Tuesday, November 30, 2010

Nóis trupica mas num breca


E provando que a panda está muito saidinha, amanhã falarei no nobre Desencontro de História da Arte que ocorre todos os anos na cidadela de Zeferino, sobre o patrimônio arquitetônico da velha e sempre detonada Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí.
Falar sobre o patrimônio de Campinas é heróico, é hercúleo, porque o tal está sempre na ameaça de ser tombado, não pelos órgãos competentes, mas tombado mesmo, literalmente, no chão.
Agora, a gente não se aperta. Acima, colunas de uma casinha daqui perto de casa, obra dos bravos capomastri itálicos que modelaram a Campinas do café.

Monday, November 29, 2010

Sem palavras

Tenho um conceito muito ruim de mim mesma.

Na maior parte do tempo, me deprecio, acho que sou torta demais, feia demais, tonta demais. Talvez eu seja tudo isso, e um pouco mais, até. Sou muito zangada comigo mesma; não tenho paciência com minhas chorumelas e pequenos dramas cotidianos. Já vem de longe uma voz severa, que me assiste e comenta o que vivo, sempre dizendo que não tenho razão e que passo por coisas tão banais, que, sinceramente, pra que chorar e sentir...
E outra voz que não tem palavras, ecoa um canto, suave e doce, tão sem lugar no mundo que a outra pergunta se vale a pena cantar algo tão etéreo, tão de outro planeta. Sinto que uma parte de mim ainda não aterrisou neste mundo, como se eu fosse de outra época, alguém preto e branco num mundo technicolor... as outras pessoas parecem sólidas em seus propósitos, mesmo que sejam maus. Eu pareço, ao contrário, alguém transparente, que voa, asa de borboleta. Me pergunto se um dia esse canto que eu canto ecoará em alguém, ou se permanecerá sem destino, enquanto meu coração bater.

Sunday, November 28, 2010

Fim


Amanhã, é a última aula que ministro neste ano letivo. Depois, provas e trabalhos encherão os dias dos alunos e os meus, mas o drama de eu chegar, pedir silêncio, ligar o equipamento, pedir silêncio de novo, começar a falar, dar recados, pedir silêncio de novo e entrar nos meandros da História da Arquitetura, desde o Pathernon de Atenas até a Ópera de Arame de Curitiba... não, isso encerrou, pelo menos até 2011 começar de fato.
Encerro falando da virada do XIX pro XX, as estações de metrô de Paris, de Guimard, todas do período de 1890 a 1900. Todas, de ferro retorcido, no belo estilo Art Nouveau, que tanto fez sucesso no Brasil, também.
É lógico que tinha me planejado para falar de muito, muito, muito mais coisas... o caderninho de anotações ficou lotado de datas, mapas, rabiscos, que ficaram pra trás, nas corridas segundas-feiras. Aprendi muito mais que ensinei, me surpreendi com a festa surpresa no meu aniversário, e levo no coração o susto deles quando viram pela primeira vez a Catedral da Sé. Apesar de tudo, e talvez por isso mesmo, valeu muito a pena.
Acima, um cartão postal da Estação Bastilha, de Guimard, hoje demolida.

