Wednesday, November 30, 2005

Tem alguma coisa na água...

Ontem, voltei do velho Artie pela State.
É uma das principais ruas do centro, chamado aqui de Loop, por conta do L formado pelas linhas do metrô no meio dos prédios. Gotham City foi inspirada em Chicago, sabia?
Eu no Loop gosto de ir numa loja de sapatos. Enorme, na State, tem todo tipo de sapato por todo preço.
Enfim, lá estava eu vendo sapatos e bolsinhas por cinco dólares ( não comprei nada, lembra do problema do cartão?) quando chegou um mulherão. Negra, linda, linda e ultra simpática. Ficamos vendo os sapatos super básicos, dourados, prateados, com strass, e ela e eu gostando.
Depois, ela me pega uma bota branca ( é, daquelas de Chacrete), põe e eu achando tudo muito natural.
Voltei pra casa e fiquei rindo depois. Meu, tem alguma coisa nessa água de Chicago... de repente, eu acho muito natural querer comprar uma sandália de salto alto prateada pra vestir com jeans e camiseta velha furada. E acho natural alguém querer uma bota branca.
Em tempo: eu começo a achar que as regras do bom gosto ao se vestir existem pra serem quebradas. Se quer vestir roxo com abóbora, meu, vai em frente, pisa na jaca, seja feliz! Se todo mundo se vestisse de cinza e marrom, mas que saco, hein?

Para a Tati!!!!!!!

Hoje abri o Orkut no maior desânimo. Explico: continuo sem dinheiro, devido à incompetência do Nossa Caixa Nosso Problema. Aquela perspectiva linda de mais um dia cavando o que tiver na geladeira e tentando fazer mágicas com meio coração de alcachofra, resto de pão e metade de pacote de macarrão.
Mas tive uma surpresa muito legal. Uma amiga e colega querida das antigas, a Tati, me mandou um scrap dizendo que chegou no meu blog e que andava por aqui, lendo e gostando. E citou o Paying a Big Monkey, aquela beleza de história do aquecedor. Nossa, eu ganhei o dia! Nem precisa dizer que imediatamente eu adicionei a Tati, e o marido dela, o Márcio, outro amigo velho de guerra, que estavam sumidos no meu Brasil varonil e no Orkut.
Esse post então é pra agradecer a você, Tati, por ter achado esse cantinho dantesco e a própria criatura no Inferno do Orkut! Beijo, viu!
E eu tava lembrando com a Dani outro dia daquela beleza de jornal que a gente fazia no IFCH, com o Idílio, vocês lembram disso? Outro dia a Dani resgatou um texto dela que ficou famoso na época ( gente, eu não vou dizer a data pra não entregar a idade de ninguém, nem a minha, ok?), tá lá no blog dela, o caterpillarconfessions.blogspot.com, eu acho que é isso, Dani, é isso?
O Fênix, o nome do jornal... e eu encontrei o Idílio e a esposa, super simpática, no Shopping Dom Pedro. Calma, gente, o Idílio continua em suas missões impossíveis: ele tava com uma turma de maluquinhos fazendo divulgação de cursos e encontros de Esperanto. E quase me convenceu a entrar em um! Daí pensei, cara, mas tudo continua o mesmo. Ele me convenceu a entrar em chapa pro CACH e pro Fênix, porque não pro Esperanto? Virgem Santa!
Beijos a todos, e especiais pra Tati!

