Thursday, December 22, 2011

Alguém como você

Num mundo em que todo mundo é muito feliz, em que tanta gente tem sua tampa da panela, sua metade da laranja, o chinelo para seu pé cansado, devo dizer que já levei muitos, muitos foras. Já tive decepções horríveis, já fui traída, trocada por outra, vi um grande amor encontrar outra, se casar e ter uma linda filhinha, tudo pelas redes sociais, já tive paixões platônicas que viraram motivo de piada do colégio inteiro, já fiquei tão sozinha que achei que ia pirar...
Claro que nunca foi legal pra mim pensar que na verdade, nas arenas do amor, sou uma loser mesmo. Por isso desisti. Encontrei um canto para mim que era dolorido, mas era o meu canto; levava minha vida. Por que você entrou naquela sala? Nem vi você entrar. Talvez passasse anos, anos, na mesma desesperança. E seria o que eu teria.
E agora, além de você, eu tenho que suportar essa inglesinha de 23 anos cantando o que sempre senti, nas margens do Sena. Pois é, eu, como muitos por aí, os losers, choro quando Adele canta Someone like you.

Monday, December 12, 2011

Avanti, pisani!

Apesar de toda minha insegurança, que é do tamanho do Mediterrâneo, aqui estou, estudando os escultores pisanos ( Nicola, Giovanni, pai e filho), e o tiozão. Pois é, Pisa e a Commedia. Começo então a contagem regressiva para voltar a ver o Arno, tomar gelato na frente de Garibaldi, passar fome na Torre da Fome, comer cecina e tomar Tuborg na névoa do Campo dei Miracoli, abraçar a Torre torta e sonhar na igreja de San Francesco. Rezem por mim, amiguinhos, espero que minha asma não dê sinal de vida ( no caso, para mim, sinal de morte) nas incursões à linda, e gelada, cidadela onde o si soa.

Tuesday, December 06, 2011

Educação Sentimental-I

Às vezes acho que Leoni, Leo Jaime, Ritchie, Lulu, enfim, os eightie song's writers, tinham que virar imortais da Academia Brasileira de Letras. Fizeram mais pela pátria, e pela língua-mãe, do que Sarney, Paulo Coelho e et caverna. Mas enfim, na minha Academia os caras vestem, garbosamente, todos os jaquetões verdes com as insígnias dos sábios.
Leoni é um cara que foi maltratado pela crítica, e pela curiosa posição de ser um puta letrista, pra uma banda pop, o Kid Abelha. Vamos e venhamos, Paulinha Toller é gata e tal, mas cantava mal pra burro, etc. e tal.
Mas eu aos 35 anos estou plenamente convencida que Educação Sentimental I foi tirada da minha vida. Sério. Da minha vida e de quem eu, com dor, confusão, medo, angústia, gosto.

Wednesday, November 30, 2011

Nervoso


Os últimos dias foram bem tensos. Tive uma crise de asma e pela primeira vez usei a mortal bombinha. Enfim, acredito que passou, apesar das seqüelas que ficaram. Tem coisas que me mobilizam muito, demais, e eu preciso aprender a desfocar, relaxar, relevar, mas é difícil.
No final, virei algo muito parecido com um mestre querido meu. Outro dia tive um sonho, que minha alma acordava no corpo dele, e esse sonho foi um dos mais bonitos que eu já tive. Eu senti a dor dele. Sentir a dor do outro é algo inesquecível.
Daí outro dia um amigo querido me disse coisas do invisível, e as coisas do invisível que ele me disse viraram realidade, no velho planalto do Piratininga natal. Tudo parece um sonho, daqueles virados do avesso, Alice no país das Maravilhas, mas dentro da loucura existe uma lógica. Agradeço aos meus mestres. Mas eu virei algo muito próxima do que eu deveria ser, e isso me assustou bastante.

Saturday, November 26, 2011

Volta

Porque eu preciso voltar a sorrir, flertar com o amigo do amigo, tomar sol na cabeça, almoçar com a minha mãe, repetir o manjar e ouvir um Santana na loja de 1,99 do centro dessa cidade.

http://www.youtube.com/watch?v=Od9FkRvvnrg

Tuesday, November 22, 2011

Giving the crazy

Esses dias eu tenho lembrado muito de um negócio que estudei há uns dez anos. Eu estudava os textos do filósofo alemão Theodor Wiesegrund Adorno numa obra coletiva, que este autor assinou com outros, quando do seu exílio ensolorado na Califórnia: The Authoritharian Personality. Pois é,meus caros amiguinhos,eu já contei aqui, em algum lugar, também anos atrás, que a pequena panda era muito destemida e lia páginas e páginas de Freud, Durkheim, Adorno, Fromm e gibi da Mônica, para compreender porque alguns indivíduos resolvem ir pro lado negro da Força. Depois eu cansei e resolvi ir direto na fonte, ler o Inferno do Dante mesmo, porque como todos sabemos o tiozão florentino já investigava os porquês de criaturas matarem, roubarem, não honrarem pai nem mãe, pecarem contra a castidade, além de encherem a paciência do próximo postando besteira no Facebook.