Saturday, November 27, 2010

Na terra de Almeida Júnior

Essa semana, depois de passar a segunda-feira em Piracicaba e a terça em Indaiatuba, fui ter na terra que viu nascer o pintor Almeida Júnior.
Consegui, miraculosamente, ser aceita num importante congresso no Museu Republicano de Itu.
Eu fui a Itu na infância, com meus pais, almoçar no Bar do Alemão e ver o semáforo gigante na praça da Matriz. Depois, nunca mais.
Saí de casa meio nervosa, porque a FAPEPANDA (Fundação de Apoio às Pesquisas da Panda) não possui, atualmente, de fundos muito consideráveis. Pra falar a verdade, a FAPEPANDA não tem nenhum fundo, internacional, nacional, nenhum apoio de nenhum banco nem de organizações governamentais ou não-governamentais. Dito isto, a pequena habitante do Tibete saiu de casa um tanto quanto aflita, e foi imprimir seu texto na lan house da esquina.
Eu simpatizo bastante com o pessoal da lan house aqui da minha esquina, mas os dois atendentes resolveram namorar e no meio do idílio deles e da minha pressa... peguei o ônibus correndo pra Rodoviária, comprei a passagem pra Itu e... me dei conta que a pen drive tinha ficado na lan.
Chorei, chorei, chorei muito no Terminal Rodoviário Ramos de Azevedo. Uma grande ironia do destino, já que eu me propusera a falar dos colaboradores italianos do grande engenheiro-arquiteto paulista... chorei de nervoso, de mágoa, de desespero, de aflição... e de tristeza. Há muitos anos eu faço as coisas totalmente no improviso, sem apoio, sem estímulo, só na dureza, e o lado duro e negro da vida... bem, quero conhecer o lado brilhante da vida, se vocês me permitem o desabafo.
Mas sou persistente (na verdade, não tenho outra alternativa a não ser persistir), e fui pra Itu assim mesmo, depois do consolo de um amigo querido no celular. Chegando em Itu, a anjinho Fran me resgatou e me levou pra conhecer sua terra... no Museu, amigos e gente querida me acolheram, e mesmo sem meu Power Point, mandei brasa e honrei os nobres itálicos construtores do interior paulista.
A anjinho Fran, num rápido tour pela cidade republicana, me mostrou uma das primeiras pinturas de Almeida Júnior, o São Paulo aí de cima, na bela e detonada Matriz deles. São Pedro não contribuiu muito com nosso passeio, mas as conversas na fábrica sem luz, e depois o cocktail do congresso, valeram o chuvão e reacenderam no coração da velha panda a chama da esperança de dias melhores.

Monday, November 22, 2010

No lugar onde o peixe pára

Hoje, acordei cedo e sem nenhuma disposição fui ministrar minha aula sobre a Paris do XIX para meus fofos alunos de Arquitetura, que não aguentam mais minhas arengas e meu mau humor proverbial das segundas-feiras de manhã.
O responsável pelos horários da veneranda instituição onde falo dos pintores do Impressionismo e da importância da mandioca na alimentação brasileira ( às vezes, na mesma aula) me pregou uma peça: nas segundas-feiras, dou aula em dois campi diferentes, mas um longe do outro, e num intervalo de 10 horas entre as aulas. O segundo é o mais longe da toca da panda, e fica no centro de Piracicaba, a ensolorada cidade das quedas d'água. Semprei gostei muito de Piracicaba, mesmo sendo este simpático município de uma amplitude térmica impressionante: Pira consegue ser mais quente que Campinas (sim, isso existe) e mais fria que Campinas (o que, por outro lado, não é muito difícil). Outra coisa que me impede de interagir mais com os nativos locais é o dialeto que eles falam: o piracicabês tem horas que é mais incompreensível que outras línguas menos nobres do mundo conhecido, como o francês, o inglês e etc.
Nesse semestre, portanto, fiquei de castigo pelos campi, tentando trabalhar ou fingindo que eu trabalho, tomando picolé e chegando ao requinte de tirar sonecas no Exumóvel.
Bom, resolvi variar a programação e dar uma volta a pé pelo centro de Piracicaba. Deixei o Exumóvel no campus e fui caminhando pelas ruas da cidade, cheia de casas das décadas de 10 e 20 e esquinas Art Déco. Pensei, em qualquer cidade do nosso abafado interior paulista, vai ter a sorveteria que dignifica o homem no meio da tarde. Outra coisa que adorna a terra dos bandeirantes é que qualquer cidade tem n confecções ou lojas que deságuam as criações do Brás e do Bom Retiro: lojas cheias de roupas de malha para as senhoras e senhoritas enfrentarem com garbo o clima pesado do verão.
Encontrei primeiro uma dessas lojas, cheias de blusinhas que viraram a cabeça da panda, de bolinhas e laços. A vendedora foi gentil e me informou o endereço da sorveteria mais próxima, uma graça de sorveteria, de esquina, com cadeiras verdes e sorvetes de graviola e cupuaçu. Tomei um sorvete de tapioca delicioso e fiquei vendo a tarde passar.
Entrei na igreja mais próxima, por curiosidade. E não é que o teto era afrescado com uma cópia da Transfiguração do Rafael? Achei um barato... e um casal totalmente virado no jiraia quebrava o pau na frente da igreja, a ponto de uma senhora chamar a polícia.
Continuei meu passeio e me deparei com uma lanchonete chamada Brasil Líbano, com um velhinho dentro com uma cara de quem ia me pedir em casamento, e uma loja espetacular, a Daslu da panda: Loja do Cido, tudo a 10 real.
Totalmente em estado de graça, a panda adentrou o estabelecimento e logo separou uma carssa e duas brusas, dentro da minha habitual falta de elegância e do meu orçamento. Comprei uma sedutora e principalmente discreta blusa pink pela quantia anunciada na placa da loja, e a mocinha ainda me informou que quando o Cido se encontra ele ainda dá desconto ( desconto em blusa de 10 reais é digno de um Adam Smith).
Fiquei feliz com o meu passeio e tirei muitas fotos mentais (já que estava sem máquina) das casas e sobrados de Piracicaba, o lugar, diziam os ameríndios, onde o peixe e a panda param.

