Wednesday, July 29, 2009

Lembrete

"O resultado da crise, no que me diz respeito, foi desilusão acerca de muitos colegas e um considerável cinismo acerca da política universitária. Depois da crise, realizei pouco pela Faculdade, tanto externa como internamente, porque fiquei profundamente desestimulado pelo jogo político sujo de que fui testemunha e vítima, e que me convenceu de que, até mesmo dentro da Faculdade, havia pessoas dispostas a promover, por baixo do pano, sua agenda política, e mesmo político-partidária, às custas da vontade expressa da maioria absoluta da comunidade da UNICAMP, em geral, e da Faculdade de Educação, em particular. A crise me fez perder a ingenuidade política, que me levava a crer que as pessoas, dentro da Universidade, estavam primariamente interessadas em preservar a integridade da Universidade contra ingerências externas, viessem de onde viessem, mostrando-me que muitos colegas, na Universidade, se opuseram à intervenção, não porque ela era intervenção, mas porque os interventores não portavam as mesmas cores e bandeiras políticas, e que estariam plenamente dispostos a conviver com a intervenção, desde que os interventores iniciais fossem trocados por interventores politicamente corretos, como o economista Carlos Lessa".
Testemunho do prof. Dr. Eduardo Chaves, diretor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, quando da intervenção decretada pelo então reitor Plínio de Moraes em 1981. O reitor exonerou os diretores das Faculdades e nomeou interventores, que não conseguiram assumir seus cargos. Porém, no IFCH, o grupo dos economistas sugeriu o nome do economista Carlos Lessa, para substituir o exonerado sociólogo André Vilallobos.
Eduardo Chaves, em seu site, afirma que a "solução Lessa" foi aventada na Faculdade de Educação. Chaves foi o primeiro diretor exonerado a procurar a Justiça, e outros seguiram seu exemplo.
A crise da Unicamp de 1981 encerrou-se com a eleição, para a Reitoria, do médico José Aristodemo Pinotti, recentemente falecido. Pinotti era o 11o. nome da lista de nomes escolhidos pela comunidade universitária. Eustáquio Gomes, jornalista que trabalha na Reitoria, e que escreveu O Mandarim, biografia de Zeferino Vaz, fundador da Unicamp, para o 40o. aniversário da cidadela unicampítica, fala que o tal grupo dos economistas resolveu o nome de Pinotti numa mesa do Giovanetti, bar mítico aqui de Campinas.
Essas linhas precisam ficar como um lembrete pra mim, pequena panda que aventa carreira universitária.

Saturday, July 25, 2009

Carregar aquele peso

Enquanto eu escrevia a tese, ouvi muito Abbey Road. Acho que estou perdida no meio dos Concertos de Bradenburgo e no final do Abbey Road: de "She came in though bathroom window" a "The End", vocês podem me encontrar, perdida, no momento que vocês quiserem.
Acho que escrevi aqui, uma coisa linda que foi, eu dormi com a janela aberta, tarde da noite, depois de lutar com o tiozão narigudo, e acordar com "Here comes the sun"na cabeça. E assim vai.
Li não sei onde ( também não lembro direito) que Abbey Road foi gravado na intenção de ser o último, ou foi gravado depois do Let it be, não sei. De fato, o final tão rápido do disco me parece uma colcha de retalhos necessária: eles estavam se separando, resolveram nos 45 do segundo tempo não brigar, juntar todas as quase infinitas direções e pela última vez, no sentido físico, serem os Beatles. No final, dão aquela coisa que faz com que você tenha vontade de ouvir tudo de novo, de novo, de novo, de novo, de novo. E carregar aquele peso todo no peito.

Wednesday, July 22, 2009

Lindo balão azul

Mais um dia dureza.

Hoje aconteceu uma coisa. Eu fui falar com um dos professores mais queridos que tive, no IFCH. Ele deve ser uma das pessoas mais legais do mundo. Um cara muito sério, ético, bom professor, bom marido, bom pai, bom profissional. Um cara legal, enfim. Eu estava mal, um pote até aqui de mágoa, e chorei, chorei, chorei. Eu fiz uma pergunta pra ele: o mundo acadêmico é isso? E ele, com a doçura que só um mestre pode ter, me disse que eu tava generalizando, uma situação absurda, pessoas idiotas e filhas da puta, e achando que tanta gente séria, que segura o rojão por aí, seria igual a isso.
E eu lembrei de uma coisa, de uma das minhas músicas favoritas da minha infância. Um passeio de balão pra todo mundo!