Tuesday, November 29, 2005

Seurat

Terça-feira, dia do velho e bom Artie.
Hoje tive um surto olhando o Seurat. Explico: pra quem não sabe, o velho Art Institute ( para os íntimos, Artie) tem os dois míticos Seurat, O Dia Chuvoso e A Grande Jatte. Lembra do Curtindo a Vida Adoidado? Pois é, o Ferriss mora em Chicago, cabula aula e vai pro Artie, e o Cameron surta olhando a Grande Jatte. E depois eles cantam Twist and Shout na velha Michigan Avenue.
Enfim, o Seurat. Depois dessa indicação pop.
Eu sentei na frente do Dia Chuvoso e da Grande Jatte. Depois, não tive ânimo pra ver mais nada.
Pra mim, o nome da Grande Jatte está errado. Deveria se chamar O Grande Enigma. O Dia Chuvoso é tão estranho, um espelho, você vem caminhando na chuva e dá de cara com os dois parisienses elegantes, burgueses, de 1877. O momento, o spleen.
Mas a Grande Jatte opera numa direção diferente e inquietante. Os personagens à primeira vista envolvem-se numa cena banal, mas existe uma relação de significados não-óbvios entre eles. Quem sou eu pra entender dessas coisas, e eu posso estar falando uma besteira muito grande, mas acho, dentro da minha burrice, que talvez o Seurat meditou sobre o problema forma/conteúdo e chegou numa solução diferente da encontrada, por um lado, por Cézanne, e de outro, por Van Gogh e Gaugin. Mas tudo isso pode ser viagem, como a do Cameron!

Carmen Miranda

Aqui em Chicago aconteceu uma coisa engraçada.
Eu tinha uma lista de músicas prediletas no site Terra Rádio. Eu listei umas 450 músicas, tipo, um i-pod, com tudo que eu gosto: rock antigo, rock novo, pop de todas as épocas, mpb velha e nova, sertanejo, brega, forró, axé, de tudo. A vida inteira ouvi muito rádio e gosto de tudo, é horrível... pus até La Donna è Mobile e Ray Coniff na listinha.
Noite fria chicagoan, uma conhecida entra no msn e me enche o saco porque estou nos States. Aborrecida, lasquei uma Carmen Miranda, Disseram que voltei americanizada. E não é que a Miranda me pegou?
Ontem, o Terra deu pau ( pleonasmo) e minha lista, meu i-pod de pobre foi pro saco. Entrei no chat de Auxílio ao Assinante. Melhor mudarem o nome para Aborrecimento ao Assinante. Cara, que coisa chata. Depois do chat cair cinco vezes, um cara me diz que não é possível fazer nada. E eu que pagava 12 reais por mês só pra manter minha radinho.
Mas enfim, não estou com sorte esses dias. Mas a Carmen Miranda... era tão maravilhosa. Morreu sozinha, jovem, sofrida, incompreendida nos dois países, e virou caricatura da qual brasileiro se envergonha. Pois eu acho, como toda boa tropicalista mirim, que a gente tem que ter orgulho da Carmen. E ela é muito melhor cantora que muita gente que veio depois!

Saturday, November 26, 2005

O clima pesou na Gringolândia...

