Monday, November 26, 2007

Back on the chain gang

Entreguei, terminei, defenderei. Fui, vi, venci. E agora descanso pra voltar à gangue e aos trens.


Os últimos dias, teve de tudo. Tô tentando manter minha nova atitude, como disse a Nenem, panda power, ouvindo a Piaf toda hora e vendo a Mome no Youtube, pra ver se entra na minha cabeça o Non, Je Ne Regrette Rien, de vez.
Tomei coragem e agradeci ao Jorge e ao Bonnet muito o curso, a oportunidade. Há anos que eu não fazia algo tão bom, tão de verdade, tão perto do que acredito e sinto. Daí fiquei super feliz com isso. Mas nos dias seguintes, tive um aborrecimento que me fez pensar muito.
Os meninos do primeiro ano me pediram pra levá-los ao MASP. Eu tô substituindo o Paulo num regime de trabalho doido, professora palestrante, e esse mês levei pra casa metade do salário, ou seja, 230 reais pra ministrar duas disciplinas na graduação, com todas as responsabilidades envolvidas nisso: preparar aula, ministrar, me pôr ali pros alunos, avaliar. Pra piorar as coisas, o cheque demorou a cair, fiquei duas semanas sem quase nada dentro de casa, sem um real, sofrendo, trabalhando como louca e entregando a tese.
Tudo que os meninos me pediram, eu fiz: duas aulas extras, na semana que eu simplesmente fiz milagre, e me pediram uma visita ao MASP. Prontamente atendi, corri atrás de tudo, e na quinta-feira ( a visita seria no sábado) eles me disseram que grande parte da turma havia desistido.
Fiquei p. da vida e dei a maior bronca da minha história de professora. Porque eu senti, em vários momentos, que eles criticam, criticam, criticam a gente, mas chega na hora,me fazem isso? Não querem ir ao maior museu da América Latina de graça, e com uma professora de guia?
Pensei nas vezes que ia sozinha ao MASP, pensei que o Jorge mandava a gente se encontrar lá tal hora, e ponto. Senti muita infantilidade, e agressividade em parte da turma. Fiquei nervosa, tive uma hemorragia, foi péssimo. Acho que estourou tudo, ganhar essa miséria de salário, o não-reconhecimento por parte do departamento, e as dificuldades todas do doutorado ( que foram muitas, muitas mesmo, até o finzinho encontrei obstáculos foda).
Pela primeira vez em muitos anos, muitos mesmo, não terei nenhum compromisso com e na universidade, no ano que vem. Pintaram outras coisas, preciso lutar, ter força pra inventar um caminho. Sinto um alívio muito grande, mas também uma vertigem, um medo, um frio na barriga. Como vai ser minha vida longe da cidadela zeferinítica? Vamos lá, né.

Tuesday, November 20, 2007

Non, Je Ne Regrette Rien

E eu com esse curso do Bonnet entrei numa vibe Egalité, Fraternité e Liberté. Terminei o Índice maldito do Luiz, com vinte e sete páginas e 850 nomes, o cheque do meu fantástico pagamento caiu e eu fui no Atacadão, e agora baixo, numa preguiça danada, baixo e escuto uma seleção Vive La France.

Não assisti Piaf, mas baixei uma pequena seleção da grande chanteuse. E agora estou lascando meu francês inexistente em Non, Je Ne Regrette Rien, que, temo, vai se tornar um hino pra mim. Pela primeira vez em muitos anos, olho pra frente, não pra trás. Não, eu não lastimo as perdas nem os ganhos. Deu tudo zero. Não, eu não me preocupo mais com quem não me amou, ou quem me amou, ou quem não soube o que tava ocorrendo. Non, rien de rien, niente, nada mesmo. Acabou. Olhar pra frente dá vertigem, mas é tão mais bonito.

