Sunday, August 28, 2005

Biblioteca Municipal Mário de Andrade

Se estiver de passagem por São Paulo, vale a pena conhecer ou rever a Municipal, na estação Anhagabaú do metrô. Primeiro, porque o acervo tem coisas incríveis, os bibliotecários são gentis, e agora todas as quintas, às 19 horas, ocorrem vários concertos com bons músicos, de graça. Depois, o pedacinho onde a velha Mário de Andrade fica é uma atração à parte. Perto dos primeiros prédios modernos da cidade, e dos últimos do que a gente, picaretamente, chama de estilo eclético, perto do Municipal, do calçadão, do bom churrasquinho e de camelôs. Dá vontade de ir ler velhas edições fac-símile, do tempo do Eixo, de manuscritos toscanos da Comédia. Programão!

Literatura Italiana, século XX- notas

Nas férias, num momento de rara coragem intelectual ( cada vez mais rara nesta humilde e ignorante escriba), raptei da estante da minha sogra alguns livros italianos do breve século XX, no dizer de Hobsbawm ( ao qual nunca faltou coragem). Além do Leopardo, do Lampedusa, comentado anteriormente, bem como os contos do Senador e a Sereia, li embevecida O Deserto dos Tártaros, do Dino Buzzati, O Jardim dos Finzi-Contini, do Giorgio Bassani, e Senilidade, do Svevo. Todos excelentes, dando uma medida do que era o debate intelectual e artístico da Itália pré e durante o fascismo.
Indo para a fábula, como Buzzati, ou de um realismo vigoroso e sem concessões, como Svevo, esses escritores inventam uma nova tradição, ancorada no debate com as outras artes ( o cinema vem à mente mesmo que não se conheça os romances) e dentro da própria literatura. É o caso de Bassani, que conhece casualmente o príncipe de Lampedusa e, depois da morte deste, também casualmente se torna o editor e descobridor do Leopardo.
O Jardim dos Finzi-Contini tem pontos de contato com O Leopardo: como diz dom Fabricio, é preciso mudar para que as coisas continuem como estão, e assim pensam tragicamente os judeus da elite de Ferrara.
Já Svevo, em Senilidade, é tão realista que chega ao fantástico, terreno de Buzzati e o inverosímil e por isso mesmo plausível forte onde se esperam os tártaros por vidas inteiras.

Morte em Veneza

No meio da correria visto, li Morte em Veneza. Esse mesmo, do Thomas Mann.
Em primeiro lugar, gostaria de recomendar vivamente a tradução da Eloísa Araújo Silva, a do Círculo do Livro mesmo. Tudo bem que minha ignorância no idioma de Goethe continua completa e absoluta, mas anos de canja nos Adorno e Marx da vida fazem a gente perceber quando a tradução está empolada, e não respeita a língua de origem. Essa não, e tem a vantagem de ser mãe de uma amiga, querida e igualmente indispensável.
Depois, o livro. Não há muito o que comentar e acrescentar ao que leitor já está careca de saber, que é um clássico, que não dá para não ler, etcs e tal. Também não vamos entrar num biografismo barato e dizer, pela enésima vez, que a mãe do Mann era brasileira, e toda a patacoada usual.
Terrível o fedor de Veneza, a peste subindo pelas paredes e aquele velho escritor obcecado por um rapazola de dentes fracos e constituição doentia. O belo em todo o seu esplendor e insignificância. E o leitor sai se sentindo mal, sentindo que perdeu a inocência para sempre, para mim o mesmo sentimento da Metamorfose, do outro mago do alemão. Terrível.