Aos meus queridos leitores, peço desculpas pela melancolia e aporrinhação dos últimos posts.
Ando meio triste e pra baixo, sem grana e de saco cheio do frio. E acho que muitas coisas aconteceram nos últimos tempos, preciso esperar a poeira baixar.
Hoje eu fui pra Newberry, pra trabalhar pra me distrair. Eu lembrei que não descrevi a Newberry ainda aqui... pois bem. A Newberry é uma das maiores bibliotecas dos EUA, e é onde eu estou sediada aqui em Chicago, por assim dizer. É interessante a história: um dos homens mais ricos de Chicago, Walter Newberry decidiu, em seu testamento, que sua casa, aqui na Golden Coast, seria a primeira biblioteca pública da cidade. E deixou fundos pra sobrevivência da coleção, e das duas filhas, isso mais ou menos em 1860.
Nos 1880, a cidade ardeu. Tudo foi destruído, inclusive a biblioteca. Os homens ricos de Chicago decidiram reconstrui-la em duas partes: uma, a Biblioteca Municipal propriamente dita, com obras contemporâneas, e a Newberry, que não é uma biblioteca circulante. Ou seja, você não pode emprestar livros da Newberry: você só pode consultar no local. A maior parte das coleções são de livros raros; o destaque é o grande número de incunábulos. Os incunábulos são os primeiros livros editados, entre 1460, quando o Gutenberg inventou a tal da prensa, e 1500, quando os alemães maluquinhos sediados em Veneza inventaram novas técnicas de impressão.
Eu vim pra cá pra ver incunábulos. As primeiras edições da Divina Comédia. Vi todas, menos a de Florença, 1481, porque essa vai demorar uma semana.
Mas existe uma vantagem. Os livros até 1850 estão nas Coleções Especiais, e a gente só pode ver esses livros em um salão especial, onde os bibliotecários são todos fofos e existe um busto em mármore do Dante, com uma cara muito feia.
Os outros, podem ser consultados no segundo andar, ou, se você for pesquisador, ou melhor, Reserve Reader, você pede em fichas coloridas e eles levam no seu cafofo. Sim, no quarto andar, está a abadia. Um labirinto de escrivaninhas, tapete bem grosso pra não ter barulho, luminárias e gente mandando ver. Eu tenho um carrel na abadia, 4-59, e lá estão os meus livrinhos sobre iconografia pra Divina Comédia, a lista de restaurantes perto da biblioteca, e uma bandeirinha do Brasil.
A biblioteca é linda, linda. Organizada, limpa, fofinha. É uma pena, mas não posso tirar fotos dentro do prédio... sei que vou sentir falta da Newberry, que pra mim esse pedacinho de história chicagoan vai ser sempre, sempre, muito importante e querido. Coisas boas aconteceram na Newberry, e eu não gosto de ingratidão! Graças a deus os ricaços de Chicago tiveram bom gosto.

Lembrando...

Mas essa história do cartão de crédito me fez lembrar umas coisas engraçadas.
Eu já vivi em circunstâncias bem, bem piores de grana. Bom, nasci na pobreza, literalmente. Meu pai teve que galgar a escada burocrática da CESP a duras penas, e depois, no final, até que ganhava bem. Mas lá em casa as coisas sempre foram meio apertadas, foi melhorando com o tempo, mas eu lembro na infância de passar vontade de várias coisas.
Depois que meu pai faleceu, aí o negócio foi parar no saco. Eu tinha que me manter com bolsa, o que é bom por um lado, em tempos que ninguém tem bolsa na universidade, e o dinheiro vem todo mês. Mas eu sempre me virei, dava aula, fazia revisão de texto.
O pior momento foi quando eu fui para meu cafofo em Campinas. Com a grana que meu pai me deixou, comprei um apartamento, e me mudei com a cara e a coragem, e só. Literalmente. Fiquei um ano com os livros no chão, e dois com as roupas em caixa de papelão. Lá em casa tinha uma mesa que eu ganhei de uns conhecidos. Detalhe: a tampa da mesa era solta. E eu tinha que ir pra São Paulo duas vezes por semana, pra trampar no Cebrap. Ganhando 700 paus por mês, eu precisava pagar um condomínio de 250 paus, comer e ir pra São Paulo. Bom, na vida a pessoa tem que fazer opções. Eu optava por ir pra São Paulo pra trabalhar e levava uma marmita, que era sempre a mesma: arroz integral, feijão, carne de soja ou frango.
Às vezes eu levava salada de macarrão, que era uma coisa gourmet, por causa da maionese, da ervilha ( luxo dos luxos) e presunto ( meu Deus, isso equivalia ao peru de Natal). Chegava no Cebrap e lascava meu Tupperware no microondas, sob o olhar da Dona Dalva e da Dona Elza, as duas anjos do Cebrap. Elas ficavam com tanta pena de mim que me davam Coca grátis. Porque, olha, eu preciso confessar: eu cozinho comida de pobre. Já viu, né.

Na pindaíba, e em Chicago!

