Sunday, August 28, 2005

American Pie

Bom, e não é que eu consegui o maldito visto pros States?
Agora posso descer o sarrafo. Gente, é ridículo! Você entra no site brasileiro, e pra conseguir informações e conseguir marcar entrevista, paga 38 reais, como já havia mencionado anteriormente. Depois, tem que quebrar a cabeça pra descobrir o tipo de visto, o que não é tão fácil quanto parece, porque as informações no site brasileiro são muito furrecas, e as do americano, ilegíveis.
Marcar a entrevista demora de um mês pra mais. Você tem que preencher formulários risíveis, com o fatidíco questionário "Você já foi de um Partido Comunista? Você era do Partido Nazista? Você já comandou genocídios? Você é representante de entidades terroristas?", e outro explicando se você tem familiriaridade com explosivos, e porquê (???).
O Consulado, agora, é onde Judas perdeu as cuecas: depois do Shopping Morumbi, num lugar de difícil acesso. Cheguei às sete e meia na frente de uma construção que mais parece um presídio. Um funcionário rabugento pergunta para a fila interminável de tupiniquins a hora da entrevista, e se pagaram a taxa de 100 dólares ( isso mesmo) no Citibank ( isso mesmo), taxa não-reembolsável mesmo se os caras não te derem o visto.
Como eu havia sido otária o suficiente para chegar cedo, e com a taxa paga, me botaram pra dentro. Você mostra o conteúdo da sua bolsa, deixa seus pertences na esteira e passa por um pega-metal. Entra em solo americano ( sim, porque Consulado é o país), e numa fila gigante, acomodada em bancos acolchoados e na sombra. Uma outra funcionária com cara de poucos amigos confere a papelada. Nessa hora o angu desandou: a mocinha mal-educada me informou que as fotos que eu havia tirado não seriam aceitas, porque nelas eu aparecia de óculos.
Desde os meus nove anos sofro com uma miopia alta do cacete: meus óculos são de grau 13, mais astigmatismo. No site de informações, dizem para não tirar fotos de óculos escuros. Isso eu compreendo. Mas isso... desculpe, não. Tive que sair do presídio, e tirar fotos num senhorzinho estrategicamente colocado na frente do visto, que me cobrou, literalmente, os olhos da cara.
Voltando à fila, e já com muita vontade de me alistar na Al-Qaeda, sou atendida num caixa, estilo caixa de banco, onde outro funcionário mal-educado confere, uma vez mais, os formulários. Tratando-me como uma refugiada, ou seja, muito mal, o cara me enche o saco por um detalhe absolutamente supérfulo nos papéis. Mais uma fila, e você é chamado por uma moça latina de sotaque gringo ( como deve doer sua origem mexicana) para pressionar seus indicadores numa máquina.
Mais uma fila, e você recebe uma senha, e o convite para ir tomar um café na cafeteria ao lado ( ahá, tudo pago por você, obviamente). Ainda tive que encontrar uma colega de colégio, e cumprimentá-la, quebrando o juramento, feito na nossa formatura, de nunca mais falar com essa criatura.
Mais uma fila. E de novo o caixa de banco, revestido do chão ao teto com vidro anti-balas fumê. O cara fala comigo por um telefone, esse, whasp, e de saco cheio de estar em serviço num país de gente morena e esfaimada. Eu repito, de forma surpreendemente confiante, todo o lero-lero anteriormente preparado e ensaiado para a ocasião. Mais do que nunca, me sinto nigger, latin, tudo de ruim aos olhos do senhor à minha frente. Sim, eu tenho cabelo pixaim; sim, eu estudo Dante Alighieri. E, sim, não pretendo emigrar. O cara ainda tem a cara-de-pau de me perguntar o que vou conseguir fazer na vida, estudando iconografia para a Divina Comédia. Não, não quero ser faxineira nem prostituta no Mid-West.
Bum, consigo o visto. Mais uma fila, mais um caixa, agora 60 dólares, pago ou em cash ou em cartão de crédito. E taca esperar uma semana pra burocra dos caras processarem meu pedido. Sim, mais do que nunca não tenho vontade de ir pra Chicago.
Tento me consolar pensando que, comigo, as coisas não correram tão mal assim, já que tenho vocação pra despachante ( estava com tudo em cima, menos a maldita foto) e pra otária ( já que o amor pela Comédia me faz rastejar pra ir ver livro velho às margens do Lago Michigan). E tento me consolar ouvindo Janis Joplin, e lembrando que, um dia, os Estados Unidos produziram gente assim.

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