Wednesday, December 26, 2007

Boas Festas!

A todos os leitores do Meio do Caminho, meus votos panda de Boas Festas, diretamente do Centro Oeste do país, no ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico, onde nasciam os bororo e onde segundo Caetano nascerá o índio, impávido que nem Mohammed Ali.
Meus votos de paz, saúde e prosperidade, que trouxe do primeiro banho de cachoeira que tomei, em meio a águas douradas, amigos, cheiro de mato e picolé de chocolate recheado com coco!

Friday, December 21, 2007

A memória, algo afetivo e inútil

Aprendi a cantar Guantamera em Roma, com uma senhora uruguaia, viúva de um guerrilheiro Tupac Amaro.
E lembro de um homem que amei muito, comendo arroz, feijão, bife e batata frita na minha frente, depois de perguntar se eu estava servida.
Também me vem à cabeça eu flutuando no mar de Búzios, esperando o entardecer.
E hoje cheguei rindo em casa, sozinha, porque lembrei que o Mussum, quando era chamado de preto, lascava na hora: "preto é seu passado e negra vai ficar sua situação"...

Thursday, December 20, 2007

O Portinari roubado


Gente, aqui vai o Lavrador de Café, do Portinari, obra que foi roubada do acervo do MASP nessa madrugada. Esperemos que, amanhã, os Cézanne, Van Gogh, Gauguin, Renoir, Dégas, Poussin, Delacroix, Rafael, Tiziano, Goya, Portinari, Anita Malfatti, Vítor Meirelles, Chagall, entre tantos outros, continuem nas paredes horríveis e mal iluminadas da atual tosca expografia do museu, sem conservação adequada, mas no museu.


O Lavrador de Café, 1939. Óleo sobre tela, 100x81cm.

Absurdo


Caríssimos,



Hoje acordei e dei com a nota no Terra: roubaram o MASP. Levaram o Retrato de Suzanne Bloch, do Picasso, e o Lavrador de Café do Portinari.


Escrevi indignada pra minha lista inteira de emails. É preciso fazer alguma coisa em relação ao MASP. Não dá mais pra gente, digo, a gente que trabalha com Arte, História, ignorar a situação e achar que o problema não é nosso.


Deixo aqui o meu protesto mais veemente contra a administração ineficiente, idiota, incompentente e tudo de ruim que se apoderou do Museu há anos e corrói acervo, prédio, o nome da instituição, e a minha paciência. Qualquer sugestão de manifestação, passeata, qualquer coisa, é bem-vinda.


Em anexo, Retrato de Suzanne Bloch, óleo sobre tela, 65x54cm, 1904. Rezemos pra que os bandidos que fizeram isso não destruam essa obra- prima. Em cima, o Lavrador de Café do Portinari.

Tuesday, December 18, 2007

Bolinha amarelinha

E como dizia a música antiga, Ana Maria olhou-se no espelho, e viu-se quase despida afinal...


A panda passará os festejos natalinos em outro estado, na casa de amiga antiga e queridíssima, que me presenteará com sua hospitalidade. A história começou com um papo no msn ( pra variar...). Ela me mostrava umas fotos de cachoeiras, de um passeio com a irmã fofa e uma amiga querida. Num momento de ousadia, confessei pra Ju que, nunca na minha vida, eu entrei numa cachoeira. Ela não acreditou, e eu confirmei.
Daí a Jujuba resolveu que ia me ajudar nesse negócio de cachoeira, e eu vou enfim conhecer o que é um jato de água fria nas costas, num lugar paradisíaco.
Exausta, cumpri algumas das minhas últimas obrigações profissionais, como entregar notas, documentos, apostila... andando pelo centro da cidade, a caminho do correio, vi uma loja de... moda praia.
Quando eu criança, e tenho fotos pra provar, tinha lindos biquínis, um de maçãzinha, outro Poésie ( gente, alguém aí tinha biquíni Poésie??????) verde-água, e maiôs transadíssimos, mas depois de mocinha, jovem e agora balzaquiana, com atividades de lazer quase nulas, passei anos sem biquínis. Um preto de senhora, comprado em Búzios, ficou filho único de mãe solteira durante anos, seguidos por outros, presentes da minha mãe, intocados, e dois do Carrefour que de vez em quando eu ponho pra fazer faxina e dar uns mergulhos na piscina do Clis.
Resolvi que o primeiro banho de cachoeira merecia um biquíni novo. Vi na vitrine um lindo, preto com florzinhas, e entrei. Mas uma multidão digna de filme bíblico estava lá dentro, mulheres histéricas atrás de pedaços de lycra menores do que lingerie.
Daí começou meu martírio. Cheguei pra uma das duas senhoras com cara de respeitáveis que atendiam, e timidamente perguntei se o da vitrine tinha no meu tamanho. A velhinha berrou, não minha filha, aquele ali só PP, tenho não pra você. No meio daquela zona, me acheguei na outra senhora e falei, mas o que vocês tem no meu tamanho? Ela também berrando ( gente, porque isso?), "ah, no tamanho seu só tenho um sutiã com bojo" ( gente, tem biquíni com bojo hoje em dia!) e me passou um sutiã que serviria perfeitamente pra Gina Lollobrigida em tempos idos ( eu sei gente, eu sou velha, fazer o quê?).
Claro que a velha Panda the Kid tá longe de ser uma musa do cinema italiano, mas vamos dizer, no quesito em que Jane Mansfield e Gina se tornaram célebres, não me faltam, digamos, exuberância de atributos. Peguei o transatlântico pink de bojo e entrei na cabine. Lógico que deu, mas eu ainda agüentei a nega entrando, apertando os laços e berrando, olha bem, pra você só esse tamanho e só tem esse, pra levantar sua comissão de frente.
Saí da cabine e de novo perguntei sobre estampas diferentes ( aquele pink era puro delírio). Ela sempre berrando ( gente, vendedora de biquíni tem problema de audição?) dizendo que não, que o meu tamanho era Extra Large Mega Ultra Plus Super. E eu, finalmente tendo uma reação, berrei de volta, então eu tenho que fazer uma cirurgia... de redução de peito!
Chutei quem tava na frente e, puta, me encaminhei pro correio. Resolvi pinimbas e, subindo a Moraes Salles, pensei, eu sei, tô gorda, velha, mas peralá. Eu sei que tenho um perfil, digamos, clássico, e lembrei de uma Vênus romana que vi em Chicago, que parecia eu pelada no espelho. Pronto, pensei que em 45 d.C, eu faria sucesso nas praias de Herculanum, e me acalmei.
Aqui perto de casa, tem uma loja de uma marca famosa de moda praia, que sempre namoro nas minhas idas e vindas. As vitrines, sempre atraentes, mostram coisas lindas, e meio caras. Há anos a gerente, uma perua típica campineira, me encara com desprezo e nem me atende, porque eu nunca compro nada. Eu, hoje, com um dinheirinho suado sobrando, só queria comprar um biquíni.
Outra multidão, agora de madames, adolescentes e suas mamães orgulhosas. Esperei pacientemente uns quarenta minutos pra ser atendida, e mal, por duas meninas perdidas em meio a tanta frescura e chiliques. A gerente me olhava como se eu fosse um ET. Nada pra mim. Vejo a senhora do lado com algo bonito, estampado em fundo lilás. Pedi o modelo, e me encaminhei pra cabine. A gerente, sádica, falou, ah minha filha, tem filinha, viu? De gente que obviamente, ela atendeu de forma gentil e prontamente enquanto eu era ignorada no balcão, gente que não demorou cinco minutos pra pegar um modelo.
Como uma lady, entrei na fila. O biquíni era tão bonito, que eu pensei, foda-se essa nega maldita ( diga-se que ela é feia também, coitada, parece assombração, eu fiquei com dó na verdade). A moça do caixa percebeu a situação e veio ao meu socorro, super doce. E o biquíni ficou tão lindo, que eu a princípio estranhei. Mas acabei me dando de presente, e toda garbosa, com a loja inteira me admirando, comprei o conjunto transadíssimo. Cheguei em casa e pus meu biquíni novo, e da sala pro quarto e do quarto pra sala, tava me achando a própria Brigitte Bardot!

Sunday, December 16, 2007

13

Há treze anos atrás, eu enfrentava as provas da Universidade Federal do Paraná, da Unesp, da FUVEST e da Unicamp. Esta última, por puro acaso.


Eu queria ser jornalista. Queria escrever em revistas, principalmente a Capricho, que eu assinei durante um certo tempo. Queria viajar, ou trabalhar na National Geographic. Ouvia muita música, tocava teclado, e escrevia muito. Diários e poesias. Também desenhava e cuidava das crianças dos vizinhos, e estudava por conta. O meu colégio havia inaugurado, naquele ano, aulas de reforço, à tarde, para o pessoal do terceirão. Um grupo de amigos fiéis se uniu em torno do desafio de conseguir uma vaga numa universidade de prestígio, ou seja, as universidades públicas.
O povo queria estudar na Unicamp; já eu sonhava com a ECA e com um retorno à minha cidade natal. A minha melhor amiga era a Débora, a única afro-descendente do colégio, linda de morrer, e inteligente demais, filha de uma das enfermeiras chefes do HC da Unicamp. A Débora vivia entre a casa do pai e a da mãe, e num desses desencontros, o pai e ela compraram dois manuais do vestibulando, por pura afobação. Pra não deixar minha amiga no prejuízo, comprei o manual dela. Só por isso prestei Unicamp.
Sem Jornalismo como opção, fiquei entre Letras, História e Ciências Sociais. Nas costas do meu pai, preenchi Sociais na fila da entrega do formulário. Sem estudar nada pro famigerado e diferenciado vestibular da Unicamp, entrei na disputa dos vestibulares. Fui pra Curitiba com meus pais e meu irmão, e num flat passei o frio típico curitibano. A FUVEST foi aquele desespero de sempre, e passei pra segunda fase apertada, mas passei. A Unicamp não me preocupava; achava a cidadela zeferinítica o fim do mundo, uma roça, e toda vez que tinha que buscar meu irmão na casa de um amigo lá, achava tudo aquilo, realmente, o fim.
Na segunda fase da birosca unicampítica, um acidente de percurso. Eu me sentei atrás do Márcio, que conheci na primeira fase da FUVEST e de quem já tinha ficado amiga. Só que o Márcio era um armário de três metros por quatro. Eu me sentei atrás dele, no final de uma longa fila de carteiras, numa sala da Engenharia Básica, e no outro dia tanto eu quanto ele não tínhamos mais carteiras com nossos nomes. A sala estava repleta de vestibulandos pra Sociais; uma menina riu e falou, bom, dois a menos. Senti muita crueldade nela e em outros, que riram. Contrariando as previsões, eu e o Márcio passamos, e eles, não, os caras da COMVEST só quiseram mudar a gente de lugar.
Chorei muito no dia em que vi que, por dois lugares, caí na lista de espera da FUVEST. E no mesmo dia, no Ciclo Básico, vi meu nome nas listas. Uma amiga querida da minha mãe, a Sônia, argumentou comigo que me via muito mais como professora universitária do que como jornalista.
Há treze anos, entrei no IEL pensando que era o IFCH. Consertado o erro, dei com o Márcio e a Ísis, amiga de colegial, felicíssimos, cheios de planos, esperando a primeira aula de Antropologia. Eu não fazia idéia do que encontraria no curso; pensava que poderia até enfrentar um cursinho, e outra tentativa. Mas não, no primeiro mês vi que a Sônia me conhecia bem demais.
Há treze anos, eu firmei na minha cabeça que a carreira acadêmica era o que eu queria pra minha vida. Eu tinha dezessete anos, desenhava, tocava teclado, era magérrima e meio dentuça. Usava só moletom e passei a paquerar mais os meninos naquele ano. Li num artigo xerocado da Times, na aula de Economia, que existia algo chamado internet. Enfrentei minha primeira terapia no CECOM, e também duas cirurgias de extração de dentes de ciso.
A Unicamp era muito diferente, eu era muito diferente. Nas festas, a gente ouvia sempre a mesma fita cassete, obra e graça de um colega da Engenharia; paquerava os garotos da Biologia e fazia seminários e fichamentos. Mas eu tinha essa certeza.
Semana passada, encontrei um professor, que escreveu um dos livros que a gente lia, em parte, no nosso primeiro ano. Ele me disse que eu podia ir embora agora, que a porta estava aberta, você é uma doutora, ele me disse. Eu falei que queria ir, ele me disse, agora você pode. E depois passamos a falar de coisas da universidade. E daí percebi que ele sabe, tanto quanto eu, que a gente fala até logo, mas nunca adeus, pros anos mais importantes da vida da gente.

