Friday, September 26, 2008

Kit do Exu Mirim

Eu não sei porquê, mas um tempo atrás, eu tive o desprazer de encarar umas criaturas que de vez em quando mandam ver no atabaque e, clamando ou por Iemanjá, ou pela Caboclinha Teresa e o Coisa-Ruim da Capa Preta, enchem a paciência não só das venerandas entidades quanto da pequena panda que vos escreve. Eu tenho pra mim que os do poder, que fazem a cabeça e tudo o mais, nossos ancestrais yorubá, ameríndios e habitantes do além, tem muito mais o que fazer do que trazer a pessoa amada em não sei quantos dias, decidir eleição municipal ou, pior que tudo, ficar ouvindo queixa de gente desocupada.
Um amigo meu, muito querido, uma vez viu um Preto Véio descer no terreiro e, ao ouvir as múltiplas reclamações do crazy people, lascou: "Capinar terreno de mandioca, ninguém quer, humpft", sumindo nas trevas e luzes da vida post mortem. Esse Preto Véio era legítimo. E de mais a mais, minha avó, caiçara, demonstrava ceticismo diante dessas tentativas de, através de roubo de cuecas, feitiço da bola de farinha e vela vermelha, passar no vestibular ou fazer coisas que estão perfeitamente no nosso raio de ação.
Outro dia, eu me descabelei de tanto rir com um videozinho do Youtube: o fantástico serviço Umbanda Larga Tabajara, das sempre de vanguarda Organizações Tabajara. Vejam isso e me digam se não é de deixar qualquer Pomba-Gira doida, "o provedor de acesso ao mundo dos orixás":
http://www.youtube.com/watch?v=VVbxGOjJY-0
Mas hoje eu consegui descobrir uma coisa ainda pior: o serviço Macumba On Line!
http://www.macumbaonline.com/. Você vai lá, escohe o despacho ( tem pra tudo, desde "foder a vida", aos clássicos "trazer a pessoa amada" e "deixar vesgo") e, no sossego do seu lar, gratuitamente, manda o Tranca-Rua lascar o povo, sem enfrentar encruzilhadas escuras, terreiros superlotados (ainda mais em época de eleição, já viu, as entidades estão megaocupadas) e ainda guarda o frango com farofa pro domingo! Juntou com a maionese e o Cocão de dois litros, fechou! De qualquer forma, taí a dica, pra se fazer o ebó ao som de "Eu vou botar teu nome na macumba", do Zeca Pagodinho.
Agora, no contraponto, ninguém pode esquecer o célebre axioma do filósofo do futebol Nenen Prancha: "Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava sempre empatado." Eparrei!

Saturday, September 13, 2008

I've been to paradise


Um post da Pati me fez deixar um comentário no blog dela. E escrever aqui. Coisa rara: eu comentar bróugui dos outros e retomar o Meio, sempre no Meio do caminho.



Acho que qualquer nega aos 30 anos se pergunta sobre o que viveu, o que quer pra si mesma e coisa e tal. É muitíssimo comum, na idade balzaquiana, a cidadã ficar acometida de uma grande ansiedade, se ainda não contraiu matrimônio nem gerou descendentes. Daí a indivídua, tomada de grande loucura, comete crimes sentimentais, coisas que nunca nem pensou fazer, na maior cara de pau. Sei de amigas e conhecidas, moças bonitas, inteligentes, descoladas e legais, que de repente, ao chegar ao fatídico trigésimo aniversário, se tornaram vilãs das novelas do Manoel Carlos- ou seja, o pior tipo de mulher que existe, a da classe média alta brasileira. Sim, aquela que engravida pra segurar o cara, liga 34465 vezes no celular do sujeito, bate, xinga, tem ataque histérico e o pior de tudo: sai toda produzida com amigas igualmente em desvario e senta na mesa do bar, afastando todos os portadores de cromossomos Y num raio de 56778 kms.



Isso a gente sabe desde os 14 anos: ficar ansiosa só afasta os pretendentes e os parceiros. E achar que o homem tem obrigação de casar e ter filhos também. Ninguém tem obrigação de nada, o amor não é uma coisa compulsória. Costumo dizer que as pessoas se encontram, não se pertencem. É, é difícil. Muitas vezes a gente precisa falar tchau pra quem a gente gosta. E é chato aguentar pai, mãe, parente, vizinho e até o porteiro do prédio olhando pra gente e falando, coitada, tão bonita e sem marido. Porque tem essa bosta, a mulher de classe média alta brasileira PRECISA ter um marido. Não passa pela cabeça das personagens de novela do Manoel Carlos ir fazer um curso qualquer, viajar, ter uma carreira ou montar um banda de heavy metal. Não: todas tem que casar, ter filhos e depois esfolar as noras.


Tão triste isso. Eu acho que casar e ter filhos é lindo, incrível. Mas cara, não dá pra surtar e virar vilã de novela do Manoel Carlos. Eu ando por exemplo numa fase chata no meu trabalho: me doutorei e agora começou a selva oscura dos concursos, dos caminhos cruzados e quetais. Mas se eu pirar e, pior, virar vilã de novela do Gilberto Braga, tô lascada! Eu vejo colegas fazendo picaretagens dignas de uma Maria de Fátima, de uma Odete Roitmann, umas manobras horríveis. Aos 20 anos, todo mundo é legal. Aos 30, é que são elas: pega a competição pela vaga, mas eu me recuso a entrar nessa nóia e encher meu currículo LATTES de porcaria só pra impressionar os negos.


Todo mundo quer encontrar o amor da vida, ter um emprego incrível, filhos lindos e geniais, ficar magra e antes de mais nada, não ter celulite. E lógico que dá a maior frustação, depois de algumas relações, estar mais encalhada que baleia em piscina Regan. Ou, no meu caso, cheia de trabalho sem remuneração ( tucanei a dureza financeira... ehehehe). Eu ando com problemas, como todo mundo. E também queria ter uma casa na praia, com o Javier Bardem e um moleque me chamando de mamãe, além de um milhão no banco. Agora, se pra conseguir isso, eu tiver que deixar de ser eu mesma, passo. Então, vou tentar atravessar a tormenta com a mesma graça e dignidade com que tentei atravessar o resto, sendo a mesma panda de sempre.


Acho que o que me salva um pouco da maluquice é o fato de ter visto o Camposanto de Pisa. Andei esses dias trabalhando nas fotos e nas lembranças da cidade do campanile caduto, e toda vez que começo a ficar muito piradinha, lembro de que estive no meu paraíso. E pra lá, posso voltar sempre, no meu coração.