Saturday, September 26, 2009

Encontros e desencontros

Essa semana fiz aniversário. Passei o dia feliz, feliz. Apesar da ressaca de mais um concurso e da preocupação constante com meu futuro profissional, acho que no geral as coisas vão bem. Quer dizer, tem horas que eu identifico claramente meu mal estar, eu sei onde está o buraco, e é sempre melhor saber onde está nosso buraco do que ficar totalmente no buraco. Enfim.
Filosofias de botequim à parte, tirei uns dias de folga, e li um livro muito bom, Elizabeth Costello, do Coetzee. Eu li Desonra, um romance dele bem difícil, em inglês, e não digeri bem algumas coisas. Agora, Elizabeth Costello, gostei demais. São narrativas curtas sobre uma escritora australiana, que na juventude escreveu um livro sobre os Bloom, personagens de Joyce, e que aos 60 e poucos anos entra no circuito de prêmios em universidades americanas e palestras para aposentados em cruzeiros para a Antártica. Costello é vegetariana convicta e tem idéias pouco heterodoxas sobre a relação dos homens com os animais, Literatura, humanidades e qualquer outra coisa, pra desgosto da nora e dos que ouvem suas palestras.
Me identifiquei de imediato com a personagem, que, ao que parece, é um alter ego do próprio Coetzee: sou mestra em falar o que a audiência não quer ouvir, e a criatura que escreveu de forma completamente casuística textinhos que alguns colegas infelizmente precisam citar. Ou seja, fracasso de público e crítica. Mas mesmo assim eu fiquei feliz no meu aniversário- acho que uma certa impopularidade profissional cai bem nas pessoas.
Fica um ar decadente, que é bastante divertido; tive vontade de aprender a costurar, a fazer aula de artesanato e zerar o QI vendo estrelas.

Sunday, September 20, 2009

Avohai

Dias difíceis. Tem quem acredite em inferno astral, e hoje Patrix me informou muito gentilmente que uma astróloga famosa, uma certa Susan Muller, falou que a semana passada foi uma conjuntura infeliz dos astros, principalmente os dias 17 e 18. Acreditem ou não, e eu não sou muito fã de Astrologia, depois de ler Adorno, mas realmente essa semana foi uma tristeza, em todos os aspectos.
Se os astros não favoreciam a humanidade, em duplo não me favoreceram, inferno astral e menstruação, além de uma conjuntura política altamente desfavorável, pra não dizer, total péssima. Não sei como os caros leitores fizeram pra suportar a semaninha dantesca, e agora, nel giorno del Signore, é preciso a gente recorrer à uma proteção espiritual de peso. Acho que só um Merlin, um druida bem velho, um avô bem sábio, um Oxalá de branco, um Deus do Antigo Testamento tira a gente dessa.

Saturday, September 19, 2009

Thursday, September 17, 2009

Angústia

Eu sofro muito de uma coisa que tá fora de moda, de angústia. E tenho uma maldição, me sentir culpada por tudo. Então, essas duas coisas fazem com que minha vida às vezes se torne um verdadeiro inferno, digno de Dante. Tem horas que acho que fui estudar o grande florentino por conta disso: pra entender melhor o universo que existe dentro de mim, cheio de diabinhos, torturas, monstrinhos da Antigüidade, gentes do mal e apenas dois poetinhas navegando.
O que sempre me salvou muito da minha angústia foram os estudos, a leitura. Desde pequena, eu lia até rótulo de detergente, e isso fazia com que eu tomasse contato com o mundo lá fora, e visse que meus sofrimentos eram muito relativos. Gostava particularmente de livros de História e Astronomia: hoje vejo que eram os livros que me traziam distâncias enormes de tempo e espaço, o que preenchia os meus vazios.
Em todas as épocas, e principalmente nas particularmente difíceis, as bibliotecas eram meus refúgios secretos. Na escola, eu não era lá muito aplicada, nem tampouco muito caprichosa, mas enfrentava com alegria e disposição as tarefas, principalmente as de leitura. Lembro de sempre pegar os dois livrinhos indicados pelas professoras para ler nas férias, no primário, e minhas redações eram passavéis.
Meu entusiasmo aumentou 450% na universidade. Não sei explicar, mas logo no primeiro ano de Sociais o Espírito Santo baixou na minha cabeça e eu fiz uns trabalhinhos que ficaram célebres, como o Leviatã de Thomas Hobbes em quadrinhos. Eu adorava a biblioteca do IFCH... e assim passei meus anos de graduação e pós-graduação.
Agora enfrento a batelada de concursos por aí. Fico feliz em preparar os pontos. Mas não posso mais ficar calada diante das palhaçadas que eu vejo por aí. Gente que combina nota, candidato que sacaneia outro, enfim, um verdadeiro carnaval. Então, agora, neste momento da minha vida, o que me salvava da minha angústia virou o principal motivo dela. Ninguém merece.

