Monday, November 30, 2009

Definições

Um amigo me disse hoje que eu sou como chuva: que depende daonde cai, é uma desgraça, agora quando cai na hora certa no lugar certo, é ótimo.

Me disse também que muita gente filha da putinha confunde a minha dor com maluquice. E quem é meu amigo reconhece a minha dor, e ajuda a curá-la.

E que eu tinha que tomar cuidado, pra não rodar de um lado só, se não eu ia me desgastar demais daquele lado.

Saturday, November 28, 2009

Pois é

No post abaixo, Alegria, Alegria, eu soltava o meu parco verbo em relação às arapucas da memória histórica dos anos recentes da História brasileira.
Pois é, caros leitores, o trem da dona História pegou todo mundo na curva e nesta sexta, César Benjamin, ex-guerrilheiro, preso durante muitos anos no regime militar, o famoso Cesinha das intermináveis querelas da esquerda brasileira, resolveu se manifestar e acusar o presidente Lula de tentativa de estupro, nos 30 dias de sua prisão.
Li o artigo, que será a pièce-de-resistance de todos os seguidores de Olavo de Carvalho do universo conhecido, bem como todos os leitores da Folha de São Paulo (que estão com o cu na mão diante das tropeçadas dos tucanos) e todos os da chamada direita brasileira.
Acho incrível que ninguém tenha se perguntado porque o "menino do MEP" nunca tenha aparecido, da razão da bombástica revelação de Benjamin às vésperas de ano eleitoral, via Folha, jornal que se notabilizou, dentre outras pérolas, pela ditabranda.
De fato, é urgentemente necessário pesquisar a história contemporânea do pais. Urgentemente necessário. Está trágico.

Friday, November 27, 2009

Canta, ó Musa, a ira da panda

Agora, enfrento com minha querida turma de alunos a República, de Platão. Não adianta os caras leitores fazerem cara feia: os próprios pediram para se expor a tal sofrimento. A primeira parte é fantástica, com Sócrates e o velho Céfalo falando do envelhecimento, da memória e finalmente da justiça.
Daí o bicho pegou, e ninguém estava entendendo nada. Muitas citações a Homero. No meu primeiro ano de universidade, li a Odisséia em Textos Fundamentais de Poesia, no IEL, e a professora Suzy Sperber nos deu uma prova, pra ver se o povo distinguia Circe dos porquinhos. Eu adorei a Odisséia, e a Ilíada ficou pendente. Numa viagem à Unesp de Assis, enfrentando o famoso ônibus Fergo, que faz qualquer trajeto no sertão paulista em mais de 19 horas, pulei de novo a destruição ruinosa de Ílion e encarei a Eneida, adorando a parte que Enéas se mete com a Sibila no Hades ( claro, almas penadas e monstrinhos é comigo mesma).
Voltando, a discussão da justiça tava pegando fogo, quando resolvi seguir o velho Platão e pegar na Ilíada, texto básico da discussão de Sócrates. Não consegui parar de ler, e estou totalmente envolvida.
Fiz um perfil, faz um tempinho atrás, no Goodreads (www.goodreads.com), que é um site legal, uma espécie de Clube do Livro virtual. Você pode escolher livros que leu, que quer ler, etc, e ver o que outras pessoas falaram do título. Resolvi por Homero na minha estante, e ler o que o povo escreveu das lutas por Helena.
Achei um barato, porque as pessoas se dividem nas discussões de "porque é importante ler um clássico da tal civilização ocidental", "não entendo nada de Mitologia mas acho legal", e uma moça que confessou que não consegue dormir pensando em problemas, e hoje sabe que a melhor coisa pra se fazer à noite é subir numa biga e pegar o corpo do inimigo e ficar arrastando por aí.
De fato, como ela disse, se você tem problemas, esquece de todos ao ler as discussões horríveis dos gregos e as palhaçadas dos deuses. A tal civilização ocidental começou bem: o livro não glorifica os gregos, muito pelo contrário: se você é uma pessoa sensata, torce o tempo inteiro pelos troianos, tal o baixo nível das tropas dos dânaos.
Eu acho Ulisses um tosco, o Agamênmon um bandido e o Menelau mau caráter. Amo Heitor de paixão e estou completamente irada com Aquiles. Ainda bem que tem o Virgílio pra me salvar, Enéas foge de tudo isso, funda Roma e pronto acabou!

