Tuesday, January 30, 2007

Babel e o Menino da Porteira

Tive um final de semana esquisito. Fui pra São Paulo, pra festa de amigos queridos que reencontrei nesses dias paulistanos, e foi muito legal tudo. No domingo, passeamos, coisas legais aconteceram, e fui assistir Babel. Bom, mas no meio do caminho da rua Augusta vi um amigo muito antigo. Na verdade, no início, ele foi uma grande paixão, mas depois de vários sobressaltos, desentendimentos e encontros, a gente ficou amigo. Eu sabia que meu amigo estava muito doente, mas no domingo eu descobri que infelizmente ele tem problemas bem sérios.
E assisti ao filme, que tem partes legais e outras nem tanto, mas que fala da fragilidade da vida nos dias que correm. Eu me senti muito frágil no domingo, em meio à tempestade que caía sem trégua sobre a combalida cidade em que nasci, senti medo, raiva, mas vi solidariedade, carinho, delicadeza.
Enquanto eu sofria ao constatar que o tempo passou muito mal pro meu amigo, pensei que ao mesmo tempo, algum casal fez amor e uma criança vai nascer disso, que gente morreu mas teve quem nascesse, quem trouxe uma boa notícia, quem inadvertidamente impediu um assassinato, quantos sorrisos foram dados, quantas risadas, e pela primeira vez eu vi que as coisas boas podem ser mais voláteis e frágeis, mas por elas a gente se guia em meio à metrópole.
Meu pai adorava o Menino da Porteira. Eu acho tão linda essa música, porque fala de uma lembrança, e eu lembro do meu pai chamando um colega da Cesp, que era de Ouro Fino, de Menino da Porteira ( meu pai às vezes mandava mal). Então é isso.

Wednesday, January 24, 2007

Uma nota de rodapé da minha tese

Minha tese vai na base de uma nota de rodapé por dia. Com dois canais de dente pra fazer, carro com barulho de Fusca, duas lâmpadas queimadas, um chuveiro arrancado da parede e um vaso sanitário vazando, além da perspectiva de desemprego dentro em breve, acho que vai bem a coisa. A minha favorita é essa aqui:
É o caso da lenda da relação de Virgílio com a filha de Júlio César, Febilla. Velho mago, Virgílio encanta-se com a moça, que lhe diz para vir ter com ela à noite. Para fazer o poeta subir até seu quarto, a bela deixa uma cesta pendurada a uma corda: o poeta sobe na cesta, mas Febilla não puxa a corda até o fim. No outro dia, toda Roma vê o poderoso mago pendurado numa cesta. Mas Virgílio se vinga: graças a um feitiço terrível, ele extingue o fogo de Roma, mas Febilla se incendeia, no meio das pernas. Os romanos, fazendo troça da moça, acendem suas tochas no seu sexo ardente. Existem várias representações, tanto da cena do poeta na cesta, quanto dos romanos buscando fogo em Febilla, como o capitel decorado da Igreja de Saint-Pierre, em Caen. Há vários exemplos de tais cenas em FAGGIOLO, Marcello ( a cura di). Virgilio nell’Arte e nella Cultura Europea. Roma: De Luca Editore, 1981
A moça com fogo na fofinha me alivia dos pobreumas!A erudição inútil não é ótima?

Saturday, January 20, 2007

Lentilhas e tese

Ontem fiz um bolo de caixinha ( quer dizer, hoje em dia o Dona Benta vem em saquinho) e a Yna pôs uma cobertura em cima, um brigadeiro mole com café. Hoje estava o dilúvio, a gente tinha combinado um passeio em Joaquim Egídio, pra ver o cometa no Observatório Municipal. O Observatório, que tem um dos maiores telescópios óticos do Hemisfério Sul ( believe me), fica na Serra das Cabras, uma serrinha linda, mas tem um bom pedaço de terra subindo. No caminho, tem um restaurante siciliano excelente. O Observatório é um dos meus lugares favoritos no planeta Terra.
Mas voltando, choveu demais. Meio dia me levanto, com uma fome danada pensando, mas que faço pro almoço. Fiz uma panela de arroz que ficou soltinho. Pus lentilha de molho, batatas pra cozinhar. Resolvo descer pra comprar uma linguiça de frango e uma couve, sei lá, o telefone toca, é Yna desolada com a chuva e o sábado tedioso. Convido pra almoçar, pergunto se ela tem problemas com linguiça de frango. Não sei porque, mas lentilhas me fazem lembrar linguiça de frango, e couve. Saio correndo do prédio, meu zelador que é um anjo vem atrás de mim com um guarda-chuva do Mickey, dizendo, te conheço, o que você vai querer comprar não tem na padaria da esquina.
Não tinha mesmo, rodo, vou até o restaurante português na outra esquina, restaurante velho de guerra com a clássica tv de cachorro na porta. 14 pilas o frango, qué isso. Vou no Itaú, o cartão não passa. Corro em direção ao Centro de Convivência, com fome, pressa, e a chuva molhando a barra da saia. Compro um belo dum frango assado por 5 paus, uma farofa que tava simpática do lado, maçãs, um queijinho, azeitonas. Volto mastigando um salgadinho. A batata está cozidérrima, a lentilha já vai, o pessoal chega, ajuda, a batata vira um troço com margarina e alecrim colhido do pé, o azeite libanês ajuda, asso maçãs com açúcar e canela, o papo rola na sala, uma sangria aparece, e a gente comeu, viu fotos, livros, até brigar brigamos.
Volto pra tese, junto os cacos de quatro anos de trabalho descontínuo e desorganizado, de esforços em direções equivocadas, de muita preguiça, de rolos na vida, Chicago, Pisa, Campinas, São Paulo, Rio de Janeiro, tanta vida dentro disso. Falei com amigos em São Paulo, eu queria muito fazer a tese da tese. Uma exposição de fotos, comidas, receitas, das coisas rolaram com a tese, para a tese, contra a tese, todas as posições socráticas possíveis, toda a ágora quebrando o pau, e ninguém chegando a conclusão nenhuma, mas uma coisa é certa. Esaú vendeu a primogenitura a Jacó por um prato de lentilhas, eu faria o mesmo com a minha tese...

