Saturday, January 28, 2006

Cozinha

Hoje tô feliz. Vi minhas amigas queridíssimas Débora e Tanara, e ainda de quebra fiz duas novas amiguinhas: as filhas da Tanara, fofíssimas, Taísa e Melissa.
Acordei com um desejo estranho de fazer um pavê. Como narrei, na semana passada lasquei uma torta de palmito e um pudim no povo. Amanhã tem churrasco no meu cunhado, e acordei pensando num pavê. Vi receitas no Dona Benta ( sim, eu ganhei um exemplar da minha sogrinha!) e na internet, mas acabei escolhendo a da minha sogra mesmo.
Fiquei ouvindo Rolling Stones no Terra Rádio. Os caras GRAÇAS A DEUS puseram a discografia completa dos caras no site, e 99% dá pra ouvir inteiro ( algumas gravadoras não permitem que as músicas sejam tocadas mais que 30 segundos, uma palhaçada).
Ao som de "You Can't Always Get What You Want", "Ruby Tuesday" e "Honky Tonky Women", relembro momentos na cozinha.
Eu adoro comer, mas paradoxalmente acho que tudo que faço fica uma porcaria. Não gosto da minha comida.
Aprendi a cozinhar com a minha mãe. Eu ajudava na cozinha. No início, pequena, só secava a louça e guardava, aquela chatice. Depois, era picar isso, picar aquilo, e aos poucos eu fui incumbida de tarefas mais complexas mas não menos chatas, como bater clara em neve, ver o sal do molho ou vigiar o frango no forno. Isso quando não era o temível descascar e picar... alho.
Almoço de domingo, era a gente lascando pra servir seu Pedrão. Graças ao bom Pai dos Céus o pai lá de casa gostava da minha comida.
Passaram-se os anos, vieram as repúblicas. De vez em quando, o pedido: faz strogonofe, faz lentilha, faz não sei o quê. De vez em quando, uma receita nova, como a do macarrão a carbonara, que aprendi com Letícia... ou do pimentão recheado da Malu.
Quando vim morar sozinha, lembro de um peixe que eu assei... pra mim mesma. E ainda tive a pachorra de tomar um vinho branco.
Mais strogonofe. Tem um amigo meu que diz que strogonofe é comida de quem não sabe cozinhar. Acho que é mesmo. Minha culinária não é muito refinada não. Mas eu um dia ouvi da Malu, ela mesma ótima na cozinha, que meu strogonofe era melhor do que o da dona Fy, outra mestre Jedi das panelas. Foi o melhor elogio que eu ouvi na vida!

Débora e Tanara, ou a eternidade da amizade

Outro dia tive uma super surpresa no Orkut. Agradável, acho que tá todo mundo cansado de surpresa desagradável naquela joça.
A minha amiga e colega do colegial, Tanara, me achou e me adicionou. Scrap pra lá, scrap pra cá, ela me ligou e ficamos três horas no telefone.
Tanara e eu combinamos de nos encontrar. E no meio da bagunça, consegui contactar Débora, e hoje nós três vamos nos ver, depois de... doze anos.
Na verdade, a turma é maior. Ainda tem a Raquel, a Ísis, a Fabiana, a Patrícia... Raquel, Ísis e Fabiana estão por Campinas também, mas a Paty, por onde andará? Ninguém sabe dela... a última notícia que tivemos é que ela estava na Bolívia, estudando Medicina. Era o sonho dela.
E nós, hein? Bom, eu me mudei pra Campinas em 1992, na boléia do caminhão que trouxe os Vermeersch para essas terras. No primeiro dia de Sagrado Coração de Jesus ( já narrei num post abaixo, o do show de rock fajuto) fiz amizade com a Débora, que ficou para sempre Debão. Ela era a minha melhor amiga, a companhia constante e alegre numa adolescência difícil, solitária, penosa. Era de quem eu roubava bolacha no recreio e quem eu infernizava o dia inteiro, com as mais torpes brincadeiras, como chamá-la de cabeça de tender ( porque ela fazia umas trancinhas e ficavam uns quadradinhos...). Essa aí, heroína, mesmo. Foi comigo pra Unicamp, formou-se educadora, agora é professora da UNESP, um orgulho.
Tanara, era tímida e acanhada, nada vaidosa, se enfeiava. Pois não é que aquela menina inocente de tudo foi a primeira de nós a se tornar mãe? Vinte anos, já estava grávida. Logo depois veio outra menininha, e minha amiga suportou o final do casamento. Mas agora está ótima, linda, vaidossíssima, super cuidada e gata. Agora trabalha com casamentos, aguenta a chatice das noivas pra realizar lindas cerimônias. Mas ri do mesmo jeito...
Eu avisei as meninas pra não se assustarem, eu estou muito, muito mais gorda do que era no colegial... além disso, agora tenho muitos cabelos brancos, e tenho que pintar o cabelo pra disfarçar. E dentro da minha cachola penso, gente, tanta coisa aconteceu, mas quando falei com as duas ao telefone, parecia que foi ontem.