Thursday, November 26, 2009

Alegria, alegria

Comecei a escrever sobre História do Brasil há quatorze anos. Evidentemente, agora também faço parte da História do Brasil. Meu objeto de estudo eram algumas manifestações artísticas no período de 1964 a 69, o que se chamou, pela imprensa ( mais precisamente, Nelson Motta chamou) o Tropicalismo. Muito da minha empreitada era encomenda do meu pai, que achava, no início do primeiro governo FHC, que se precisava pensar os acontecimentos da ditatura militar.
Fiquei os quatro anos seguintes na biblioteca do IFCH e no AEL, vasculhando teses, memórias, jornais, revistas, atrás de alguma pista. Li tanto as entrevistas do Geisel e dos homens da repressão quanto os tocantes relatos do Gabeira e de frei Betto.
Claro que, nascida no início da chamada abertura, eu mesma não tinha memórias dos anos de chumbo. Minha mente alcança eu, batendo na TV, toda vez que aparecia Delfim Netto, ou ver pela TV o mundo de gente na Sé, nas Diretas.
Acompanhei, pelos anos seguintes, as discussões sobre o passado recente do país, meio decepcionada, e, depois dos governos Lula, totalmente deprimida. Muito horrível ver pessoas que se advogavam defensoras de valores de esquerda montarem esquemas nababescos de corrupção, e também, ver que o passado se distorce, se fere, se deturpa.
Não vi a cinebiografia de Lula, nem pretendo. Parece que o filme termina na prisão do nosso atual presidente, depois dos idos das grandes greves do ABC. Lembro que, pequenina, tinha fonoaudióloga na rua Tutóia, e passávamos sempre pelo DOI-CODI.
As distâncias da memória são ótimas pros desvãos dos discursos políticos. Eu me ressinto de que a construção da história do Brasil mais recente está marcada, crivada, por escolhas que me parecem meio equivocadas, quando não completamente equivocadas.
O problema é que, penso, não vejo na universidade sair reflexões melhores sobre tudo isso. Aliás, ando muito pessimista em relação à universidade. Não vejo o povo trabalhar no sentido de esclarecer as coisas, só vejo lutas internas e tudo isso, como disse no post abaixo, tá me cansando. Então, nesses dias de calor infernal, leio Machado e pronto.

Monday, November 23, 2009

Preocupações

Passei o dia tentando, de todas as formas, alinhavar um artigo que estava emperrado há séculos. Eu queria escrever sobre as concepções de justiça no inferno de Dante; peguei a figura do Minós e comecei a descascar o abacaxi. Mas eu estou preocupada.
Com um monte de coisas. Eu sou uma pessoa preocupada, angustiada, ansiosa e no limite da maluquice. Eu me importo e me preocupo com as pessoas. Isso às vezes me atrapalha muito.
Vou dar um exemplo: a fofa Pati pegou um avião e foi pro Canadá. Ontem tentei falar com ela no msn, e nada, nada, e eu começo a achar que a menina virou homeless, e está congelando num beco deserto. Não sei se vocês se lembram daquela cena da Amélie Poulan, em que ela espera o rapaz no café, ele se atrasa e ela acha que ele foi parar no Afeganistão. Pois é, aquela cena sou eu.
Outro exemplo: eu briguei com uma pessoa que eu amei muito. Ontem, fui almoçar no chinês vagabundo da Barão de Jaguara e tudo estava cinza, e tudo pesava muito dentro de mim, a ponto de eu não conseguir chorar. E hoje eu acordei muito cansada.

Saturday, November 21, 2009

Abecedário da Música dos anos 80

Amor Perfeito, Roberto Carlos
Barrados no Baile, Eduardo Dusek
Cheia de Charme, Guilherme Arantes
Deslizes, Fagner
Esquece e Vem, Nico Rezende
Forever Young, Rod Stewart
Guilty, Barbra Streisand
Heart of Glass, Blondie
I love rock and roll, Joan Jett
Juliet, Robin Gibb
La Isla Bonita, Madonna
Muita Estrela pra pouca constelação, Raul Seixas e Camisa de Vênus
Nos bailes da vida, Milton Nascimento
Only a Dream in Rio, James Taylor
Por que a gente é assim, Barão Vermelho
Quero só você ( A vida tem dessas coisas), Ritchie
Rádio Pirata, RPM
Sândalo de Dândi, Metrô
The Lady in Red, Chris de Burgh
Ursinho Blau Blau, Absyntho
Vira Virou, Kleiton e Kledir
X- Abecedário da Xuxa
Z- acabou, galera, minha memória pra música oitentista é grande, mas não chegou no Z. É a idade, crianças.