Pra completar minha tristeza pós-segunda neve, descubro que, como eu gastei o limite do meu cartão de crédito, até dia 5, vencimento da fatura no débito automático, estaria sem dinheiro.
O detalhe é que estava contando que, com o fechamento da fatura desse mês, eu pudesse sacar grana do cartão... tenho comigo 15 dólares, nesse exato momento.
Explicando: eu vim pra Chicago com grana da Reserva Técnica, da FAPESP. A FAPESP dá o dinheiro todo pra você, e você que se vire nos 30 pra trazer pro exterior. E você continua recebendo a bolsa no Nossa Caixa Nosso Banco, que não tem convênio nenhum com nenhum banco no exterior, e nem preciso dizer, agência nenhuma em lugar nenhum. Diferentemente do Banco do Brasil, em que você pode comprar coisas no Visa Electron, e tem agência em tudo quanto é lugar, a Nossa Caixa só oferece Cartão de Crédito Internacional, com limite baixíssimo.
Vim com a grana da Reserva em travelers, gastos em quase sua totalidade no pagamento do aluguel do cafofo, e coloquei a fatura do cartão no débito automático, todo dia 5. Segurei a barra por dois meses e comprei apenas Porpetta, que estragou o limite do cartão desse mês.
Moral da história: liga eu em plena neve pra Central de Cartões Nossa Caixa. Depois de quatro telefonemas infernais, consigo a informação que talvez, talvez, ligando pra minha agência, eu possa adiantar o pagamento da fatura do cartão, e depois de dois dias, ter o dito liberado. Sim, porque o dinheiro está na conta. Intocado. Até aí, vou viver como uma flagelada. A minha sorte é que sou prevenida e sempre tenho mantimentos em casa. Resquícios do tempo que a coisa era tão preta que nem dinheiro na conta eu tinha, quanto mais cartão de crédito e máquina digital.

Friday, November 25, 2005

Tristeza na segunda neve

Hoje, saí de carro de novo com Ana e Gabriel. Fomos almoçar em Wink Park, e vi uma loja de discos tipo a do Alta Fidelidade, muito engraçado, com todo tipo de maluquinhos ouvindo sixties songs, mania que peguei aqui no Thanksgiving. Ontem, fiquei ouvindo o dia inteiro os velhos Stones e coisas como Loco-Motion, Hang On Sloopy ( que deu na Pobre Menina da Jovem Guarda, Leno & Lillian, lembra?) e a cráçica I Get Around, dos bons Beach Boys.
Fomos passear no Loop e quando entregamos o carro, de repente alguém chacoalhou a bolinha de vidro e caiu a neve. Two inches de neve na rua, e a gente fazendo a ronda no Loop.
A neve é fofinha de pisar, fica tudo branquinho e menos frio. Fomos tomar um café, e quando eles pegaram o ônibus, fiquei triste no metrô de volta pra casa. É que Ana e Gabriel vão pro Brasil agora, dia 30, e eu fico até dia 12. Está acabando Chicago. Hoje estou meio triste, e escrevi esse haikai:


segunda neve
amêndoas
amigos que se vão

Wednesday, November 23, 2005

Narguillé

Hoje, tive um dos melhores jantares da minha vida.
Graças aos maluquinhos e lindos Ana e Gabriel. Gente, eu acho que eles, assim como o Art Institute, deveriam estar em todos os roteiros da cidadela potawatomi.
Os dois alugaram um carro pra passar o Thanksgiving Day ( sim, é hoje) em Indiana, na casa do orientador do Gabriel. De quebra, me levaram pra passear, pra fazer compras no Trader & Joe's ( uma espécie de supermercado tudo de bom, barato e com as melhores comidas do mundo), pra jantar num restaurante marroquino chamado Andalous e pra tomar Carlsberg ( vulgo cerva) num inacreditável boteco chamado Matcher Box.
Morram de inveja, leitores. A comida marroquina é deliciosa, cordeiro com tudo de bom, e no final, a grande surpresa da noite. Um lindo narguillé, de vidro verde e cordão decorado, com água, aguardente de maçã, e o tabaco do norte da África. Eu simplesmente não parava de tragar, e quis levar o negócio dentro do casaco. Demais. Happy Thanksgiving, galera.