Saturday, January 21, 2006

O caso do pudim

Hoje eu fiz um pudim. Tinha reunião na casa de uma amiga, amigos queridos e crianças na piscina. Tô dura pra variar, e pudim, mesmo com dureza, dá pra fazer: açúcar pra caramelar a fôrma velha de guerra, três ovos, lata de leite Moça, leite e liquidificador.
Tudo bem que tem uma técnica embutida no negócio, porque fazer calda de caramelo é negócio delicado, e o bicho cozinha em banho-maria, fogão alto e uma hora e meia de suadouro de quem passa na cozinha. Mas vale a pena. Eu tenho a seguinte teoria: batata frita e pudim de leite condensado, quando tem ninguém recusa.
Mas o que eu queria contar é uma história engraçada de pudim. Pudim na minha família era instituição no Natal. Todo ano tinha o velho e bom pudim. Pois teve um Natal que meu pai comprou carro novo, um Voyage verde-metálico. Todo mundo se dividiu entre a casa da minha tia e da minha avó, em Campos. Muita gente, criança, confusão... duas cozinhas pra assar pernil, fritar rabanada, mexer na farofa, aquela zona. E a fila pra tomar banho, e criança que corre pra cá, e benzinho cadê a minha camisa, e gente dormindo até embaixo da mesa.
Lá pelas tantas, dez da noite, todo mundo estava na minha avó já, de banho tomado e enchendo o saco, rodeando a mesa como mosquinhas. Menos minha mãe e minha tia Marilze, que ficaram na casinha da minha outra tia, Maria José, esperando assar a última coisa que faltava: o pudim.
As duas se embonecaram, e estavam com carro, recém-lavado, do seu Pedrão. Quando o pudim ficou pronto, minha mãe falou pra minha tia: embrulha essa fôrma num pano de prato e vamu embora. Mas minha tia Marilze, muito artista, falou, não, quéisso, deixa eu desenformar o tal e por cerejinhas em cima. Chegando na casa da mãe a gente põe na geladeira o pudim lindo e decorado.
O pudim estava pelando. O normal é esperar esfriar bem e pôr na geladeira. Depois de frio, fica fácil desenformar. Não sei porque milagre de Santo Onofre minha tia conseguiu desenformar e o bichinho não virar uma meleca. Pôs as cerejinhas, decorou o prato de vidro, e vamos.
As duas, arrumadíssimas, perfumadíssimas, entram no carro, minha mãe dirigindo e minha tia do lado, com o pudim no colo. Iam devagar, conversando, bem devagarinho... como elas não estavam na Suíça.... uma cratera no asfalto, um mini Grand Canyon, estava no caminho.
O carro caiu no buraco, e foi pudim pra tudo quanto era lado. As duas ficaram imundas, o carro ficou cheirando doce seis meses depois e naquele ano, excepcionalmente, não teve pudim no Natal.

Sunday, January 15, 2006

De relance

De relance penso que você pode ser louco, ou covarde. Cutucou onça com vara curta. Quem mandou?
Isso aqui é um canavial, meu filho.

