Saturday, October 29, 2005

Melhores comidas em Chicago

Da série O Melhor de Chicago para você, as melhores comidas degustadas por essa peregrina do Inferno, até o presente momento:
1) os burritos e os tacos do Chipotle. O Chipotle é restaurante mexicano que tem aqui, e tem toda uma filosofia de ser diferenciado. Realmente, as coisas vem fresquinhas, são montadas com toda a higiene na sua frente, e custam muito, muito barato. Tipo sete dólares, você almoça bem no Chipotle: tacos com frango, guacamole e salada e um refri monstro.
3)o hot-dog Chicago style do Golden Coast. Na verdade, todo hot-dog de qualquer espelunca que tiver o selo Vienna Beef vale a pena: essa é a marca da salsicha que faz a cabeça de todo mundo na terra dos Intocáveis. Comi dois muito bons, um aqui perto de casa, num lugar que só tem mexicano ( o cheeseburguer desses maluquinhos é muito bom também) mas o melhor fica no Loop, o downtown chicagoan. É outra espelunca, onde tem uma parte de frango frito que dá colesterol só de olhar, mas o cachorro quente de lá é imbatível. Vem com essa salsicha enorme e rosada, num pão com gergelim preto, conserva de pepino, pimenta verde, dois tipos de cebola, mostarda da braba, sal grosso (???) e pimenta do reino. Meu, como dizem aqui, eat the dog and take a ride.
4)tudo, tudo, do Benningan's. Outra rede, tem um na frente do venerando Art Institute. Um pub com muita comida boa, um frango grelhado, arroz à grega incrementado e brócolis cozido no vapor que é de lascar o caninho. Sugestão do Will, o super-garçom.
6)os hambúrgueres do Johnny Rockets. Lanchonete tipo antiga americana, com jukebox tocando Bee Gees. Mas tem um hambúrguer.... cara, não dá pra acreditar. Outro da série bom e barato, no coração do Magnificent Mile.
7)o almoço e o jantar na casa de Ana e Gabriel. Eles deveriam estar nos guias de Chicago, essas duas figurinhas. O cardápio: pasta e tomates assados, muito azeite e manjericão, bife, couve de bruxelas com amêndoas, e de sobremesa o viciante Cherry Garcia, o melhor sorvete do mundo.
8)o meu mingau de aveia mulatinho. Pois é, aveia Quacker, leite desnatado, açúcar mascavo. Espanta o frio, alumia... os escoceses botam whisky em cima.
9)a omelete de três ovos e cinco pecados do Tempo Café, um café lindo que tem aqui perto de casa. Com gravuras do Rockwell na parede, gente gentil e animada, o Tempo é uma instituição aqui na Golden Coast. O omelete vem na panela, com duas torradas e geléia de laranja. Água gelada e café fraco grátis.
10)as pastas da Corner Bakery, outra instituição na Costa Dourada. Mas as outras lojas da rede não são tão boas, como a daqui, me diz a Ana.
11)as madeleines e balinhas de canela do Starbucks, apresentados pela Ana ( pois é, tô falando que tem que eles nos guias). Já o café de lá... não gosto e pronto. Não gostei muito do Starbucks pra falar a verdade.

Porpetta, a nova companheira

Para alegria e gáudio dos milhões de leitores fiéis do meu blog, informo que adquiri, com um dinheiro que não possuo no momento ( ou seja, no cartão de crédito) uma câmera digital Nikon. Estou aprendendo a lidar com a santa, que até agora só deu um pequeno susto, no Lincoln Park florido e de árvores amareladas e vermelhas: suas pilhas acabaram.
Batizei a tão esperada de Porpetta, devido ao seu design que faz lembrar... uma porpetta. Gostosinha, cheia de molho e recheada de mussarela, Porpetta custou os olhos da fuça. Mas tem prestado bons serviços. Só preciso aprender como Porpetta conversa com Caronte. Daí, colocarei fotinhas de Chicago e meus auto-retratos insones, feitos na madrugada adentro em W Chestnut.
obs) Porpetta nasceu no dia em que o time de baseball local, o White Sox, ganhou o campeonato nacional, pela primeira vez em 87 anos. Go, Go, Sox, diz Porpetta.