Tuesday, November 22, 2005

Na vitrolinha chicagoan

Play-list dessa tentativa de comentadora de Dante ao lado do Michigan:


1)All I Want is You, U2. Porque a turnê deles aqui tá sold-out e porque Guiness faz bem pra saúde.
2)Bigmouth Strikes Again, The Smiths. Porque o chá Earl Grey e a voz do Morrissey levantam defuntos.
3)Brilliant Disguise, Bruce Springsteen. Porque o cara é filho de irlandês com italiana.
4)China Girl, David Bowie. Ou qualquer música dele, porque é bom pra cacete.
5)Garota de Ipanema. Numa gravação que desencavei no Terra Rádio, do Tom mesmo, alegre, alegre.
6)I've Got You Under my Skin, Frank Sinatra. Deus existe.
7)Puttin'on the Ritz, Fred Astaire. Dá vontade de dançar a vida inteira.
8)Pyscho Killer, Talking Heads. Sempre, sempre, cráçico...
9)Head Over Heels, Go-Go's. Cara, essa mulherada era fogo na fofinha...
10)Dream a Little Dream of Me. The Mamas and the Papas. Bons sonhos, baby.
11)Thunder Road. Bruce Springsteen. Porque o cara é filho de irlandês com italiana. E pronto!

A Igreja Católica Apostólica Romana

Hoje no msn um amigo querido me contou que está namorando um padre.
Apaixonadíssimo, ele falou o sofrimento que é a vida do cara. Imagino.
Minha avó paterna era muito católica, meu pai era muito católico, estudei a vida toda em colégio de padre, freira, e muito do meu amor pela História da Arte vem dessa formação mesmo. A vida toda eu soube as iconografiazinhas dos santos, das Marias, etcs e tal.
Isso me fez pensar um pouco sobre a Santa Madre. Eu vi a desgraça acontecer, literalmente, no dia em que o crápula do Ratzinger virou papa. Que palhaçada... eu nunca morri de amores por João Paulo II, apesar do seu relativo progressismo político, por conta do conservadorismo Opus Dei pras outras coisas. Mas que palhaçada, ser contra o uso de preservativo, o sexo antes do casamento e o fim do celibato. Ah, e a falta de mulheres como diaconisas. Porque uma mulher não pode ser papisa? Porque uma mulher não pode rezar missa? Eu tenho vontade de dar uma de Lutero, pregar teses nas portas das igrejas.
Em tempo: Dante colocou vários papas no Inferno. Aliás, tem mais gente da Igreja no reino de Lúcifer do que no Purgatório e no Paraíso. Porque será, hein?

Friday, November 18, 2005

Dançando com Al Capone

Ontem, fui com meus amigos conhecer o famoso Green Mill. Era o bar da amante do Al Capone, e sede lendária di tutti quanti mafiosi...
O Green Mill fica na região onde o pessoal da Cosa Nostra morava, ao norte do Lincoln Park. É uma coisa linda: não passou por esse tipo de restauração picareta que na verdade só enfeia o antigo, e está com a mesma cara decadente de sempre. Lugar enorme, cheio de gente de todas as idades, uma pequena pista de dança cheia de velhinhos botando pra quebrar e uma big band, isso mesmo, uma big band completa e celestial tocando o melhor do swing chicagoan. Os músicos, jovens e virtuoses, tocam o terror, enquanto excelentes cantoras e cantores só enrolam os passantes do suave, macio e malandro falar midwestearn. Muita piada engraçada, muita dança, e mesmo quem não é lá muito pé-de-valsa se anima e cai no forró. Eu não tive coragem de mostrar meus dotes de dançarina de swing, que são abaixo da linha da miséria, mas que fiquei com vontade de dançar com Al Capone, isso fiquei.

