Saturday, January 21, 2006

O caso do pudim

Hoje eu fiz um pudim. Tinha reunião na casa de uma amiga, amigos queridos e crianças na piscina. Tô dura pra variar, e pudim, mesmo com dureza, dá pra fazer: açúcar pra caramelar a fôrma velha de guerra, três ovos, lata de leite Moça, leite e liquidificador.
Tudo bem que tem uma técnica embutida no negócio, porque fazer calda de caramelo é negócio delicado, e o bicho cozinha em banho-maria, fogão alto e uma hora e meia de suadouro de quem passa na cozinha. Mas vale a pena. Eu tenho a seguinte teoria: batata frita e pudim de leite condensado, quando tem ninguém recusa.
Mas o que eu queria contar é uma história engraçada de pudim. Pudim na minha família era instituição no Natal. Todo ano tinha o velho e bom pudim. Pois teve um Natal que meu pai comprou carro novo, um Voyage verde-metálico. Todo mundo se dividiu entre a casa da minha tia e da minha avó, em Campos. Muita gente, criança, confusão... duas cozinhas pra assar pernil, fritar rabanada, mexer na farofa, aquela zona. E a fila pra tomar banho, e criança que corre pra cá, e benzinho cadê a minha camisa, e gente dormindo até embaixo da mesa.
Lá pelas tantas, dez da noite, todo mundo estava na minha avó já, de banho tomado e enchendo o saco, rodeando a mesa como mosquinhas. Menos minha mãe e minha tia Marilze, que ficaram na casinha da minha outra tia, Maria José, esperando assar a última coisa que faltava: o pudim.
As duas se embonecaram, e estavam com carro, recém-lavado, do seu Pedrão. Quando o pudim ficou pronto, minha mãe falou pra minha tia: embrulha essa fôrma num pano de prato e vamu embora. Mas minha tia Marilze, muito artista, falou, não, quéisso, deixa eu desenformar o tal e por cerejinhas em cima. Chegando na casa da mãe a gente põe na geladeira o pudim lindo e decorado.
O pudim estava pelando. O normal é esperar esfriar bem e pôr na geladeira. Depois de frio, fica fácil desenformar. Não sei porque milagre de Santo Onofre minha tia conseguiu desenformar e o bichinho não virar uma meleca. Pôs as cerejinhas, decorou o prato de vidro, e vamos.
As duas, arrumadíssimas, perfumadíssimas, entram no carro, minha mãe dirigindo e minha tia do lado, com o pudim no colo. Iam devagar, conversando, bem devagarinho... como elas não estavam na Suíça.... uma cratera no asfalto, um mini Grand Canyon, estava no caminho.
O carro caiu no buraco, e foi pudim pra tudo quanto era lado. As duas ficaram imundas, o carro ficou cheirando doce seis meses depois e naquele ano, excepcionalmente, não teve pudim no Natal.

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