Wednesday, October 26, 2005

Indiana Blues or Deep, Deep, Deep America

Eu estudei música muito tempo na minha vida. Primeiro, piano clássico. Com uma professora chata que me tratava mal. Um dia, semi-consciente e sozinha na sala, risquei o piano dela. Foi horrível, sei, mas mais horrível era o que ela fazia comigo.
Depois, meu pai me comprou um Casio, e eu sempre quis tocar numa banda. Tenho esse espírito rock and roll, não tem jeito. Mas nunca tive talento nem oportunidade.
Só estou escrevendo isso porque sinto muito não ter talento para compôr música. Porque, se eu tivesse, comporia um blues pra segunda-feira que passei na Universidade de Notre-Dame, na cidade de South Bend, no Estado vizinho aqui, Indiana.
Foi assim. Desde o início do projeto Dante em Chicago, eu sabia que seria fundamental eu passar nessa universidade, conceituada entre outras coisas por contar no quadro de professores com o antropólogo Roberto da Matta. Lá existe uma coleção importante sobre o Dante, e um programa de estudos especialmente voltado para o comentário da Comédia.
Então, depois de um mês na Golden Coast e na elegante Newberry, peguei um trem e fui para lá.
São três horas de trem, trem confortável, e eu reparando em como as americanas tagarelam. Pra falar mal de outras mulheres, evidentemente.
Com sono, vontade de ir ao banheiro e saco meio cheio, vejo passar por mim pequenas cidades, subúrbios, com as casas sem portão, as ruas sem ninguém ( todo mundo trabalhando no monstro Chicago) e matas já meio amareladas pelo outono. Um pouco de lixo no chão, e depois, South Bend.
South Bend é como se fosse Barão Geraldo. Só que com uma diferença: tem um aeroporto regional, que fica distante da Universidade. O trem pára no aeroporto. E começa a baixaria básica: não tem ônibus, metrô, nada. Táxi mesmo.
Os taxistas, obesos mórbidos e escrotíssimos, empurram você para os carros. Tentei argumentar, e perguntar o valor da corrida. Detalhe: estava com um American Traveler Cheque, que aqui em Chicago as pessoas aceitam sem nem pedir identidade, passaporte nem nada.
Fui empurrada para o que eles chamam de Irish Cab, ou seja, táxi compartilhado. Uma menina muito bonita estava sentada, e falando no celular, como 150% dos americanos. A vida deles é trabalhar e na rua falar no celular.
Bom, no trajeto longo, pergunto de novo para o taxista se ele vai aceitar algo que legalmente é dinheiro. Para meu espanto, o escroto diz que não. Em pânico, começo a revirar minha mochila, em busca dos treze pilas que ele pede pela passagem.
Nisso, a menina pára de falar no celular e me diz que paga o resto pra mim. Surpresa, dou o dinheiro que tenho a ela. Ela começa a conversar comigo, e sua afabilidade destoa do que vejo: ruas intermináveis, casas sem portão, e aquele ar de vida sem perspectivas.
Moral da história: fui salva por essa menina, que se chama Ouakla e é da Nigéria. Ela está em Notre Dame há três anos, fazendo Administração, e me diz com serenidade que no início, foi muito difícil, e que todo final de semana ela vem ver amigos em Chicago, porque South Bend é uma depressão só.
Gentilmente, Ouakla me levou na biblioteca, na seção onde eu precisava ir, e me deu seu celular, dizendo pra ligar que ela me ajudava no que fosse preciso.
Chegando na biblioteca, Ben e Rita, os dois responsáveis pela Coleção Dante, me tratam como uma princesa. Tapete vermelho, edições separadas, muita simpatia e disposição. E me vejo num belo salão com vitrais, edições renascentistas do Dante, e uma estátua de mármore do poeta, além de outras coisas bonitas.
Eu pensei: mas é o mesmo que no Brasil! No meio do nada, a cultura. No meio do canavial, a biblioteca do Sérgio Buarque! É a mesma coisa! A América não é um país: é um continente.
Bom, pergunto do professor de lá, que me forneceu a carta com a qual consegui meu visto. Gostaria de conhecê-lo, pra agradecer, e porque não, fazer um contato, pra depois voltar, quem sabe... Rita sorridente me diz que o dito tinha acabado de passar na biblioteca.
Fico feliz, porque uma semana antes eu havia mandado um e-mail pra ele, e havia recebido uma resposta automática, tipo não estou atendendo. Rita vai atrás, por telefone, do dito, e nada... o cara disappear! Me sinto mais uma vez na velha Barão, atrás dos professores pra assinar papel, blá, blá, blá.
Pelo menos, vi uma edição lindíssima da Comédia, comi uma pizza muito boa e vi um campus belo, estilo gótico americano, 1850. E fiz amizade com a Ouakla.
Mas quando eu voltei pra Chicago, e saí da estação de trem, respirei o arzinho gelado da Michigan Avenue, senti um grande alívio... por não estar na Deep, Deep, Deep America.

Melhores momentos

Da série Recordar é Viver, e ontem esqueci de pagar a conta d'água:

1)os dias em que fui no Art Institute. Bão demais! E de grátis! Chorar ao ver o Van Gogh, o Seurat, os salões de Arte oriental... só o museu vale a viagem!
2)trabalhar na Newberry. Biblioteca excelente, prédio lindo, gente legal, e edição da Divina Comédia a dar com o pau.
3)comer um hot-dog Chicago style. É muito bom! E tem que comer nas espeluncas do Loop ( centro) ou aqui perto de casa, num lugar que descobri porque vive lotado de operários... o hot-dog daqui, com a famosa salsicha Vienna, picles, pimenta, cebola, é de lascar o cano!
4)a Oak Street Beach, o Lincoln Park... sim, porque poder existir verde numa cidade grande.
5)conhecer Ana e Gabriel, os dois fofos que me acolheram tão bem, e as noites e dias em que a gente se encontrou, em meio a teses, sites, e essa cidade linda.
6)achar um brechó com duas velhinhas lindas e cheio de pulôveres da Ralph Lauren pra cima...
7)ficar experimentando sapato que nem uma louca, em pé, em meio à outras fêmeas desvairadas.
8) conhecer minha vizinha, outra velhinha fofa que tem seis gatos dentro do apartamento.... todos pequenos Ewokies de fofura.
9)me ver no feijão prateado no Millenium Park, junto com trilhões de crianças barulhentas.
10)assistir o último filme do Jim Jamursch...
11)aceitar a sugestão do garçom no Benningan's, restaurante na frente do Art Institute, e me deparar com filé de frango, arroz à grega, brócolis e isso ser uma das comidas mais gostosas que já comi na vida!