Wednesday, December 12, 2007

Chuvas de dezembro

Contrariando Tom, são as chuvas de dezembro, é o fim da canseira.


Trabalhando em excesso, cansada demais. E tenho notado uma coisa em mim. Não ando muito generosa, não. Não tenho tido vontade de espalhar o que sinto, penso, o que tenho. Eu que já espalhei tanto, já me dei tanto, hoje fecho as portas. Pensei em pôr milhões de coisas aqui, me desculpem, não vou. Vou guardar pra mim, o meu ouro, as minhas jóias de sentir. Pra pôr só nas grandes ocasiões, ópera no Municipal, vestido de veludo e jantar com vinho branco, com as jóias, as pérolas, as lembranças, como uma senhora elegante que se preze.
"Uma pérola é sofrimento transformado em jóia", provérbio budista.

Thursday, December 06, 2007

Dra. Panda Maria Alighieri

Dra. Panda comunica aos fiéis leitores do Meio, agora abertamente francófilo, que pode aviar receitas de remédio e que atenderá pelo seu título em todas as instâncias deliberativas como Orkut, Blog e msn por uma semana.

Monday, December 03, 2007

Amanhã...

E para os leitores fiéis do Nel Mezzo, agora cantando a plenos pulmões junto com La Mome...

Amanhã, enfrentarei o inevitável e posso trazer para a casa o título de doutora. Posso ser reprovada. Não convidei ninguém pra defesa, porque eu sei que a tese está mundos aquém do que deveria, está uma verdadeira josma, mas enfim, agora é tarde pra chorar pela tese derramada.
O povo reclamou, teve gente que quis usar de expedientes como chantagem emocional, ver no site da Unicamp, se convidar na cara dura e me consultar pelo msn sobre a possibilidade de assistir o massacre. Bom, o rebaixamento do Coríntiã deu uma esfriada nos ânimos da galera, pelo menos não sou a única a ser massacrada nem estar em maus lençóis nesta semana que Deus pôs no mundo.
Aos leitores que acompanharam a saga da maledetta, desde seus primórdios até o gran finale, torçam por mim, gritem merda, ou acendam aquela vela vermelha. Que Dante e Botticelli me protejam!

Monday, November 26, 2007

Back on the chain gang

Entreguei, terminei, defenderei. Fui, vi, venci. E agora descanso pra voltar à gangue e aos trens.


Os últimos dias, teve de tudo. Tô tentando manter minha nova atitude, como disse a Nenem, panda power, ouvindo a Piaf toda hora e vendo a Mome no Youtube, pra ver se entra na minha cabeça o Non, Je Ne Regrette Rien, de vez.
Tomei coragem e agradeci ao Jorge e ao Bonnet muito o curso, a oportunidade. Há anos que eu não fazia algo tão bom, tão de verdade, tão perto do que acredito e sinto. Daí fiquei super feliz com isso. Mas nos dias seguintes, tive um aborrecimento que me fez pensar muito.
Os meninos do primeiro ano me pediram pra levá-los ao MASP. Eu tô substituindo o Paulo num regime de trabalho doido, professora palestrante, e esse mês levei pra casa metade do salário, ou seja, 230 reais pra ministrar duas disciplinas na graduação, com todas as responsabilidades envolvidas nisso: preparar aula, ministrar, me pôr ali pros alunos, avaliar. Pra piorar as coisas, o cheque demorou a cair, fiquei duas semanas sem quase nada dentro de casa, sem um real, sofrendo, trabalhando como louca e entregando a tese.
Tudo que os meninos me pediram, eu fiz: duas aulas extras, na semana que eu simplesmente fiz milagre, e me pediram uma visita ao MASP. Prontamente atendi, corri atrás de tudo, e na quinta-feira ( a visita seria no sábado) eles me disseram que grande parte da turma havia desistido.
Fiquei p. da vida e dei a maior bronca da minha história de professora. Porque eu senti, em vários momentos, que eles criticam, criticam, criticam a gente, mas chega na hora,me fazem isso? Não querem ir ao maior museu da América Latina de graça, e com uma professora de guia?
Pensei nas vezes que ia sozinha ao MASP, pensei que o Jorge mandava a gente se encontrar lá tal hora, e ponto. Senti muita infantilidade, e agressividade em parte da turma. Fiquei nervosa, tive uma hemorragia, foi péssimo. Acho que estourou tudo, ganhar essa miséria de salário, o não-reconhecimento por parte do departamento, e as dificuldades todas do doutorado ( que foram muitas, muitas mesmo, até o finzinho encontrei obstáculos foda).
Pela primeira vez em muitos anos, muitos mesmo, não terei nenhum compromisso com e na universidade, no ano que vem. Pintaram outras coisas, preciso lutar, ter força pra inventar um caminho. Sinto um alívio muito grande, mas também uma vertigem, um medo, um frio na barriga. Como vai ser minha vida longe da cidadela zeferinítica? Vamos lá, né.

Tuesday, November 20, 2007

Non, Je Ne Regrette Rien

E eu com esse curso do Bonnet entrei numa vibe Egalité, Fraternité e Liberté. Terminei o Índice maldito do Luiz, com vinte e sete páginas e 850 nomes, o cheque do meu fantástico pagamento caiu e eu fui no Atacadão, e agora baixo, numa preguiça danada, baixo e escuto uma seleção Vive La France.

Não assisti Piaf, mas baixei uma pequena seleção da grande chanteuse. E agora estou lascando meu francês inexistente em Non, Je Ne Regrette Rien, que, temo, vai se tornar um hino pra mim. Pela primeira vez em muitos anos, olho pra frente, não pra trás. Não, eu não lastimo as perdas nem os ganhos. Deu tudo zero. Não, eu não me preocupo mais com quem não me amou, ou quem me amou, ou quem não soube o que tava ocorrendo. Non, rien de rien, niente, nada mesmo. Acabou. Olhar pra frente dá vertigem, mas é tão mais bonito.

Saturday, November 17, 2007

Advento

E segundo o calendário litúrgico, o tempo dos quatro domingos que antecedem o Natal é o Advento.
Ainda estamos um pouco antes, mas o comércio decide essas coisas, e a Prefeitura de Campinas pôs, antes desse novo feriadão, enfeites feitos de fundos de garrafas PET, muito bonitos, vermelhos e brancos, estrelas, bolas e guirlandas que resplandecem de luz, à noite. Minha vizinha, que tem um menininho, já pôs os enfeites dela.
Hoje de manhã, ouvi a vozinha feliz do Lucas, mostrando pro pai os enfeites. Resolvi adiantar a coisa, e deixar o Lucas feliz quando ele voltasse do seu passeio. Coloquei minha bota de feltro com um Papai Noel fofo, e está aberto o Advento no clã da panda Vermeersch.
Aliás, fui assistir o Tropa de Elite, quero escrever um post, bem como vi com o Celo os 300 de Esparta ( fim de semana bélico, vamos dizer). Eu estou lutando como Leônidas e o capitão Nascimento, juntos, pra dar fim no Índice infernal do Luiz, mas tá difícil, e fiz meus sequilhos mas eles cresceram demais, dessa vez, ficaram bons mas tinha pouco polvilho. Não há de ser nada, o Natal vem aí.

Monday, November 12, 2007

Os doze trabalhos de Hércules


Estou me sentindo uma pequena panda Hércules. Explico.



Quarta passada, sexta, sábado, hoje, amanhã e quarta, dou aulas. De Bernini a Volpi, de um tudo que vocês possam imaginar. Quis dar uma mão pros meninos do primeiro ano, mais perdidos do que cego em tiroteio, e marquei dois horários de reposição, à noite. Vai ser trash, porque, enquanto isso...



O Luiz, meu ex-orientador e mestre jedi de plantão, deu uma de rei Eristeu: me pediu, de uma semana pra outra, o Índice Onomástico ( de nomes, dã) de um livro sobre tradição clássica, que sai pela Editora da Unicamp. Só que, detalhe, o livro tem 350 páginas de ensaios dos mais variados assuntos, da escultura de Pérgamoà Galeria dos Mapas do Vaticano, passando pela Virgem dos Rochedos do Leonardo e do Cupido perdido de Michelangelo. Ou seja... depois de dias e noites, derrubei mais de 600 nomes citados no livro, e não estou no fim e tudo isso não está conferido, minuciosamente, na busca do Adobe ( o livro tá num pdf) e nem em ordem alfabética. E é pra quarta.


E no meio disso, problemas e problemas mas uma luz surgiu e uma data, em dezembro, apareceu para a defesa da maledetta, já pronta pra vir, só faltam alguns dos disegni do tio barrilzinho pra escanear, imprimir, xerocar e pôr no SEDEX. Emails, telefonemas, mas no banho, digamos, romano, que me dei o direito hoje ( com óleos e tudo mais) eu vi a felicidade de ser uma heroína, digna de umas folhas de louro e de ter o meu amadíssimo Hércules Farnese perto do meu coração.
Acima, o próuprio, do Museu Arqueológico de Nápoles, onde passei mal de fraqueza...

Wednesday, November 07, 2007

Das possibilidades dos meus estudos





Andei deprimida de verdade, nau à deriva. Na segunda-feira, cansada de sofrer, fui à Unicamp tentar fazer alguma das muitas coisas que preciso fazer. Desci da condução e resolvi ir ao banheiro no prédio dos professores do IFCH. Vi, num cartazinho, um anúncio de um mini-curso, de um mês, de um professor francês, Jacques Bonnet, convidado pelo prof. Jorge Coli. O curso versa sobre nus femininos no banho, nas artes a partir do Renascimento: Susana e os Velhos, Diana e Actéon e Davi e Betsabé.
Me animei, coisa rara nos últimos tempos, pra fazer o curso. Resolvi que ia me fazer bem ouvir um pouco alguém de fora, sobre temas que me interessam tanto, e que são parte da minha tese.
Dei aula hoje, sobre o Indianismo, Monumento a Dom Pedro I na Praça Tiradentes no Rio e a Primeira Missa do Meirelles, fui no bandeijão e aportei no velho e cada vez mais combalido IFCH. Sala de Projeção lotada, velhos amigos, alegria de estar ali. O prof. Jorge ia traduzindo, o prof. Bonnet muito simpático, nada parecido com os franceses que a gente tanto teme ( acho que na verdade talvez o preconceito se deva aos parisienses, sei lá). Em vários momentos eu tive vontade de levantar e dar um abraço no Bonnet. Explico: sofri tanto no doutorado, por que muitas vezes não tinha com quem conversar sobre dificuldades metodológicas, e sobre o ofício do historiador. Com muita precisão, eu acho que o Bonnet hoje resolveu n problemas que rondavam minha cabeça, desde que abracei o capeta e minha pobre alma nunca mais saiu do século XV.

