Aos dezessete anos, precisei preencher as fichas do vestibular. Queria ser jornalista. Prestei Jornalismo na USP, na UNESP e na Federal do Paraná. Meu sonho era estudar na ECA. Unicamp prestei por acaso. Minha amiga Débora, ansiosa por prestar o vestibular da filha de Zeferino Vaz, comprou um manual de manhã; chegou em casa, seu pai, o mítico senhor Jeffrão, havia comprado outro.
Paguei o prejuízo e não sabia o que prestar. Pensei em Letras. Na fila do ginásio, naquilo que considerava um fim de mundo ( Barão Geraldo), nas costas do meu pai, preenchi Ciências Sociais.
Passei na UNESP. UFPR, minha mãe escondeu o resultado positivo da segunda chamada, pra filha não ir virar vítima do vampiro de Curitiba. E num dia chuvoso, recebi a notícia que não havia passado na primeira chamada da ECA. Chorei muito naquele dia, e de tarde, no velho Ciclo Básico, vi meu nome na lista das Sociais.
Uma amiga da minha mãe me alertou pro fato de que não me via jornalista. Achava que eu tinha jeito de professora. Professora universitária, pesquisadora, o que o então presidente foi, durante muitos anos. Aquilo me deslumbrou. Entrei na Unicamp e no primeiro mês o sonho de se tornar uma professora universitária se formou.
Corri atrás desse sonho durante doze anos. Quatro de graduação, quando, afobada, matei Bacharelado e Licenciatura em Sociologia e Antropologia, gastando meus dias na biblioteca com ardor, três bolsas de iniciação científica e estágio no Centro de Memória. Quatro de mestrado, gastos em uma rotina insana de disciplinas e textos pra matar Sociologia e História da Arte, e o Programa de Formação do Cebrap. E agora, mais quatro de um doutorado em Teoria Literária, entre aulas no IA, pesquisas, artigos, Chicago e Botticelli e Dante.
Fui bolsista de todas as instituições governamentais. Dei aula em cursinho de periferia e palestra no MASP. Torrei a paciência da minha mãe, que sonhava em me ver advogada. Trabalhei em troca de livros e escrevia de madrugada. E agora, preciso escrever uma tese, conseguir uma renovação de bolsa na FAPESP. E o ânimo me falta. Dois amigos não conseguem bolsa, outros tantos não conseguiram. O Projeto Temático ao qual me insiro não existe mais.
Corro atrás dos concursos. Todos pedem doutorado. Pati, minha amiga e companheira de jornada no Cebrap, me alerta para o fato de que muito concurso abre e fecha sem inscritos, e depois os departamentos baixam o nível de exigência. Vejo que o ânimo me falta.
Preciso escrever a tese, o ânimo me falta. Preciso pensar em prestar concurso, o ânimo me falta. Gastei doze anos e o sonho começa a desbotar. Será que conseguirei vencer a politicagem, a falta de profissionalismo, o corporativismo mesquinho, o diz-que-me-diz, a mediocridade, a não-racionalidade dos processos seletivos, essas marcas da academia brasileira?
Pela primeira vez nesses doze anos, duvido do meu sonho. Não, não acredito mais que a academia é meritocrática. Muito vi nesses doze anos. Vi até demais. Vi muitos colegas talentosos serem esmagados por uma engrenagem perversa e uma lógica que muitas vezes pressupõe arrivismo e uma certa falta de caráter. Estou cansada, isso é tudo. Adoro o que faço, e não me arrependo da minha dedicação, eu sei que o trabalho me salvou. Mas cansei. O fato da minha dissertação não ter sido aceita pela Editora da Unicamp despertou de novo o cansaço, o desalento. Não sei se vou ter forças pra dar o pulo do gato. A força me falta, eu quero a doçura de caráter, eu quero a tranquilidade do amor e do afeto, não a máscara que é preciso ter. Talvez, o retorno de Saturno me deixou mais amena. Talvez, vamos ver.

4 comments:
Faço minhas todas as suas palavras. No meu caso, são 18 anos de dedicação, uma maioridade... Bjs.
Mas não é horrível, isso? Gente, é um absurdo no final... bjo.
É, sim, horrível. É cruel. A empresa da família está me chamando para empregar os conhecimentos de línguas dados pela HA juntamente com um curso de comércio exterior (a ser feito)... E como desisitir desses 18 anos?
É simples, porém complexo: É só transformar o que a gente gosta mesmo em pura diversão e tirar uma boa grana morando na Itália (tem uma colega de Ciências Sociais que está fazendo isso, com comércio exterior, morando em Perúgia faz uma centena de anos), assim dá para a gente fazer o que a gente gosta fazendo o que a gente gosta...eheheheh.. ter grana para viajar e poder se abastecer de guloseimas culturais não é para qualquer um. Eu pensaria seriamente na proposta...
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