Piores momentos

Da série "o infortúnio nunca vem só e nunca avisa", problemas enfrentados por mim em Chicago:
1) o cara da Alfândega que resolveu me sortear, revistar todas as minhas malas e pôr tudo de pernas pro ar, sem sequer me ajudar a colocar a tralha toda no carrinho;
2)as duas noites sem dormir por conta de uma dor de dente. É, prosaico e infeliz, mas foi assim. Tenho uma obturação que fica muito perto da raiz do dente. No meu afã de perder os eternos quilinhos a mais, pedi salada e não deu outra, uma pequena partícula de alface entalou, eu fui retirar, cáspida! A minha dentista havia me informado que em clima frio o negócio ia doer. Vi estrelas. Uma semana depois, o dente dá sinal de vida de novo. Moral da história: depois de consultar sites na Internet, decidi tomar uma aspirina e boas. O dente até agora não incomodou mais, mas eu confesso que da salada parti pro omelete.
3)pedir o telefone. Já narrei o feito em outro post, mas só quero acrescentar que tudo ocorreu como narrei, Acredite se Quiser.
4)o pau no Caronte, narrado no post anterior, que tirou meu sono na noite de hoje.
5)fui comer num lugar aqui perto, chamado Tempo Café. E não é que pela primeira vez na vida eu não tinha dinheiro suficiente pra pagar a conta? Foi um sufoco. A minha sorte é que fui salva pela proverbial hospitalidade midwestern. As moças gentilmente confiaram em mim e pude vir buscar o que faltava.
6)na segunda-feira, fui para South Bend, Indiana. Narro no post seguinte, mas o fato é que o taxista escrotinho não aceitou meu Traveler Cheque. De novo, a dura aqui passou sufoco, mas novamente foi salva pela solidariedade feminina. Uma fofa menina que estava compartilhando o táxi comigo pagou o resto e se tornou minha nova amiga...
7)a insônia. Não sei se é trabalho demais, solidão demais, falta do dono do meu coração ( que ficou no Brasil), falta do Brasil, frio, sei lá. Só sei que estou com isso. Em plena Chicago, ninguém merece!

8)agora, a notícia triste e trágica da morte do professor Adriano, com certeza, meu pior momento em Chicago...

9) infelizmente, tenho um projeto de cunhado que não vale a pena comentar. Essa alma danada perturbou o sono do anjo doce que reina no meu coração. Jurei pelo Lago Michigan e pelo rio Chicago que teria vingança. Ótimo, um presente a menos pra levar pro Brasil.

Caronte, o barqueiro do Inferno

Tanto na Eneida quanto na Divina Comédia Caronte é o barqueiro que leva as almas dos recém-falidos à sua nova morada. Dante escreve ser Caronte um velho, "branco por antigo pêlo", que tira sarro do poeta por tentar atravessar o rio Aqueronte estando vivo. Enquanto isso, "Caron dimonio"bate com o remo nas almas indecisas, que não querem admitir que estão literalmente danadas.
Bom, o meu Caronte é meu laptop, que ontem, em plena madrugada fria, me levou ao Inferno. O Touch Pad desse demônio travou, e eu fiquei a noite toda tentando ressuscitá-lo, ou melhor, trazê-lo novamente para esta margem do Aqueronte. Segunda noite de insônia na terra do White Sox, time de baseball daqui que está ganhando e trazendo felicidade e gritos como os dos corinthianos ou ponte-pretanos.
Depois dessa noite infernal, em que Caronte recusava-se a funcionar ou mesmo desligar, às seis da manhã liguei para o Brasil, mais especificamente na casa da minha sogra, e tirei meu futuro cônjuge de seus doces sonhos. Este anjo da candura e do riso se apiedou desta pobre alma condenada e me informou ser necessário apertar o botão liga-desliga de Caronte num tempo maior. E, final e gloriosamente, Caron dimonio resolveu dar o ar da graça. É demais.

Saturday, October 22, 2005

Aldus Manutius, Vinho, Salame e Uma Baguete ( além de Gorgonzola, é claro)

Hoje vi a edição do Aldus Manutius da Comédia.

Pra quem não sabe( eu também não sabia), esse cidadão da Sereníssima República de Veneza foi o maior editor do Renascimento. Equivale dizer que foi o maior editor de todos os tempos.
Em 1502, essa pessoa editou uma Divina Comédia. Encomendou o texto ao cardeal Bembo, que corrigiu alguns erros das edições anteriores. Ao invés de fazer uma edição grande, como as outras, fez uma de bolso. Detalhe: em papel de qualidade, com letras lindas, texto impecável... e ilustrações feitas a mão, delicadas. Atrás do Virgílio, aparece uma aurora lindíssima. O livro tem as margens douradas, e decoração nas folhas.
Eu vi esse troço hoje. Na Newberry. Mostrei pra uma moça italiana que eu conheci lá, e ela me agradeceu muito. Fiquei tão feliz que fui comer uma macarronada no almoço, dormi um sono dos justos à tarde e à noite, fui no supermercado, lasquei um Lambrusco, salame, pão e prosciuto, na conta, e adicionei uvas e um bombom maravilhoso. Tudo não-diet. E brindei à saúde de Aldus Manutius.