Simplesmente a abordagem do Bonnet, por ser mais ampla, permitiu a ele fazer um estudo "trans-histórico" das iconografias. Trocando em miúdos: como a pobre panda, ele começa no século IV d.C e vai indo, procurando de moeda a túmulo, passando por capitel de igreja, iluminura, os lindos cassoni ( os baús de madeira decorados nos quais as noivas florentinas guardavam seus enxovais), afrescos, vários tipos de materias figurativos, de várias épocas e lugares, que atestam a persistência, por vinte séculos, de temas da Bíblia e da mitologia greco-romana.
Esse tipo de percuso, numa era da super especialização acadêmica, é ridicularizado e muitas vezes posto de escanteio ( só eu sei o que eu sofri com as minhas 250 imagens, meus tantos Virgílios), porque desde sempre a maior parte da historiografia prefere o texto ( que pode mentir, enquanto a imagem, no seu silêncio, guarda seu enigma), e relega a imagem ao papel de mera ilustração mecânica, ou prefere estudar o contexto social, político, econômico, mas não a obra em si. Enfim, acho que o Bonnet veio falar do seu livro favorito e passar um tempo descansando no Brasil, podem-se fazer críticas ao seu discurso, mas pra mim ele foi um presente e tanto nesse final do meu doutorado.

Acima, Susana e os velhos, de Aert van Ort, 1520-25. Vidro trabalhado, diâmetro 24 cm. Nova York: Metropolitan Museum of Art.

Tuesday, November 06, 2007

A sopa do duende

Hoje acordei com cólica, triste, cansada, mil coisas pra fazer, chuva,frio. Escrevi pra uma amiga querida, longe, deitei de novo, atendi outro amigo fofo em São Paulo, daí resolvi sair pro meu tradicional passeio no centro da cidade.
Fui, na chuva fina, andando bem devagarinho, pensando na vida. Passei por trás do edifício Itatiaia, numa ruazinha que nunca havia passado, subi a César Bierrenbach e na altura do Largo do Carmo, quase em frente o monumento túmulo do Carlos Gomes, senti a minha tristeza de hoje. Eram três da tarde, eu tava com fome, com a cabeça embaralhada. Fui no chinês vagaba da Barão de Jaguara, ninguém no restaurante, só o povo de lá comendo. Comi um pouco, entornei uma Coca Light pra ver se animava, e resolvi entrar na Tecnart, na outra esquina.
Vi alguns livros na vitrine que me chamaram a atenção, um deles, um livro de receitas da Márcia Frazão. Márcia Frazão vive na serra fluminense, e já andou escrevendo sobre o que o povo chama bruxaria, feitiçaria, essas coisas. É uma figura simpática na mídia, ensinando chá pra diminuir cólica, tempero pra pão integral, coisas muito simples mas que funcionam, nada de voar em vassouras nem de ir contra as leis da tal ciência moderna.
O livro é uma graça. Ela conta a história da amizade que teve com uma velha senhora francesa, quando, dura de tudo, mudou pra serra com o marido e os filhos, trotskista e filósofa de formação. A tal senhorinha, sobrevivente da Segunda Guerra, cozinhava muito bem, coisas simples, de culinária doméstica francesa, como pain perdu ( fatia de pão velho, passada no ovo batido com baunilha e leite, e frita na manteiga- a nossa rabanada, sem o vinho no caso). Márcia conta da receita de bolo de chocolate com queijo que aprendeu da senhora, e dos tempos difíceis, de penúria e falta de recursos, e da morte da Jacqueline, a velhinha fofa que amava alecrim.
Eu fiquei com vontade de chorar. Primeiro, porque saquei que andei tão mal nos últimos dias que nem cozinhar cozinhei. Fiquei com vontade de comprar o livro, nem é tão caro, mas nem dinheiro pra isso tenho. Segundo, porque senti falta de amigos que tão longe, e de outros que não vão voltar mais mesmo, pelo menos nessa encadernação. A velhinha fofa francesa, sempre dura porque inventou, segundo Márcia, um método infalível de ensinar francês pros alunos dela, que aprendiam e iam pra França, dizia que em toda cozinha existem duendes, que cuidam das coisas e que dão a idéia pras pessoas do que cozinharem.
Saí da livraria e fui nas lojas de 1,99 da mesma Barão de Jaguara, comprar uns brincos e um chinelo chinês peruíssimo, que vou usar por aí na minha habitual falta de noção fashion. Passei pelo mercado, e nenhuma inspiração culinária me ocorreu.
Cheguei em casa, afazeres profissionais me ocuparam. De repente, fui pra cozinha e o duende me deu a idéia: minha mãe tinha me dado uma bandeijinha de abóbora kabochan ralada, me dizendo faça uma sopa. Peguei a kabochan, leite e comecei a cozinhar. Só tinha a kabochan e umas batatas, e metade de uma cebola. Cozinhei as batatas na pressão. O creme da kabochan começou a cheirar bem, e eu pensei, vou pôr pedaços das batatas, gengibre, pimenta do reino, e salgar com shoyo. Então ficou assim a sopa do duende, boa demais pra me curar da minha tristeza e das minhas preocupações e da minha cólica.

Sunday, November 04, 2007

Show! Show! Show!


E eu comecei a ler, de forma irresponsável, the old William. Peguei na estante um pequeno volume, vermelho, com três das tragédias, Romeu e Julieta, Macbeth e outra que agora esqueço.
Toda hora me pego lendo, no voluminho vermelho, coisas que me levam a mundos e mundos. O bom dos gigantes é isso: segundo um velho preceito, um anão nos ombros de um gigante vê toda a superfície do planeta. E gigante que é gigante é generoso, desce até o pequeno anãozinho ignorante e mané.

Um dos discursos de Frei Lorenzo, o confidente e conselheiro dos desventurados amantes de Verona, é uma linda reflexão sobre como as nossas partes podem entrar em conflito, e com isso, nos fazer sofrer (o coração, a mente, a vontade). Mas o que mais me prendeu foi o Ato IV, Cena I, de Macbeth. O rei vai até a caverna das três Bruxas, e pede que elas mostrem o oculto através de seus mestres, fantasmas, espectros que revelam a vitória sangrenta de Macbeth, mas também seu declínio irreversível. Na tradução em português, a hora dramática em que as três feiticeiras clamam pela aparição das almas de oito reis, sendo o último o assassinado Banquo, em que elas berram "Show! Show! Show!", ficou "Pantomina! Pantomina".


Corri no Google e descobri na Wikipédia que "pantomine" é muito posterior a Shakespeare, pra minha desilusão, que fiquei no carro cantando "Lady Lady Lady", do Joe Esposito, trilha sonora do Flashdance, que tem pantomine na letra. A idéia de pantomine como espetáculo teatral, segundo a sempre irresponsável Wikipédia, surgiu em inglês no século XIX. Tem um filme lindo sobre o teatro de massas na Inglaterra vitoriana, chamado Topsy Turvy.


Achei versões on line do original, e as bruxas clamam "Show, Show, Show". Fiquei pensando que seria melhor no caso "Espetáculo, Espetáculo". De qualquer forma, parece que as feiticeiras promovem uma peça dentro da peça, reforçando o caratér solene do momento em que as oito aparições reais, culminadas por Banquo, mostram a Macbeth o caráter provisório da autoridade, ou como diz o texto explicitamente, da soberania dos monarcas.
Acima, Banquo, Macbeth e as três bruxas, do Füssli, cena do Ato I, onde os dois sabem pelas feiticeiras que Macbeth será rei, mas a linhagem de Banquo predominará. Em política, não adianta se pensar só no bel prazer e na satisfação imediata: Macbeth mata o amigo Banquo, o rei Duncan, mas se torna um rei odiado e presa fácil da corte que desconfia de seus horrendos crimes. Lady Macbeth pira de angústia, de culpa. No caso, o trágico é que Shakespeare aponta que no interior do culpado surge sua desgraça, mas não há no mundo nenhum mecanismo humano ou divino de justiça verdadeira. A se refletir sobre isso, mais e mais e mais.

Thursday, November 01, 2007

TV Panda

-Não consigo marcar minha defesa. Problemas de calendário e de composição da banca. Eita maleita...


-Meu dente caiu de novo, ontem, depois que vi o povo do mal, vulgo cordão da bola preta, sem querer no IFCH. Arreda vodu!
-Fui louca o suficiente pra passar roupa nesse calor de Alalaô. Quase morri na terceira blusa e deixei tudo sem passar mesmo.
-Tem gente querida longe. Mas tem gente querida perto. E tudo, nessa semana, foi contornável. E ainda tive momentos deliciosos. E dá-lhe Grace Jones, La Vie en Rose. Sou uma senhora de 30 anos. E isso é tão bom, tão bom, tão gostoso.

Tuesday, October 30, 2007

Recomeçar

Ontem, foi a última sessão de terapia, no SAPPE.


Eu sabia que ia acabar, porque a duração era enquanto eu escrevesse e terminasse a tese. Então acabou, numa sessão maravilhosa. Elogiei muito o pessoal do SAPPE. Sem esse apoio, teria sido difícil pra mim terminar o trabalho, sem me estropiar tanto. Porque pra mim a coisa se resume no seguinte: quero viver, quero fazer e acontecer ,mas sem estropiar. Eu me torturava muito, e pra quê? Dava atenção demais aos outros. Eu venho nesse processo de fechar portas e janelas. Não acho ruim. Não dá pra se doar a todos, e eu andei me doando demais a quem não merecia, inclusive aqui e por intermédio do Meio. Mas águas passadas não rodam moinhos, e eu quero viver na aldeia dos moinhos, do último episódio do Sonhos, do Kurosawa.
Mas foi um recomeço também, cuidei da minha casa com carinho e vigor, falei com dois amigos amados e que estão longe no msn, fiz uma omelete que ficou divina e hoje eu passo minhas roupas. Sem rancores, nem ressentimentos, só vendo as coisas rodarem,girarem lentamente, como os moinhos da terra de parte dos meus ancestrais.

Friday, October 26, 2007

Cheek to cheek

Hoje eu acordei chateada pra variar. A universidade me deixa doente. Essa semana eu tive que permanecer mais do que o usual dos últimos tempos na cidadela zeferinítica. Daí eu fico com surtos de pânico, porque os últimos anos foram difíceis demais. Muito trauma pra uma panda só. Na minha terapia, discuti o fato de que preciso sair da Unipunk por uns tempos. Será bom. Todos os meus projetos a curto, médio e longo prazo não tem Unipunk no horizonte. Pela primeira vez em treze anos, dá um vazio e uma sensação de derrota, que eu sei, são ilusórias.
Na semana seguinte que entreguei minha tese, recomecei a dar aulas no velho canavial. Hoje por exemplo era a aula de Bernini escultor, que ficou da semana passada porque troquei os horários. Enrolei, e cheguei em cima da pinta, Begin the Beguine no i-pod, Ella é tão delicada.
Daí notei que tinha, no caminho, cantado junto com o Frank Cheek to cheek. Tão bom ouvir essas coisas. E me dei conta que já sou uma pessoa diferente de anos atrás, quando eu só ouvia rock e mpb, agora o jazz entrou na minha dieta. Em leve minueto, como escreveu Clarice, entrei no IA com Ella e Frank, que saudade de Chicago, que saudade de tanta coisa, e tanta coisa ainda boa por vir.

Wednesday, October 24, 2007

Tic Tic Tac do meu coração

Meu coração já bate diferente, dando o sinal do fim da mocidade.