Wednesday, November 16, 2005

Paying a big monkey!

Da série Acredite se Puder.
Hoje nevou e tá um frio da porra. Peguei um vento gelado na rua que doeu no cerebelo. Vou pra Newberry, tudo escuro e a neve caindo. Voltei pra 55 W Chestnut, o apartamento um pedaço de geleira.
Mas não é possível, penso eu, temendo ficar congelada... Liguei na Ana e o Gabriel me informou sobre os processos técnicos dos aquecedores: fica tranquila, aquecimento central, blá, blá, blá, mas vai perguntar pra sua vizinha.
Pra quem não lembra: eu conheci uma senhora que mora no final aqui do corredor. Ela tem seis gatinhos e é muito fofa, de vez em quando a gente conversa e ela sempre foi muito gentil.
No apê do lado, que também é da Newberry, está um casal de idade, e hoje eles resolveram dar uma festinha... enquanto eu batia na porta da senhora fofinha, tinha umas quinze pessoas bêbadas cantando e tocando o terror.
Ela abriu a porta toda encapotada. Mau sinal, pensei. Explico a situação no meu inglês cada vez pior, cada vez pior meu Deus... todo mundo me falava, mas depois de um mês você vai estar com um inglês ótimo... que nada, isso é mentira, porque eu fico muito sozinha e só saio com a Ana e o Gabriel. Escrevo em portuga o dia inteiro e leio a italianada toda! Ou seja, meu inglês é uma verdadeira josma.
Ela muito gentil fala que tá frio mesmo, e que se eu estivesse muito incomodada, que era pra pedir pro zelador aumentar a temperatura do aquecimento. E eu voltei pro apê pensando, cara, maldita hora que eu não ouvia meu pai e não estudava a língua de Shakeaspeare.
Resolvo tomar um banho megaultraquente pra decidir, e pego meu guia de conversação. Num ato de coragem, resolvo descer e falar com o porteiro mexicano, simpaticíssimo, pessoalmente. Ponho meu pijama: uma calça de moletom que está um saco de estopa, uma camiseta escrito Minas Gerais e um casaquinho ferrado da C&A, além de um tênis que é um verdadeiro mendigo no mundo dos sapatos. Enquanto esperava o elevador, pensei, mas ninguém vai me ver mesmo.
Abriu a porta do elevator, vi um homem lindo, lindo, lindo, lindo lá dentro, como poucos que vi na vida. O cara estava elegantíssimo, de terno e gravata, olhou pra mim e deu um sorriso Colgate. Juro, não era piada nem pegadinha do Faustão. Entrei e vi que... o cara tava subindo! Pedi desculpas, querendo me enfiar no solo, e o cara abriu outro sorriso Colgate, mas que é isso, sweetie, eu mando o elevador de volta pra você.
Desci e o porteiro só de olhar pra minha cara entendeu meu problema, e mandou o zelador, um senhor negão também simpaticíssimo, resolver a parada. Ele veio aqui e constatou um negócio : o ar condicionado estava aberto. No inverno, eles vedam as frestas com espuma e põem uma tampa por cima. Ele me perguntou onde estava a tampa, e eu procurei e nada. Volta ele, com uma tampa pequena demais, e depois mais uma vez e resolveu a questã. Constatou também que minhas janelas estavam abertas ( dãããã... cara, mas eu sou uma dummy mesmo) e eu querendo me enfiar na terra. Ele rindo, rindo, cara, como chicagoan é risonho.
Bom, aqui nos States tem muita moeda. Você vai comprar qualquer coisa, eles te dão o valor exato do troco. Em contrapartida, você não faz nada com moeda de one cent, one dime e five cents. Só os quarters salvam: servem pra estacionar o carro, ligar no orelhão, pagar chiclete e passagem de ônibus e restinho de almoço. Eu comecei a pôr as moedinhas num jarrinho de porcelana que tava rolando aqui no cafofo, e andar só com os quartos. E pensava, mas o que vou fazer com essas moedinhas? Sonhei que tava numa fila e tinha um cara na minha frente, e ele pagava algo com uma caixa enorme de moedinhas de dólar...
Hoje tô muito dura, tirei o último dinheiro no cartão de crédito, estou lisa como um pepino. Mas pensei, meu, preciso dar uma gorjeta pro zelador. Aqui a gorjeta geralmente é dois, três dólares. Respirei fundo e abri o jarrinho. Peguei um dólar em quartos e outro em five cents. E super constrangida falei, olha, é minha primeira vez aqui nos EUA, eu sou estudante e não tenho dinheiro, mas quero agradecer... ele ficou meio sem graça, mas eu falei mais firme, I wanna tip you, c’mon, e ele foi embora rindo.
Agora, que foi mico foi.