Peso



Entramos no Advento, a preparação do Natal, e eu até biscoito de Natal já comi; nada passa incólume das patinhas gulosas da velha e sempre desmiolada panda. Mas me preparar que é bom, nada, consegui o feito histórico de não me preparar para nada nesse ano de 2010.

Foram tantos esforços, mas tão dispersos, desatentos e indisciplinados... e o coração que pesou demais, atrapalhando um pouco o funcionamento mental. Escrevi vários projetos e não levei a cabo nenhum; tomei muitas iniciativas saudáveis mas algumas ficaram pra trás, no torvelinho do dia-a-dia, da tristeza e do passado que sempre voltava. Infelizmente, caí também numas daquelas armadilhas que a gente põe na nossa frente, pra nos sabotarmos, mesmo. Enfim. Queria, sinceramente, ter feito mais em 2010; estou com saudade da esperança e do ânimo do início do ano. Agora me passa pela cabeça que sentirei falta da esperança que senti, em 2010, esperança que há anos não sentia; e dos momentos felizes que tive nesse ano, momentos verdadeiramente felizes, como há anos também não os tinha. 2010 foi um ano que trouxe surpresas, boas e ruins, mas surpresas. Ontem, fiquei pensando longamente que a vida é assim mesmo, pega a gente de surpresa sempre, nunca é do jeito que a gente quer, assim, certinho, mas é tão, tão boa.

Acima, um dos atlantes do coreto da Praça Carlos Gomes, Campinas.

Friday, November 19, 2010

Lubnan

Porque onde estão os cedros,
sopra o vento,
porque traz uma canção;
o sentido do rosto,
e o significado dos gestos.

Tuesday, November 16, 2010

A Deusa do Amor

Esses tempos foram de enfrentar coisas dolorosas. Lembranças trágicas do passado voltaram à tona. Enquanto isso, a vida segue, lenta, com alguns percalços, mas segue.
Mas eu aposto, e muito, ainda, no amor. Se não for por isso, a gente apostaria em quê? Aposto nas pessoas.
Semana passada, infelizmente perdemos um amigo, e uma outra amiga casou. Tudo na mesma semana. Encontrei tanta gente, vi tristeza, vi alegria. Com os olhos do amor. Pra mim, isso é o que importa.

http://www.4shared.com/audio/ICEH9aRo/Pepeu_Gomes_-_A_Deusa_Do_Amor_.htm

Friday, November 12, 2010

Rute e Boaz

Rute era moabita, ou seja, vinha da Jordânia. Casou com um dos filhos da judia Noemi. Apesar de sua sogra ser judia, quando o marido, o cunhado e o sogro morreram, Rute não quis deixar Noemi sozinha, e, enfrentando o medo e a angústia, foi para Israel, para a cidade de Belém.
Chegando lá, as duas não tinham nenhum recurso. Nada, estavam condenadas a passar fome. Rute então foi para os campos de trigo e cevada, recolher as sobras, os restos da colheita. Nessa condição tão triste, nesse desespero, Boaz, o dono dos campos, olhou para Rute, que gerou quem gerou o rei Davi.
A coisa mais bonita que um homem faz para uma mulher é olhar para ela.
Acima, A história de Rute. Nicolas Poussin, 1660-1664. Óleo sobre tela, 118 x 160 cm. Paris, Louvre.

Saturday, November 06, 2010

Tu sei il mio maestro e'l mio autore


Uma das edições renascentistas da Comédia que consultei em Chicago, na Newberry Library. Faz cinco anos, mas eu não esqueci do dia em que vi esta maravilha, obra do veneziano Aldus Manutius, 1502. Tá no Mezzo, nos guardados da panda.
No título do post, Canto I do Inferno.