Andei puta, porque vou receber 450 reais pra dar duas disciplinas na graduação, na Unipunk, ops, Unicamp. Andei puta porque neguinho me pagou a meia no cursinho. Mas tudo isso é problema velho, eu já tô ficando de saco cheio dessa minha vida de panda biscateira da História da Arte.
Ontem e hoje, pelo menos, dei sorte em algumas coisas. Dei sorte porque assisti Sonhos, do Kurosawa, e tive uma experiência do belo, total, uma entrega à quietude da contemplação. Fiquei tão feliz, porque num final de tarde assisti a um filme, no sossego do meu lar, deitadinha no colchão aqui do escritório. Fazia um ano que não parava pra assistir a um filme assim, o último foi Garota de Rosa Schocking na tevê.
Não gosto de falar isso aqui, acho pedante, mas o fato é que tenho sempre trocentas coisas pra fazer, desde lavar roupa e limpar casa até estabelecer hipóteses historiográficas pra uns quinze assuntos. Acho que passar roupa é pior que escrever artigo, mas enfim, os dois consomem o pouco fosfato da minha pobre cabeça.
Problemas no trabalho, o velho departamento me mata, mas dei sorte porque almocei com os meninos e eles me fizeram rir que nem doida, porque se a gente não ri, só pode chorar. Post assim, dia de chuva e Carmen Miranda no i-pod.

Monday, October 22, 2007

Veneno de abelha, pomada de arnica, e muita água

Tem gente que me deixa muito triste.


Não sei, deve ser ingenuidade minha, mas tem pessoas que me põem em verdadeiros desesperos de tristeza. Não consigo suportar o que algumas pessoas fazem. A minha sorte é que tenho sempre comigo anjos de candura e riso que se apiedam da minha pobre alma e que me ajudam a atravessar o cotidiano desolado. Esse final de semana começou com uma grande tristeza, mas depois tive momentos de felicidade, principalmente com a Nina fofa que foi muito simpática com a tia panda, inclusive procurando no peito da tia leite, e no colo consolo pras cólicas. Celo, Anselmo e Táta compartilharam coisas bonitas comigo, também.
Hoje fui receber as aulas do cursinho, depois de ir no anjo-dentista dr. Cláudio; varei o Centro inteiro de Campinas, fui da Prefeitura até a Rodoviária, pelo calçadão, nesse sol de quase dezembro, e recebi metade do que esperava. Depois ainda peguei o inferno do ônibus Rodoviária- Unicamp via Baixada Santista, e cheguei e descobri que tô devendo uma nota na cantina do IFCH. Fiz as contas e tenho metade do que preciso pra pôr meu combalido orçamento em dia. Ou seja, mais panda-Rambo, pondo a fita na cabecinha e ááááááá....
E a tristeza com certas criaturas, do mal e/ou fracas o suficiente pra ouvirem o chamado do lado negro da Força, resolvi curar com veneno de abelha. Explico: Michel me disse que pra sinusite o bom é creme de veneno de abelha, que uma apicultura premiada aqui de Campinas vende. Eu li faz tempo que todos os derivados da apicultura são bons anti-inflamatórios. Semana passada, não dormi um dia devido à dor de dente: fui no dr. Cláudio e era a minha crônica, clássica, surreal sinusite, que pra mim sempre tá ligada a essa tristeza. A apicultura fica perto do dr. Cláudio; saí de lá e escalei o morrinho da Barreto Leme, pra comprar o tal creme. Passei nos seios da face e na testa, e na hora senti um alívio muito grande.
Ainda vi armarinhos e sugeri à uma senhora de um deles a confecção de uma sacola para trabalhos manuais, com estojos pra linahs e agulhas dentro, de tecido de florzinha ( eu adoro florzinhas nas estampas)... e veneno de abelha, recomendo à todos com problemas de inflamação e de tristeza generalizada.

Saturday, October 20, 2007

L'occhio abbracia la bellezza


Esses tempos, tenho travado conversas fundamentais pelo... msn. É incrível como uma joça que, na maior parte das vezes, serve pra perder tempo ou piorar neuroses ( o clássico "ele/a me bloqueou! Que farei?" ou "vou bloquear esse/a filha/o da puta") tá me servindo pra me compreender melhor, graças às pequenas pandas mestres jedi Danis.


De surtos com eventualidades do cotidiano até verdadeiras confissões d'alma, eu e Danis estamos num processo, eu diria, terapêutico no melhor sentido do termo. Ontem, por exemplo, uma conversa com elas detonou uma das maiores reflexões que eu já fiz sobre eu mesma.



Eu saquei, de uma vez por todas, que, como diria messer Leonardo da Vinci, meu olho abraça a beleza, e não larga mais. Eu preciso de beleza. Tenho uma visão de espaço urbano renascentista: bela cidade, belos pensamentos. Quando o lugar é feio, tacanho, eu vejo essa beleza nas pessoas. Eu crio grandiosidades, Duomos de Brunelleschi de sentimentos, de sonhos. O problema é que, por não ter consciência disso, eu queria construir Campos dei Miracoli, como os de Pisa ( um pedaço aí dele em cima, foto tirada de quando tirei uma soneca no gramado do Batistério), em meio a canaviais, que também tem sua beleza. Existe o belo no feio, no mesquinho, no submundo da histeria, da neurose, nas valas dos condenados pelas penas mais horrendas.
O problema é que sou míope e também tenho minha neurose, o que sempre acarreta uma restrição do olhar. E vivi muito tempo sozinha com essa característica. Acho que escolhi ser professora de História da Arte pra pôr pra fora o incansável desejo de beleza, de alegria e de sentimento que existe em mim tão fundo, desde cedo.
Por isso que eu tive grandes amores e grandes amizades, frustadas, nos feios prédios da Unicamp ( eu tinha que pôr beleza em algum lugar: pus nas pessoas, poderia ter posto na paisagem e escrito ou desenhado algo), e São Paulo pra mim é um enigma insolúvel: lá existe o belo e o horrendo, pessoas lindas que me fazem vibrar e pessoas horríveis que me fizeram sofrer muito. Mas tenho trabalhado no sentido de ver beleza nos prédios ( tô percebendo que meu lance com a Arquitetura, com o espaço físico, é muito fundo) e nas pessoas, em diferentes escalas. Tô aprendendo, graças às Danis, a ver beleza em mim, o único lugar onde eu acreditava que isso não existia, e dar vazão às minhas utopias nos lugares corretos. E hoje acordei feliz por ter percebido tudo isso, aliviada porque minhas grandiosidades podem ser trabalhadas, vividas, compartilhadas. Ah, ia me esquecendo: em Pisa não vi tanta beleza assim nas pessoas, tomada de um amor profundo pelo Campo dei Miracoli, confirmando a tese panda suscetível à Arquitetura, paisagem e amor pelos outros.

Wednesday, October 17, 2007

Panda Quebra-Barraco

E com vocês, o funk da panda quebra-barraco! Sou feia e ainda por cima não tô na moda!


Sábado pensava em coisas tristes e terminava de fazer uma das minhas atividades favoritas, tomar banho. De repente, no meio do óleo de banho Pitanga revitalizante da Herbo Farma, presente dos bocos no meu aniversário ( comprem! É uma maravilha!), o chuveiro puft. Queimou a resistência. Que saco. Daí pensei, vou chamar seu Edmílson...
Seu Edmílson foi, durante anos, o zelador aqui do meu prédio. Além de zelador, depois das duas da tarde, ou seja, depois do expediente, seu Edmílson consertava tudo, de cano quebrado, vazamento, interfone. O problema é seu Edmílson se saiu tão bem nessas tarefas extras de faz-tudo que resolveu pedir as contas e abrir negócio próprio de faz-tudo. Ou seja, não tenho mais o homem da casa seu Edmílson, que agora anda tão ocupado que não atende mais os pedidos do prédio e dos outros prédios.
Fico feliz por seu Edmílson ter se tornado um homem de sucesso, mas e agora? Que fazer, como diria Lênin?
Daí ontem estava puta porque tem muita gente babaca no mundo e tal, e abri a geladeira, um tupperware com um resto de sopa, uma sopa que eu fiz, ficou horrível e ainda por cima estragou o resto. Puta, peguei o tupperware e entornei o restinho da sopa no vaso sanitário. Quando terminei, pensei, mas que porra eu fiz, porque o vaso, obviamente, entupiu.
Me vi, de novo, com o vaso entupido e o chuveiro queimado. Vou desconsolada trabalhar em Caronte, com sua risca azul chiquérrima. Nenem me exorta a ser uma mulher independente, comprar um alicate, a resistência, um desentupidor grandão e consertar os problemas. E hoje, eu recomecei a dar aulas no IA, substituindo o Paulo, em viagem, em dois cursos pra graduação: História da Arte 2 e História da Arte no Brasil 1. Hoje seria Debret.
Daí acordei com: uma aula sobre a Voyage Pitorèsque do Debret pra preparar em Caronte emperrado e riscado de azul, uma resistência pra trocar e um vaso sanitário pra desentupir.
Fui no Santarelli, uma loja monstro de coisas de casa aqui do lado. Comprei um bom alicate, a resistência, o desentupidor de vaso e cheguei em casa preparada pra tudo, panda num momento Rambo. Pus a fita na testa, e ááááááá....
O vaso continuou entupido, e eu troquei, sim, a resistência do chuveiro ( sim, crianças! No meio de tudo em pensava, qué isso perto de escrever uma tese sobre o tiozão narigudo mardito? E o pino da resistência entrava! Viva Dante!). Mas ano passado, numa faxina monstro, eu quebrei o cano do chuveiro. Seu Edmílson veio aqui e fez uma gambiarra, passou fita veda-rosca e o negócio, puft, caiu! Então, sim, caros leitores do Meio, o chuveiro caiu da parede, mas a resistência foi trocada!
Não dava mais tempo de fazer nada. Sentei, preparei a aula mais chulé sobre Debret que alguém viu nessa vida, e no torso de Gerião parti pra Unicamp, infringindo parte da suspensão da minha carteira de habilitação. Dei a aula. Os meninos dormiam e tal, mas a culpa não era deles. Depois fui encher o saco do crazy people na cantina do IFCH, e lá estavam Marcones e Vitão. Contei a eles minhas desventuras, e eles riam à socapa. Mulher moderna com problemas é isso aí.
Voltei pra casa com um plano maléfico. Entornei um quilo de soda cáustica no vaso ( depois de dois dias, se não fizer efeito, tacarei Diabo Verde Líquido e só em última análise peço pros negos do Santarelli virem porque são 60 pilas). E tentei enroscar o chuveiro. Nada. Fui no seu Luiz, lá eu resolvo tudo, pensei acertadamente eu.
Seu Luiz é dono do Frangos Ilimitados ( ou algo assim) aqui na esquina de casa. É um restaurante boteco maluquinho, que serve uma feijoada daquelas, já deu no jornal e tudo. Eles são super simpáticos, é limpinho, barato, gostoso e ainda vende tubaína, com batida de limão de grátis. Tem saladinha com molho de alho, maravilha total. Sentei pra enfrentar a feijoada e lá veio seu Luiz cheio de prosa. Falei, seu Luiz, os caras do Santarelli tão querendo me cobrar os olhos da fuça pra me enroscar um chuveiro, o senhor imagina! E ele, que absurdo, esse povo enfia a faca. E seu Luiz passa a coçar o queixo. Perguntei do Luizinho, outro faz-tudo do pedaço.
Luizinho trabalha há muitos anos na oficina do seu Hugo. Quando quebrava algo no seu Pedrão, lá vinha Luizinho, sempre em pé de guerra com o seu Hugo ( eles se odeiam mas não se desgrudam). Luiz teve leucemia e quase vira anjinho faz-tudo. Um dia, minha mãe ligou pro seu Hugo por qualquer eventualidade e veio... tchanam, Luizinho em pessoa. Minha mãe, que achava que o moço tinha morrido, achou que tava vendo assombração e teve o pior ataque de nervos da vida dela.
Pois o Luizinho, ressuscitado e tudo, agora tá brigado com dona Meire (mais um pra lista). Mas o Luizinho poderia me ajudar. Seu Luiz sensatamente observa que Luizinho também adora enfiar a faca no povo.
Veio a feijuca, beleza maravilha total, um guaranazinho diet ( meu, como sou hipócrita). E seu Luiz não se conforma, vira a rua atrás de um cavalheiro pra ajudar a senhora simpática que ama feijoada. E vem ele meio sem graça com um senhor moreno, baixinho, seu Leonel. Esse conserta e cobra 15 pilas ( meu, os caras do Santarelli cobram 40, pra vocês terem uma idéia, sem a peça inclusa).
Seu Leonel veio aqui e agora volta no final da tarde, pra consertar o cano. A resistência tá perfeita, segundo ele. E eu taquei os três quilos de soda caústica no vaso. Vejam, e sexta-feira dou aula sobre Bernini!

