Eu queria ser jornalista. Queria escrever em revistas, principalmente a Capricho, que eu assinei durante um certo tempo. Queria viajar, ou trabalhar na National Geographic. Ouvia muita música, tocava teclado, e escrevia muito. Diários e poesias. Também desenhava e cuidava das crianças dos vizinhos, e estudava por conta. O meu colégio havia inaugurado, naquele ano, aulas de reforço, à tarde, para o pessoal do terceirão. Um grupo de amigos fiéis se uniu em torno do desafio de conseguir uma vaga numa universidade de prestígio, ou seja, as universidades públicas.
O povo queria estudar na Unicamp; já eu sonhava com a ECA e com um retorno à minha cidade natal. A minha melhor amiga era a Débora, a única afro-descendente do colégio, linda de morrer, e inteligente demais, filha de uma das enfermeiras chefes do HC da Unicamp. A Débora vivia entre a casa do pai e a da mãe, e num desses desencontros, o pai e ela compraram dois manuais do vestibulando, por pura afobação. Pra não deixar minha amiga no prejuízo, comprei o manual dela. Só por isso prestei Unicamp.
Sem Jornalismo como opção, fiquei entre Letras, História e Ciências Sociais. Nas costas do meu pai, preenchi Sociais na fila da entrega do formulário. Sem estudar nada pro famigerado e diferenciado vestibular da Unicamp, entrei na disputa dos vestibulares. Fui pra Curitiba com meus pais e meu irmão, e num flat passei o frio típico curitibano. A FUVEST foi aquele desespero de sempre, e passei pra segunda fase apertada, mas passei. A Unicamp não me preocupava; achava a cidadela zeferinítica o fim do mundo, uma roça, e toda vez que tinha que buscar meu irmão na casa de um amigo lá, achava tudo aquilo, realmente, o fim.
Na segunda fase da birosca unicampítica, um acidente de percurso. Eu me sentei atrás do Márcio, que conheci na primeira fase da FUVEST e de quem já tinha ficado amiga. Só que o Márcio era um armário de três metros por quatro. Eu me sentei atrás dele, no final de uma longa fila de carteiras, numa sala da Engenharia Básica, e no outro dia tanto eu quanto ele não tínhamos mais carteiras com nossos nomes. A sala estava repleta de vestibulandos pra Sociais; uma menina riu e falou, bom, dois a menos. Senti muita crueldade nela e em outros, que riram. Contrariando as previsões, eu e o Márcio passamos, e eles, não, os caras da COMVEST só quiseram mudar a gente de lugar.
Chorei muito no dia em que vi que, por dois lugares, caí na lista de espera da FUVEST. E no mesmo dia, no Ciclo Básico, vi meu nome nas listas. Uma amiga querida da minha mãe, a Sônia, argumentou comigo que me via muito mais como professora universitária do que como jornalista.
Há treze anos, entrei no IEL pensando que era o IFCH. Consertado o erro, dei com o Márcio e a Ísis, amiga de colegial, felicíssimos, cheios de planos, esperando a primeira aula de Antropologia. Eu não fazia idéia do que encontraria no curso; pensava que poderia até enfrentar um cursinho, e outra tentativa. Mas não, no primeiro mês vi que a Sônia me conhecia bem demais.
Há treze anos, eu firmei na minha cabeça que a carreira acadêmica era o que eu queria pra minha vida. Eu tinha dezessete anos, desenhava, tocava teclado, era magérrima e meio dentuça. Usava só moletom e passei a paquerar mais os meninos naquele ano. Li num artigo xerocado da Times, na aula de Economia, que existia algo chamado internet. Enfrentei minha primeira terapia no CECOM, e também duas cirurgias de extração de dentes de ciso.
A Unicamp era muito diferente, eu era muito diferente. Nas festas, a gente ouvia sempre a mesma fita cassete, obra e graça de um colega da Engenharia; paquerava os garotos da Biologia e fazia seminários e fichamentos. Mas eu tinha essa certeza.
Semana passada, encontrei um professor, que escreveu um dos livros que a gente lia, em parte, no nosso primeiro ano. Ele me disse que eu podia ir embora agora, que a porta estava aberta, você é uma doutora, ele me disse. Eu falei que queria ir, ele me disse, agora você pode. E depois passamos a falar de coisas da universidade. E daí percebi que ele sabe, tanto quanto eu, que a gente fala até logo, mas nunca adeus, pros anos mais importantes da vida da gente.

3 comments:
lindo!
snif, snif.
chata! feia!
que texto é esse, meu? puta coisa linda...
Panda strikes again!
Brigada, e lindas são vcs... hihihihi....
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