Tratamento literário

Pois enfim, preciso dar um tratamento literário às minhas confusões interiores. Como você, filósofo pré-socrático, preciso escrever sobre a matéria e o Universo, e as prementes necessidades.
Te vejo me olhando num canto de olho distraído, mas será mesmo que tudo aquilo morreu? E aqui estou eu, de volta à transcendência mais barata e de almanaque. Oswald lascou pra Tarsila, "Ando desperdiçando beleza longe de ti", no verso de uma foto da fazenda. E o Largo de São Bento permanece invulnerável.
Já o de São Francisco guarda a lembrança da missa que mandei rezar pelo meu pai e pelo seu. Não adianta, estou presa na metafísica mais medíocre, coisa de gente que não tem refinamento, não adianta, moça fina não sou, apenas disfarço com bravatas fáceis de desmontar pelo filósofo.
Pego o metrô e desço na estação Paraíso. Com o mundo entalado na garganta. Difícil pensar nos movimentos dos átomos com essa dor presa no peito.

Friday, January 13, 2006

O que você leu hoje?

Em meio a esse verão assustador de tão quente, três livros têm sido meus companheiros nos dias solitários e supostamente dedicados ao relatório FAPESP, na velha Padre Vieira:
-Memórias de uma Gueixa, Arthur Golden. O autor, professor de japonês e estudioso da cultura nipônica durante décadas, escreveu esse romance sobre uma gueixa, Sayuri, estrela do bairro das gueixas em Kioto, Gion. Atravessando as décadas de trinta até oitenta, Sayuri narra em detalhes o treinamento e as agruras do universo fechado das mulheres-entretenimento. Virou filme, vaiado na Ásia porque a atriz principal é chinesa ( imagina!)... talvez o filme seja mesmo uma xaropada, vamos aguardar. Mas o romance é bonito, apesar da tradução um tanto quanto marrenta da Lya Luft.
-Carmen, Ruy Castro. Pois é, a Pequena Notável me acompanhou, e muito, em Chicago. Mal sabia eu que ela andou muito por lá, se apresentando nos teatros que tantas vezes passei em frente, no Loop! E que ficou amiga do sobrinho do Al Capone... voltando pra Terra Brasilis, vi que o sempre eficiente Ruy Castro escreveu a biografia da minha nova "ïdola"... acho que meus amigos antropólogos desmontariam os clichês da biografia tradicional em cinco minutos... mas vale muito a pena! Primeiro porque a própria Carmen merece a convivência, e porque o autor se esforça em fazer uma pequena história da música e do cinema, tanto nos EUA quanto no Brasil, tão modificados pela presença de Carmen.
-Diálogos com Leucó, Cesare Pavese. Esse livro é de assustar. Pavese se veste de Esopo, de Homero, e alerta para as múltiplas implicações dos deuses e heróis. Belíssimo diálogo da poetisa Safo e da ninfa marinha Britomártis, bem como o de Dioniso e de Ceres, o de Hércules e Prometeu... leitura obrigatória para os pesquisadores em Ciências Humanas.

Wednesday, January 11, 2006

Carreira Acadêmica II

Continuando na linha desgraça pouca é bobagem. Vejam no site da Folha, hoje, notícia sobre desvio de verbas no CNPq. Sim, o Conselho pega grana que deveria ser destinada à bolsas de estudo e paga conta de luz, água, viagem de funcionário e o call-center ( a terceirizada que faz o atendimento telefônico). A notícia ainda acrescenta que os fiscais das contas estão no pé do CNPq desde 2001, ou seja, que a situação é antiga e continua.
Brincadeira... O bom são os comentários à notícia. Bolsistas, ex-bolsistas e professores num ranger de dentes. E uma desavisada falando que a FAPESP é exemplo pros órgãos federais. Graças ao bom Pai dos céus um anônimo gaiato acrescenta que a FAPESP não é exemplo nem pra ela mesma.
Ou seja... fazendo a linha ultrapassada Bóris Cassoy, é uma vergonha. O povo fica revoltado com a suposta frase do De Gaulle, mas esse país não é sério mesmo. Outro comentador da notícia aponta com justeza: daqui a pouco a gente perde até o processo técnico de tirar o veneno da mandioca.