Sunday, October 16, 2005

Oak Street Beach

Da série desta humilde escriba nas terras chicagoans.
Hoje eu fui ter com o velho Michigan. Moro a uns quatro quarteirões desta imensidão azul e que muda minha concepção de "gelado"... o "gelado" pode ser sempre mais "gelado", essa é a verdade.
Andando pela Lake Drive, achei os túneis para os pedestres irem para a praia. É, dá praia esse pedaço de geleira. No calor, o povo se joga mesmo, tudo nessa vida refresca. Agora, início de outono, a brisa gelada diz que o Michigan está respirando, e trazendo o frio. O dia, ensolarado, céu de brigadeiro, como se diz em aviação, convidavam ao passeio e às reflexões inúteis.
Você atravessa estes túneis, e dá com o Lago. Nas margens, um pouco de areia, pedras ou grandes degraus de cimento. Toda a segurança possível, etcs, etcs, estamos falando de EUA, enfim...
Tem um parque ao lado, com as inevitáveis árvores gigantescas, começando a amarelar. E depois, o tal Navy Pier, um parque de diversões também gigante. Tudo aqui é gigante...
Sentei-me às margens da divindade potawatomi e entreguei-me a uns dos piores pecados: a preguiça.
É que do outro lado, o skyline inteiro dessa cidade arrojada e elegante despontava, na orla. Senti aquela preguiça que a gente sente diante do que é bonito: no Rio, também tenho vontade de deitar e ficar vendo a vista. Roma, etcs, etcs, lugares bonitos dão preguiça. Depois de dias difícies, eu me encontro comigo mesma, com a cabeça numas músicas, entendendo essas músicas, e ouvindo o Lago resfolegar, se encrespar e ficar frio, muito frio.
Quando eu era muito jovem, mas muito jovem mesmo, li o Poder do Mito, do Campbell. Meus amigos antropólogos podem me desancar: esse livro é horrível, não presta, e tudo o mais. Mas me lembrei de uma história, aqui de uma nação indígena das terras que mais tarde deram nessa confusão de EUA. A história de uma moça que se casou com um cara, e descobriu que ele era um feiticeiro, que se transformava em cobra, como todos os parentes dele. Depois de várias peripércias, essa moça se dá conta que o cara não prestava, vamos dizer assim, estava a serviço do mal.
Ela corre, corre, e o feiticeiro da tribo dela a puxa para cima... ela estava vivendo dentro de um lago. Depois de tanta beleza, e um belo omelete de três ovos, café fraco e água gelada, dormi no sofá e sonhei que entrava dentro do lago. Depois, sonhei que saía, e isso foi de um extremo alívio. Aí lembrei dessa história e achei engraçado, e decidi que Oak Street Beach é um dos lugares mais bonitos que eu já vi, na minha vida.

Thursday, October 13, 2005

Visão do Paraíso

Eu acho que alguém poderia prestar um serviço de utilidade pública e traduzir Visão do Paraíso, do velho patriarca Buarque de Hollanda, pro inglês. Ia vender que nem pão quente, modificar a historiografia anglo-saxã, ia vender mais que havaiana!
Estou falando. Se o pessoal da Newberry lesse o Sergião, eles iam ficar malucos...
Falando sério. Se não leu Visão do Paraíso, leia imediatamente. É um dos livros mais bonitos do mundo. Bem escrito, elegante, erudito, fantástico. Eu tenho um sonho: fazer uma edição ilustrada do Visão. Pode ser uma desculpa para ir na Torre do Tombo, essas coisas. Eu acho incrível ninguém, ainda, na universidade brasileira, ter prestado atenção de verdade nesse livro.
Logo no prefácio, o Sérgio desmonta a historiografia da arte vigente na época ( leia-se formalista) e advoga a favor da Escola de Warburg, o que equivale a assinar a tese que a visualidade renascentista não é clássica, mas sim uma classicização dos esquemas medievais. Uma bomba, para a época.
E a idéia de que uma certa visualidade comandava certos projetos de colonização, é muito atrante para ser tão desapercebida.

Only a Dream in Rio

Você se lembra dessa música? O James Taylor, quando veio pro Brasil, no Rock in Rio I, fez essa canção. Tem uma gravação linda, linda, do Milton Nascimento.

Eu ouvi essa música casualmente, hoje, e desatei a chorar. De saudade do Brasil. Engraçado que estava falando no msn com duas amigas, muito queridas, e as duas estavam naquele bode que só brasileiro consegue amarrar, em pleno dia de Nossa Senhora Aparecida. Muita corrupção, muita injustiça social, muita mediocridade, muita falta do que fazer, muita falta de ética mesmo.
Não tem nem o que discutir, o Brasil está uma merda. Nesse momento, outubro de 2005, o Brasil está uma merda. Fazer o quê?
Mas eu pensei no Rio. Tão combalido, violento, palco de uma miséria braba. Pra me consolar, a música do Taylor me lembrou da vista do Redentor. E aí eu comecei a chorar.
Porque brasileiro sente falta desta merda de país no exterior?