Parêntesis: a razão pela qual o Chefe do Universo, Ele mesmo, o Alfa, o Ômega, o fim e o começo, O que tudo vê, mandou aquele download pro Moisés no Sinai é que Ele em sua infinita sabedoria sabia que as pessoas fazem aquilo tudo o tempo todo. Fecha o parêntesis profético.

Voltando. Nego mata, nego mente a três por quatro, e eu mesma incorro nos pecados capitais com muita freqüência, destacando a preguiça e a gula; o Mal não é algo abstrato, é real e tem a ver com o descumprimento de noções básicas de sociabilidade. Se todo mundo fizer coisas erradas, tudo vai pro brejo, ok. Mas o Adorno estava preocupado com um fenômeno mais curioso: se neguinho tem consciência do que tá fazendo, quando postam besteira no Facebook, por exemplo, ou passam a mão na bunda da mulher do vizinho. O pior, descobriu o filósofo, é que nego dá de louco. Nego sabe que aquilo tá errado, mas vai e faz, dando de louco. Isso é de lascar. Dar de louco é muito comum, às vezes é a única saída pra uma situação familiar, profissional, amorosa, humana, enfim. Mas quando vira hábito, fala sério.

Friday, November 18, 2011

Nostalgia

Vi algumas cenas da festa da queda do Berlusconi. Aquela gente nariguda, berrando na Fontana em Roma, naquele frio da porra... começou a me dar uma dorzinha funda, e a vontade de torrar todo meu dinheiro em gelato, sutiãs, vinho, comida, entrada de museu.


Saudade dos trens atrasados, da umidade do demônio, das noites enevoadas, do café forte, do pinoli, do cheiro de cecina, das salas abarrotadas de Tizianos...


Saudade da sombra da torre, da sombra das ogivas nos sarcófagos gregos, saudade dos templos de Selinunte. Serei mais forte e dominarei essa nostalgia d'Italia. Fala sério, tenho que ser uma pessoa responsável e não parar em qualquer fonte, abraçada com Dionísio e falando na língua do vate, lascia perdere.

Thursday, November 17, 2011

Wednesday, November 16, 2011

Amor pra recomeçar



Depois de um feriado chuvoso, vontade nula de trabalhar. Tenho que ler Curtius, Bloch, Huizinga, Duby, Le Goff, Vasari, Dante e um monte de artigos. Minha burrice é muito grande e minha força de vontade é nula, que faço?

Eu tenho até vergonha de dizer, mas meu emocional me abala muito. De vez em quando, tenho o mau hábito de gostar de gente tosca, de gente que não tem vergonha na cara. Eu vou parar com as drogas, prometo a vocês.

Acima, a Barca de Dante, desenho atribuído a Fillipino Lippi.

Saturday, November 12, 2011

O Google, o sifão e o fim do drama

Hoje tive a brihante idéia de polir as minhas (poucas) peças de prata. Tenho dois colares que foram feitos por uma amiga, há dez anos atrás, quando ela começava a carreira de joalheira; um pingente de pinóquio, todo articulado, que comprei em Pisa; uma pulseira que tem uma bolsinha; e um par de brincos, que eu gosto muito, e que por isso eu nunca uso.


Dizia no rótulo do limpa-prata, que precisava passar o produto com algodão na peça, e depois lavá-la em água corrente. Fui lavar as peças no tanque, pensando, preciso tomar cuidado, porque senão alguma coisa cai no ralo. Da primeira leva, tomei todo o cuidado e nada caiu.


Obviamente que enchi a mão das outras coisas e, animada pelo próprio sucesso, fui pro tanque. Lava,lava, vira a mão... e, claro, um dos brincos cai no tanque.


Pensei em tanta perda que eu tive nos últimos anos, pensei que fosse inveja de alguém, tive tanta raiva de mim, pensei em sair de casa e ir morar com a minha mãe, pensei em ter que mandar fazer um brinco igual... pensei em pedir um arame e uma lanterna pro seu Cássio, o porteiro do meu prédio.