Friday, January 19, 2007

Aos trancos e barrancos

Aos trancos e barrancos retomo a vida. Coragem falta, as pernas bambeiam, merdas acontecem, mas aos trancos e barrancos a coisa vai.

As duas semanas que passaram, estava em São Paulo, reunindo toda coragem possível pra procurar emprego, amigos queridos, laços de afeto que ficaram pra trás e ruminando a tese. Mudei o esquema da dita cuja e retomei os trabalhos de Hércules.
Tem horas que eu fico muito atrapalhada e a vida dói demais. Vem uma tristeza grande, forte, um sentimento de perda e uma desorientação. Perdi a bússola do meu coração no ano passado. Explico. Eu tinha uma amiga em quem confiei tudo da minha vida, e que me traiu dum jeito horroroso. Tô cansada de gente falando mal dos outros, desse esquema competitivo do mundinho acadêmico. Que saco, almoços e almoços de gente descendo a lenha nos outros, e o tom de quem é o juiz do mundo. Hoje aconteceu de novo com umas figuras conhecidas, eu me sinto mal, mal, mal, tô de saco cheio, não gosta de mim, fala na minha cara e pronto. Na verdade, eu sinto falta de algumas pessoas, de outras não sinto nada, nada mesmo, só lamento.
O bom foi que vi uma exposição muito bonita do Volpi no Banco Central, na Avenida Paulista. É de grátis, vale a pena ver, tem umas litografias lindíssimas do tiozinho do Cambuci. Vale a pena demais.

Friday, January 12, 2007

Cama e Mesa

Fiquei com o Meio na cabeça todos esses dias, entre Natal, Reveillon, tratamento dentário, problemas com a tese e casa, nachada, e finalmente uma temporada relâmpago no velho Piratininga. Queria postar uma música do Lucio Dalla pra vocês, de Feliz Ano Novo, e não postei, queria postar a receita recém inventada do camarão e nada, vários posts na cabeça e quando fica assim, melhor encarar de qualquer jeito e retomar os trabalhos de Hércules.

Problemas em geral, mas muita felicidade no meio, revi gente muito querida, blablabla. E ouço todo dia Cama e Mesa do Roberto, e todo homem precisa saber o que quer. Não há vento favorável pra quem não sabe onde vai, sei que parece auto-ajuda barata, mas é a verdade. Eu quando criança achava a música do Roberto breguíssima e hoje sei que Maria Bethânia tava certa quando mandou o Caetano "prestar atenção em Roberto". Hoje prestei atenção em Roberto mais uma vez e descobri que em Cama e Mesa está o mundo em que habito por vários instantes do meu dia.

Quando a gente sabe o que quer, tudo fica Roberto: a voz límpida, certeira, a paisagem se descortina, a vida se renova.

Também tive um sonho lindo. Peguei na estante do Paulo, o anjo que me recebe na velha São Paulo natal, a edição comemorativa dos 70 anos de Raízes do Brasil, que a gente chamava, carinhosamente, lá no IFCH, de Mandioca, Inhame e Batata Baroa. Muitas fotos lindas do Serjão, o fantasma que embala os sonhos dos jovens historiadores unicampistas. Eu assisti aos dois filmes-biografia do Sérgio num dia péssimo da minha vida, quando sofri um acidente de carro e quase me junto ao pai do Chico. Pois bem, vi o livro e no meio da manhã adormeci, e sonhei que estava numa casa cheia de gente, almoço na mesa, aquela zona, e eu com um cigarro nas mãos, querendo fumar, e prestando atenção e meio que não prestando atenção em nada. E aí, Sérgio Buarque de Hollanda se senta do meu lado, e gentilmente acende meu cigarro, pra minha surpresa, eu que não tava esperando nada disso de ninguém naquela cena. E pensei, homens assim não existem mais, nasci na época errada. Lindo, não?

Outra coisa foi ir na Pinatoteca, ops, Pinacoteca, e ver o Brecheret que tiraram do Cemitério, a Musa Impassível, lindo, lindo, tão lindo ver algo que nunca se viu de um artista de quem se pensa que se viu tudo. Fui almoçar no grego do Bom Retiro com velha comparsa de crimes e tramóias, fui jantar na Liberdade com velho comparsa de crimes e tramóias, tomei um café no Sujinho da São João com idem, ibidem, e agora volto a dormir pra encontrar o Serjão. Feliz 2007 pra todos.