Escrevo daqui do Instituto de Historia da Arte da Universidade de Pisa. A famosa Piazza San Matteo.
A biblioteca é fantastica, e o acesso é livre. Conversei com um professor daqui que foi super simpatico. Hoje mudei pro meu cafofo pisano, um apartamento térreo, na casa de uma velhinha. Tudo antiguinho, moveis anos 50, mas comodo e limpo. Beleza. Estou feliz por estar aqui e poder trabalhar num lugar tao bom. Vediamo.
Pros meus alunos, um abraço especial nessa segunda-feira, e começam as palestras. Terei acesso a internet aqui no Instituto, por breves periodos, porque os micros sao pra todo mundo. Observem a diferença de fuso, quatro horas a mais, ok?
Bacci pisani a tutti!
Monday, October 30, 2006
Sunday, October 29, 2006
A cidade da torre torta
Primeiras notícias pisanas no Meio do Caminho!
Depois de uma saga que não recomendo pra ninguém ( São Paulo- Madri- Milão-Pisa), cheguei viva, sã e salva na cidade da torre torta. Bom, avião é sempre aquele tédio, cheguei em Barajas e a zona era completa. Um monte de gente perdeu a conexão e eu só não fui parar em Estocolmo porque sou insistente. No final, descobri no vôo pra Milão Giovanni, calabrês birutinha ( ops, pleonasmo, todos os calabreses são doidinhos) que estuda Direito em Pisa, e essa criatura me rebocou até a Toscana. O fato é que o Giovanni tinha comido algo de estragado e estava passando mal, mas mesmo assim veio falando de Milão a Pisa, com direito a uma parada na segunda estação de Florença, de onde vi o Duomo.
Cheguei em Pisa mais morta que viva, e fui resgatada por Patrícia, outro anjo em forma de gente, que me hospedou nesses primeiros dias. Além de cama, mesa e banho, Patrícia foi comigo procurar lugar pra ficar, forneceu passagem de ônibus e até bicicleta me arrumou. Ou seja...
No final, aparentemente consegui alugar um quarto na casa de uma velhinha, que nesse domingo desapareceu. Estou um pouco ansiosa com isso, mas acho que tudo correrá bem.
Fui super bem recebida no Instituto de História da Arte da Universidade de Pisa, o famoso San Matteo. A biblioteca de lá é excelente e o acesso é livre. Também fui na Scuola Normale Superiore, a outra biblioteca de Babel, e com um euro você consegue a carteirinha. Enfim, acredito que a pesquisa vai correr de vento em popa.
Ontem fomos jantar, sorvete, e vi Pisa by night, super agradável. Pisa é um sonho, molto carina. E a torre? Realmente, a torre é torta. O Campo dei Miracoli é um lugar celestial, o Batistério e o Campo Santo, além da Catedral, fazem felizes o coração de qualquer um, principalmente de quem é historiador da arte mirim. Estou muito feliz de estar aqui e ter a oportunidade de pesquisar, ainda que rapidinho, tanto na Universidade quanto na Normale. Ah, sim, eu chorei muito depois de ter visto a torre.
Tuesday, October 24, 2006
A Ibéria agradece e deseja a todos uma boa viagem
A todos os passageiros... uma boa noite!
Amanhã será a saga rumo a Pisa. Paro em Madri, depois em Milão, depois em Pisa. Acredito que só terei acesso a Internet no final de semana. Ou seja... estou ansiosa, nervosa mesmo, mas acredito que tudo correrá bem.
Depois da correria toda, preparativos, mil providências, o frio na espinha. Mas tudo bem, uma missão necessária. E agradável! Novas aventuras no Meio do Caminho!
E para vocês, um grande beijo, e uma indicação de música: "Sete Desejos", do Alceu Valença, que me acompanhava na época da minha primeira viagem à Itália, e agora me acompanha mais uma vez, nove anos depois. A caminho da Itália, me sinto eu mesma novamente.
Friday, October 20, 2006
I Don´t Feel Like Dancing
Dias loucos sempre antecedem viagens. Preparativos de todas as espécies: seguro, grana, levar e buscar roupa em costureira, fazer mala, segurar a ansiedade, contratação na PUCC, cansaço, aulas, tudo, tudo.