Desço descalça, descabelada e descrente. Seu Cássio estava num telefonema DR com sua digníssima, e demorou um pouco mas me forneceu um arame ( já com uma argola providencial na ponta), a lanterna e indicações de usar um arame pra refazer o laço, talvez.


Volto pra casa, pensando no dia que Pererê, o filhinho amado da minha amiga mais amada ainda, ganhou um elefantinho de plástico, que caiu num bueiro e que teve que ser socorrido de lá por um senhor arquiteto muito habilidoso... que a panda achou na rua, no desespero.


A lanterna se mostrou muito forte, o arame conseguiu puxar um monte de sujeira e empurrar o brinco pra longe do fundo do tanque. Agradeci e devolvi a lanterna e o arame pro seu Cássio, que continuava na DR.


Voltei pra casa. Sentei na poltrona do escritório. De raiva googlei brinco no ralo e no yahoo respostas veio: minha filha, desenrosque o sifão. Desenrosquei o sifão e peguei o brinco. Fim do drama.

Friday, November 11, 2011

O porquê

Hoje, entrevista de emprego. E me perguntaram, delicadamente: por que Dante?


Por que ele escreveu o melhor livro de todos os tempos, onde as pessoas estão onde merecem.
Por que ele enfrentou o medo, e foi quem ele era.
Por que ele foi um dos poucos a pensar o mal.
Por que há sete séculos o que ele fez deu emprego e ensejo pra muita gente, muito boa.

Porque eu sinto que só esse homem, que morreu em 1321, me entenderia, totalmente.


Acima, Dante. Auguste Préalt (1809-1879), 1853. Bronze, 95 x 23 cm. Paris: D'Orsay.

A quem dá tudo de si não se pode pedir mais

O título do post é o título de um livro português; uma professora de Literatura me falou desse título hoje de manhã e eu acho que eu nunca me vi tanto num título de livro.

Tuesday, November 08, 2011

Claro luar em noite de chuva

Pra mim, parece claro que tudo que eu te digo, não tem importância nenhuma. Isso me abala de um jeito difícil de descrever. Acho que o que eu mais queria era alguma compreensão da sua parte... algum apoio, mas nada vem. E eu agora estou num momento duro. E você ali, aplaudindo gente má, gente que o que mais fez foi nos separar, desde o início.

Não sei se suas atitudes são fruto de uma extrema burrice ou de um extremo cinismo, ou de uma burrice extremamente cínica. Sei lá. A conclusão é que dá no mesmo, a ordem dos fatores não altera o produto, e quando você se der conta do tamanho da roubada... eu já serei só um raio de luar, numa noite de chuva.

Saturday, November 05, 2011

Aceitação

Essa semana, tive depois de um longo período, paz de espírito. Vi o céu azul. Me senti feliz. Em paz. Em harmonia com as múltiplas vozes interiores...

Hoje, pus uma blusa que comprei no calçadão, lá pelos idos de 2007. Um dia, quase sem grana, num bacião das almas, achei essa blusa. É uma das minhas favoritas. Tem flores. Pensei: não tinha grana, mas eu era feliz. Me senti feliz, hoje, também: cada dia com o seu mal. E quando se pensa assim, se percebe que os males são sempre muito relativos, no tempo e no espaço.

Hoje, vou visitar o túmulo do meu pai.

Friday, November 04, 2011

Bastidores

Hoje eu andei pela rua meio mancando, porque ontem eu bati o quadril na cadeira do escritório. E eu mancava e pensava, meu coração é um tormento para mim e para os outros; eu tento pôr uma ordem racional no meu mundo, mas tem fases que fica difícil, não consigo e tudo vira um grande caos.

Mas eu continuava a andar e pensar, como diria Leminski é o melhor método, e eu pensava que, também, apesar do coração modelo "trem descarrilhado em alta velocidade rumo ao abismo", eu tentava pôr ordem nas coisas, e daí veio de novo a onda negra da humildade baseada no medo.

E a fisgada no quadril piorou (era uma ladeira), e eu pensei que todas as vezes que eu não respeitei o meu coração, daí que tudo foi pro brejo mesmo, e que eu tinha que, por princípio, respeitar os meus sentimentos, depois os dos outros. Tipo, como nos bastidores dos teatros, gritei merda e mandei pro inferno quem passa por mim como se eu nada fosse.

Sunday, October 30, 2011

A pequena e a colina

De onde tu vieste
trouxeste
aquele que é.
E porque não foi
recebeste
o maior dos milagres:
o amor.

Saturday, October 15, 2011

Sob o signo de Vênus

Dias frios, chuvosos e escuros. É Saturno.

Rezo para que entremos sem demora, logo, sob o signo de Vênus.