Saturday, November 17, 2007

Advento

E segundo o calendário litúrgico, o tempo dos quatro domingos que antecedem o Natal é o Advento.
Ainda estamos um pouco antes, mas o comércio decide essas coisas, e a Prefeitura de Campinas pôs, antes desse novo feriadão, enfeites feitos de fundos de garrafas PET, muito bonitos, vermelhos e brancos, estrelas, bolas e guirlandas que resplandecem de luz, à noite. Minha vizinha, que tem um menininho, já pôs os enfeites dela.
Hoje de manhã, ouvi a vozinha feliz do Lucas, mostrando pro pai os enfeites. Resolvi adiantar a coisa, e deixar o Lucas feliz quando ele voltasse do seu passeio. Coloquei minha bota de feltro com um Papai Noel fofo, e está aberto o Advento no clã da panda Vermeersch.
Aliás, fui assistir o Tropa de Elite, quero escrever um post, bem como vi com o Celo os 300 de Esparta ( fim de semana bélico, vamos dizer). Eu estou lutando como Leônidas e o capitão Nascimento, juntos, pra dar fim no Índice infernal do Luiz, mas tá difícil, e fiz meus sequilhos mas eles cresceram demais, dessa vez, ficaram bons mas tinha pouco polvilho. Não há de ser nada, o Natal vem aí.

Monday, November 12, 2007

Os doze trabalhos de Hércules


Estou me sentindo uma pequena panda Hércules. Explico.



Quarta passada, sexta, sábado, hoje, amanhã e quarta, dou aulas. De Bernini a Volpi, de um tudo que vocês possam imaginar. Quis dar uma mão pros meninos do primeiro ano, mais perdidos do que cego em tiroteio, e marquei dois horários de reposição, à noite. Vai ser trash, porque, enquanto isso...



O Luiz, meu ex-orientador e mestre jedi de plantão, deu uma de rei Eristeu: me pediu, de uma semana pra outra, o Índice Onomástico ( de nomes, dã) de um livro sobre tradição clássica, que sai pela Editora da Unicamp. Só que, detalhe, o livro tem 350 páginas de ensaios dos mais variados assuntos, da escultura de Pérgamoà Galeria dos Mapas do Vaticano, passando pela Virgem dos Rochedos do Leonardo e do Cupido perdido de Michelangelo. Ou seja... depois de dias e noites, derrubei mais de 600 nomes citados no livro, e não estou no fim e tudo isso não está conferido, minuciosamente, na busca do Adobe ( o livro tá num pdf) e nem em ordem alfabética. E é pra quarta.


E no meio disso, problemas e problemas mas uma luz surgiu e uma data, em dezembro, apareceu para a defesa da maledetta, já pronta pra vir, só faltam alguns dos disegni do tio barrilzinho pra escanear, imprimir, xerocar e pôr no SEDEX. Emails, telefonemas, mas no banho, digamos, romano, que me dei o direito hoje ( com óleos e tudo mais) eu vi a felicidade de ser uma heroína, digna de umas folhas de louro e de ter o meu amadíssimo Hércules Farnese perto do meu coração.
Acima, o próuprio, do Museu Arqueológico de Nápoles, onde passei mal de fraqueza...

Wednesday, November 07, 2007

Das possibilidades dos meus estudos





Andei deprimida de verdade, nau à deriva. Na segunda-feira, cansada de sofrer, fui à Unicamp tentar fazer alguma das muitas coisas que preciso fazer. Desci da condução e resolvi ir ao banheiro no prédio dos professores do IFCH. Vi, num cartazinho, um anúncio de um mini-curso, de um mês, de um professor francês, Jacques Bonnet, convidado pelo prof. Jorge Coli. O curso versa sobre nus femininos no banho, nas artes a partir do Renascimento: Susana e os Velhos, Diana e Actéon e Davi e Betsabé.
Me animei, coisa rara nos últimos tempos, pra fazer o curso. Resolvi que ia me fazer bem ouvir um pouco alguém de fora, sobre temas que me interessam tanto, e que são parte da minha tese.
Dei aula hoje, sobre o Indianismo, Monumento a Dom Pedro I na Praça Tiradentes no Rio e a Primeira Missa do Meirelles, fui no bandeijão e aportei no velho e cada vez mais combalido IFCH. Sala de Projeção lotada, velhos amigos, alegria de estar ali. O prof. Jorge ia traduzindo, o prof. Bonnet muito simpático, nada parecido com os franceses que a gente tanto teme ( acho que na verdade talvez o preconceito se deva aos parisienses, sei lá). Em vários momentos eu tive vontade de levantar e dar um abraço no Bonnet. Explico: sofri tanto no doutorado, por que muitas vezes não tinha com quem conversar sobre dificuldades metodológicas, e sobre o ofício do historiador. Com muita precisão, eu acho que o Bonnet hoje resolveu n problemas que rondavam minha cabeça, desde que abracei o capeta e minha pobre alma nunca mais saiu do século XV.