Sunday, October 09, 2005

Profundezas

Hoje, um amigo no msn disse que viu um ex meu num bar, em São Paulo, com uma moça.
Essa notícia boba veio quando eu estava em papos complicadíssimos, no mesmo msn. Eu tensa, falando de umas coisas foda, e aí eu me lembrei de uma coisa.
Esse meu ex, quando quis dar tudo por encerrado, me disse que não me entendia. Que eu era muito pesada, que eu levava tudo muito a sério, que uma coisa que era pra ser leve, comigo virava procissão de Sexta-Feira Santa.
Esse comentário dele me marcou muito fundo. Tão fundo que os anos seguintes, me condenei à profundeza. Eu ainda fiquei apaixonada por ele, e sofria muito com sua indiferença. E achava que o meu jeito era o culpado por ele ter se afastado de mim.
Mas agora, eu acho que a profundeza é o que me salva. Ou melhor, a consciência da profundeza. Na época que ele me disse isso, eu passava por problemas de saúde, coisas péssimas na minha família, e ele era casado quando a gente se conheceu.
Isso me lembra outra história. Eu tinha nove anos quando mudamos pra Jundiaí. Meu pai era fiador de um irmão. Esse cara tentou dar um golpe na G&M, em São Bernardo, onde ele trabalhava, e descobriram. Ele fugiu e meu pai teve que pagar tudo. Na época, ele dava aulas num curso técnico num colégio de Jundiaí, e os padres de lá ofereceram ajuda.
Eu fui parar nesse colégio. Apesar do catolicismo do meu pai e da minha avó, eu havia sido uma pequena pagã até então. A minha profesora, na Páscoa, nos levou na capela do colégio, um lugar escuro, com lindos baixo-relevos em cor de marfim e moldura de madeira escura, com os Passos da Paixão. Ela nos contou dos sofrimentos de Cristo, e eu comecei a chorar, desesperada.
Dessa experiência veio a profundeza. Não consigo ver gente sofrendo. Sofro pelo mundo ser péssimo, e sou meio Cassandra. Sabe, a moça profetisa de Tróia, que ninguém acreditava? Sou eu mesma. Eu vejo buracos. Na relação entre as pessoas, nas pessoas. E, se eu amo a pessoa, falo do buraco. Mas isso é péssimo. Minha analista já me alertou claramente que isso é sinal de onipotência narcísica brava, que eu não vou salvar o mundo, e que preciso ver primeiro e sempre o meu buraco. Ela tem toda a razão. Mas que eu sou tensa, e vejo buracos, isso eu vejo mesmo. Que posso fazer?

Saturday, October 08, 2005

Internet em W Chestnut

Pra quem está estranhando minha volta à labuta blogueira. Agora tenho internet no lugar onde moro, na cidade potawatomi.
Daí a fúria escritiva, vocês me perdoem, mas estou entalada. Na biblioteca, nos dias de semana, sou da tese. Que está devidamente emperrada, diante dos últimos acontecimentos.
Ontem fui assistir, com um casal precioso que conheci aqui, o novo filme do Jim Jamursch. Chama-se "Broken Flowers", com o Bill Murray. É ótimo.
Essa semana foi de fortes emoções. Singrei a avenida Michigan, saudei o velho deus dos potawatomi e fui ter com minha nova divindade, The Art Institute of Chicago. Gente, o museu é incrível. O acervo é fantástico, a expografia perfeita e tudo o mais. Um MASP dando certo. Com licença, eu vou à luta!

Barbaridades no Orkut e mais protesto

Que o Orkut é uma bela droga, todo mundo sabe. E que a discussão sobre os limites da expressão das opiniões, sempre dá numa bela merda. Censura é uma merda, liberdade de idiotice, idem. Não sei o que pensar a respeito.
Enfim, comovida com o brutal assassinato do professor Adriano, busquei seu perfil no site, e encontrei na sua página de scraps muitos, muitos recados de alunos, amigos, vizinhos e familiares, se despedindo de forma linda dele.
Mas não é que, no meio, tem um idiota dizendo que "ser homossexual não é doença, mas mata"? E denegrindo a imagem da vítima de tão covarde e injustificada violência?
Isso me lembrou outro caso. No início do ano, uma aluna da PUCCAMP foi violentada por um grupo de colegas, que aproveitaram de sua inconsciência, chamaram vizinhos de república para assistir e ainda gravaram tudo e colocaram na internet.
A moça teve coragem de denunciar, e os bonitos foram presos. Mas não é que os colegas, no Orkut, defendem os estupradores com os argumentos mais idiotas possíveis, daqueles que qualquer leitura chulé de "Freud em quadrinhos" detonaria? Moças e rapazes defendendo os pobres injustiçados e culpando a vítima, denegrindo sua imagem, a ofendendo e assustando colegas revoltados. E fazendo passeata e missa em homenagem aos caras.
É demais. O que me causa espanto, náuseas, vergonha e vontade de matar é que a argumentação é arrogante, infundada, e que em outro país traria dores de cabeça homéricas, com guerras nos tribunais. O que me consola é que gente assim, medíocre, passa a vida inteira infeliz, no pior da caverna, vendo as sombras das sombras e achando tudo lindo, nas filas das boates decadentes da cidade de Campinas e região. Quanto aos criminosos, cadeia. Precisam pagar pelo que fizeram. Nos dois casos.