A primeira neve

De repente, não se vê mais os topos dos prédios elegantes de Chicago.
De repente, muito vento, e uma noite branca.
E, de manhã, quando menos se espera, se olha pela janela e se vê. Hoje, caiu a primeira neve.

Tuesday, November 15, 2005

A título de esclarecimento

Os três últimos posts são de minha única e total autoria. Comentários são bem-vindos....

Da nova lavra II

Homem é bicho difícil.

Quando a gente quer, não.
Quando a gente não, quer.

Quando os dois querem, físico.
Porque metafísico, não.

Quando os dois querem muito, aliança.
Ou sofrimento.

Homem é bicho difícil.

Quando a gente trai, poesia.
Quando eles traem, canalhice.

Quando acorda, duro.
Quando levanta, enigma.

Destino, escolha, divindade?
Vai saber.
Homem é bicho difícil.

Da nova lavra

A minha amada é brava. Leoa. Puta com a política, puta com o pedreiro que atrasa, com o amigo que não liga.
A minha amada discorre sobre 1347 com propriedade. Mas não leu o jornal de ontem.
A minha amada gosta de chá inglês, mingau de aveia, sopa de lentilha. E bolo de fubá.
A minha amada não vai nos lugares da moda. Mas miseravelmente quer estar na moda.
A minha amada é una, indivisível. E cabe em todo o universo sensível.
Perto dela as coisas fazem sentido. Inacreditável, e mesmo assim ela quer perder alguns quilos.
Revolto-me: o espaço a que ela pertence
o reino da pedraria
da gema rara
quilates, não quilos.

Monday, November 14, 2005

Haikai antigo

Sumo de limão com açúcar
teu beijo de
guerreiro sem armas.

Thursday, November 10, 2005

E a tese, nada

Ando numa crise terrível.
Aqui, ali, e não consigo trabalhar direito. Li umas coisas foda aqui em Chicago, está uma revolução a minha cabeça. Preciso parir um relatório pra FAPESP, com pedido de renovação de bolsa e tudo ( ou seja, a hora da espada) e um exame de qualificação. Depois desse processo todo, em pleno verão brazuca, pedir uma borseta da CAPES pra ir pra velha Bota.
Enquanto isso, com esse cronograma bonito, em Chicago eu ando numa preguiça desgraçada. Só quero saber de passear, tirar foto de esquilo, beber Guiness e ver meus amigos, além de saracotear por museus e lojinhas. Descobri o óbvio, as promoções de roupinhas legais pra dar uma de bacana no verão desértico de Campinas, onde me internarei com Caronte na velha biblioteca do IFCH, que provavelmente estará com o ar condicionado quebrado.
Enquanto isso, dando voltas. Fui numa exposição sobre a Tropicália aqui no Museu de Arte Contemporânea, aqui do lado de casa. Trouxeram a Tropicália mesmo, do Oiticica, plantas lindas da Lina Bo Bardi, vestidos Rhodia, documentários, desenhos do Eichbauer para o Rei da Vela. Mas eu fiquei me sentindo estranha. Só depois descobri, eu senti falta de barulho! De música! Eles simplesmente não colocaram música tocando! Achei um absurdo, como falar de Tropicalismo sem música. Tudo bem que algumas coisas já me enfastiaram, mas peralá, precisa por Alegria, Alegria na vitrola. Os caras explicaram que você pode alugar um I-POD (????) com as músicas pra ver na exposição. Fiquei mais horrorizada ainda.
Enquanto isso, Art Institute cheio de coisinhas renascentistas bonitinhas e úteis pra minha pesquisa, e a Porpetta funcionando a todo vapor. Pelo menos ela e Caronte trabalham nessa casa.