Simplesmente a abordagem do Bonnet, por ser mais ampla, permitiu a ele fazer um estudo "trans-histórico" das iconografias. Trocando em miúdos: como a pobre panda, ele começa no século IV d.C e vai indo, procurando de moeda a túmulo, passando por capitel de igreja, iluminura, os lindos cassoni ( os baús de madeira decorados nos quais as noivas florentinas guardavam seus enxovais), afrescos, vários tipos de materias figurativos, de várias épocas e lugares, que atestam a persistência, por vinte séculos, de temas da Bíblia e da mitologia greco-romana.
Esse tipo de percuso, numa era da super especialização acadêmica, é ridicularizado e muitas vezes posto de escanteio ( só eu sei o que eu sofri com as minhas 250 imagens, meus tantos Virgílios), porque desde sempre a maior parte da historiografia prefere o texto ( que pode mentir, enquanto a imagem, no seu silêncio, guarda seu enigma), e relega a imagem ao papel de mera ilustração mecânica, ou prefere estudar o contexto social, político, econômico, mas não a obra em si. Enfim, acho que o Bonnet veio falar do seu livro favorito e passar um tempo descansando no Brasil, podem-se fazer críticas ao seu discurso, mas pra mim ele foi um presente e tanto nesse final do meu doutorado.

Acima, Susana e os velhos, de Aert van Ort, 1520-25. Vidro trabalhado, diâmetro 24 cm. Nova York: Metropolitan Museum of Art.

Tuesday, November 06, 2007

A sopa do duende

Hoje acordei com cólica, triste, cansada, mil coisas pra fazer, chuva,frio. Escrevi pra uma amiga querida, longe, deitei de novo, atendi outro amigo fofo em São Paulo, daí resolvi sair pro meu tradicional passeio no centro da cidade.
Fui, na chuva fina, andando bem devagarinho, pensando na vida. Passei por trás do edifício Itatiaia, numa ruazinha que nunca havia passado, subi a César Bierrenbach e na altura do Largo do Carmo, quase em frente o monumento túmulo do Carlos Gomes, senti a minha tristeza de hoje. Eram três da tarde, eu tava com fome, com a cabeça embaralhada. Fui no chinês vagaba da Barão de Jaguara, ninguém no restaurante, só o povo de lá comendo. Comi um pouco, entornei uma Coca Light pra ver se animava, e resolvi entrar na Tecnart, na outra esquina.
Vi alguns livros na vitrine que me chamaram a atenção, um deles, um livro de receitas da Márcia Frazão. Márcia Frazão vive na serra fluminense, e já andou escrevendo sobre o que o povo chama bruxaria, feitiçaria, essas coisas. É uma figura simpática na mídia, ensinando chá pra diminuir cólica, tempero pra pão integral, coisas muito simples mas que funcionam, nada de voar em vassouras nem de ir contra as leis da tal ciência moderna.
O livro é uma graça. Ela conta a história da amizade que teve com uma velha senhora francesa, quando, dura de tudo, mudou pra serra com o marido e os filhos, trotskista e filósofa de formação. A tal senhorinha, sobrevivente da Segunda Guerra, cozinhava muito bem, coisas simples, de culinária doméstica francesa, como pain perdu ( fatia de pão velho, passada no ovo batido com baunilha e leite, e frita na manteiga- a nossa rabanada, sem o vinho no caso). Márcia conta da receita de bolo de chocolate com queijo que aprendeu da senhora, e dos tempos difíceis, de penúria e falta de recursos, e da morte da Jacqueline, a velhinha fofa que amava alecrim.
Eu fiquei com vontade de chorar. Primeiro, porque saquei que andei tão mal nos últimos dias que nem cozinhar cozinhei. Fiquei com vontade de comprar o livro, nem é tão caro, mas nem dinheiro pra isso tenho. Segundo, porque senti falta de amigos que tão longe, e de outros que não vão voltar mais mesmo, pelo menos nessa encadernação. A velhinha fofa francesa, sempre dura porque inventou, segundo Márcia, um método infalível de ensinar francês pros alunos dela, que aprendiam e iam pra França, dizia que em toda cozinha existem duendes, que cuidam das coisas e que dão a idéia pras pessoas do que cozinharem.
Saí da livraria e fui nas lojas de 1,99 da mesma Barão de Jaguara, comprar uns brincos e um chinelo chinês peruíssimo, que vou usar por aí na minha habitual falta de noção fashion. Passei pelo mercado, e nenhuma inspiração culinária me ocorreu.
Cheguei em casa, afazeres profissionais me ocuparam. De repente, fui pra cozinha e o duende me deu a idéia: minha mãe tinha me dado uma bandeijinha de abóbora kabochan ralada, me dizendo faça uma sopa. Peguei a kabochan, leite e comecei a cozinhar. Só tinha a kabochan e umas batatas, e metade de uma cebola. Cozinhei as batatas na pressão. O creme da kabochan começou a cheirar bem, e eu pensei, vou pôr pedaços das batatas, gengibre, pimenta do reino, e salgar com shoyo. Então ficou assim a sopa do duende, boa demais pra me curar da minha tristeza e das minhas preocupações e da minha cólica.