PROTESTO

Quero deixar aqui meu repúdio total, veemente, contra a violência sofrida por Carlos Adriano Thomaz, professor de Educação Física de Campinas, que foi brutal e covardemente assassinado por três alunos no distrito de Sousas. Leia a matéria no site do Correio Popular, seção Cidades, dia 5 passado.
Espero que seja feita justiça e que a memória do colega Adriano não se perca. Segundo as investigações, ele foi morto por preconceito, por ser assumidamente homossexual. Até quanto vamos suportar, nas cidades brasileiras, os crimes cometidos por jovens mal-educados no sentido mais amplo do termo?
Minha completa solidariedade aos colegas, alunos, família de Adriano.

Estou de saco cheio de...

- gente do mal. Quer enveredar pelo reino de Lúcifer? Vá, meu filho, vá fundo, só não leve ninguém junto. Lá, encontrará gente pior que você.
-classe média brasileira. Historicamente, precisa se desculpar pela Marcha por Deus, Família e Liberdade, e precisa ser mais inteligente. É burra demais.
-gente dizendo que o Brasil é uma merda. More na Suíça e se suicide, meu filho.
-gente do mal. Preciso repetir. Ou você se emenda, ou acaba mal. Está se lixando? Então dane-se.
-gente preconceituosa. Mané, aprenda: eu tenho preconceito com quem tem preconceito. Contra gay, mulher, gatinhos, plantas, crianças, idosos, seres humanos em geral, gente viva, gente morta, religiosos, ateus, pagãos e crentes. Em vez de ficar fuçando o lixo no quintal alheio, limpe o seu. E leia Freud.
-gente do mal. Meu, vai jogar uruca na sua casa, que deve ser um lixo.
-gente que bota regra. Queria escrever outro verbo, mas sou educada. Meu, porque você acha que eu tenho que pensar, vestir, agir, votar, como você? Vá me encontrar na esquina.
-gente do mal. Repito. Você é infeliz, coitado. Ou despiroque, ou faça um vodu para si mesmo.
-de ficar de saco cheio. Puta, ninguém merece!

Roberto Carlos

Uma vez, eu li um texto do Chico Buarque, acho que no Pasquim. Não, apesar de velha, não sou da época do Pasquim. Mas eu li alguns Pasquim. E li os lindos textos de Caetano exilado, e depois os de Caetano na volta, puto com a esquerda brasileira, que segundo ele, o preferia exilado. Tirando Paula Lavigne, revista Caras e apadrinhamento de gente medíocre, além de alguns discos muito ruins, Caetano estava certo.
Voltando. Eu li esse texto, não sei se foi uma declaração do Chico, que ele estava no aeroporto de Caracas, quando ouviu a voz de Roberto Carlos essoar pelo saguão, cantando Jesus Cristo ou qualquer coisa que o valha. E que, naquele momento, exilado, compreendeu que Roberto era o Brasil, que sua voz era o nosso país.
Exilados, Caetano e Gil embevecidos receberam a visita do Rei. Muita gente não foi visitá-los. E Caetano escreveu, num daqueles momentos de lucidez, que quando Roberto Carlos entrou na sala da casa inglesa, o Brasil entrou com eles.
Aqui estou eu. Não exilada, não por tanto tempo. Mas problemas familiares atingiram quem tem o mais caro do meu coração. Por acaso, no Terra Rádio, Roberto Carlos, e chorei muito, chorei horrores. O Brasil veio me visitar.
Meus pais eram suficientemente de esquerda para me dizer que Roberto Carlos era ruim, brega, vendido à ditadura e à Globo, sendo essa última muito pior que a segunda. Todos os anos, íamos nos Volkswagen da família ( primeiro o infalível Fusca branco, depois Voyages metálicos) para Campos dos Goytacazes. Depois de horas e horas de uma viagem cansativa, quente, enjoada mesmo, chegávamos na casa de dona Maria. Para o de sempre: Natal com meu pai ajudando minha avó, minha mãe brigando com as irmãs folgadas mas tias sempre carinhosíssimas e divertidas, meu pai e minha mãe brigando selvagemente entre eles, noite de Natal atribulada, com gente cozinhando todo tipo de comida, muita briga e baixaria, e TV ligada no especial do... Roberto Carlos.
Lembro de um Natal na casa de minha tia Maria José, depois que dona Maria se foi. Ela morava num apartamento muito pequeno, e cuidava da minha prima abandonada pelos pais. Armaram uma mesa na sala e outra na cozinha. Minha tia gostava muito da Xuxa e do Wando, o que deixava meus pais, fãs de Mílton Nascimento, Chico Buarque e Caetano Veloso, de cabelo em pé.
Naquele ano, fizeram arroz à grega, tender, peru, nhoque (???) e meu pai começou a tirar sarro da minha tia servindo nhoque com arroz. Eu, de saco cheio, querendo estar em qualquer outro lugar que não ali, olho na TV e vejo a figura de branco cantando Jesus Cristo.
Os anos se passaram, eu sempre escutando muito rádio. Quando mudamos pra Campinas, ficava no quartinho dos fundos, ouvindo baixinho a Laser FM, porque achava divertidíssimo, nos meus quinze anos, o brega de Leandro e Leonardo. Nessas, o Rei me pegou. Ouvi a gravação de uma música boba, do Sullivan e Massadas, "Amor Perfeito", boba, boba.
Mas eu percebi, naquelas noites de rádio baixinho, minha mãe histérica me tratando pior que o tapete da sala, que aquela voz era muito, muito bonita.
Depois disso, segui o conselho que Maria Bethânia deu ao irmão em 1965, ou 6, ou 7: preste atenção em Roberto Carlos. Gente, eu vi, é o Brasil.