Nega do Cabelo Duro

Fazendo referência ao meu cabelo pixaim. Desde criança sofro com ele, porque minha mãe os tem impecavelmente lisos, e indígenas. E não sabia lidar com o meu, e lá vai a pirralha sofrendo com o pente enrolado... Meu pai tirava sarro cantando o clássico "Nega do Cabelo Duro", música pela qual tenho um carinho ilimitado. Pra sua discoteca:
1)a própria Nega do Cabelo Duro, revisitada pelo Planet Hemp
2)Olhos Coloridos, Sandra de Sá
3)Cabelo Raspadinho, Edu Casanova
4)Meu Cabelo É Duro Assim, Chiclete com Banana
5)Nego do Cabelo Bom, Max de Castro

American Pie

Bom, e não é que eu consegui o maldito visto pros States?
Agora posso descer o sarrafo. Gente, é ridículo! Você entra no site brasileiro, e pra conseguir informações e conseguir marcar entrevista, paga 38 reais, como já havia mencionado anteriormente. Depois, tem que quebrar a cabeça pra descobrir o tipo de visto, o que não é tão fácil quanto parece, porque as informações no site brasileiro são muito furrecas, e as do americano, ilegíveis.
Marcar a entrevista demora de um mês pra mais. Você tem que preencher formulários risíveis, com o fatidíco questionário "Você já foi de um Partido Comunista? Você era do Partido Nazista? Você já comandou genocídios? Você é representante de entidades terroristas?", e outro explicando se você tem familiriaridade com explosivos, e porquê (???).
O Consulado, agora, é onde Judas perdeu as cuecas: depois do Shopping Morumbi, num lugar de difícil acesso. Cheguei às sete e meia na frente de uma construção que mais parece um presídio. Um funcionário rabugento pergunta para a fila interminável de tupiniquins a hora da entrevista, e se pagaram a taxa de 100 dólares ( isso mesmo) no Citibank ( isso mesmo), taxa não-reembolsável mesmo se os caras não te derem o visto.
Como eu havia sido otária o suficiente para chegar cedo, e com a taxa paga, me botaram pra dentro. Você mostra o conteúdo da sua bolsa, deixa seus pertences na esteira e passa por um pega-metal. Entra em solo americano ( sim, porque Consulado é o país), e numa fila gigante, acomodada em bancos acolchoados e na sombra. Uma outra funcionária com cara de poucos amigos confere a papelada. Nessa hora o angu desandou: a mocinha mal-educada me informou que as fotos que eu havia tirado não seriam aceitas, porque nelas eu aparecia de óculos.
Desde os meus nove anos sofro com uma miopia alta do cacete: meus óculos são de grau 13, mais astigmatismo. No site de informações, dizem para não tirar fotos de óculos escuros. Isso eu compreendo. Mas isso... desculpe, não. Tive que sair do presídio, e tirar fotos num senhorzinho estrategicamente colocado na frente do visto, que me cobrou, literalmente, os olhos da cara.
Voltando à fila, e já com muita vontade de me alistar na Al-Qaeda, sou atendida num caixa, estilo caixa de banco, onde outro funcionário mal-educado confere, uma vez mais, os formulários. Tratando-me como uma refugiada, ou seja, muito mal, o cara me enche o saco por um detalhe absolutamente supérfulo nos papéis. Mais uma fila, e você é chamado por uma moça latina de sotaque gringo ( como deve doer sua origem mexicana) para pressionar seus indicadores numa máquina.
Mais uma fila, e você recebe uma senha, e o convite para ir tomar um café na cafeteria ao lado ( ahá, tudo pago por você, obviamente). Ainda tive que encontrar uma colega de colégio, e cumprimentá-la, quebrando o juramento, feito na nossa formatura, de nunca mais falar com essa criatura.
Mais uma fila. E de novo o caixa de banco, revestido do chão ao teto com vidro anti-balas fumê. O cara fala comigo por um telefone, esse, whasp, e de saco cheio de estar em serviço num país de gente morena e esfaimada. Eu repito, de forma surpreendemente confiante, todo o lero-lero anteriormente preparado e ensaiado para a ocasião. Mais do que nunca, me sinto nigger, latin, tudo de ruim aos olhos do senhor à minha frente. Sim, eu tenho cabelo pixaim; sim, eu estudo Dante Alighieri. E, sim, não pretendo emigrar. O cara ainda tem a cara-de-pau de me perguntar o que vou conseguir fazer na vida, estudando iconografia para a Divina Comédia. Não, não quero ser faxineira nem prostituta no Mid-West.
Bum, consigo o visto. Mais uma fila, mais um caixa, agora 60 dólares, pago ou em cash ou em cartão de crédito. E taca esperar uma semana pra burocra dos caras processarem meu pedido. Sim, mais do que nunca não tenho vontade de ir pra Chicago.
Tento me consolar pensando que, comigo, as coisas não correram tão mal assim, já que tenho vocação pra despachante ( estava com tudo em cima, menos a maldita foto) e pra otária ( já que o amor pela Comédia me faz rastejar pra ir ver livro velho às margens do Lago Michigan). E tento me consolar ouvindo Janis Joplin, e lembrando que, um dia, os Estados Unidos produziram gente assim.