Como um ano atrás eu tava nessa, parece que só vou descansar realmente quando retornar. A mesma ansiedade, eu morro de medo de avião, fico com medo do avião cair, da imigração me encher, da mala sumir, do meu italiano sbagliato e da torre tombar de vez. Mas enfim, nessas horas do medão e da ansiedade, eu firmo pé e penso, vamos lá.
O chato foi que juntou a contratação na PUCC, um troço sinistro. Pra começar, exame de sangue, e o cara arrebentou minha veia. Estou com um roxo digno de filme de horror. Mas nada perto do alívio que foi vir a biópsia.
Muitas coisas aconteceram essa semana, fichas de anos caíram, dias que antecedem viagens são dias mágicos, dias de vida intensa. E no meio dessa, no msn, a Vivi, leitora fiel do Meio desde seus primórdios e uma das minhas cobaias de vida docente no IA me passou uma musiquinha.
Os meus fiéis companheiros, Gerião ( meu carritcho) e Neguinho do Pastoreio ( meu I-Pod, lembra dele?) rodaram essa semana. E Neguinho do Pastoreio tocou sem parar esse hit de agora, sim, de agora... na primeira vez que eu ouvi, presente da Vivi, achei que fosse algo desconhecido dos 80 que neguinho desencavou. Não, que nada, os caras são jovens, de Kentucky ( olha lá o meu querido Mid West de novo), gays lindos que chamaram o Elton John e compuseram esse chiclete ma-ra-vi-lho-so pra dançar, pra acompanhar a vida, pra queimar calorias, pra festa. Então terminei a minha semana cruzando a Moraes Salles entupida gritando, I Don´t Feel Like Dancing, a vida começa a ser uma festa colorida, boba pode ser, mas colorida.
Tuesday, October 17, 2006
Ciao!
Dando sinal de vida no Trópico de Capricórnio...
Agora que passou posso contar. Fiz exames e apareceu uma suspeita de câncer. Vocês podem imaginar o desespero, a angústia e o desamparo que senti nas três semanas em que esperei o resultado da biópsia. O povo amigo de sempre ajudou e a barra pesou, ma non troppo. Ontem fiquei sabendo que o troço era, como se diz, benigno.
Eu não contei antes aqui no Meio porque depois de dois assaltos, ficar sem bolsa, crises existenciais múltiplas e problemas variados, os queridos leitores iam se encher de tanta patacoada acontecendo com a panda. Preferi sublimar e escrever os textinhos poéticos aí de baixo, pra falar de coisas boas e não ficar chorando no meio do caminho, literalmente.
Pois passou o pesadelo, quer dizer, esse pesadelo, e, daqui a uma semana, vou pra Itália. Quer dizer... a passagem mais barata que consegui arrumar foi Ibéria, pára em Madri, e depois sigo para a imensa Milão. Fortes emoções aguardam a pequena panda, na terra de Dante, Botticelli, Brancaleone e imperadores narigudos.
Hoje e ontem entrei num desespero, porque tenho um monte de coisa chata pra fazer antes da ida: banco, conta, médico, PUCC, e convencer os germânicos colegas do Gabinete de Estampas e Desenhos de Berlim que preciso ver desenho lá. Tô com medo, vocês não imaginam.
Primeiro, da movimentação toda que vai ser, segundo, porque eu tô de FAPEPANDA, os recursos estão exíguos, pra não dizer mínimos. Ou seja, não percam o próximo episódio da saga, A fome da panda na Toscana.
Sunday, October 08, 2006
Paixão
Derrubar as paredes que existem entre nós, consumação.
De todos os nós que nos prendem, fazer um ninho e destruir os entraves da língua, do peito, de tudo que nos constrói e ensina.
De todos os nós que nos prendem, fazer um ninho e destruir os entraves da língua, do peito, de tudo que nos constrói e ensina.
Porque essa dor atravessada quando não te vejo, essa insensibilidade extrema e essa vontade de ler Pessoa sem parar, Camões sem parar, Bocage parando. Porque essa vontade louca de se fazer o que não se deve, se andar na diagonal para não pisar nos outros que afortudanadamente, naquele instante, não amam.
E saber-se só na multidão, porque no céu estrelado das possibilidades nada existe a não ser seu sorriso sem graça quando eu surjo, morta de fome, sede, de olhos turvos e faces rosadas. Porque há muito tempo aquele homem que amo tanto escreveu, trazia no rosto, do Amor, tantas de suas insígnias, que não podia mais ocultar, e porque ele escreveu assim se fez.
