Anos e anos, vi meu pai, engenheiro responsável por usinas, pai de dois filhos e orgulhoso batavo descendente, se exaltar e exibir um entusiasmo juvenil pelos LPs do Francisco. Meu pai discutia horas com minha mãe, que junto com uma amiga minha, devem ser as duas mulheres nesse país a não morrerem de amores, nem terem chiliques histéricos quando se fala no nome do homem. Outro dia, inclusive, numa daquelas conversas de bar em que todos falam e todos concordam discordando, essa minha amiga declarou que não daria pro indivíduo, suscitando reações iradas de todas as presentes. Mas essa amiga depois se queimou, dizendo que daria pro Fragonard, pintor genial da corte de Luís XIV, mas um tanto quanto, digamos, suave demais. Então perdeu o crédito de mulher mais invicta do Brasil, só sobrou minha mãe mesmo.
E eu fiquei sem dormir, porque fiz algo ilegal, imoral e que engorda: baixei canções de arquivos compartilhados na internet do velho, depois de labutar tristemente na tese durante o dia. Ele não é tão velho assim, ele não é tão bonito assim, ele tem cara de gente normal. Ele durante muitos anos foi amigo do meu pai, não pega bem, eu sei, dizer que eu daria pra um dos amigos do meu pai. Fica sendo meio, assim, incesto. Também, por temperamento ( esquisito, eu sei) eu sou discreta, não me exalto ao falar de homens, não sou de gritar "lindo" nem de fazer loucuras pra dar pra alguém. Mas o velho é foda. Ele samba na lama de sapato branco, a vida veio e levou, amou daquela vez como se fosse a última, cultiva rosas e rimas achando que é muito bom pra moça que anda tão diferente. Porque eu faço todo dia tudo sempre igual. Todo dia eu penso em parar e me calo com a boca de feijão. Porque na hora do vamos ver, olhos no olhos, quero ver o que você faz.