Thursday, August 18, 2005

Humano, demasiado humano

Eu preciso arrumar coragem pra descer a lenha naquela revista fascistóide e ridícula, Humanus. Tive um ataque de nervos quando li por acaso e ingenuidade o primeiro exemplar, com uma matéria "resgatando" a memória do escultor de Hitler ( que além de nazista era ruim, medíocre), e afirmando com todas as letras que Einstein, Freud e Marx, por serem judeus, não devem ser levados em consideração. Agora os caras estão lançando o terceiro número dessa porcaria. Propaganda maciça aqui na Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí ( isso mesmo, o nome original dessa cidade).
Faixa na rua, cartazes por todos os lugares, e a última. Um outdoor ridículo, preto e branco, com fotos do Bush, comparando-o a um chimpanzé, e com os dizeres "Eu não leio a Humanus". Achei bom sinal. Se os caras estão apelando pruma figura que ninguém gosta, querem disfarçar o fascismo enrustido desse pasquim, que só não dá pra limpar nada, porque é feito do caro papel cuchê.
Em primeiro lugar, é um elogio pro Bush compará-lo a um chimpanzé ( e uma ofensa grave a esse primata superior que possui 99% do material genético igual a nosso, linguagem e sentimentos complexos como ciúme e outros atributos incontestáveis de inteligência). E outro, dizer que ele não lê a Humanus. Porque ele tem mais o que fazer. Eu deveria tomar vergonha na cara e dizer o que penso de verdade. O triste é que lojas em que eu costumava ir, agora estampam orgulhosas o outro cartaz da publicidade desse atentado contra o avanço das liberdades democráticas no mundo pós-Treblinka. Essa pérola mostra o desenho colorido de um velhinho com vestes de um Gepeto, lendo a Humanus. Claro, deve-se fazer uma homenagem ao pai.

Rock

Já morreu, ou não. Uma play list pequenina do velho e bom rock and roll:
1)Beatles, Come Together
2)The Who, Baba O'Riley
3)Iggy Pop, Candy
4)The Police, So Lonely

Layla

Prova de que o desespero por amor pode ser produtivo. É claro que, depois dessa, a moça tinha que largar do George Harrison pra ficar com o Clapton. O engraçado foi ter sido sucesso na versão calma, pausada, do Clapton Unplugged; eu gosto do Clapton desesperado mesmo.

Tuesday, August 16, 2005

Maracujina

É o que estou precisando hoje. Estou num estado de espírito terrível. Eu me conheço bem: quando estou nervosa, falo dos meus problemas pra todo mundo que eu encontro. Conto tudo, sou muito ingênua, me exponho e depois, ainda me surpreendo em ser maltratada e desrespeitada.
Preciso ficar um pouco só. O problema é que com esse rolo de viagem, eu tenho que ficar na rua o tempo inteiro, com uma pasta, de um lado pro outro, imprimindo isso, buscando documento ali, mandando fax, indo em banco, o escambau. Ao meu redor, as pessoas continuam com suas vidas: é um que vai estudar italiano, a outra vai fazer um seminário, enquanto eu estou fora da minha rotina, com medo, preocupada, de saco cheio, irritada, tudo de ruim...
Hoje de manhã foi o filme pastelão. Peguei uma pasta pro serviço de despachante, mas a dita estava quebrada. Pus RG, CIC, passaporte, e lá fui eu. Chegou no xerox, cadê? As coisas foram caindo pelo caminho e eu nem reparei. Ou seja...
Bom, Freud diria que estou com medo e não quero ir pros States. É verdade, estou com medo. Da solidão, da língua, do clima, da biblioteca imensa pra pesquisar, do consulado, da nota do IELTS que preciso tirar, é um calvário. Eu sei que deveria estar pensando de um modo diferente...fico me sentindo a própria adolescente ansiosa de classe média brasileira, alienada, indo pra Disneylândia.
Num país de gente tão miserável, deveria agradecer a oportunidade de alguém pagar pra eu estudar, ainda mais fora. Preciso encontrar de novo meu eixo!