Tuesday, October 16, 2007

Favor não ultrapassar a linha vermelha

Andaram acontecendo coisas trash por aí, comigo e com pessoas amadinhas.


Eu já sofri muito com agressões, dos mais variados tipos. Tinha uma época que a panda vivia que nem preso chinês, ou seja. Saí dessa pra melhor, na linha Gandhi do pacifismo ativo ( "eu não revido e não te bato, mas enfio o dedo no seu olho e saio correndo"). Mas desse período nas trevas, eu saí com um pavor completo, total, absoluto, de todo e qualquer tipo de agressão, de todo e qualquer tipo de invasão de privacidade, de falta de delicadeza, de falta de de noção. Xingar, bater, seguir, humilhar, dar barraco, ler email dos outros, revirar gaveta, celular, carteira, tirar sarro de maldade, falar mal, difamar, desconsiderar o outro, são atitudes completamente injustificadas e idiotas. Quem bate, xinga, humilha, perde a razão que pensa ter ( se chegou nesse ponto da agressão, o cara nem razão tem, mas vamos fingir que tivesse).
Se eu pudesse, faria um Manifesto contra a Babaquice. Porque tem muito babaca por aí, pelo amor de Deus.

Friday, October 12, 2007

Tapioca é de Deus

E eu entreguei a tese pro meu orientador. Acabei. Pois é.

Imprimi a maledetta, tirei uma cópia, e encadernei. Enquanto rolava o processo, no xerox do IEL, chega uma moça que procurava a tradução do Manuel Odorico Mendes pro Virgílio, o famoso Virgílio Brazileiro. E o tomo do meu lado, na estante, enquanto minha mente emperrada nas paragens do reino de Lúcifer só esboçou uma reação: peguei o volume e entreguei pra moça.
Fiquei exausta essa semana. Terminei minha tese, e chegou a notícia do falecimento do meu tio. Os projetos pós-tese começaram a pipocar por conta própria, exigindo resoluções. Fiquei misturada, como dizia minha afilhada Camila, e veio um Mar Vermelho, de nervoso mesmo. Fraquinha, nesse calor desértico, terminei a saga da dupla sertaneja tiozão narigudo- tiozinho barrilzinho, ao menos por enquanto.
Daí hoje dormi, dormi horrores, e pretendo continuar hibernando, e fui ao shops com Nenem e Celo, ver vitrines e me descabelar diante dos lançamentos da Renner. Juntei uma braçada de roupa pra experimentar, mas não deu tempo, o povo tava nelvoso. Comi bem, e lá estava uma barraquinha de tapioca, lotada de gente.
Tapioca eu comia nos velhos Campos dos Goytacazes, norte do estado do Rio, na casa de minha avó materna, dona Maria da Conceição, com manteiga. Era bom. Mas nunca mais comi tapioca, nem lembro quando foi a última vez que fui a Campos. A tapioca vinha num saquinho plástico, já fria. Mas eu cheguei a ver aqui perto do Terminal Central de Campinas as frigideirinhas e um amigo se declarou entusiasta da tapioca quentinha, com queijo de coalho.
Hoje Celo deu a idéia e pediu uma, com recheio de banana, um pouquinho de leite condensado e canela. Não agüentei e comi uma com morango. Sei que deve ser sacrilégio pôr na tapioca frango com catupiry, morango, essas coisas de paulista. Tinha uma comunidade no Orkut muito engraçadinha, "Comida azul não é de Deus". Gente, tapioca, tapioca é, sim, de Deus.
E do lado do xerox do IEL tinha aula de forró. E a tapioca me deixou numa vibe que me fez lembrar de 1999, eu na Cooperativa com minhas amigas Dani e Camille, que hoje moram no Velho Continente. Era o início da onda do chamado forró universitário, o salão cheio de senhores nordestinos que ensinavam as paulistas a dançarem aqueles negócios tão deliciosos. Até a panda, sempre dura e desajeitada, sofrendo de falta gravíssima de coordenação motora desde a mais tenra infância, ensaiava passos nos xotes. O Trio Virgulino animava a moçada; eram simpaticíssimos, virtuoses, e hoje são o trio mais famoso das paradas do velho for all.
Eu adorava "Forró & Paixão", tão singela e doce, como tapioca. Depois a Cooperativa lotou de patricinhas e mauricinhos, os senhores professores sumiram, a coisa ficou esquisita e um clima de pegação daqueles dos piores se instalou. Nada contra pegação, acho até que tinha que ter uma lei obrigando o povo a se pegar, mas uma coisa é aquele clima bacana de safadeza e ingenuidade, outra coisa é o automático vamos nos catar.
Me deu saudade da música, quando tocava eu lembro que pensava, eu quero um amor. Não tinha tanta clareza, como hoje, que é a simplicidade que a gente, de fato, precisa buscar. Era muito atormentada e muito jovem. Hoje tudo é bem, bem mais simples, como tapioca, como dançar agarrado, gostoso.
http://www.triovirgulino.com.br/, tem na seção MP3 a "Forró & Paixão" pra baixar.

Wednesday, October 10, 2007

Segura, peão

Essas semanas tem sido respirar fundo, sentar e trabalhar. Respirar fundo, sentar e trabalhar. De novo, repitam comigo, respirar fundo...

Lá na terapia falei da necessidade de construção. Do quanto Eros, a força da vida, pra mim está relacionado com a rotina que transcorre sem grandes problemas, da calma e da clareza diante dos enroscos próprios e alheios, de eu não ser ambivalente e não cair no jogo neurótico dos outros. Estou desarmada e calma, pacificada e discretamente feliz. Não trago pedras nas mãos. Não pressuponho mais. Não interrogo motivos que não existem, ou que se existem, não me dizem respeito. Mágoas, eu tenho, ressentimento, raiva, eu sinto, mas prefiro canalizar em outras coisas, em fazer disso um trampolim pra saltos ornamentais. Estou distraída mas não distante, andando devagar, pensando no que eu quero com tanta força que mesmo momentos tristes ficam com sua beleza, modesta porque o que eu quero está longe, mas uma beleza que não é desprezível.
O ruim é segurar as rédeas e entrar no rodeio da defesa. Essa semana, tirei pros últimos preparativos da tese, para imprimir o exemplar do meu orientador e começar a correr atrás da data, formulários, e etcs. Aqui no IEL tudo fica a cargo do aluno, e hoje me informei dos procedimentos todos. Uma pasta de formulários e eu respirei fundo, mais uma vez e...
Tapo os últimos buracos da maledetta com uma dor indizível. Não pude fazer nem um terço do que me propus, e logicamente serei execrada pela banca. Fico bem ansiosa nesses momentos finais com o texto, decisivos, mas não tenho mais condições psicodélicas, ops, psicológicas, de vôos mais altos do que juntar parágrafos, cortar excessos, ligar de qualquer jeito pedaços. Está tudo muito desconjuntado; fico embaraçada de apresentar um resultado tão medíocre pra uma banca de estrelas da minha área. Enfim, fiz o que pude. Mas não estou no final de nada, o meu coração bate constante, a vida é constante, tudo está bem e assim fica, mesmo.

Tuesday, October 09, 2007

Saudades, tio!

Hoje fiquei sabendo do falecimento de meu tio Arthur.


Esse post, então, é uma despedida da sua sobrinha Paula. Eu compartilhava com você o nome; penso que talvez meu pai lembrou longinquamente do irmão que gostava mais dele quando me batizou Paula, porque depois de Arthur, nome do nosso avô holandês, você tinha o Paulo. E talvez essa lembrança me faça mais presente de você, hoje.

Vai em paz, tio. Sua sobrinha andou sentindo tanta falta dos Vermeersch, até na igreja do Cambuci foi, e agora sei que foi um pressentimento do seu falecimento. O senhor faleceu na sua casa, na velha Campos dos Goytacazes. Faleceu em casa, talvez o sonho de todos nós seja esse, na sua casa, comprada com tanto sacrifício, depois de anos e anos de esforço, parabéns, meu tio. Deixou algo pros irmãos, pros sobrinhos, o senhor que não teve filhos, que sofreu anos com uma doença terrível.
Mas me lembro de seu carinho, de seu afeto, das sessões do projetor antigo de cinema, onde assistíamos filmes de Chaplin, seus favoritos. Do senhor levo uma lembrança afetuosa. Meu pai faleceu, o senhor não veio; não se sentiu bem, me disseram. Mas gostaria que o senhor soubesse que, na tese que agora defendo na Unicamp, seu nome, o do vô, da vó, do meu pai e até de tio Salvador que não conheci, estão do lado do meu, agora doutora, doutora Paula Vermeersch. E com orgulho compartilho do sobrenome de vocês, vocês que tanto me amaram em criança e que estão comigo, no meu coração, para onde eu for.

Monday, October 08, 2007

A inteira combinação cósmica renovada

Hoje eu acordei cedo, e como diria Leminski, azul, tive uma idéia clara. Vou escrever no Meio.


Eu andei tão absorvida por processos kármicos, como bem diz a fofa Evelyne, que não reparei a falta de escrever esse bróugui amalucado aqui. Processo kármico é aquele que você enfrenta quando o indivíduo te pentelha/ enche o saco/ te ama mas te odeia/ te odeia só/ te ama só/ não sente nada por você e você precisa por razões sentimentais/ profissionais/ políticas/ metafísicas conviver. Difícil viver, como bem diria Sartre, o inferno são os outros, principalmente quando resolvem cair nas suas valas internas.
Isso me lembra a história que o João contou na sexta-feira, no almoço. Diz que Sartre visitava Araraquara a convite de Fausto Castilho, que mais pra frente fundaria o glorioso Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas, vulgo ifíchi. Ao mesmo tempo o Santos jogava com o time da cidade, o Araraquarense. Sartre foi jantar num restaurante da cidade, e juntou-se um burburinho à porta do estabelecimento. Um cidadão chega e perguntou pro povo se o Pelé estava jantando, e disseram que não, que era o Sartre. E o cara lascou a dúvida, mas em que posição esse cara joga?
Voltando à cold cow. Hoje tive um dia atrapalhado mas produtivo, e acho que contribui a "limpeza de chaminé" no Meio, como dizia a histérica Anna O. para o dr. Breuer, no clássico caso que inspirou dr. Freud a pirar o cabeção e dizer em alto e bom som que histeria masculina existe ( histeria- hysterós, útero, mal do útero, como homem tem mal de útero? Segundo Freud tem). No caso minha coisa seria facilmente diagnosticada pelos drs. Freud e Breuer; pelo menos tenho a esperança de, no final, não me tornar uma megera indomada como tanta/os por aí.
E eu abri o volume em italiano dos textos de Hermes Trimegisto e lá está: "O divino é, portanto, a inteira combinação cósmica renovada: no divino, de fato, a natureza torna-se estável".