Tuesday, July 21, 2009

Pronto, falei

Hoje encontrei com um casal de amigos e tomei café a tarde toda, antes de ir dar aula. Hoje me dei conta que encontrei gente muito legal, que me faz me curar de vários processos kármicos dos últimos anos. Os piores, infelizmente, foram profissionais.
Pois eu era uma jovem sempre intrépida a resolver problemas teóricos e práticos. Vocês podem não acreditar, mas é verdade, teve um momento da minha vida que eu era uma pessoa disciplinada, que passava manhãs e tardes na biblioteca do velho IFCH a ler Weber, Parsons, Durkheim, Adorno, Marx e de quebra ainda encontrava manuscritos do Gonzaga Duque perdidos nos arquivos do Rio e de Campinas.
Eu tinha uma formação sólida, dois mestrados e o Programa de Formação do Cebrap nas costas, quando resolvi amarrar meu burro, como diria meu avô, no poste errado. Passei alguns anos num lugar onde aluno, funcionário, professor não era respeitado, onde a picaretagem era normal e o mínimo de seriedade acadêmica não existia. Mais não posso falar: não quero um processo nas minhas costas. Vi coisas muito, muito, muito sérias acontecerem. Pior, cada vez que eu sei de outras, que vão se ajuntando a um poço de infâmias e disparates. Queria poder desabafar por inteiro: estou cansada de passar dor no fígado de tanta raiva e revolta. Fazer o quê, a gente vive numa sociedade minimamente democrática, e pelo menos eu posso escrever aqui algo. Algo muito tênue, mas algo.
Quando penso que o dinheiro do contribuinte é tratado desse jeito, me pergunto qual é a diferença entre isso que eu via e as tramóias do Sarney no Senado. Nenhuma. Não, nenhuma. Edital engavetado, curso de marmelada, isso pra mim é a mesma coisa que ato secreto e namorado de neta empregado. Pronto, falei.

Thursday, July 16, 2009

Esperança

Hoje foi um dia muito triste pra mim, mas quando eu achei que não tinha mais salvação, eis que a Dani no meu celular anunciou que brilha uma nova estrela: Henrique nasceu! Vivas pra ele!

E que ele tenha saúde, força, amor, paz, muita alegria, disposição pra enfrentar esse mundão.. e que ele sempre possa contar com a tia panda...

Tuesday, July 14, 2009

O papel do forno na vida da mulher moderna

Eu ainda vou escrever um livro sobre as minhas relações com o meu forno a gás. Sério.