Sunday, January 08, 2006

Na veia

Falando em musiquinhas, lista do que rola em Neguinho do Pastoreio, meu i-pod:


1)Wonderful Life, Black: do fundo da gaveta 80's. O refrão é meio básico: It's a wonderful, wonderful life... cantada por uma voz depressiva. De homem das ilhas, Colin Vearncombe, no caso, Liverpool.
2)You Got It, Roy Orbison: um dos últimos hits do mestre, que virou febre por causa da gravação de Pretty Woman. Já dizia o velho Springsteen que Roy Orbison canta para os solitários, enquanto ele, Bruce, olha a musa rodopiar na varanda.
3)Higher Love, Steve Winwood: um desses caras que eram do rock progressivo e fez pérolas do pop rock, hoje esquecidas, nos oitenta. Talvez o maior representante da espécie seja o velho Phil Collins, hein?
4)And She Was, Talking Heads: dispensam apresentações os homens que apresentaram ao mundo a bomba Psycho Killer.
5)Human, Human League: outros ingleses classudos que fizeram o pop girar. Essa é classudíssima: "I'm only human/ Of flesh and blood I'm made/ Human/ Born to make mistakes", mais elegante que isso impossível, meu filho.
6)Love Changes Everything, Climie Fisher. Não tenho nenhuma informação pra dar sobre esse cidadão e a internet aqui de casa, no momento, tá muito lerda. Pronto, descubro que os autores dessa gema são uma dupla, Rob Fisher e Simon Climie, outros ponta de lança da British Invasion no pop oitentinha.
7)Gimme Hope, Joanna, Eddy Grant. Esse cara é da Guiana e é um dos grandes produtores de música caribenha. Antes disso, ele povoou as mentes dos adolescentes do mundo inteiro com essa Joanna aí, num inglês que dá gosto de ver. Não que meu inglês seja britânico, mas o dele é engraçadíssimo também!
8)Chorando se Foi, Kaoma. Sim, meus caros, Neguinho do Pastoreio, filho legítimo de Steven Jobs e febre no Primeiro Mundo, lasca uma lambada nostálgica para essa que vos escreve lambujas de quando em quando!

O fascínio do brega

Eu já escrevi aqui que muito me admira o fato de hoje eu ser fã do Roberto Carlos.
Lá em casa, o bom gosto imperava. Tudo bem que até um certo ponto: seu Pedro e dona Meire não eram ouvintes de música clássica. Era Milton Nascimento, Chico Buarque e Caetano Veloso, além dos Beatles.
Mas, pra viajar, nos nossos Voyages metálicos, a gente tinha um toca-fitas. Lembro que era uma das primeiras coisas que meu pai punha no carro, um estojo com as cassetes. Nas longas e sofridas viagens pra Campos dos Goytacazes, a gente ouvia Milton ( o lindo disco Sentinela, de 82, acho), uma fita com coisas da Jovem Pan ( eu lembro que tinha a Morena Tropicana, do Alceu Valença, uma linda do Queen, e Memory, de um cara chamado Barry Manilow, conhece?), e outra, azul, que era a grande curtição. Eram os grandes sucessos do Abba.
Eu adorava aquela fita, apesar de não entender lhufas do que as moças cantavam. A única palavra que a gente entendia era Fernando, que lástima...
Outra paixão era o som lá de casa, um Gradiente prateado, daqueles enormes. Toda vida ouvi muito rádio, mesmo hoje não passo sem rádio, agora no caso a Terra Rádio, na internet. Ouvia tudo. Aos onze anos, ganhei o primeiro micro-system ( sim, lembram-se deles?) e o mundo da música popular, nacional e internacional, se abriu pra mim.
Escutava escondido, e baixinho, as estações de música brega. Os meus pais tiravam sarro, o meu irmão tirava sarro, e na escola então? Lembro bem que queria construir a imagem de uma garota séria, estudiosa, e isso não batia com música brega, de jeito nenhum.
Os leitores, por favor, me entendam nesse ponto. Eu gosto de música, todo tipo de música. De Bach a mpb, de forró a Erick Satie. Devo ser um dos raros casos de gente que gosta de Leandro e Leonardo e Billie Holliday, de rock pesado e Ray Conniff, eu gosto de tudo. A chamada música clássica, sem sombra de dúvida, inspira e alimenta. Mas como explicar o fascínio do brega?
De uns três, quatro anos pra cá, tá essa moda brega escancarada. De repente, é legal ouvir Sidney Magal a todo volume nas festinhas. É natural discutir horas a fio, via msn, telefone ou mesmo pessoalmente ( coisa rara hoje em dia) sobre Menudos. Ou sobre... Leandro e Leonardo. Tem música que deveria ser proibida pelo Ministério da Saúde: ou porque é muito infame, ou porque é glicose pura. Mas como explicar que multidões enlouquecidas, de todas as idades, raças, credos, classes sociais e leituras preferidas ( da Bíblia aos Manuscritos Econômico-Filosóficos do Marx, passando por Quem Mexeu no meu Queijo) possam se emocionar ouvindo Wando? Outro dia o Nando Reis, ele mesmo, super cabeça, declarou que é fã do Wando. Como explicar?
Eu tenho por mim que o brega fascina porque é divertido. É divertido quando é infame, tipo Tiririca; é divertido quando é romântico, porque quando você está no estágio de amar, se emociona até com Celine Dion, e quando você ainda não caiu na besteira de amar de novo, ou se emociona de lembrar do amor que se foi ou se emociona ao lembrar que um dia você já se emocionou daquele jeito. Ou ri porque mesmo que tenha lido as Obras Completas de Baudelaire, Verlaine e Rimbaud, sim, você é brega pra cacete!