Vivo na curva do tempo, suspensa por fios de pérola que me prendem a mim mesma, e no entanto sou incapaz de fugir, de correr, de esconder-me de você, onda, onda cada vez maior que me arrasta para dentro do mar do meu absurdo.
Porque no meio da tarde a luz amarela na veneziana das janelas me lembra você, porque meu suspiro frustrado entre as refeições me lembra você, porque deveria pensar no trabalho e não o faço, e porque no meio de minha angústia sei, e você também sabe, morrer disso deve ser doce.
Thursday, October 05, 2006
40 Anos de Unicamp
E hoje a Unicamp faz 40 anos.
As comemorações, no meu ponto de vista, foram as piores possíveis. Tudo no tom oficialesco dos órgãos da Reitoria, tudo centrado na figura do Zeferino Vaz, que fez muito mas não fez sozinho.
As comemorações, no meu ponto de vista, foram as piores possíveis. Tudo no tom oficialesco dos órgãos da Reitoria, tudo centrado na figura do Zeferino Vaz, que fez muito mas não fez sozinho.
Fecharam a rua na frente do Ginásio, onde a elite foi se encontrar. Os funcionários não foram dispensados, mas as aulas não aconteceram. Ninguém no campus, tudo calmo, calmo até demais.
Achei tudo um porre. Nesses doze anos que estou na gloriosa Universidade Estadual de Campinas, deixaram de vender cerveja, fecharam a única farmácia do campus ( que era embaixo da Biblioteca Central; hoje, se você fica menstruada, não tem onde comprar um absorvente sequer), não tem mais festa, seguranças e carros por todos os lados, os alunos assistem aula e vão embora, e pra piorar o bandeijão se tornou algo pior do que já era.
Outro dia, li no oficial e chato Jornal da Unicamp que os caras gastaram uma grana pra fazer uma pesquisa e constataram que o número de alunas grávidas no campus aumentou. Claro, não tem onde comprar um preservativo!
Não tem piscina decente, pros alunos e professores da FEFI, não tem Brigada de Incêndio, Controle de Zoonoses, o prédio da BC não tem escada de emergência nem extintores e pra completar, as ambulâncias do HC não podem atender a comunidade do campus. Já teve caso de professor enfartado, aluna tendo filho, empregado das empresas terceirizadas que caiu de andaime... e você tem que ligar no SAMU, no Hospital Municipal Mário Gatti ( onde fui super bem atendida quando de um acidente grave de carro que quase fez a panda virar anjo-panda) no outro lado da cidade.
Descobri isso num dia que uma moça, conhecida, teve um ataque epiléptico na cantina do IFCH. Ligamos pro HC e eles falaram que não podiam fazer nada. Comentei com seu Paciência, restaurador de livros da Seção de Obras Raras da BC ( sim, ele se chama Paciência)... ele me disse que alertou a Prefeitura do Campus para o fato de que as muitas pombas no forro do prédio ( sem reforma desde sua fundação) estavam fazendo suas necessidades e que isso corroía o concreto armado da fachada do edifício. Ninguém veio atendê-lo. Seu Paciência tentou descobrir se havia Controle de Zoonoses na Unicamp. Não, não há ( pra quê, com capivaras, cachorros, gatos, morcegos, insetos no campus???). Seu Paciência foi pro bandeijão, um pedaço da brise de concreto caiu na sua cabeça, e sim, não há ambulância para levar o acidentado no HC.
Parece piada, mas aconteceu mesmo. Eu queria um dia que na Unicamp, as pessoas pudessem fazer festas, comprar camisinha, treinar natação em piscinas adequadas, ter uma Biblioteca Central transada, segura, com canais de comunicação entre os professores, alunos e funcionários.
Gastaram uma grana pra construir os novos Ciclos Básicos. As salas são ótimas, munidas de bons equipamentos, mas não puseram cortinas nas janelas, então no solão campineiro a tela do Data Show vira um Gasparzinho.
Aqui vai minha homenagem pro Seu Paciência, pro seu Luís do xerox do IFCH, pro Mundinho do café do IEL, pros meus amigos, pra idéia que norteia e norteou nossos sonhos nesses quarenta anos, e que os próximos sejam melhores.
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