Última flor do Lácio, inculta e bela

Quero pedir desculpas pelos erros de português que andei cometendo. Lendo o post abaixo, vi um estinção. O que está em extinção é o meu português... nesses últimos dias, não falei língua nenhuma. Falo uma mistura de inglês, português e espanhol ( esse com meu porteiro mexicano, e não vai do Arriba! Buenos dias! Buenas noches! etcs, etcs).
É horrível, e pra piorar, tenho que ler um monte de coisa em francês e italiano. Línguas das quais não domino nada ou quase nada.
Mas o pior foi com a companhia telefônica daqui. Graças ao financiamento da turma do Alckmin, aluguei um apartamento da Biblioteca. As bibliotecárias me deram um 0800, para ligar para a tal SBC e "set up a telephone service"...
Bom, na segunda-feira, do orelhão do saguão de entrada da Newberry, liguei pro tal 0800. Uma gravação atende, e eu compreendo que devo apertar o botão #, porque não recebo nenhum auxílio da previdência daqui, não pago conta de luz junto com o telefone e, o que é mais importante, não tenho nem nunca tive telefone nenhum nos EUA.
Depois, entendo que preciso apertar o número 2, porque se não me enquadrei em nenhuma das alternativas anteriores, que raio estou fazendo nesse serviço. A gravação informa que minha ligação será gravada, para fins de qualidade no serviço.
Música clássica ( acho que é Mozart) e atende uma representative service. Todas aquelas coisas de praxe, que bom que ligou pra nós, blablabla, e a mulher me pergunta em que posso ajudá-la. Digo que sou pesquisadora numa biblioteca pública em Chicago, e que aluguei um apartamento e gostaria de set up a new telephone service. Ela me faz as mesmas perguntas do menu, e digo que não, não recebo nenhum auxílio de previdência social, não, não pago a conta de luz junto com o telefone, e não, não tenho nem nunca tive telefone nenhum nos EUA.
Ela fica meio brava. Me diz para falar meu nome. Eu me confundo, e digo meu sobrenome. Que, para quem acompanha esse blog, sabe que é a única herança que seu Armando deixou pra mim: um sobrenome ilegível em qualquer língua que não seja o holandês.
Ela se atrapalha, eu também. Entendo que é o primeiro nome, e digo o latino e fácil nome que meu pai me lascou na pia batismal. O sobrenome, please, aí é a tortura... preciso soletrar, e não consigo! O alfabeto em inglês me foge da cabeça completamente.... peço desculpas, digo que estou aqui há uma semana apenas... e nada do ABC dos Jacksons Five aparecer na minha combalida mente. Vou me enrolando cada vez mais, e a mulher perde a paciência, diz que não consegue me entender, e que vai me passar pros atendentes que falam polonês ( ???). Vejo que minha situação vai piorar, e digo que me passe pra quem sabe falar Espanhol...
Bom, atende uma moça que diz Hola. Detalhe: nunca em minha vida inteira em estudei Espanhol. Eu não sei falar Espanhol. Digo isso em inglês, a moça ri... e me pede para soletrar meu sobrenome. E eu soletrei de um jeito que seu Armando, onde quer que esteja, está rindo até agora: "a violet, an elephant, a rose, a mouse, two elephants, other rose, a serpent, a city, and a ... a... hydrogen"...
A moça me pede para que eu passe um fax com cópias de duas identidades e comprovante de endereço no Brasil ( ????). E me pede um número para contato. Explico que não tenho o número para contato, ( não, não é piada), que estou falando de um orelhão numa biblioteca pública. A mulher insiste. Sou obrigada a sair do orelhão, correndo e levando uma bronca do chefe de segurança daqui, e pegar qualquer folheto da biblioteca. Passei o primeiro número que vi.
No outro dia, trago xerox do passaporte, do visto, faço um xerox do meu RG com o moço daqui da biblioteca ( que ficou olhando meu RG como se fosse algo vindo de Marte) e peço para Erin, a superauxiliar de bibliotecária daqui, passar o fax pra mim. Ela gentilmente acede, mas me faz ver que o número está errado. Desço as escadarias, vou pro orelhão, enfrento o 0800 de novo e peço prum moço gentil e bem educado o número correto. Ele me informa e explica que, se eu passar o fax o quanto antes, meu telefone será ligado no dia seguinte.
Erin passa o fax pra mim. No dia seguinte, ligo novamente no 0800, tudo de novo, soletro meu ilustre sobrenome flamengo, aparentado do grande pintor, do jeito mais tosco possível, e a moça começa a me informar das opções de serviço que existem. Digo ya, ya, ya, sem entender direito, e ela me pergunta o número do meu cartão de crédito, que por razões de segurança deixei no apartamento. Digo que tenho cartão de crédito, mas que ele não está comigo. Ela me pede um momento, diz que não pode fazer nada.
Dia seguinte, levo meu cartão de crédito, e ligo de novo num número que foi informado no dia anterior. A moça me escuta, eu soletro meu sobrenome de novo ( ai!) e ela me diz que meu nome constra no cadastro, mas ela está na central do estado de Ohio (???), não pode fazer nada a respeito em Illinois, e que eu devo ligar para o número XYZbetaalfaomega.
Perco a paciência e vou almoçar. Já estou quase desistindo do meu intento, quando lembrei dos versos de Camões: "É fraqueza desistir de cousa começada". Acho que o ilustre poeta da nossa língua não previa a companhia SBC, e que atravessar o Cabo da Boa Esperança, perto disso, é fichinha.
Ligo novamente, e toda a tortura de ver um sobrenome digno, católico de quatro costados e que é a única coisa que me resta do meu avô virar violeta, elefante e etcs. A moça desta vez é mais simpática, ri quando eu falo "Paula like Paula Abdul", e me explica pausadamente os pacotes de serviços. Digo que estou com meu cartão de crédito a mão, que a outra moça pediu, e ela estranha. Diz que o cartão é necessário nos casos em que o indivíduo assina o SuperMegaUltraGoldenPlus Package, com direito a ligações ilimitadas para todos os EUA, Europa, taxas ótimas para América Latina, internet a cabo e wireles, massagista tailandês e tudo o mais. Quando pergunto quanto custa tudo, ela me lasca cem dólares por mês. Pergunto novamente, e entendo que ficar falando ya, ya, é concordar com o que estão te oferecendo!
Digo na linguagem universal dos duros que não dá. Moral da história: hoje meu telefone está funcionando, no plano SuperMegaUltraHomelessPoverty, ou seja, só posso fazer ligações locais e olhe lá, não tem nem secretária eletrônica e internet, um abraço.