Monday, August 15, 2005

Luto

Eu tinha dito que ia esperar os acontecimentos, mas me adianto. Estou de luto. Quase vinte anos de militância e de luta pro Lula se presidente. Meu sonho morreu.

Coleção Vaga-Lume

Faz bastante tempo que eu quero escrever alguma coisa sobre literatura infanto-juvenil brasileira. Primeiro, porque nunca deixei de ler os livros que lia quando criança: sempre releio, em algum momento, os livros que gosto e que me marcaram. Já na universidade, quando alguma coisa me aborrecia ou me deixava triste, eu me escondia na seção de livros infanto-juvenis da biblioteca aqui do Instituto de Letras, e passava algum tempo lendo ou relendo Mirna Pinsky, Pedro Bandeira, Lygia Bojunga, Ziraldo, sei lá, o que tivesse.
Na última limpeza de estante de livros, minha sogra me presenteou com livros da Coleção Vaga-Lume, aquela mesmo, velha de guerra, da Editora Ática. Engraçado que quando eu era pré-adolescente, li alguns livros dessa coleção, que tinha aos montes na biblioteca do colégio onde eu estudava, mas eu não havia lido os volumes mais famosos, do Marcos Rey e da Lúcia Machado de Almeida.
Pois bem, nunca é tarde pra começar. Minhas noites nesse mês e meio foram marcadas pela leitura de Um Cadáver Ouve Rádio, O Mistério do Cinco Estrelas, O Rapto do Garoto de Ouro, do Rey, e o célebre O Escaravelho do Diabo, da Lúcia Machado. Adorei todos! Eu tenho um amigo que diz ser essa coleção a responsável pelo fim da leitura obrigatória de Eça de Queiroz e José de Alencar no Ensino Médio e Fundamental... bom, pode ser que ele esteja certo. Eu aos treze anos li Amor de Perdição, uma coleção ilustrada e muito boa de Mitologia Grega, e os livros da série Prisma. Mas fiquei da opinião que, sim, vale a pena mandar a molecada ler Marcos Rey.
Primeiro, porque os livros têm um senso de humor raro na literatura juvenil hoje em dia. Depois, porque não subestimam a inteligência do leitor: tem suspense na medida certa,e, no caso do Marcos Rey, um retrato afetivo e realista da cidade de São Paulo. A Bela Vista de Leo, Gino e Ângela é digna do velho Piratininga: dura, violenta, mas com calor humano e a velha vocação paulistana de não esconder a verdade, de falar das injustiças sociais sem ódio esquerdóide barato mas também sem resignação. Digna de Saudosa Maloca, do pastel de feira, do Viaduto do Chá, do MASP na época dourada, da boa padaria em cada esquina...
É triste constatar que o velho Piratininga, hoje, é da nova Daslu. Da elite endinheirada, hipócrita e burra, do MASP transformado num salão de festas do mais puro brega. Do povão entulhado na linha vermelha do metrô, do massacre do Carandiru, do governo asséptico do Alckmin, do centro destruído, cheio de lixo. Mas eu sinto em mim, em muitas pessoas, nos livrinhos do Marcos Rey, na pintura do Volpi, na velha Sé, algo que é o velho e bom Piratininga.
Do Escaravelho, gostei da imaginação. Do alemão enlouquecido, que virou suíço no Brasil, e numa cidade do interior matava os ruivos porque eram ruivos. O caso é tão escabroso, e ao mesmo tão inverossímel que beira o real. Um Silêncio dos Inocentes avant la lettre. Nos EUA, teria virado filme, com um Elijah Wood ou um Tobey Maguire no papel principal, que todo mundo ia babar. Aqui, vira Coleção Vaga-Lume.