Come to the dark side, my son

Outro dia eu tava no ponto de ônibus e um senhor varria a terra, jogando o pó com eficiência pra cima do pessoal no ponto. Uma moça bonita, que depois conversou comigo o caminho inteiro pra Unicamp, começou a rir e disse de forma sacana, Jesus, apaga a luz pra eu não ver isso.


Pois a semana passada foi a semana "Jesus, apaga a luz". Espantos de todas as espécies. Eu sumi do Meio simplesmente porque tive que deixar de usar meu sabre de luz de manhã, pra cortar e ao mesmo tempo torrar pão, pra coisas mais bélicas. De todos os padawan e mestres menores da Academia dos Cavaleiros Jedi, Panda Kenobi sempre se destacou por utilizar a Força para fins lúdicos, culinários e, como se diz em ítalo-paulistano, divertentes. Mas semana passada tive, como mestre Yoda no último filme da série ( terceiro da primeira trilogia) pegar meu sabre e dar num crazy people aí.
Depois de muitos debates na Praça é Nossa virtual, ops, msn, com Dani Mônica diretamente das Alagoas e Dani Nenem diretamente do Cambuí, cheguei à conclusão que a terapia no SAPPE surtiu um efeito benéfico.
Todos nós temos nossa ambivalência: a gente ama e odeia ao mesmo tempo. Temos atitudes escrotas com quem mais gostamos, achamos que a intimidade é o canal das patadas e que quem nos ama precisa nos aceitar como somos ( leia-se, com todas as nossas manias, defeitos e agressividades latentes e declaradas). Nem nos passa pela cabeça que os outros são os outros, a fusão amorosa precisa, na nossa fantasia, ser total, simbiótica e meio maluca. Tudo bem, isso no plano da fantasia é ótimo. Mas justamente uma das tarefas do processo de individuação, segundo minhas parcas leituras, minha experiência e minhas terapias e análises, é diminuir o mais possível a ambivalência. Reconhecer a agressividade e canalizá-la, tematizá-la, vivê-la de uma forma mais saudável.
O problema é quando neguinho resolve do nada ser ambivalente com você, não te explicar o motivo e te causar aborrecimento, quando você tá no meio de sua jornada padawan, aprendendo a tirar naves do pântano, ficar amigo do Chewbacca e de quebra destruir a Estrela da Morte com sua intuição. Daí você, pequeno Skywalker, se vê diante de um Darth Vader que quer te estrangular, mas ao mesmo tempo é seu pai. Um homem que não é mais homem, uma máquina de destruir, mas que ao mesmo tempo foi o mais brilhante da Academia Jedi ( e que destruiu sem dó nem piedade essa mesma academia). Sabemos, porque vimos trilhões de vezes O Retorno de Jedi, que Darth Vader, ops, Anakin Skywalker, só ouviu o lado bom da Força no finalzinho, salvando Luke na hora H e deixando enquanto isso que os psicopatas da fofura ( sim, isso existe) Ewoks ferrassem com as tropas do império com sua meiguice e catapultas assassinas.
O que é triste é que tem muito Darth Vader por aí que não ouve o chamado bom da Força nem no final, deixando a cargo do Luke sua própria salvação, e dos Ewoks, a salvação da galáxia. Pior é quando o pequeno/pequena padawan, incauto, cai no dark side e entra na onda. Exemplo básico: neguinho combina com você e fura. O pequeno padawan fica vermelho de raiva e imagina milhões de coisas, sofre, vai no blog, torra a paciência da lista inteira do msn, sofre mais, estabelece hipóteses, todas baseadas em generalizações completamente furadas ( o clássico para as padawans-meninas: "Os homens têm medo de mulher inteligente", "Ninguém aguenta minha sinceridade, meu charme, minha autenticidade, piriri pororó").
Ó cara ou caro padawan, se alguém foi ambivalente com você, pense, isso acontece e a pessoa vai se arrepender. E volte seu olhar pras suas atividades na academia. Semana passada eu tive umas 15 ocasiões em que foram muito ambivalentes comigo. Passei por isso com o jeito tranqüilo de quem, sim, está do lado certo da Força ( só quero amar, como dizia Tim Maia).

Wednesday, October 03, 2007

Frases descabidas

-Só se permanece si mesmo quem muito sofre.


-Zica por zica, melhor as minhas.


-Dê-me uma razão para chorar e lhe darei cem razões para beber.


-De grão em grão é que se enche o saco.

Sunday, September 30, 2007

Prateleira


E eu, que não sou uma panda consumista nem nada, tive um surto de madame essa semana. Detalhe, não possuo um mísero real pra poder sustentar tal surto; então, no final das contas, considerei que é um daqueles surtos compensatórios, porque o voto de pobreza franciscana, feito por mim, já tá demasiado.


Começou que eu queria um relógio. Daqueles de ouro, delicados, de velhinha que vai no Municipal. Quando era jovem, minha tia tentou empurrar um desses pra mim, e eu preferi um Casio daqueles batatões, de mergulhador, indestrutíveis e nada delicados ( esse relógio só sumiu porque foi furtado num ônibus pra Unicamp, anos depois). Andando pelo centro de Campinas, vi um relógio lindo de morrer, numa joalheria; depois, na fatídica feirinha hippie, um senhor relojoeiro me mostrou um pequeno Seiko, e eu sem nada.
Roupa, lingerie, perfume, maquiagem, tudo eu ia vendo e fazendo uma wish list ensandecida, descabida e totalmente inverossímil. Mas o máximo do surto veio depois.
Eu vi na vitrine da Dascenzi, loja de sapatos finos e um tanto quanto cafonas, uma bolsa da Guess ma-ra-vi-lho-sa. Já tinha notado tais bolsas, inclusive perguntei pra uma moça bonita que carregava uma delas pelo shopping Dom Pedro, quando tomava um lanche com o Juam. Mas em plena rua Conceição, aquela bolsa foi demais pros meus nervos. Nem me aventurei a entrar na loja e perguntar o preço da tal maravilha. Mas em casa é lógico que procurei tais bolsas no próprio site da Guess e no Mercado Livre.
Daí vem a coisa mais engraçada. Algumas bolsas da Guess estão à disposição no Mercado Livre, como tudo nessa vida, incluindo essa linda aí de cima, chamada Sicily Hobo ( não é a que eu vi na Dascenzi, preta e cinza, mas eu aceitaria se algum leitor resolver me mandar uma de presente). Nos EUA custa 70 dólares; aqui na Dascenzi eles vendem por 500, 600. Um absurdo de caro. No Mercado Livre o povo faz um preço melhor, mas daí vem a discussão teológica.
Se você procurar no site, tem nego vendendo Louis Vuitton por 300 pilas. Uma Louis Vuitton nova custa 2000, 3000 reais, uma coisa assim, totalmente descabida e sem noção. Eu, no alto da minha falta de bom gosto, prefiro as da Guess. Uma Louis Vuitton dura a vida toda, dizem, e dizem que são as mais elegantes. mas ainda assim, do fundo do meu franciscanismo, acho indecente um preço desses. Peguei implicância da marca, na minha adolescência símbolo das negas patricinhas idiotas do meu colégio ( que ainda adornavam as cabeças com bandanas coloridas e vinham com as tais bolsinhas LV pra aula de Educação Física), implicância um pouco minimizada porque vi fotos lindas da Angelina Jolie defendendo as crianças pobres em Davos em tailleurs de lã impecáveis Saint John Knits e uma bolsona LV. Aliás, o site da Saint John traz Angelina, como sempre deslumbrante e doando o cachê pras crianças de, sei lá, Serra Leoa.
Enfim, eu teria tudo da Saint John, mas Louis Vuitton muito provavelmente não ( aquelas bem assim, realistas, quá quá quá). Mas como o milagre da LV de 300 reais? Então, a picaretagem brasileira não tem limites. Ora bolas, o neguinho vende réplicas, hierarquizadas pelo grau de perfeição na pirataria, ou contrabando. Mas tem gente que vende as legítimas. O interessante é que os vendedores do Mercado Livre criaram um dialeto todo próprio pro consumidor distinguir as bolsas umas das outras, e o próprio site fornece um guia pra pessoa reconhecer a bolsa LV verdadeira. Eu não tinha a mínima idéia disso tudo, na minha pobreza sempre distante dos bens do mercado de luxo; nem sabia que uma bolsa LV é como jóia da H Stern, com número de série e um bando de detalhes. Vejam lá o Guia pra não comprarem gato por lebre ou pra vocês terem uma idéia da profundidade da picaretagem:
Ah, e no sebo que comprei minha boneca Emília, meses atrás, vi dois Aquaplay em perfeito estado de funcionamento. Estão na wish list, bem como umas antigüidades da feirinha, uma cristaleira pra pôr as antigüidades e uma passagem para Londres.

Thursday, September 27, 2007

E no dia de São Cosme e São Damião...

Hoje, dia de São Cosme e São Damião. Minha avó enchia saquinhos de papel com doces e brinquedinhos de plástico, e distribuía para as crianças do bairro.


Celo acaba de ligar dizendo que nasceu Nina, irmãzinha caçula do Fefê e do Murilo, depois de, como toda boa menininha, deixar todo mundo esperando... E viva a Nina! Meus parabéns à Jana, ao Henrique, ao Felipe e ao Murilo e a todos nós, que temos mais uma amiguinha pra compartilhar a beleza da vida. Beijos na mais nova fofa do pedaço, e votos da felicidade mais completa, de saúde, de força e de tudo de bom. Quando nasce um bebê, eu queria muito ser daquelas fadas dos velhos contos, pra reforçar a alegria que sinto por uma nova pessoa legal surgir.
E hoje ainda é aniversário do Léo, pessoa infernal de plantão. Mandei uma mensagem no celular da pessoa, leitor contumaz e feroz do Meio, com suas críticas arrasadoras da minha necessidade de transcendência (leia-se, sr.Leonardo é ateu). Então parabéns também pra você, Léo, apesar de você achar o Meio do Caminho horrível e a panda uma looser nó cega! E me vinguei de você, porque você vai ficar com vergonha de ler isso aqui!

Wednesday, September 26, 2007

Del contrario ho io brama

Ontem terminei a numeração do Caderno de Imagens. Deu um trabalho pavoroso, e fiquei com a cabeça completamente fundida.

A tese cansa, demais, meu Deus. Pode ser que isso se deva ao meu total despreparo intelectual, e minha completa falta de vocação para uma tarefa tão complexa. Ou ao fato que a temperatura nas terras paulistas caiu 20 graus centígrados do dia pra noite literalmente, ou sei lá o quê. Também fiz muito café, e muito forte hoje. Daí eu acelero, eu durmo tomando chá de camomila, sou muito influenciável e hoje tive que mandar uma pessoa que eu amo muito à merda. Momentos de tensão, e um porta-lápis caiu sem nenhuma explicação da Física newtoniana, nem de Einstein nem da Mecânica Quântica. Medo de viver, de sofrer? Sei lá.

A saber, o título é o verso 94 do Canto XXXII do Inferno, fala de Bocca degli Abati, uma das almas danadas que cumpre pena por traição no último círculo do Inferno, no gelo eterno, por ter traído os seus numa das batalhas entre guelfos e guibelinos. Ítalo Mauro escreve "Minha vontade o oposto é o que reclama".