Sunday, November 04, 2007

Show! Show! Show!


E eu comecei a ler, de forma irresponsável, the old William. Peguei na estante um pequeno volume, vermelho, com três das tragédias, Romeu e Julieta, Macbeth e outra que agora esqueço.
Toda hora me pego lendo, no voluminho vermelho, coisas que me levam a mundos e mundos. O bom dos gigantes é isso: segundo um velho preceito, um anão nos ombros de um gigante vê toda a superfície do planeta. E gigante que é gigante é generoso, desce até o pequeno anãozinho ignorante e mané.

Um dos discursos de Frei Lorenzo, o confidente e conselheiro dos desventurados amantes de Verona, é uma linda reflexão sobre como as nossas partes podem entrar em conflito, e com isso, nos fazer sofrer (o coração, a mente, a vontade). Mas o que mais me prendeu foi o Ato IV, Cena I, de Macbeth. O rei vai até a caverna das três Bruxas, e pede que elas mostrem o oculto através de seus mestres, fantasmas, espectros que revelam a vitória sangrenta de Macbeth, mas também seu declínio irreversível. Na tradução em português, a hora dramática em que as três feiticeiras clamam pela aparição das almas de oito reis, sendo o último o assassinado Banquo, em que elas berram "Show! Show! Show!", ficou "Pantomina! Pantomina".


Corri no Google e descobri na Wikipédia que "pantomine" é muito posterior a Shakespeare, pra minha desilusão, que fiquei no carro cantando "Lady Lady Lady", do Joe Esposito, trilha sonora do Flashdance, que tem pantomine na letra. A idéia de pantomine como espetáculo teatral, segundo a sempre irresponsável Wikipédia, surgiu em inglês no século XIX. Tem um filme lindo sobre o teatro de massas na Inglaterra vitoriana, chamado Topsy Turvy.


Achei versões on line do original, e as bruxas clamam "Show, Show, Show". Fiquei pensando que seria melhor no caso "Espetáculo, Espetáculo". De qualquer forma, parece que as feiticeiras promovem uma peça dentro da peça, reforçando o caratér solene do momento em que as oito aparições reais, culminadas por Banquo, mostram a Macbeth o caráter provisório da autoridade, ou como diz o texto explicitamente, da soberania dos monarcas.
Acima, Banquo, Macbeth e as três bruxas, do Füssli, cena do Ato I, onde os dois sabem pelas feiticeiras que Macbeth será rei, mas a linhagem de Banquo predominará. Em política, não adianta se pensar só no bel prazer e na satisfação imediata: Macbeth mata o amigo Banquo, o rei Duncan, mas se torna um rei odiado e presa fácil da corte que desconfia de seus horrendos crimes. Lady Macbeth pira de angústia, de culpa. No caso, o trágico é que Shakespeare aponta que no interior do culpado surge sua desgraça, mas não há no mundo nenhum mecanismo humano ou divino de justiça verdadeira. A se refletir sobre isso, mais e mais e mais.

Thursday, November 01, 2007

TV Panda

-Não consigo marcar minha defesa. Problemas de calendário e de composição da banca. Eita maleita...


-Meu dente caiu de novo, ontem, depois que vi o povo do mal, vulgo cordão da bola preta, sem querer no IFCH. Arreda vodu!
-Fui louca o suficiente pra passar roupa nesse calor de Alalaô. Quase morri na terceira blusa e deixei tudo sem passar mesmo.
-Tem gente querida longe. Mas tem gente querida perto. E tudo, nessa semana, foi contornável. E ainda tive momentos deliciosos. E dá-lhe Grace Jones, La Vie en Rose. Sou uma senhora de 30 anos. E isso é tão bom, tão bom, tão gostoso.