Wednesday, November 09, 2005

Momento patricinha

Ontem, comprei uma linda blusinha, para abafar no verão brasileiro, na GAP. Paguei cinco dólares. Adorei a GAP. Olha, eu não gostei tanto do Starbucks, achei uma picaretagem uma exposição sobre a Tropicália aqui não ter música ( só gente com I-PODs), e gringo é gringo, além do Bush ser um idiota. Mas a GAP... olha, a gente podia importar. Roupa boa, barata, que dura, bonita, e que veste todo tipo de corpo.

Universidade de Chicago

Pois é, segunda-feira fui enfrentar o outro monstro.
Brincadeira do Rockefeller, que resolveu construir uma boa universidade numa região inóspita da então industrial e ferrada Chicago ( inspiração para Gotham City, diga-se de passagem), a Universidade é grande e no estilo gótico, um tanto brega, com o qual os gringos querem imitar as góticas ( de verdade) Oxford e Cambridge.
O campus é bonito pelas árvores, por um prédio elegante, num estilo quase japonês, do grande Frank Lloyd Wright, por uma escultura do Henry Moore celebrando a primeira reação atômica ( numa bela ironia dele, o cogumelo vira uma caveira, dependendo do ponto de vista. Ele fez a obra depois de Hiroshima e Nagasaki) e pela soberba e labiríntica Regenstein, uma das maiores bibliotecas do mundo.
Momento capitalismo selvagem: fui na Biblioteca e mostrei carteirinha da Newberry, carteirinha internacional de estudante e meu passaporte. A moça gentilmente procurou a Unicamp na lista de universidades conveniadas. A USP e a UnB estavam na lista, pra variar a filha do Zeferino me deixou na mão. Fui gentilmente informada que teria direito à cinco visitas de graça na Biblioteca, e depois teria que pagar 35 dólares por mês para poder só ver a fuça dos livros que tem lá.
Não tão gentilmente pensei, mas vocês são foda mesmo! Enfim, entra eu na maloca dos livros. No quarto andar, muitas pessoas e estantes, o normal, mas não consigo achar a numeração que preciso. A bibliotecária me diz, mas você precisa ver nas estantes! E abre uma portinha, e o que Borges descreve na Biblioteca de Babel surge diante dos meus olhos.
O mundo é uma biblioteca. Tive vertigem, precisei sentar porque eu olhava e só via estantes, estantes, estantes, estantes, estantes, em salões intermináveis e desertos. Uma visão de pesadelo, o Borges acertou na mosca.
Mas pelo menos o xerox custa 0.12 cents, e tem uma pizzaria que vende um almoço muito bom por seis dólares. E tem um sebo... inacreditável de barato e bom. Pelo menos, pelo menos.

Saturday, November 05, 2005

Guiness,o livro dos Recordes

Mas ontem eu descobri mais um motivo pelo qual os anglo-saxões são admirados. Fui num bar aqui, típico bar chicagoan, luz vermelha, gente de todo o tipo, boa música no jukebox. Cadeiras altas e um copo com snacks tipo o nosso clássico Elman Chips. Enchi a cara de Guiness. No outro dia, sem ressaca e ainda feliz, posso constatar: mas a cerveja deles é boa mesmo!!!!!!!!!