Saturday, September 12, 2009

Cineminha


Há um tempo atrás, eu navegava bastante pela internet procurando o rastro dos brinquedos que tive e que sumiram na poeira dos tempos ( ou nas mãozinhas destruidoras lá de casa, minhas e do meu irmão). Muitos dos nossos brinquedos repousam nos maleiros da minha mãe, aqui em casa eu só tenho meu Snif Snif ( sim, lembram desses cachorrinhos de pano?) e os brinquedos comprados na idade adulta (Pinóquios italianos, etc). Agora, um monte de coisa se perdeu.
Lembro que em 2005, por aí, a Estrela ainda pesquisava a história de seus próprios brinquedos, e eu tinha lido uma linda História do Brinquedo do Walter Benjamin. Até cheguei a pensar em escrever algo e tal, mas acabei me enfiando de vez no Inferno e o tiozão me consumiu os anos seguintes.
Agora, tem um pessoal muito legal fazendo blogs sobre brinquedos antigos ou memorabilia dos anos 80. Acho muito bacana isso, a gente aqui no Brasil infelizmente não tem muito o costume de guardar coisas antigas ou falar sobre elas... o que é uma pena.
Mas enfim, eu achei o registro ( e até alguns pra vender, no Mercado Livre) de um dos meus brinquedos favoritos: o Mini-Cine Disney da Estrela. Era um projetorzinho de cinema, e os filmes eram uns cartuchos que a gente encaixava... vinha com o filme do Mickey Pé de Feijão, e eu adorava a cena que o Gigante ficava todo enrolado nas cordas. Daí começou o meu interesse por desenhos animados, e meu pai levava a gente nas sessões de desenhos no cinema da Cesp, o auditório do prédio que queimou na Paulista. Nas noites de domingo, eu não perdia um Lanterna Mágica, o programa de desenhos que passava na TV Cultura, e que era um grande barato: produções do Leste Europeu, japonesas, enfim, do mundo inteiro passavam lá, e eu gostava demais, além dos desenhos animados nossos de todo dia.
Meu tio tinha um projetor antigo, e passava filmes do Chaplin pra gente. Eu não vou ao cinema quase nunca hoje em dia: penso que tenho uma má vontade atávica com as grandes redes. Em termos de conforto, reconheço, é muito melhor, blá, blá blá, mas sei lá, eu prefiro o Paradiso, e os cinemas antigos, na rua, no centro. Ando morrendo de vontade de pegar uma sessão no restaurado Cine Marabá, em São Paulo. Ah, se alguém achar pra mim um Mini-Cine antigo de aniversário, eu também topo!

Wednesday, September 09, 2009

Orkut

cinco coisas sem as quais não consigo viver:

Pão de mel
Rolling Stones
Tiziano Vecellio
História
Amor

Monday, September 07, 2009

Bolos- desastres ecológicos?

