De todos os nós que nos prendem, fazer um ninho e destruir os entraves da língua, do peito, de tudo que nos constrói e ensina.
Porque essa dor atravessada quando não te vejo, essa insensibilidade extrema e essa vontade de ler Pessoa sem parar, Camões sem parar, Bocage parando. Porque essa vontade louca de se fazer o que não se deve, se andar na diagonal para não pisar nos outros que afortudanadamente, naquele instante, não amam.
E saber-se só na multidão, porque no céu estrelado das possibilidades nada existe a não ser seu sorriso sem graça quando eu surjo, morta de fome, sede, de olhos turvos e faces rosadas. Porque há muito tempo aquele homem que amo tanto escreveu, trazia no rosto, do Amor, tantas de suas insígnias, que não podia mais ocultar, e porque ele escreveu assim se fez.
Vivo na curva do tempo, suspensa por fios de pérola que me prendem a mim mesma, e no entanto sou incapaz de fugir, de correr, de esconder-me de você, onda, onda cada vez maior que me arrasta para dentro do mar do meu absurdo.
Porque no meio da tarde a luz amarela na veneziana das janelas me lembra você, porque meu suspiro frustrado entre as refeições me lembra você, porque deveria pensar no trabalho e não o faço, e porque no meio de minha angústia sei, e você também sabe, morrer disso deve ser doce.

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