Monday, September 24, 2007

Do acaso e da utopia

Há uns dois anos atrás, recebemos a notícia da abertura do FAP Livros, o programa de compra de obras pros acervos das universidades paulistas, obra e graça da Madrasta FAPESP. Todos os pesquisadores doutores, inseridos em Projetos Temáticos, orientadores de bolsistas, etc e etc, poderiam enviar sugestões bibliográficas para a aquisição de livros.
Tanto o meu orientador, no IEL, quanto o Paulo, com quem trabalhei no IA, podiam enviar listas, e pediram colaborações, sugestões de todos. A recomendação era a mais doida possível: fazer listas de maravihas, ilhas paradisíacas e outros portentos da bibliografia internacional. Pensou-se que atirando pra cima, o tiro sempre cai um pouco mais embaixo, e no máximo os Tahitis em forma de livros não viriam, mas as Praias Grandes nos encantariam a vida.
Eu, sempre propensa ao pensamento utópico mais descabido, fiz listas fantásticas, com coisas surreais, baixando o catálogo das grandes editoras italianas. Claro que fiz isso de molecagem, pra compensar o desejo, no sentido mais erótico e deslavado que existe nisso, de ter em mãos a bela edição da Salerno Editrice de todos os comentadores renascentistas de Dante.
Pois bem. Estava eu em plena incursão da nau dos desvalidos do IEL, semana passada, chega professora Maria Bethânia, da área de Italiano. E ela me diz, Paula, chegaram livros belíssimos, raríssimos, Divinas Comédias ilustradas de sonho. Tudo isso ninguém sabe como veio parar aqui, porque tudo custou uma fortuna, uma fábula, ela me disse; uma edição lá custou nada mais nada menos que 2000 euros. E enquanto Bethânia falava, eu empalidecia e quase perdia os sentidos.
Por um motivo obscuro, a FAPESP aceitou minha lista absurda, e agora a Biblioteca do IEL possui um acervo completo de Dante ilustrado, comentado, e sei lá o quê mais. Hoje, livre dos compromissos do aniversário e calma diante do horizonte duvidoso e sofrido, habitual, da minha lascada vida ( o drama é fundamental numa mulher né não?) fui ter na biblioteca e saber dos portentos. E realmente, na estante já está esperando, pelos séculos vindouros, o Comentário de Piero Alighieri, filho do tiozão narigudo, e outras pérolas dantistas. E no processamento, porque não há estagiário nem funcionário, 90% das compras. Fizeram inglês, alemão, francês, espanhol, entrar primeiro no acervo; a brava língua de Leopardi ficou pra depois, talvez por ciúme das outras esquadras. Lá estava, numa caixa de papelão, a edição de 2000 euros das ilustrações de Federico Zuccaro, do séc.XVI, para o venerável poema do tiozão.
De vez em quando, por acaso, a utopia acontece. Fiquei me sentindo culpada, afinal o dinheiro do contribuinte paulista poderia matar a fome de várias crianças, ajudar gente que sofre de verdade. Isso que dá a pessoa ser doida.

Sunday, September 23, 2007

Risco azul sobre tela preta

Eu estava desanimadíssima, tendo uma crise de angústia atrás da outra. E na véspera do meu aniversário, resolvi tomar uma providência ( poderia tomar a cachaça mineira Providência também, mas só tava com uma pinga artesanal em casa, da qual tenho medo). Ou melhor, umas providências.
Eu tava sem vontade de ver ninguém, nem de fazer nada. Mas no meio de uma crise de angústia ( mais uma, nessa semana de recordes de crises de angústia) resolvi ligar pro Zé. O Zé, o Luís Fernando e o Flávio têm, em comum, uma rara capacidade: eles me salvam da angústia com três palavras idiotas e o riso franco de quem não leva a panda nem um pouco a sério. O Zé falou que o fundo do poço tinha mola, e no meu caso a mola era bastante elástica, e que era pra parar de bobagem e combinar logo de ir no Cambuci, pra espairecer. Detalhe, Zé vem do Cambuci, Luís Fernando de perto do Bauru e Flávio, de Minas, de modo que três partes da minha alma ficam contempladas ( Celso do Rio. Nunca tinha parado pra pensar nisso. Enfim, amigos e alma se espelham).
Liguei no Flávio a cobrar. Ele no CRUSP me informa bem delicadamente que se era pra ligar a cobrar, que eu ligasse do orelhão. E Luís Fernando fala no msn, sua orelhuda, vá passear um pouco, vai na igreja que você sossega o facho e dá um pouco de paz pra mim. Tão bom se sentir querida, né.
Daí no meio disso tudo me deu vontade de jantar no japonês de Barão e toca entrar no emeesseene pra combinar, e no meio da maluquice eu vejo um risco azul, fino, varar de ponta a ponta, verticalmente, a tela do Caronte. E taca falar com um, com outro, constato que o LCD ( vulgo tela) do barqueiro do inferno sofreu um abalo. Me chateio horrores, Caronte apesar de dar pau é bom companheiro diário,e a risca azul me irrita profundamente, um Poltergeist me lembrando que eu não vou ter grana pra consertar.
Enfim, com risco azul e tudo combinei japonês, caipirinha de saquê com morango e muito sushi. No dia seguinte, às sete da manhã, minha mãe como há trinta anos atrás me acorda pra vida. Me diz coisas bonitas, emocionada. Vindo dela seria o maior presente que eu poderia querer, porque há trinta anos, apresentada à minha pessoa embrulhada num cobertor pela dra. Iracema, dona Meire lascou, que menina feia.
Fui pro Piratininga, atrasada como sempre, eu sofro de várias coisas crônicas ( sinusite, asma, bronquite em geral, prolapso da válvula mitral, dislexia, déficit de atenção, esquecimento múltiplo, angústia, miopia de dez graus e atraso constante). Zé me busca no Paraíso e a gente se perde na cidade, em busca do tempo e do caminho pro Cambuci perdido. Mas uma hora começo a reconhecer coisas, coisas que não via há mais de quinze anos, sei lá eu. A saída pra Radial Leste, da Nove de Julho. A Baixada do Glicério, a rua São Paulo, onde moraram meus avós. Zé faz uma viradinha embaixo do viaduto, que em tempos idos foi a Rodoviária de São Paulo, e de repente eu me vejo com meu pai no carro, voltando pra casa. O INSS, e a gente vira mas a mão da rua tá do outro lado. E do nada surge a virada da Lavapés, e lá em cima, a Igreja Nossa Senhora da Glória, Paróquia de São Joaquim.
Tudo me comove, por estar exatamente igual. A especulação imobiliária ainda não chegou e as vilas, as casinhas operárias estão lá, bem cuidadas, as casinhas Volpi. O bairro é tranqüilo; não existe trânsito nem na Lins de Vasconcelos nem na Lacerda Franco, as duas artérias principais. As ladeiras. As casinhas. As lojas são as mesmas, vejo a ótica dum grande amigo dos meus pais, A Chapa, onde se come o melhor lanche da cidade, e do lado o Yokoyama, a pastelaria celestial. Não tem metrô, não tem ônibus, isso explica o isolamento, o ar de cidade do interior, e mesmo a deterioração é igual a trinta anos ( os mesmos cortiços, as mesmas crianças descalças na rua). Tudo me comove por brilhar, por estar lá, por existir sem grandes mudanças. Talvez eu não tenha mudado tanto também, algo dentro de mim é o mesmo.
A igreja reluz de tanta tinta suvinil, obra e graça dos paroquianos animadíssimos e que em termos de patrimônio histórico, equivale a uma bomba. Mas o que me comoveu fundo foi o fato de a igreja, no alto do morro, dar vista pro centro inteiro: a cúpula da Sé, o prédio do Banespa, resplandecem em meio à névoa, que é 99% poluição e 1% a mesma desde os séculos passados. Do morro se vê o caminho antigo pro litoral, hoje a Radial Leste, que realmente num momento vira o sistema Anchieta-Imigrantes. A igreja tem de um tudo; na verdade, um dos templos mais antigos da cidade. A paróquia do Cambuci seriam duas, a Glória e São Joaquim, mas a segunda igreja nunca foi construída, restando pro pequeno aguilhão neogótico o amor irrestrito do bairro. Na minha lembrança e nas fotos do meu batizado, a igreja era sóbria, fazendo par com a Sé. Eu e o Zé trocamos observações sobre milhões de coisas, e eu fiquei num estado de espírito muito peculiar que se convencionou chamar felicidade.
Fomos almoçar na Móoca, bairro da família dele, e depois rumamos pra Cultura do Nacional, onde encontraria o mineiro Flávio. No café, uma surpresa que foi um presente do acaso, dos deuses, do Deus hebreu: avisto o velho de olhos negros dr. Na Prática, acompanhado de lindas mulheres, dentre as quais a eleita do seu coração. Falamos sobre tantas coisas. Sobre o passado mas principalmente calamos sobre o mais importante, o laço de afeto, como convém às grandes ocasiões. Celso me conta do sucesso inesperado do Meio do Caminho no Banco Central (???), então aos meus leitores de lá, um beijo carinhoso.
Depois foi Flávio, me presenteando com Ataíde e com seus olhos azuis e sua mansidão das Gerais. Chorei muito. De felicidade. Depois amigos no celular, de longe, de perto, de todos os lugares. Sou feliz. No jantar, uma conversa sobre se existe justiça ou não no mundo. Se vale a pena ou não ser ético. Sim, vale. Porque a verdadeira felicidade só existe na beleza do momento em que a gente se reconhece gente.

Friday, September 21, 2007

Envelheço na cidade

E essa semana deu zica no Ira. Mari, esposa do Mário que toca com os caras, falou que o Nasi se arrombou com o irmão, mas que ninguém da banda tá ligando muito pra isso. It's rock and roll, all this... bullshit. Whatever. Mas desde a minha remota juventude não entendia Envelheço na Cidade. Agora entendo.


Corta pro Minhocão. No Fusca volto pra casa, no Cambuci. Corta por pátio do Divino, em Jundiaí, venta muito em Jundiaí e as vidraças de casa não tem vidros, meu tio roubou dinheiro do meu pai. Corta pra eu olhando a serra. E corta pra eu olhando o Lago Michigan. Nunca pensei que iria geograficamente tão longe, sendo exatamente eu mesma. Nunca pensei que aos nove anos começaria a roer as unhas e a ter sinusite, e eu com 30 e as unhas roídas e a cabeça atravessada pelo mesmo peso. Mas o lado bom é que não me dou tanta importância assim, de modo que sei que os cabelos brancos vão aumentar, e me sinto livre, leve, como há muito tempo não me sentia. Quando a gente é muito jovem, a gente acha que sabe quem é. Mas não sabe. Depois percebe que você é um monte de coisas das quais fugiu durante muito tempo. E pára de fugir. Corta pra mim em Madri, me olhando no espelho. Ou corta pro dia em que perdi um filho, sem o saber. Que perdi meu pai. Que conheci meu grande amor. Que enfrentei meu medo, e que deixei minha angústia me dominar. Que ganhei minha geladeira e meu fogão de brinquedo, de lata. E um Ursinho Carinhoso, o rosa com um arco-íris na barriga. Corta pro momento em que falei demais. E pros que falei de menos. Que escolhi o tema da minha tese andando no estacionamento da pós do IFCH com o Luiz, indo e vindo. Corta pros amigos, zoom no meu coração.

Thursday, September 20, 2007

Miscelânea

Madonna del Padiglione. Sandro Botticelli, c.1493. Têmpera sobre madeira, 65 cm de diâmetro. Milão: Pinacoteca Ambrosiana.