Sêneca ou das futilidades que matam amizades

Hoje estou muito triste. Soube que pessoas que considerava minhas amigas falaram mal de mim e me ridicularizaram. Uma das coisas que mais prezo é amizade. Acho que na maior parte das vezes o amor próprio das amizades, genuíno e espontâneo, pode evitar muitas das pequenas tragédias que nos acometem no dia-a-dia, além de nos livrar de situações embaraçosas e doloridas causadas pela família ou pelos relacionamentos amorosos (com mais calor afetivo mas também mais desastrosos, por sua própria natureza).
Enfim, aprendi mais uma vez a lição. As ditas pessoas falavam mal de todo mundo para mim; não deveria ter sido ingênua ao acreditar que comigo seria diferente. Achei que minha boa fé me protegeria da maldade, outra ingenuidade tão velha que figura na lista de imbecilidades a serem evitadas nos textos da Bíblia, do Corão e da Odisséia.
O pior de tudo é que a boa fé impede a gente de agir, de pensar que tais situações são possíveis. Nessas ocasiões, lembro dos velhos estóicos romanos. Sêneca, ou o imperador Marco Aurélio, que em suas meditações alertaram para o risco de se viver em sociedade... o meu consolo é que essa dorzinha que sinto agora também é mais velha que andar pra frente, como o próprio estoicismo.
Não tenho nenhum moral para tentar seguir tais ensinamentos, sou muito cristã para isso; o meu consolo é que os maledicentes e falsos em geral, no meu querido Dante ( cristão demais pra ser estóico, e na minha humildade me consolo em estar perto disso, ainda que da mesma forma que uma ameba está perto de uma estrela de primeira grandeza), ocupam um lugar muito, mas muito pior do que eu ocuparei no reino de Lúcifer. Enquanto com certeza estarei no redemoinho do Vestíbulo do Inferno, junto com Paolo e Francesca, esse pessoal nadará num mar de bosta...o cristianismo pode ser mais fraquinho das pernas que o estoicismo, mas com certeza é mais divertido...

Saturday, August 13, 2005

Serviço Militar Obrigatório

Dei aulas de História da Arte Brasileira, I e II ( a ementa compreende das cavernas ao Tunga), como Professora Estagiária PED ( Programa de Escravidão do Doutorando) na Unicamp. Fiquei um ano e meio rachando o coco pra saber como faria os alunos das Artes Plásticas se interessarem pelos meus cursos e pra fugir de uma professora biscate que tem lá.
Além desses problemas técnicos, havia outro mais grave. Em toda a minha formação universitária ( e olha que tem formação nisso) eu nunca fiz cursos de História das Artes no Brasil. Nunca vi em sala de aula abordadas as obras que fazem parte do patrimônio histórico-artístico nacional; o que eu conheci, conheci porque meu pai comprou uma coleção chamada Grandes Personagens da Nossa História, fartamente conservadora e ilustrada. Além disso, meu já citado pai tinha a mania de ir em tudo quanto era museu, incluindo o do Ipiranga e de Amparo.
As obras do patrimônio nacional não estão em site nenhum, em nenhuma capa de caderno. Você tem que fuçar, nos velhos catálogos dos nossos museus, editados nos oitenta pelo Banco Safra e que valem uma boa grana nos sebos. Alguma coisa está no portal do Itaú Cultural, a única iniciativa sistemática nesse sentido, outra eu e outro amigo fanático por figurinhas escaneamos, pacientemente, de livros que a gente vai achando pelas estradas da vida.
Tenho sempre que arrumar um emprego, como professora de cursinho ou uma bolsa qualquer, pra sustentar esse meu vício: conhecer e ter como ponto de partida o patrimônio das instituições brasileiras, sejam elas os bem-cuidados Museu Imperial de Petrópolis ou a Pinacoteca do Estado de São Paulo, ou os arruinados MASP e as igrejas de Ouro Preto. Agora, saiu um edital do IPHAN; vamos ver se eu presto e o governo federal paga, além do mensalão, um salário para eu continuar com essa minha carreira de estudiosa-mirim do patrimônio.