Ontem, sem grandes coisas pra fazer no feriadão, fui atrás, na internet, de receitas de bolo, essas coisas. Fiquei surpresa ao descobrir o mundo da tal pasta americana, essa pasta dura de açúcar que permite, hoje, às boleiras ( ops, cake designers) fazerem mundos e fundos coloridos em decoração.
Dei uma olhada em alguns sites de doceiras e boleiras ( ops, sweeties e cake designers) por aí. Muita pasta americana, muito cupcake ( pra mim, conhecidos como bolinhos) com muito, muito icing ( cobertura) colorida, e blá blá blá.
Fuçei mais e descobri que a tal pasta e muita coisa já se vende pronta, por indústrias do ramo alimentício. Mesmo no ramo de panificação, hoje se compra mistura pra bomba de chocolate, pães e muitas coisas, bastando o pessoal da padaria (ops, bakery) misturar e assar.
Fiquei pensando na industrialização da coisa. Quer dizer, evidente que eu não pensava que as cake designers atuais eram como a minha bisavó, doceira na velha Campos dos Goytacazes, que ficava o dia inteiro virando e revirando tachos de doces, a tal ponto que minha avó traumatizou e não fez doces o resto da vida. Agora comprar tudo pronto... o problema é que fica tudo com o mesmo gosto.
Acho muito sensível a piora da qualidade das comidas que eu vejo por aí, e no setor de patisserie (vocês vejam que eu tô aprendendo a refinar o meu vocabulário culinário) isso é muito sensível. Onde comer um bom doce em Campinas? Digo, um doce diferente, saboroso, um doce que não seja enjoativo, extremamente doce, que não seja feito só de leite condensado? Difícil. Ainda no Rio, em março, dei um jeito de passar na Colombo. Não existem mais confeitarias em Campinas, tinha a Dolder no Centro de Convivência, mas que sumiu, foi parar no Gramado, sei lá.
Levada por essas indagações, ainda fuçei mais e achei uma pérola da blogosfera:
http://cakewrecks.blogspot.com/
Esse blog reúne fotos dos piores bolos e doces que o pessoal encontra pelos EUA afora, pátria da pasta americana, da cobertura azul, da foto de gelatina e de todo tipo de horror culinário. Aviso: as fotos são tenebrosas, tiram a fome de qualquer um e podem traumatizar os mais sensíveis.
Não tenho nada contra as decorações modernas de bolos, mas depois de tudo isso tive muita saudade do pão-de-ló branco, com um creme delicadíssimo, chantilly fininho e morangos, que uma senhora de Jundiaí fazia pra gente. Uma leveza! Decoração: só uns biquinhos de renda de chantilly, moranguinhos e basta.

Friday, September 04, 2009

Para a hora feliz...

Um presentinho pra vocês, de sexta-feira chuvosa.


http://www.4shared.com/file/115845314/6f3104f4/Eduardo_Dusek-_Happy_Hour.html

Mexidinho

Minha mãe, quando eu era criança, pegava o que sobrava ( carne, frango, legume, sei lá), virava na farinha e tava pronto o famoso mexidinho, o restodontê, o clássico da culinária caseira beijomeliga. Às vezes a assistência, vulgo eu e meu irmão, reclamávamos, mas de outras feitas o mexidinho salvava a nossa brava fome, vindos da escola.

Um conto bonitinho da Adélia Prado também fala disso, da pessoa pegando o resto do molho, do arroz, virando na farinha, quebrando um ovo por cima e lascando na panela mesmo. Acontece com quem gosta de cozinhar, com quem precisa cozinhar, as duas coisas e com quem tem a consciência, maior, que sobrinha de comida vira coisa muito boa.

Uma vez, fui falar pra uma pessoa nefasta que eu julgava minha amiga que canja se faz com a carcaça do frango, arroz, muitas vezes sobra mesmo de arroz. Essa criatura me ridicularizou por anos, e pelas minhas costas dizia que eu precisava me tratar por dizer por aí que fazia comida com sobras. Para uma festinha na casa dessa pessoa, fiz uma vez uma torta de palmito com muito esmero, que foi devidamente ridicularizada por ser "torta de sobra de geladeira". Eu devia ter desconfiado do caráter da santa ali. Vai ser ignorante assim no raio que parta: qualquer indivíduo com um mínimo de bom senso na cabeça sabe que muitas coisas da culinária clássica surgiram da fome, da necessidade de comer, do resto, da carne de segunda e do caldo ralo de legumes.

Só pra constar nos autos, hoje minha omelete deu certo.

Tuesday, September 01, 2009

Amor doloroso

A minha alma está maior. Respiro mais fácil e dói.
O inferno é o estreitamento.
Agora, é vida. E dói.