The Magnificent Mile

Aqui, moro num bairro chamado Golden Coast, como já disse. Fica perto do que o povo daqui chama The Magnificent Mile, ou seja, o trecho da avenida Michigan que vai desde o observatório Hancock e um prédio chamado Waters Tower, e o centro, depois do rio.
Nessa milha magnificente, as grandes lojas são prédios, arranha-céus elegantes. Tem uma torre só da Nike, outra só da Disney; lojas imensas da Apple, da Sony, da Virgin, Gap, Guess, Banana Republic, um hotel Hard Rock, enfim, todas essas cadeias que significam o consumo e a alegria ao redor do mundo.
Pois é, meu caro amiguinho esquerdista latino-americano, torça a cara para as vitrines abarrotadas de coisas, e para as pessoas para quem consumir é hábito vital, essencial, diário. Nunca o fetiche da mercadoria foi tão profundo, tão radical, quanto é nos EUA.
Mas por outro lado... os prédios arquitetonicamente são impecáveis. As pessoas são amigáveis umas com as outras, olhares doces, gente educada, civilizada. Uma espécie em estinção no mundo todo: gente que vai ao museu, que sonha vendo vitrines, mas que não vota no Bush, que ri muito da paranóia de segurança, gente confiante, gente estranha... para nós latino-americanos. Cadê a arrogância, o imperialismo? Em Chicago é difícil de ver. Gente rica, gente pobre, qualquer um pode entrar nas lojas, mesmo na ultrasofisticada e inglesa Blueberry, onde um casaco vale 2000 dólares. E você estranha... será que seria o mesmo na Daslu?
Aqui, é muito natural entrar numa loja. Vi um mendigo entrando na loja da Apple e ele não foi enxotado. E aí, pensei: mas porque esse homem seria tocado para fora?
É claro que existe racismo, é claro que existe Bush. Mas eu gostaria de ver no Brasil esse tipo de coisa. Gostaria mesmo. Qualquer um entrando na Daslu.

Potawatomi

Potawatomi é o nome da nação indígena que vivia aqui em Chicago. Eles foram dizimados pelos ingleses ( bidu) e hoje, muita gente estuda a história desse povo. Na cidade, hoje existem muitos marcos lembrando da história dos Potawatomi.
Interessei-me por isso por ver esses marcos, aqui no centro da cidade. Como ia dizendo, os potawatomi resistiram e empreenderam grandes guerras contra os ingleses. Deram nome ao rio, ao lago, e quase tudo que existe em Illinois.
No século XX, foi a vez dos negros. Nas décadas de 40 e 50, o pai do atual prefeito ( democratas os dois) expulsou a comunidade negra dos bairros nobres da cidade, incluindo esse onde eu moro, Golden Coast.
O pessoal se rebelou, justificadamente. Algumas passeatas no Grant Park foram dispersas pela cavalaria, muita gente morreu.
Nessa cidade de imigrantes, a memória desses acontecimentos está por toda a parte. O sofrimento precisa ser lembrado... também concordo com isso.