Brazucaaaaaaaaaaa

Para ninguém me acusar de estar babando o ovo pelos States ( estou babando o ovo nas bibliotecas deles, isso sim, malditos ianques nouveau riches), adianto que começarei meus estudos de francês em breve e retornarei aos de italiano. Também declaro que sou alfabetizada em cirílico ( sério, eu fiz Russo na velha e combalida Unicamp) e arranho no português. Para provar meu nacionalismo verdamarelo e puti ( como diria Caetano na era pré- Paula Lavigne) aí vai uma listinha brazuca total:

1)Tim Maia: Guiné Bissau, Moçambique e Angola Racional ( eu vim aqui para lhe dizer)
2)Caetano: Maria Bethânia ( porque ir para Londres num exílio quase trágico fez o Caetano gravar aquele disco que faz a gente esquecer da Paula Lavigne)
3)Jorge Ben Jor: Fio Maravilha ( essa pra acompanhar, junto com os salgadinhos Torcida, o Brasileirão)
4)Sá e Guarabyra: Harmonia ( essa música é lindinha como um entardecer em Tiradentes, MG)
5) Vinícius de Morais: Onde Anda Você ( porque o poetinha serve, antes de mais nada, pro povo lascar aquela cantada básica)
6)Vicente Celestino: O Ébrio ( você está deprimido? Seus problemas acabaram! Ouça bastante Celestino e verás que o fundo do poço tem mola!)
7)Guilherme Arantes: Lindo Balão Azul ( eu sei que os oitenta já cansaram... mas essa música é a única coisa que presta do Guilherme Arantes)
8)Nando Reis: Por Onde Andei ( essa ouvi na Nova FM e acho que está na categoria do bom pop, honesto e legal)
9)Adoniran Barbosa: Saudosa Maloca ( saudosa maloca/ maloca querida)
10)Carmem Miranda: Tá-Hi ( o Eduardo Dusek fez uma recriação bacana, há pouco tempo atrás)

Dancing in the Dark

Hoje, fui prestar o IELTS. Burocracias da turma do Geraldo Alckmin ( nem quero falar de política, estou esperando os últimos acontecimentos)... enfim, acho que choquei a velhinha que fez a prova. Explico: esse exame é oferecido pela Cambridge, e consta de uma parte de Reading, outra de Writing, um Listening maldito e uma entrevista, além do Foot in the Bag depois de tudo isso e 400 pilas a menos na conta bancária do indivíduo( sim, e que não serão reembolsados pela turma do Alckmin. Graças a Deus eu como quase todo dia na minha sogra, essa sim só leva prejuízo, coitada).
Podemos discorrer longamente sobre o imperialismo do Norte, suas consequências maléficas para o resto da humanidade: além dos filhos da puta matarem rapazes brasileiros no metrô e não assinarem o Protocolo de Kyoto, o fato é que os caras ainda fazem esses testes ridículos para estudantes do Terceiro Mundo. Eu queria muito que o Itamaraty e as universidades brasileiras tomassem vergonha na cara e exigissem dos caras que querem vir pra cá um teste nesses moldes, com uma parte chamada Ouvindo e que tocasse um samba do Zeca Pagodinho, de preferência o clássico "Vou Botar teu Nome na Macumba" ( procure no Terra Rádio, esse é dos meus).
Bom, voltando. Choquei a velhinha involutariamente. Fiquei estudando pro exame ouvindo a CNN e pérolas do cancioneiro popular como essa do velho e sempre bom e honesto Bruce Springsteen. This guns for hire, aquele jeans surrado básico. Ela me perguntou sobre a explicação do porquê as pessoas mudavam de casa, e eu lasquei o sincero "Because sometimes the rent is too expensive"... estou americana demais.