As comemorações, no meu ponto de vista, foram as piores possíveis. Tudo no tom oficialesco dos órgãos da Reitoria, tudo centrado na figura do Zeferino Vaz, que fez muito mas não fez sozinho.
Fecharam a rua na frente do Ginásio, onde a elite foi se encontrar. Os funcionários não foram dispensados, mas as aulas não aconteceram. Ninguém no campus, tudo calmo, calmo até demais.
Achei tudo um porre. Nesses doze anos que estou na gloriosa Universidade Estadual de Campinas, deixaram de vender cerveja, fecharam a única farmácia do campus ( que era embaixo da Biblioteca Central; hoje, se você fica menstruada, não tem onde comprar um absorvente sequer), não tem mais festa, seguranças e carros por todos os lados, os alunos assistem aula e vão embora, e pra piorar o bandeijão se tornou algo pior do que já era.
Outro dia, li no oficial e chato Jornal da Unicamp que os caras gastaram uma grana pra fazer uma pesquisa e constataram que o número de alunas grávidas no campus aumentou. Claro, não tem onde comprar um preservativo!
Não tem piscina decente, pros alunos e professores da FEFI, não tem Brigada de Incêndio, Controle de Zoonoses, o prédio da BC não tem escada de emergência nem extintores e pra completar, as ambulâncias do HC não podem atender a comunidade do campus. Já teve caso de professor enfartado, aluna tendo filho, empregado das empresas terceirizadas que caiu de andaime... e você tem que ligar no SAMU, no Hospital Municipal Mário Gatti ( onde fui super bem atendida quando de um acidente grave de carro que quase fez a panda virar anjo-panda) no outro lado da cidade.
Descobri isso num dia que uma moça, conhecida, teve um ataque epiléptico na cantina do IFCH. Ligamos pro HC e eles falaram que não podiam fazer nada. Comentei com seu Paciência, restaurador de livros da Seção de Obras Raras da BC ( sim, ele se chama Paciência)... ele me disse que alertou a Prefeitura do Campus para o fato de que as muitas pombas no forro do prédio ( sem reforma desde sua fundação) estavam fazendo suas necessidades e que isso corroía o concreto armado da fachada do edifício. Ninguém veio atendê-lo. Seu Paciência tentou descobrir se havia Controle de Zoonoses na Unicamp. Não, não há ( pra quê, com capivaras, cachorros, gatos, morcegos, insetos no campus???). Seu Paciência foi pro bandeijão, um pedaço da brise de concreto caiu na sua cabeça, e sim, não há ambulância para levar o acidentado no HC.
Parece piada, mas aconteceu mesmo. Eu queria um dia que na Unicamp, as pessoas pudessem fazer festas, comprar camisinha, treinar natação em piscinas adequadas, ter uma Biblioteca Central transada, segura, com canais de comunicação entre os professores, alunos e funcionários.
Gastaram uma grana pra construir os novos Ciclos Básicos. As salas são ótimas, munidas de bons equipamentos, mas não puseram cortinas nas janelas, então no solão campineiro a tela do Data Show vira um Gasparzinho.
Aqui vai minha homenagem pro Seu Paciência, pro seu Luís do xerox do IFCH, pro Mundinho do café do IEL, pros meus amigos, pra idéia que norteia e norteou nossos sonhos nesses quarenta anos, e que os próximos sejam melhores.

3 comments:
Faz uns dois anos... Eu estava saindo da biblioteca do IA com minha amiga Ana. Do nada, a gente viu um rapaz descendo a rua de bicicleta. A roda da bicicleta travou e ele voou, literalmente.
A mochila pesada caiu sobre a cabeça dele q foi se esfolando no asfalto.
A Ana correu pra chamar ajuda e eu fui ver o rapaz.
Daí chegou outra garota que tb ajudou e ficou tentando chamar o rapaz, tentando conversar, sabe...como o pessoal ensina a gente nas aulas de CFC.
Tirei a mochila dele... e quando levantamos a cabeça dele ele praticamente vomitou sangue puro...
Nunca tinha visto tanto sangue assim, ao vivo.
O rosto dele ficou todo machucado. O rapaz estava inconsciente.
Um montão de gente começou a chegar... A Ana veio falando que o hospital da unicamp não buscaria ele, que demorou porque precisou ligar no SAMU em Campinas.
O rapaz ficou lá uma meia hora. eu fucei nas coisas dele, peguei a carteira, vi que era um bixo da engenharia, que era de outra cidade.
O rapaz começou a acordar e queria levantar, assustado com tudo... e o perigo dele estar com lesões, sei lá, vértebras...
Botaram ele num daqueles carros da SERV, segurança do campus e levaram o menino embora ...
levaram pro HC, na UNICAMP!!!!
Uma amiga da medicina se informou sobre ele e passava informações. Disse que ele estava bem, que tinha levado uns par de pontos no rosto e que voltaria para a cidade por um tempo.
A bicicleta e a mochila ficaram guardados no IA, a mãe dele foi buscar num outro dia.
Ele perdeu no acidente uma correntinha de grande valor sentimental...
não sei o que foi dele depois disso...nem o nome dele eu lembro, mas acho que era João.
Algumas pequenas histórias sobre a unicamp:
Minha tia entrou na unicamp logo no início de 67, como residente, e contava sobre o matagal que era no começo. Vinha dar plantão e era tudo breu, tudo lama. Ela ligava contando se tinha chegado e que estava tudo bem.
Meu pai também pegou tudo bem diferente, os canaviais, as estradas de terra... mas já era década de 70.
Meu irmão me contou que quando ele trabalhava no banco, sempre atendia uns caras do começo também. Eles recebiam o pagamento num carro forte. Pegavam o dinheiro e eram assaltados na esquina logo depois.
O Luiz Henrique, que já é mais da nossa área, contou sobre o ifch no começo de 80, sem luzes (consequentemente não existia turma no noturno), sem um monte de coisa que hoje é considerado natural.
E eu, que praticamente cresci na unicamp, lembro claramente o terrão que era boa parte da unicamp fora do ciclo básico. Empinava pipa no observatório e lá de cima só via mato.
Gente, essas histórias aí de vocês só comprovam o que eu sinto, que a Unicamp sempre foi essa coisa meio híbrida, universidade de ponta no meio do mato. No mesmo espaço, Síncronton e falta de ambulância, mosquito e pesquisa premiada no exterior. Contraditório mesmo, né?
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