Vênus como divindade planetária. Andrea Pisano, Campanile, Florença.

Thursday, October 06, 2011

Pense diferente



A pequena homenagem para alguém que pensava diferente.

Monday, October 03, 2011

A cortesia do Grande Lombardo

Quando o tio mais amado das pandas de todos os tempos se ferrou, e em Florença queriam pegar o homem e fazer bistequinha dele ( a bisteca é o prato favorito de seus conterrâneos), o cidadão deu no pé. Era mais seguro ficar nas cidades inimigas de Florença; e ele, que foi diplomata de sua cidade a vida inteira na corte papal (com certeza um dos piores empregos de todos os tempos) se viu no meio de um monte de inimiguinhos, primeiro em Pisa, depois Siena, Verona e Ravenna, onde foi encontrar Virgílio em pessoa.

Naquele tempo existiam dois partidos na Península Itálica: os guelfos, que defendiam a soberania do papa, e os guibelinos, a do imperador. Dante era de família guelfa, e Florença era a única cidade na Toscana que era guelfa. Bom, no exílio o tio teve que se virar no meio dos guibelinos...

O tio num tinha muitas opções pra se esconder, filhos pra terminar de criar, uma viuvez e nada de dinheiro. Em Verona, segundo consta, foi relativamente bem recebido por Can Francesco della Scala, o Cangrande, o maluco que governava a cidade e que conquistou várias das vizinhas, considerado o "braço direito do Imperador". Para Cangrande, Dante dedicou o Paraíso e uma carta que explica como ler a Comédia ( onde dá a melhor definição de gênero literário: tragédia é algo que começa bem e termina mal, comédia é algo que começa mal e termina bem....).

Acima, um dos emblemas scalígeros, com a escada e os cachorros. O Cachorro Grande da Escada teria sido conterrâneo e contemporâneo dos Montecchio e dos Capuletto, "duas nobres famílias, iguais em dignidade, na formosa cidade de Verona"...

Tuesday, September 27, 2011

Rabugice

Sou difícil de entender. Rabugenta, distraída, mal humorada.

Não me olhe, sou cheia de não-me-toques.

Tantos olharam e passaram. Tantos machucaram.

Quem é você, que é tão doce? Por que você é tão diferente?

Não chegue tão perto assim de mim, me dá aflição...carrego uma dor tão funda, tão antiga. Com ela eu já me acostumei. Com você não.

Tuesday, September 13, 2011

Gratidão

Hoje, minha fadinha-terapeuta me disse: o sentimento de gratidão é o mais construtivo que existe.


Recebi um favor gentil de uma amiga, fui embora sem agradecer! No carro, peguei o celular e agradeci com o coração mais cheio de amor... pensei nos meus mestres, na minha alma mater, e fiquei com o coração mais cheinho de amor ainda.... no entardecer, percebi o quanto sou feliz. Obrigada, vida, obrigada...

Thursday, September 08, 2011

Crença

Por que, para você, eu desenterrei uma música velha, da Simone, dos anos 80, brega, mas que diz tanto do que eu sinto que parece feita pra mim, e pra você.


Por que eu tenho tanto medo, nunca tive tanto medo de alguém, mas a cada dia o medo vai cedendo à saudade, ao desejo, à esperança.


Por que apesar de ir contra o relógio, meu coração só aponta a sua direção; apesar de ir contra os compromissos, as agendas, as amabilidades necessárias, os interesses profissionais, as diferenças de gênero, religião, time de futebol, histórias de vida, mapas e calendários, eu acreditei. Eu estava sozinha,e acreditei que um dia verei o céu estrelado, com você, só com você.


Mas meu sentimento pára, quando te vejo; vem a certeza que você não me quer, e eu que eu devo fugir com o meu sofrimento pra bem longe, tão longe que de mim, este aborrecimento, você não tenha mais que se preocupar. Me vem a certeza que sou inconveniente, de novo a que ama e que não é amada... mas quero destruir isso dentro de mim, implodir essa certeza que barra meu anseio, e transformá-la na força que me levará até você.


Quando eu te vejo tão perto, frente a frente, me faltam as palavras, os gestos, o passado infeliz me sufoca. Sou formal, finjo aquela indiferença que é o meu disfarce tão ruim. Mas o que eu posso fazer, se, depois que o nervoso passa, volta o sonho, voltam as fantasias, e a crença.
http://www.4shared.com/audio/lTNvJL4r/07-Amor_Explcito.htm

Monday, September 05, 2011

Limite

Hoje foi um dia importante. Quebrei uma limitação dolorosa que existia dentro de mim. Mas as outras permanecem. A insegurança extrema, a timidez, o medo, um leve fundo paranóico, o passado. Correntes pesadas prendem meu coração à dor, e à limitação. Quero ser livre, amar, ser feliz. Ver a vida com uma barra delicada de renda, com alegria... quero voar! Mas só vejo a minha estreiteza. E a falta de pulso firme.


