Faz bastante tempo que eu quero escrever alguma coisa sobre literatura infanto-juvenil brasileira. Primeiro, porque nunca deixei de ler os livros que lia quando criança: sempre releio, em algum momento, os livros que gosto e que me marcaram. Já na universidade, quando alguma coisa me aborrecia ou me deixava triste, eu me escondia na seção de livros infanto-juvenis da biblioteca aqui do Instituto de Letras, e passava algum tempo lendo ou relendo Mirna Pinsky, Pedro Bandeira, Lygia Bojunga, Ziraldo, sei lá, o que tivesse.
Na última limpeza de estante de livros, minha sogra me presenteou com livros da Coleção Vaga-Lume, aquela mesmo, velha de guerra, da Editora Ática. Engraçado que quando eu era pré-adolescente, li alguns livros dessa coleção, que tinha aos montes na biblioteca do colégio onde eu estudava, mas eu não havia lido os volumes mais famosos, do Marcos Rey e da Lúcia Machado de Almeida.
Pois bem, nunca é tarde pra começar. Minhas noites nesse mês e meio foram marcadas pela leitura de Um Cadáver Ouve Rádio, O Mistério do Cinco Estrelas, O Rapto do Garoto de Ouro, do Rey, e o célebre O Escaravelho do Diabo, da Lúcia Machado. Adorei todos! Eu tenho um amigo que diz ser essa coleção a responsável pelo fim da leitura obrigatória de Eça de Queiroz e José de Alencar no Ensino Médio e Fundamental... bom, pode ser que ele esteja certo. Eu aos treze anos li Amor de Perdição, uma coleção ilustrada e muito boa de Mitologia Grega, e os livros da série Prisma. Mas fiquei da opinião que, sim, vale a pena mandar a molecada ler Marcos Rey.
Primeiro, porque os livros têm um senso de humor raro na literatura juvenil hoje em dia. Depois, porque não subestimam a inteligência do leitor: tem suspense na medida certa,e, no caso do Marcos Rey, um retrato afetivo e realista da cidade de São Paulo. A Bela Vista de Leo, Gino e Ângela é digna do velho Piratininga: dura, violenta, mas com calor humano e a velha vocação paulistana de não esconder a verdade, de falar das injustiças sociais sem ódio esquerdóide barato mas também sem resignação. Digna de Saudosa Maloca, do pastel de feira, do Viaduto do Chá, do MASP na época dourada, da boa padaria em cada esquina...
É triste constatar que o velho Piratininga, hoje, é da nova Daslu. Da elite endinheirada, hipócrita e burra, do MASP transformado num salão de festas do mais puro brega. Do povão entulhado na linha vermelha do metrô, do massacre do Carandiru, do governo asséptico do Alckmin, do centro destruído, cheio de lixo. Mas eu sinto em mim, em muitas pessoas, nos livrinhos do Marcos Rey, na pintura do Volpi, na velha Sé, algo que é o velho e bom Piratininga.
Do Escaravelho, gostei da imaginação. Do alemão enlouquecido, que virou suíço no Brasil, e numa cidade do interior matava os ruivos porque eram ruivos. O caso é tão escabroso, e ao mesmo tão inverossímel que beira o real. Um Silêncio dos Inocentes avant la lettre. Nos EUA, teria virado filme, com um Elijah Wood ou um Tobey Maguire no papel principal, que todo mundo ia babar. Aqui, vira Coleção Vaga-Lume.

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