Dança

La Danse, Matisse, 1909. Óleo sobre tela, 259,7 x 390,1 cm. Nova York, MoMa.

Hoje esqueci que ia dar aula. Agora estou com mais uma turma, uns fofos, e eu esqueci completamente que ia dar aula. Acontece nas melhores pandas. Cafézinho na padaria e vambora, falar de Picasso, Matisse e os inícios do Cubismo e do Fauvismo.
Eu precisava estudar mais. Tudo. Sério. Uma das coisas positivas deste lascado e sofrido ano que passou foi que estudei Rubens, Leonardo arquiteto, Charles Perrault e Thomas Hobbes sobre as fadas, o capítulo da Maquinaria e Grande Indústria do Marx, mas no meio disso tudo não pude ir às exposições em São Paulo, nem ver um MASP básico. E eu queria muito estudar Matisse.
Estava andando com os meus alunos na rua, e passou um cara numa Ferrari. Em plena Ponte Preta, rua de paralelepídedo, o cara me passa numa Ferrari. E os meninos me disseram que uma daquelas custa 800 mil, e eu pensei, se eu tivesse esse dinheiro, não ia comprar uma Ferrari, ia me pirulitar pra Paris, só pra ver a Impressão do Sol Nascente, no Marmottan.
Dizem que excelência é gostar daquilo que se faz. Se for assim, devo ser uma das melhores historiadoras da arte do milênio!!!!! Porque meu coração enche de amor ao falar da Dança do velho Matisse.

Thursday, November 19, 2009

Kairós

Os gregos, que sabiam algumas coisas, criaram duas palavras pra falar do tempo.

Uma é chronos, o deus terrível que come seus filhos. O tempo do relógio, que devora, do horário do ônibus, do bater o cartão, das rugas e dos dissabores. Do telefonema que não vem, da escuridão, da angústia.
Outra, é kairós. Kairós é o tempo interno. Ele não se mede no relógio, não se mede pelo visor de nada. É o de dentro. O indizível. O inesperado, o louco, o colorido, o bonito. As horas que passam depressa quando se está feliz, ou devagar quando se está com dor. Einstein dizia que meia hora é uma eternidade pra quem está com a bunda no fogo, e nada pra quem quer conquistar uma mulher.
Tive dissabores meio graves e estava em pleno reino de Chronos. Aconteceram várias coisas... que me fizeram retomar um pouco do meu kairós. Eu vi amigos queridos, sentei num lugar muito bonito para ler Platão, e vim ter numa cidade desconhecida, ensolarada e encontrei uma das noites em que o relógio não importou.
De fato, qual das duas sou eu? A que vive tranqüila e que pode passar dez anos sem ver alguém muito querido, e retomar a conversa do mesmo ponto, ou a que vive angustiada, presa no que não consegue expressar, presa na mágoa, refém do calendário? Li não sei onde, nessas horas douradas, que na medicina chinesa problema de rim, bexiga, é mágoa, e asma, quando a pessoa faz um monte de coisa e não termina nenhuma. Posso atestar a veracidade de tais suposições. Os chineses também sabiam algumas coisas.
Eu penso nos contos do Borges, principalmente no Jardim das Veredas que se Bifurcam... ou no Emma Stuntz. Kairós. Ou no espelho de Tlön, no fundo da chácara que Borges e Bioy Casares alugaram, com a enciclopédia e o verbete. Em qual ponto de Rondônia passa a BR que até hoje não tem asfalto? Edifícios de taipa de pilão, velhas estações ferroviárias abandonadas, o sertão paulista.
O sol, e o tempo que não passa.

Friday, November 13, 2009

Tu tá malandro, hein?

E eu tô passando na frente da obra, com sacola de feira e tudo o mais, um monte de coisa pra fazer, um monte de crise pra resolver, grana no fim, paciência no fim, e o tiozinho pedreiro olha pra mim e começa a cantar Menina Veneno do Ritchie.
Malandro, hein?

Sunday, November 08, 2009

Na paisagem do Paraíso Terreal...


