simone, xotes de Elba, muito Milton, mas principalmente Tudo, do Sentinela. Essa canção do Milton fala do que eu queria falar nesse post, mas eu não sou o Milton, então vai a receita de molho de atum mesmo.
Ah, o gergelim foi invenção do Celo.

Friday, December 08, 2006

To Love Somebody

Voltei. Depois dos últimos dias em Pisa, que foram uma correria ( textos e textos pra xerocar na Normale e na Universidade), de tropeços e desacertos, e tristeza por abandonar aquela cidadezinha tão querida, fui pra Madri e foi aquela maravilha, salas e salas de obras de arte no Prado, no Thyssen-Bornemisza, parques e tortillas, amigos e risadas. Madri foi lindo.
Voltei, pra tese, pra terminar o semestre na PUCC, pra acertar contas e cortar as pontas. E aí um amigo me estraga o dia, a vida, com um sentimento novo, na voz de Nina Simone. E com To Love Somebody, começo a tese e termino o doutorado.