Sei que a panda agora vai chocar opiniões, mas eu não tenho forno de microondas. Sim. Sim! Eu sou uma pessoa que nunca teve forno de microondas. Durante um breve período, na casa da minha mãe, tivemos um imenso Brastemp, que meu pai comprou num surto de empolgação, e que as pessoas só utilizavam para fazer a temível pipoca de microondas. Outro dia, almoçando com a minha progenitora, notei que ela deu um fim definitivo ao elefante branco culinário. Enfim, deve ser de família então a minha desconfiança aos fornos de microondas.
Segundo lendas urbanas, o forno de microondas é capaz de assar bolos, pudins e até pernis. Não acredito, nunca vi nenhum destes artefatos proporcionarem tais milagres na cozinha. A panda é cética quanto a essas narrativas. Mas eu amo meu forno a gás de paixão. Na verdade, Malebolge, meu forno ( que é batizado de acordo com o setor mais bacana do Inferno do tiozão) já fez milagres espetaculares, e me acompanha na luta diária pela sobrevivência. É engraçado, não tenho a mesma relação de intimidade com minha geladeira, pra mim mero depósito de coisas e que é capaz apenas de fazer gelatinas. Mas Malebolge não, de manhã cedo ele já faz meu café, meu leite quente, meu pão na chapa e meu mingau de aveia, com o auxílio de minhas panelinhas já gastas. No almoço, Malebolge faz omeletes, arroz sempre soltinho, feijão, couve refogada... à tarde Malebolge começa a esquentar minha chaleira, e já assou sequilhos, bem como no jantar oferece sopinhas de legumes, de feijão e brigadeiros de madrugadas afora.
Mas eu tenho um problema com Malebolge: os bolos. Meus bolos são uma catástrofe, tirando um de fubá cremoso que inclusive ornou o Meio do Caminho, tempos atrás. Assim como não tenho microondas, também não possuo uma batedeira, de modo que muitas receitas ficam fora do alcance de minhas patinhas gulosas. Mas premida por necessidades afetivas, que todos nós temos, de vez em quando eu sentia vontade do cheiro de um bolinho de laranja dentro de casa, e, devo confessar, sucumbia à tentação de comprar um bolo de caixinha ( SIM, SIM! Mea culpa, mea maxima culpa). Mas não! Nem isso! O bolo saía solado, péssimo, sem sabor, digno do lixo na primeira fatia.
Hoje, a anjinho Guiomar, que de vez em quando vem me dar uma força na arrumação da sempre caótica toca da panda, e eu decidimos que teríamos torta de liquidificador de sardinha para o almoço, já que uma panela fumegante de feijão estava à nossa disposição. Fiz seguindo a receita do Meio do Caminho (vejam o primeiro post de fevereiro) e estava às voltas com os botões de Malebolge, quando Guiomar sensatamente observou que eu punha o forno baixo demais. Pronto! Posto o forno quente, a tortinha saiu digna das mais altas considerações filosóficas! Por isso, meus caros, agora nada segura a panda boleira! Como pude não entender o desejo de Malebolge de arder na sua potência máxima?

Sunday, July 12, 2009

He's back!


Posto mais um retrato do velho tiozão... hoje retomei meus parcos estudos da obra do homi, e de suas implicações nos círculos de letrados e artistas da minha Pisa lindinha.
Este é o de um tal Juste de Gand, ativo entre 1460 e 80, óleo sobre madeira, 110 x 64 cm, Louvre.

Thursday, July 02, 2009

O menino de Gary, Indiana

Soube da morte de Michael Jackson no cinema. Ouvi umas meninas atrás de mim falando que o Rei do Pop tinha morrido. Achei que fosse piada, infelizmente nos últimos anos tudo que a mídia veiculava eram as bizarrices, os escândalos, a falência. Mas não, o garoto de Indiana foi, mesmo, pra eternidade. A Pati escreveu um post excelente sobre o Michael no Kind, não vou ficar chovendo no molhado, acredito que ela pegou bem o espírito da coisa, pelo menos pra mim.
Pra todo mundo da minha idade, Thriller foi um divisor de águas, um marco mais que histórico, a potência da música em si. Lembro que meu primo tinha o disco, que a gente ouvia sem parar, e a popularidade do rapaz negro era impressionante. A gente esperava os clipes passarem no Fantástico com ansiedade redobrada; tentávamos desesperadamente fazer o moonwalk e todos os passos. Depois, meu pai comprou pra gente todos os CDs, inclusive o Off the Wall, anterior às tentativas desesperadas de coreografias da panda no tapete da sala. Nem passava pela minha cabeça que o riff da guitarra era do Van Halen, que o produtor era o Quincy Jones, que o diretor do video do Bad era o Scorcese, a gente só via que o cara era bom, e ponto.
Quando estive nos EUA, pegava o trem de Chicago pra South Bend, em Indiana, e passava por Gary. Um subúrbio pobre, com uma enorme placa: a terra natal dos Jacksons. Ficava imaginando a odisséia do garoto fofo que todo mundo amava, e que virou uma caricatura de si mesmo. A vida ficou maior que a música, e isso é triste, porque o cara, repito, era bom e ponto. Quando ouço Billie Jean, ou Black or White ( que é a minha favorita, talvez) penso no quanto a indústria cultural, e a vida, são cruéis com os talentosos. E nem importa se você é preto ou branco.