Sunday, August 28, 2011

Emma Zunz, a biblioteca e o Aleph

Sonhei que estava num lugar, numa escola? Era um escritório, talvez um departamento universitário. Mesas de fórmica branca, estantes, e um conhecido que me observava.

E em cima da mesa, as obras completas de Borges. E livros de exercícios sobre estas. E canetas, e lápis, post-its, marcador de texto, e lapiseira preta Pentel. Material de estudo, de trabalho, de professores. Metade dos exercícios feitos em espanhol, metade em português. Vontade de dialogar; mas dessa vez, encaro o Aleph sozinha.

Thursday, August 25, 2011

L'enfer sont les autres

O grande filósofo escreveu e é verdade, o Inferno são os outros. No meu caso, particularmente alguns outros. Tem gente que tem a rara capacidade de me deixar sem palavras, sem energia, sem brilho, transtornada. Não deveria me deixar abater. Mas acontece.

São muitos anos, e muitos anos, suportando maldades. Por amor. Cansei. Cheguei ao meu limite e, às vezes, temo pela minha sanidade. A vontade é agredir, revidar na mesma moeda. Estou cansada, cansada, cansada...

"Deixe em paz meu coração/ que ele é um pote até aqui de mágoa/ e qualquer desatenção/ faça não/ pode ser a gota d'água".

Wednesday, August 24, 2011

Cuidado


Preciso me cuidar. E às vezes o passado atrapalha.
Disciplina nipônica para a pequena panda...

Banho, Torii Kiyonaga (1752-1815).



Monday, August 22, 2011

A memória de Dante

Um dos textos mais bonitos da História é A memória de Shakeaspeare, de Jorge Luis Borges. Na narrativa, um professor alemão recebe as recordações do bardo. Da cara de um vizinho, a uma melodia simples, passando por versos de Chaucer, a memória do velho William, segundo Borges, era desordenada e caudalosa, caótica e impertinente, como toda memória.

Tive um grande espanto ao pensar no que seria a memória de Dante; e o meu desespero, no caso de recebê-la, quando lembrasse da voz de Guido Cavalcanti, da fuça de um salsicheiro de Siena e da Suma Teológica inteira.

Wednesday, August 17, 2011

Ciranda



Nunca vi tantas mudanças no meu dia-a-dia acontecerem em tão pouco tempo. Meu coração e minha cabeça estão na brincadeira das cadeiras; mas estou feliz, apesar de preocupada.

Acima, detalhe de fachada em Araraquara.

Tuesday, August 16, 2011

A fada e o tio

A fada Lili foi ter à terra natal do tio mais amado de todos os tempos. Taí a criatura, numa das estátuas feitas pelos florentinos arrependidos, quando do Risorgimento. Faz uns dois anos, o povo do partido do Berlusconi , na Câmara Municipal de Florença, resolveu repatriar o tio. O único descendente do homem, o conde Peralvise Alighieri, mandou todo mundo encontrar Lúcifer, depois de ser acusado de estar no complô.

Monday, August 15, 2011

Lágrimas ao sol

Hoje de manhã, acordei e fui caminhar. Fiquei lá, caminhando, pensando em mil coisas inúteis e ouvindo Shakira. Voltei, peguei o Exumóvel, ensinei uma moça como fazia pra chegar no Centro de Convivência, fui pra cidadela de Zeferino, comi pão na chapa com café com leite, ouvi um conselho e tive um aborrecimento, enviei documento, tentei ajudar uma amiga ao telefone, e sentei para ler, na sombra de uma árvore, um ensaio de Erich Auerbach sobre Dante ( "Dante e Virgílio", in Ensaios de Literatura Ocidental. São Paulo: Ed.34, 2007). E chorei.


"Dante era dono de um senso aguçado de gratidão; mais que isso, tinha necessidade de ser grato- em especial para com aqueles a quem devia algo de espiritual (...). Mas talvez o mais belo e terno seja o amor com que Dante procura reconstruir, das trevas dos séculos, o objeto de sua gratidão. O anima cortese mantovana- assim Beatriz se dirige a ele, e essa cortesia, a grande virtude dos correligionários do stil nuovo, ganha na pessoa de Virgílio um âmbito bem mais amplo que na terminologia daqueles poetas líricos. Ela significa a dignidade interior, sempre disposta ao bem, por mais que lhe seja interdito gozar de seus frutos- pois Virgílio está excluído do reino de Deus."

p.108



Thursday, August 11, 2011

Esquentando os tamborins



Volto, agora, a estudar Dante. Pois é, queridos leitores ( se é que ainda existem) do Meio do Caminho. Os gnominhos da Bat Caverna resolveram que a pequena panda precisava reencontrar o mestre tiozão nas veredas do reino de Lúcifer.
Fiquei muito feliz, e ao mesmo tempo, super aflita. Faz já alguns anos que eu e o tio tivemos encontros ocasionais, porque eu nunca deixei de amá-lo profundamente. Mas daí a viver de estudos sobre o Inferno, exclusivamente, não deu, e o tio teve que entender minhas ausências. Agora, tenho que abraçar a causa, e a selva oscura taí, gente.