Saturday, January 07, 2006

Carreira Acadêmica

Aos dezessete anos, precisei preencher as fichas do vestibular. Queria ser jornalista. Prestei Jornalismo na USP, na UNESP e na Federal do Paraná. Meu sonho era estudar na ECA. Unicamp prestei por acaso. Minha amiga Débora, ansiosa por prestar o vestibular da filha de Zeferino Vaz, comprou um manual de manhã; chegou em casa, seu pai, o mítico senhor Jeffrão, havia comprado outro.
Paguei o prejuízo e não sabia o que prestar. Pensei em Letras. Na fila do ginásio, naquilo que considerava um fim de mundo ( Barão Geraldo), nas costas do meu pai, preenchi Ciências Sociais.
Passei na UNESP. UFPR, minha mãe escondeu o resultado positivo da segunda chamada, pra filha não ir virar vítima do vampiro de Curitiba. E num dia chuvoso, recebi a notícia que não havia passado na primeira chamada da ECA. Chorei muito naquele dia, e de tarde, no velho Ciclo Básico, vi meu nome na lista das Sociais.
Uma amiga da minha mãe me alertou pro fato de que não me via jornalista. Achava que eu tinha jeito de professora. Professora universitária, pesquisadora, o que o então presidente foi, durante muitos anos. Aquilo me deslumbrou. Entrei na Unicamp e no primeiro mês o sonho de se tornar uma professora universitária se formou.
Corri atrás desse sonho durante doze anos. Quatro de graduação, quando, afobada, matei Bacharelado e Licenciatura em Sociologia e Antropologia, gastando meus dias na biblioteca com ardor, três bolsas de iniciação científica e estágio no Centro de Memória. Quatro de mestrado, gastos em uma rotina insana de disciplinas e textos pra matar Sociologia e História da Arte, e o Programa de Formação do Cebrap. E agora, mais quatro de um doutorado em Teoria Literária, entre aulas no IA, pesquisas, artigos, Chicago e Botticelli e Dante.
Fui bolsista de todas as instituições governamentais. Dei aula em cursinho de periferia e palestra no MASP. Torrei a paciência da minha mãe, que sonhava em me ver advogada. Trabalhei em troca de livros e escrevia de madrugada. E agora, preciso escrever uma tese, conseguir uma renovação de bolsa na FAPESP. E o ânimo me falta. Dois amigos não conseguem bolsa, outros tantos não conseguiram. O Projeto Temático ao qual me insiro não existe mais.
Corro atrás dos concursos. Todos pedem doutorado. Pati, minha amiga e companheira de jornada no Cebrap, me alerta para o fato de que muito concurso abre e fecha sem inscritos, e depois os departamentos baixam o nível de exigência. Vejo que o ânimo me falta.
Preciso escrever a tese, o ânimo me falta. Preciso pensar em prestar concurso, o ânimo me falta. Gastei doze anos e o sonho começa a desbotar. Será que conseguirei vencer a politicagem, a falta de profissionalismo, o corporativismo mesquinho, o diz-que-me-diz, a mediocridade, a não-racionalidade dos processos seletivos, essas marcas da academia brasileira?
Pela primeira vez nesses doze anos, duvido do meu sonho. Não, não acredito mais que a academia é meritocrática. Muito vi nesses doze anos. Vi até demais. Vi muitos colegas talentosos serem esmagados por uma engrenagem perversa e uma lógica que muitas vezes pressupõe arrivismo e uma certa falta de caráter. Estou cansada, isso é tudo. Adoro o que faço, e não me arrependo da minha dedicação, eu sei que o trabalho me salvou. Mas cansei. O fato da minha dissertação não ter sido aceita pela Editora da Unicamp despertou de novo o cansaço, o desalento. Não sei se vou ter forças pra dar o pulo do gato. A força me falta, eu quero a doçura de caráter, eu quero a tranquilidade do amor e do afeto, não a máscara que é preciso ter. Talvez, o retorno de Saturno me deixou mais amena. Talvez, vamos ver.