Quando eu era criança, tinha verdadeira paixão por estojos em geral. Lembro dos de madeira, com tampa deslizante, depois os de tecido, os fatídicos de botão ( a gente apertava botões e lá vinham uma lupa, uma régua e outros rejuntes) e os de lata, pesadelo da classe ( caíam no chão e já viu). Lembro dos de couro, com elásticos pra prender os lápis. Não tive muitos lápis, canetas e lapiseiras, nem estojos muito bonitos. Sofria nas aulas de Arte, no ginásio, porque só tinha lápis da Labra e a professora quase me bombou por isso, nem tintas e pincéis adequados.
Então, hoje resolvi escrever um post-estojo de presente. Uma Madonna do Botticelli das menos conhecidas, dos "amigos de Sandro" como dizia o historiador Bernard Berenson.
Nunca estudei com afinco a chamada Teoria Crítica, apesar de um amor infundado por alguns dos aforismas da Dialética do Esclarecimento ter me levado a um dia, surpreendemente nessa encarnação, ter defendido um mestrado sobre Adorno. Nunca havia lido Walter Benjamin, até o dia de hoje, onde o Rua de Mão Única me chamou, na estante. Me senti várias vezes ali, o que não me surpreendeu; uns trechos do Diário de Moscou haviam suscitado isso, e eu sou muitíssimo ignorante pra realmente compreender Benjamin. Mas lá vai uma frase do grande pensador: "O olhar é o fundo do copo do ser humano", Walter Benjamin. Rua de Mão Única, pg.49.
Não sei o que fazer no dia do meu aniversário, um sábado que promete ser um forno. Aliás, não sei o que quero fazer da minha vida, mas tudo bem. Andei angustiada e triste, como sempre, mas não desesperada. Sem São Paulo, o meu dono é a solidão, como entoa 365 no Neguinho do Pastoreio. Tinha pensado em ir assistir uma missa na igreja do Cambuci, tive vontade de ver umas pessoas e com toda a sinceridade, tive vontade de sumir do mapa e só aparecer cinco dias depois. Mas faço 30 anos, o tempo urge e ruge. Num telefonema, um amigo me devolve ao normal da vida. Segundo ele, não cheguei ao fundo do poço, que seria usar calcinha sem elástico ou com o elástico frouxo.
E hoje eu tenho lápis, canetas Stabilo, e um jogo completo de coisas da gatinha Marie, dos Aristogatas. Não derrotei tanto assim, apesar do sol maldito que peguei no meio-dia pra poder conversar com quem eu queria. Aquele calor, o sol e o nervoso fundiram meus miolos, mas a tudo a gente se adapta.

Tuesday, September 18, 2007

Morgana, a Fada


Eu tenho um problema antigo, que nesses últimos dias se intensificou. Os leitores do Meio que me desculpem, mas é um desabafo, um descarrego mesmo. Tenho uma coisa que se dizia antigamente, crise de angústia. Algo detona, uma ligação não atendida, um encontro frustrado, e logo me falta o ar, vem uma ânsia, uma falta de sentido no mundo. Um absurdo, um vazio. Um escuro. The dark side of the moon, onde habitam selenitas-demônios, vampiros de energia que me acorrentam e me dizem que não valho nada, que não sou ninguém, que tudo que eu sinto é errado, horrível, que tudo que eu penso é idiotice e que tudo tem que ser destruído, devastado.



Nesses últimos dias, sofridos, encalorados, atarefados e loucos dias que antecedem meu aniversário, eu nunca enfrentei meu lado negro tantas vezes, nunca fui parar no meio de tanta neura. Um amigo sinceramente preocupado comigo me sugeriu remédios, um médico. Tá certo ele. Não tenho nada contra o substrato biológico que nos forma. Devo estar com o cérebro pifado de tanto Dante.


Mas eu tive um sonho, um dos sonhos mais pirados da minha vida. Eu sonhei que um oceano saía de mim. Foi uma verdadeira epifania. Não vou narrar detalhes do sonho, muitos íntimos e óbvios, mas eu no final flutuava sobre um mar tempestuoso, belo, completo em seu terror e energia. O oceano saíra de mim, destruíra muitas coisas, mas era justo que assim o fosse. Era necessário. Todas as coisas estavam no seu lugar,ou melhor, o lugar original havia retornado pleno. Eu flutuava sobre as águas, serena, em paz, em profunda paz comigo mesma, com o passado e o futuro, vestida de negro, com estrelas nos cabelos, e uma espada na cintura do vestido longo, negro como a noite e o oceano. E a lua brilhava naquela atmosfera úmida, sombria, fascinante.


Acordei com muita energia, no meio da noite, com assuntos pendentes na cabeça. Escrevi pra um amigo querido que tá longe, e tentei me acalmar. Bom, acordei muito cedo e atarantada vim dar à praia do msn, onde Dani Mônica me atende de Maceió. Eu contei do sonho pra ela, do dia terrível que tive ontem, e tal. E falei, mas quem é essa figura de preto, no mar? Iemanjá não é. Nem Afrodite. Que estranho, uma Iemanjá de negro, falei, e Dani, mas claro que não é Iemanjá, é Morgana, a Fada.


Morgana, a Fada meio-irmã de Arthur, o Rei. Em algumas fontes, Morrigan, a deusa da morte dos celtas; em outras fontes, a Dama de Avalon, a ilha, ou o reino sub-aquático da Boa Morte, o portal dos elementais, dos seres banidos pelo cristianismo. Eu era Morgana no sonho, com Excalibur e tudo, o mar do Norte e a Irlanda perto de mim, os mortos e os vivos, os Cavaleiros da Távola Redonda, o Merlin.
Acima, a Fada Morgana, num baralho de deusas, por Susan Eleanor Boulet, a mais bonita, na minha opinião, no Google Images.

Monday, September 17, 2007

Sacode a poeira

E hoje eu acordei atrapalhadíssima. Minha mãe quando quer passar aqui, passa muito cedo, contrariando meus hábitos notívagos. Ontem eu fiquei na luta com a Ema, a ajudando numa tradução, o inglês Tabajara das duas não ajuda e eu com o caderno de imagens no pepino.
Estou atrapalhadíssima, portanto. Fui dar aula no sábado nem sei como, Van Gogh, Cézanne e Gauguin. Bom, pelo menos os três eram confusos também, perdidos, sofridos e ferrados. Entre sujos e mal-lavados, salvaram-se todos, inclusive meu edredon. Resolvi lavar caseiramente meu edredon, evidente que na zona da semana zicada esqueci o dito na máquina, e o bicho tava exalando um dos piores cheios da história universal. Lavei de novo duas vezes e pus pra secar no clima desértico de Campinas. Funcionou. Tá cheiroso e bem lavado.
Penso que se deve tentar de novo, sempre. Põe mais sabão em pó, ajeita-se um amaciante melhor. Mas não se deve deixar de tentar. De viver. Mesmo que seja sofrido. Mesmo que custe. E mesmo que a gente fique assim, o pó da rabiola.

Friday, September 14, 2007

Harmonia

E como diriam Sá e Guarabyra, um momento qualquer de emoção, de harmonia.
Semana difícil, zicada. Gostei da teoria de uns meninos do IFCH que encontrei hoje: a história não é movida pela luta de classes, e sim pela tosquice. Acontece uma coisa tosca, você tem que se reorganizar pra dar conta daquilo, e tudo muda, até a dança das cadeiras de dentro parar, a música parar e tudo serenar. Como eu queria que tudo serenasse.
Por mais que eu, sem sombra de dúvida, tenha vocação pra sofrer, e como diz Flávio, e como tenho, tem coisas que escapam do nosso controle mesmo. E aí, fazer o quê? Nada, apenas viver. Um dia após o outro, uma hora depois da outra, tomando cuidado pra não tropeçar nas coisas e pessoas queridas. E tem horas que a dor é muito forte. E que tudo fica absurdo.
Tive uma crise de angústia terrível ontem. Até as coisas ficarem bem de novo, vai demorar um pouco, então hoje estou numa delicadeza tremenda. Olhei no espelho e me vi delicada. Aliás ando numa fase em que tudo meu é uma colcha de piquê, daquelas velhinhas, brancas, que minha mãe punha na cama nos dias de calor.
E semana que vem é meu aniversário. Ganhei um lindo oratório mineiro do Juam. Preciso montá-lo dentro, pérolas e flores. Só tem um problema: eu tenho dois Santo Antônio, e um São Francisco. Preciso doar um dos Antônios e conseguir outro santo, acho que São Pedro serve bem pro posto. Terei um orador, um asceta e um chaveiro.
E eu falei no msn muito essa semana. O msn, vulgo A Praça é Nossa Virtual, salva a gente. E eu errei todo o meu caderno de imagens, e terminei as notas de rodapé; deixei os romances pela metade e não fiz um bolo que queria pro Juam. Não fiz o que eu queria e precisava, mas sobrevivi. E de lado em lado, será que um dia me ajeito?


"Desculpe, amor, se meu presente
é meio louco e bobo
e superado:
uns lábios em silêncio
( a música mental)
e uns olhos em recesso
( a infinita paisagem)"
Carlos Drummond de Andrade

Sunday, September 09, 2007

Algo de bom

Esses dias, baixei a trilha sonora de The Sound of Music, no Brasil A Noviça Rebelde ( tradução boa taí). Já disse, em algum lugar do Meio, o sucesso que esse musical, gravado de uma sessão da Globo pelo meu pai, aficcionado, fazia lá em casa. Lembro de sessões e sessões que a Fraulein Maria entoava The Sound of Music, ou a minha parte favorita, o The Lonely Goatherd ( oreleiiiii, cantavam os fantoches de sonho).
Eu só não entendia uma parte. Quando a Fraulein Maria e o Capitão Von Trapp ficavam juntos, cantavam uma canção intitulada Somethig Good.Não entendia porque a freirinha tinha que lembrar da infância pobre, da juventude desolada, e de algo bom que ficou no passado e que havia causado a felicidade daquele momento.
Evidente que se trata de licença poética, das mais baratas. Se houvesse um pouco de justiça, de equivalência no mundo, ninguém estava na situação que está. Isso eu penso hoje, mas nos últimos dias eu tive a impressão que algo de bom eu fiz, pra merecer a felicidade que tive.
Fui pro velho Piratininga a convite de Flávio, agora exilado nas terras uspianas. Uma caminha preparada para essa que vos fala num quarto de um franciscano, no CRUSP, amigos de verdade, felicidade de verdade. Revi o Fauno do Trianon, e conheci a nova Livraria Cultura, no Conjunto Nacional ( estranhíssima, na minha opinião). Só em São Paulo uma ladeira vira livraria, com pufes coloridos e um dragão imenso, gigante, de madeira, pendurado no meio. Mas tudo bem. Revi a USP. A Consolação, a Paulista. Eduardo e Verônica. Conheci gente nova, legal, que me tratou muito bem, que se interessou de verdade por mim, pelo tiozão narigudo e pelo tiozinho barrilzinho.
A maior emoção foi ver, pela primeira vez, uma ópera. Fomos, eu e o anjo Flávio, nos postar na entrada da Sala São Paulo, na Estação Júlio Prestes, e conseguimos um ingresso grátis para a Elektra, de Richard Strauss. Há uns anos, eu assisti na casa do Flávio um DVD com uma encenação alemã dessa louquíssima ópera da Viena fin-de-siècle. Como na tragédia, tudo é alto, paradoxal e extremamente belo. Entrei encantada naquele mundo de sonho, naquela sala que tudo brilha, pensando: pra neta de zelador holandês do Cambuci, me dei bem.
Apesar de triste, cansada, com todos os meus defeitos e problemas, vou completar 30 anos refletindo se fiz algo de bom. Assistindo à ópera, almoçando com os meus amigos, sendo tão querida, amada e cuidada, acho que sim.