"(...) A Divina Comédia não é desconexa, mas, por causa de sua complexidade, do número de personagens e dos fatos relatados (tudo que ao céu e à terra diz respeito, como Dante afirmou), pode-se desconjuntar cada frase dessa obra e usá-la como fórmula mágica ou artíficio mnemônico."

Umberto Eco, Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p.134.

Acima:Dante e Virgílio entram no Purgatório. Luca Signorelli, 1499-1502. Afresco. Capela di San Brizio. Orvieto, Duomo.

Wednesday, August 10, 2011

Clássicos

"1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: 'Estou relendo...' e nunca 'Estou lendo...'.
2.Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menos menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.
3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.
4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.
5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.
6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.
7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram ( ou simplesmente na linguagem ou nos costumes).
8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente os repele para longe.
9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.
10. Chama-se clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.
11. O 'seu' clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.
12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo seu lugar na genealogia.
13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.
14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível."
Italo Calvino, Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993

Sunday, August 07, 2011

Peregrina

E quando eu estou triste, ela está lá.
Vem do mundo inteiro: das favelas do Rio, do deserto do Golfo Pérsico, da Suécia.
Sempre é diferente; ensina, repreende, consola, acalma, revolta.
É o centro da minha ação. O meu esteio.
Sem você, nada existe.
Por isso eu te saúdo,
μουσική τέχνη (musiké tekné).

http://www.4shared.com/audio/zXxBPQGF/Khaleeji_Music-Rashed_Al-Majed.html

Wednesday, August 03, 2011

Lembrete

"O ideal do erudito é expressar o que sabe tão clara e integralmente quanto possa. Ele esquece a própria mão e fica quieto, por assim dizer, cabendo ao leitor executar a partitura. O professor pode visualizar seu trabalho como um erudito que se ponha a popularizar o que sabe, ou seja, pondo no varejo informação classificada e assim deixando-a ao alcance do estudante menos avançado. Essa concepção de ensino como pesquisa de segunda mão é muito comum no meio acadêmico, mas devo dizer que a considero inadequada.

Desde o Meno, de Platão, é possível estabelecer que o professor não é, em primeiro lugar, alguém que sabe instruindo quem não sabe. Ao invés disso, ele é alguém que tenta recriar o assunto na mente do estudante."

Northrop Frye, O Código dos códigos: a Bíblia e a Literatura. São Paulo: Boitempo, 2004, p.13/14.

Ornato

Quem acompanha ( se é que tem alguém que ainda acompanha) este velhíssimo blog sabe que quem o escreve é doida, apaixonada, louca varrida pelas fachadas cheias de guirlandas, carinhas de leões, e outros enfeites da também velha Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí. Já caí em buraco no meio da rua por me espantar com a capacidade dos capomastri (mestres de obras) italianos em transformar construções de planta retangular ( sempre a mesma planta) com suas platibandas que a legislação requeria em entradas de sonho.

Existe, de fato, algo irreal no ornato da Arquitetura chamada Eclética. Algo que é delicado demais para esse mundo.

Comecei a fotografar e a investigar essas fachadas. Na verdade, esses ornamentos eram feitos com um concreto, diferente do que se usa hoje, e existe uma discussão sobre as formas utilizadas para modelá-los. Enfim. O professor de Ornato do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo era o italiano Domiziano de Rossi, projetista do escritório de Ramos de Azevedo. Não vou cacetear os pobres e poucos leitores que ainda me restam com detalhes sobre os debates historiográficos a respeito destes senhores. Só queria mostrar pra vocês uma foto do Pavilhão do Estado de São Paulo na Feira Nacional, montado provisoriamente na Urca, no Rio, obra e graça de Rossi, que, ao que tudo indica, assinou o Teatro Municipal de São Paulo. O sonho máximo das pandas campineiras, em madeira. Pensar que isso foi construído um dia para acabar me deixa comovida.

Fonte: Ramos de Azevedo e seu escritório, Carlos Lemos.