Wednesday, January 04, 2006

Citação do dia

"Nestas páginas analiso algumas das obras maiores de Piero della Francesca (...) sob um duplo ponto de vista: a clientela e a iconografia. Não me refiro aos aspectos propriamente formais destas pinturas, porque me falta a devida competência ( sou um estudioso de história, não de história da arte). Trata-se de uma limitação grave. Pode uma pesquisa assim circunscrita atingir resultados relevantes? Penso que sim: por motivos de ordem específica, ligados à situação dos estudos sobre Piero, e também por motivos de ordem geral". Carlo Ginzburg, Indagações sobre Piero. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1989.
E eu pergunto: e quando junta iconografia com aspecto formal?

Depois de Valparaíso

Então, fomos pra Valparaíso, perto de Araçatuba, terra dos ancestrais maternos da pequena Dani, a eterna menina-xamã.
Ficamos na velha fazenda Tangará, com o divertidíssimo pai de Dani, doutor Jorge, criador de gado kanchin e cardiologista nas horas vagas, e dona Eloísa, cozinheira das melhores e tradutora de Thomas Mann. Gente fina é outra história.
Comemos toneladas, e eu fui picada por tudo quanto é tipo de inseto. Mas valeu muito a pena, a companhia de Dani e Chris, Celo, do Fubá ( um gatinho muito fofo e cinza que tem lá) e do General, um sapão que estava, segundo a Dani, a fim de mim. Além das maritacas no telhado. E das terríveis mutucas. E de Neguinho do Pastoreio tocando sem parar hits dos anos 80.
Volto pra Campinas, dou um show chiliquento em casa porque perdi o IPVA do carro. Janeiro é dose. E taca pagar conta, e taca ir em academia, e eu ainda gastei uma fortuna na Decathlon, em tênis, maiô e camiseta. Ou seja, vou me acabar de malhar pra compensar as compritchas.
Começo a trabalhar no relatório pra FAPESP sem muita empolgação. Não sei o que fazer pra convencer o parecerista que sou uma pessoa séria, e que meu trabalho é cientificamente relevante.
Aliás, momento desabafo: tive a publicação da minha dissertação negada na Editora da Unicamp. Justificativa, nenhuma. Sei que o negócio tá feio, mal costurado e mal escrito, mas puxa, eu merecia uma resposta. Descubro por Letícia que talvez a mesma alma penada que me atazanou a vida esses tempos cometeu tal feito. Que beleza. De novo, entrei na cidadela de Dite.