Eu estudei música muito tempo na minha vida. Primeiro, piano clássico. Com uma professora chata que me tratava mal. Um dia, semi-consciente e sozinha na sala, risquei o piano dela. Foi horrível, sei, mas mais horrível era o que ela fazia comigo.
Depois, meu pai me comprou um Casio, e eu sempre quis tocar numa banda. Tenho esse espírito rock and roll, não tem jeito. Mas nunca tive talento nem oportunidade.
Só estou escrevendo isso porque sinto muito não ter talento para compôr música. Porque, se eu tivesse, comporia um blues pra segunda-feira que passei na Universidade de Notre-Dame, na cidade de South Bend, no Estado vizinho aqui, Indiana.
Foi assim. Desde o início do projeto Dante em Chicago, eu sabia que seria fundamental eu passar nessa universidade, conceituada entre outras coisas por contar no quadro de professores com o antropólogo Roberto da Matta. Lá existe uma coleção importante sobre o Dante, e um programa de estudos especialmente voltado para o comentário da Comédia.
Então, depois de um mês na Golden Coast e na elegante Newberry, peguei um trem e fui para lá.
São três horas de trem, trem confortável, e eu reparando em como as americanas tagarelam. Pra falar mal de outras mulheres, evidentemente.
Com sono, vontade de ir ao banheiro e saco meio cheio, vejo passar por mim pequenas cidades, subúrbios, com as casas sem portão, as ruas sem ninguém ( todo mundo trabalhando no monstro Chicago) e matas já meio amareladas pelo outono. Um pouco de lixo no chão, e depois, South Bend.
South Bend é como se fosse Barão Geraldo. Só que com uma diferença: tem um aeroporto regional, que fica distante da Universidade. O trem pára no aeroporto. E começa a baixaria básica: não tem ônibus, metrô, nada. Táxi mesmo.
Os taxistas, obesos mórbidos e escrotíssimos, empurram você para os carros. Tentei argumentar, e perguntar o valor da corrida. Detalhe: estava com um American Traveler Cheque, que aqui em Chicago as pessoas aceitam sem nem pedir identidade, passaporte nem nada.
Fui empurrada para o que eles chamam de Irish Cab, ou seja, táxi compartilhado. Uma menina muito bonita estava sentada, e falando no celular, como 150% dos americanos. A vida deles é trabalhar e na rua falar no celular.
Bom, no trajeto longo, pergunto de novo para o taxista se ele vai aceitar algo que legalmente é dinheiro. Para meu espanto, o escroto diz que não. Em pânico, começo a revirar minha mochila, em busca dos treze pilas que ele pede pela passagem.
Nisso, a menina pára de falar no celular e me diz que paga o resto pra mim. Surpresa, dou o dinheiro que tenho a ela. Ela começa a conversar comigo, e sua afabilidade destoa do que vejo: ruas intermináveis, casas sem portão, e aquele ar de vida sem perspectivas.
Moral da história: fui salva por essa menina, que se chama Ouakla e é da Nigéria. Ela está em Notre Dame há três anos, fazendo Administração, e me diz com serenidade que no início, foi muito difícil, e que todo final de semana ela vem ver amigos em Chicago, porque South Bend é uma depressão só.
Gentilmente, Ouakla me levou na biblioteca, na seção onde eu precisava ir, e me deu seu celular, dizendo pra ligar que ela me ajudava no que fosse preciso.
Chegando na biblioteca, Ben e Rita, os dois responsáveis pela Coleção Dante, me tratam como uma princesa. Tapete vermelho, edições separadas, muita simpatia e disposição. E me vejo num belo salão com vitrais, edições renascentistas do Dante, e uma estátua de mármore do poeta, além de outras coisas bonitas.
Eu pensei: mas é o mesmo que no Brasil! No meio do nada, a cultura. No meio do canavial, a biblioteca do Sérgio Buarque! É a mesma coisa! A América não é um país: é um continente.
Bom, pergunto do professor de lá, que me forneceu a carta com a qual consegui meu visto. Gostaria de conhecê-lo, pra agradecer, e porque não, fazer um contato, pra depois voltar, quem sabe... Rita sorridente me diz que o dito tinha acabado de passar na biblioteca.
Fico feliz, porque uma semana antes eu havia mandado um e-mail pra ele, e havia recebido uma resposta automática, tipo não estou atendendo. Rita vai atrás, por telefone, do dito, e nada... o cara disappear! Me sinto mais uma vez na velha Barão, atrás dos professores pra assinar papel, blá, blá, blá.
Pelo menos, vi uma edição lindíssima da Comédia, comi uma pizza muito boa e vi um campus belo, estilo gótico americano, 1850. E fiz amizade com a Ouakla.
Mas quando eu voltei pra Chicago, e saí da estação de trem, respirei o arzinho gelado da Michigan Avenue, senti um grande alívio... por não estar na Deep, Deep, Deep America.

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