Hoje, acordei cedo e sem nenhuma disposição fui ministrar minha aula sobre a Paris do XIX para meus fofos alunos de Arquitetura, que não aguentam mais minhas arengas e meu mau humor proverbial das segundas-feiras de manhã.
O responsável pelos horários da veneranda instituição onde falo dos pintores do Impressionismo e da importância da mandioca na alimentação brasileira ( às vezes, na mesma aula) me pregou uma peça: nas segundas-feiras, dou aula em dois campi diferentes, mas um longe do outro, e num intervalo de 10 horas entre as aulas. O segundo é o mais longe da toca da panda, e fica no centro de Piracicaba, a ensolorada cidade das quedas d'água. Semprei gostei muito de Piracicaba, mesmo sendo este simpático município de uma amplitude térmica impressionante: Pira consegue ser mais quente que Campinas (sim, isso existe) e mais fria que Campinas (o que, por outro lado, não é muito difícil). Outra coisa que me impede de interagir mais com os nativos locais é o dialeto que eles falam: o piracicabês tem horas que é mais incompreensível que outras línguas menos nobres do mundo conhecido, como o francês, o inglês e etc.
Nesse semestre, portanto, fiquei de castigo pelos campi, tentando trabalhar ou fingindo que eu trabalho, tomando picolé e chegando ao requinte de tirar sonecas no Exumóvel.
Bom, resolvi variar a programação e dar uma volta a pé pelo centro de Piracicaba. Deixei o Exumóvel no campus e fui caminhando pelas ruas da cidade, cheia de casas das décadas de 10 e 20 e esquinas Art Déco. Pensei, em qualquer cidade do nosso abafado interior paulista, vai ter a sorveteria que dignifica o homem no meio da tarde. Outra coisa que adorna a terra dos bandeirantes é que qualquer cidade tem n confecções ou lojas que deságuam as criações do Brás e do Bom Retiro: lojas cheias de roupas de malha para as senhoras e senhoritas enfrentarem com garbo o clima pesado do verão.
Encontrei primeiro uma dessas lojas, cheias de blusinhas que viraram a cabeça da panda, de bolinhas e laços. A vendedora foi gentil e me informou o endereço da sorveteria mais próxima, uma graça de sorveteria, de esquina, com cadeiras verdes e sorvetes de graviola e cupuaçu. Tomei um sorvete de tapioca delicioso e fiquei vendo a tarde passar.
Entrei na igreja mais próxima, por curiosidade. E não é que o teto era afrescado com uma cópia da Transfiguração do Rafael? Achei um barato... e um casal totalmente virado no jiraia quebrava o pau na frente da igreja, a ponto de uma senhora chamar a polícia.
Continuei meu passeio e me deparei com uma lanchonete chamada Brasil Líbano, com um velhinho dentro com uma cara de quem ia me pedir em casamento, e uma loja espetacular, a Daslu da panda: Loja do Cido, tudo a 10 real.
Totalmente em estado de graça, a panda adentrou o estabelecimento e logo separou uma carssa e duas brusas, dentro da minha habitual falta de elegância e do meu orçamento. Comprei uma sedutora e principalmente discreta blusa pink pela quantia anunciada na placa da loja, e a mocinha ainda me informou que quando o Cido se encontra ele ainda dá desconto ( desconto em blusa de 10 reais é digno de um Adam Smith).
Fiquei feliz com o meu passeio e tirei muitas fotos mentais (já que estava sem máquina) das casas e sobrados de Piracicaba, o lugar, diziam os ameríndios, onde o peixe e a panda param.

2 comments:
lendo este textinho me deu saudades da minha piracicaba...
mas o sotaque nao é tao ruim assim!
rs
Brincadeira flor.
Adoro Pira.
E vc também!
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