Postei outro dia o lindo retrato de Gonzaga Duque, do Visconti. Hoje posto o retrato de Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879), o outro grande nome da crítica de Arte do Brasil oitocentista. Esse retrato é de 1848, está no Museu Nacional de Belas Artes, RJ, e eu acho também um espetáculo. A paisagem do Rio atrás, a pose... e notem. Na lombada do livro, à esquerda, está escrito Dante.

Meio

Essa semana encontrei gente que veio me dizer que lê meu blog.

Uma pessoa veio me dizer que se diverte e gosta muito, principalmente de umas reminiscências ifichianas; outra veio dizer que o velho Meio do Caminho é muito de "menina", muito tchu tchu tchu.

E ainda tem as pessoas que eu sei que lêem, e não comentam por motivos vários, e tudo bem. Não comecei o Meio querendo repercussões internacionais, fama e aparecer na Veja. Faz quatro anos já, e eu comecei da forma mais despretensiosa possível. O que me espanta é que o Meio continuou, mesmo sendo, no meu entender, muito bobo mesmo. E sendo bobo ganhou adeptos, leitores fiéis, sei lá porque.

Gosto de escrever, me faz bem e é essa a razão disso aqui existir. Pronto, é simples. Não penso muito na hora de postar, posto o que me vem na cabeça e não vejo o Meio como um experimento para a literatura. Nem acho que no Meio tem que ter discussões muito cabeça. É engraçado esse espontaneísmo em mim, logo eu, que devo estar dentre as pessoas mais angustiadas e ansiosas do planeta.

Às vezes leio o Meio e por isso me espanto um pouco, em épocas muito trash saíam frases muito plácidas. É como se esse não pensar na hora de escrever suavizasse um pouco as arestas. E continuamos sempre no meio do caminho.

Saturday, November 07, 2009

De grão em grão...

Essa semana foi a luta.

Luta contra o calor desértico que fez em Campinas: quarenta graus, a gente não consegue dormir, não consegue raciocinar.

Luta contra as adversidades; crises pessoais e crises em pessoas amadas, projeto da Catedral que pegou embalo e que vai demandar, atrasos no trabalho, grana curta, desvios e pirações.


Luta contra a asma, contra a dor nas pernas, contra o cansaço e os cabelos brancos.

Mas de grão em grão, de bambu em bambu, a panda enche o papo.

Thursday, November 05, 2009

Haikai

Cigarras- chorei tanto
quando vi
já era tarde.


Depois de ter escrito, li mestre Bashô:

Ainda que morrendo
o canto das cigarras
nada revela!

Ou:

Imensa calma.
Penetrando as rochas
o canto das cigarras.

Ou:

Canto e morte
da cigarra
na mesma paisagem.

Traduções de Olga Savary, no Livro dos Haikais. São Paulo: Aliança Cultural Brasil-Japão e Massao Ohno Editores, 1987

Tuesday, November 03, 2009

Fita amarela

E eu fui ter no Brasil Central novamente.

Esse feriado, fui ver a fofa Jubinha nas terras que ela adotou como suas. No caso, as terras mato-grossenses, terras de gente que cozinha bem, foge do calor indo em cachoeiras paradisíacas e tomando picolés surreais.
Muito verde, descanso, Jubinha, casarões antigos do centro de Cuiabá, e a imensa de linda Chapada dos Guimarães. Não sei como Chapada consegue ser tão linda, mesmo em tempos de efeito estufa, neguinho asfaltando a cidadezinha inteira, e farofeiros que escutam putz putz na frente de um precipício todo verde.
A pequena e sempre rabugenta panda viveu várias aventuras, como tomar quatro picolés por dia. No meio de tantas peripécias, muito samba. Vai explicar. Podia ser Mozart, podia ser Gardel, podia ser rock indiano, mas foi samba mesmo, arrastando a chinela no arenito. Voltando ao velho Piratininga, que já foi tão verde quanto Chapada, estou na vala dos desesperados pelas malas na esteira de Guarulhos, e tinha um senhor do meu lado. De repente vem um malão preto, daqueles, identificado por... uma fita amarela. O senhor pega a mala, e eu do lado começo a cantar Noel. Ele riu de se acabar.
Começo a achar que a qualidade de vida do indivíduo é diretamente proporcional ao tanto de samba que o cara escuta.