Tudo, nesse momento, me amedronta. Limite.

Thursday, September 01, 2011

L'amore

Quando era mais jovem, achava que amor necessariamente é compreensão. Quando se ama, pensava, as pessoas se entendem. Existiria um conhecimento, dado pelo amor, que garantiria a concórdia. Se eu não compreendia alguém, ou o contrário, logo sofria, pensando que ao invés do sentimento mais nobre, ali estava o desprezo, ou a indiferença, ou o desamor.

Eu tinha certeza que, quem me amasse, me entenderia nos mínimos gestos e em todas as palavras. Hoje, começo a desconfiar e achar que é exatamente o contrário: quando se ama, menos se compreende, se entende, se aceita... porque o amor não passa por essas esferas. É feito de dor, de calor, de confusão, de desacertos, de erros, de saudades, de conflitos. De angústias. Grandes silêncios.

Hoje, chorei de saudade do meu pai- na minha cabeça de garota, ele, sempre viajando, trabalhando demais, sem tempo pra nada, não me compreendia, não me amava. Pela primeira vez, me ocorreu que ele teve saudades de casa o tempo todo; que viajar pra ele muitas vezes era um sacrifício; e que com certeza ele preferia ter feito qualquer coisa boba conosco em casa, como fazer limonada, estourar pipoca e assistir Noviça Rebelde, do que ficar na estrada, consertando usinas hidrelétricas. Hoje, encontrei o homem que foi minha grande paixão- e olhando para ele, tantos anos depois, tantos silêncios, os cabelos já mais brancos, percebi o quanto fui dura nos meus julgamentos, e que ele também me amou demais. Então, agora posso dizer: o amor não era nada daquilo que eu pensava.

Sunday, August 28, 2011

Emma Zunz, a biblioteca e o Aleph

Sonhei que estava num lugar, numa escola? Era um escritório, talvez um departamento universitário. Mesas de fórmica branca, estantes, e um conhecido que me observava.

E em cima da mesa, as obras completas de Borges. E livros de exercícios sobre estas. E canetas, e lápis, post-its, marcador de texto, e lapiseira preta Pentel. Material de estudo, de trabalho, de professores. Metade dos exercícios feitos em espanhol, metade em português. Vontade de dialogar; mas dessa vez, encaro o Aleph sozinha.

Thursday, August 25, 2011

L'enfer sont les autres

O grande filósofo escreveu e é verdade, o Inferno são os outros. No meu caso, particularmente alguns outros. Tem gente que tem a rara capacidade de me deixar sem palavras, sem energia, sem brilho, transtornada. Não deveria me deixar abater. Mas acontece.

São muitos anos, e muitos anos, suportando maldades. Por amor. Cansei. Cheguei ao meu limite e, às vezes, temo pela minha sanidade. A vontade é agredir, revidar na mesma moeda. Estou cansada, cansada, cansada...

"Deixe em paz meu coração/ que ele é um pote até aqui de mágoa/ e qualquer desatenção/ faça não/ pode ser a gota d'água".

Wednesday, August 24, 2011

Cuidado


Preciso me cuidar. E às vezes o passado atrapalha.
Disciplina nipônica para a pequena panda...

Banho, Torii Kiyonaga (1752-1815).



Monday, August 22, 2011

A memória de Dante

Um dos textos mais bonitos da História é A memória de Shakeaspeare, de Jorge Luis Borges. Na narrativa, um professor alemão recebe as recordações do bardo. Da cara de um vizinho, a uma melodia simples, passando por versos de Chaucer, a memória do velho William, segundo Borges, era desordenada e caudalosa, caótica e impertinente, como toda memória.

Tive um grande espanto ao pensar no que seria a memória de Dante; e o meu desespero, no caso de recebê-la, quando lembrasse da voz de Guido Cavalcanti, da fuça de um salsicheiro de Siena e da Suma Teológica inteira.

Wednesday, August 17, 2011

Ciranda



Nunca vi tantas mudanças no meu dia-a-dia acontecerem em tão pouco tempo. Meu coração e minha cabeça estão na brincadeira das cadeiras; mas estou feliz, apesar de preocupada.

Acima, detalhe de fachada em Araraquara.

Tuesday, August 16, 2011

A fada e o tio

A fada Lili foi ter à terra natal do tio mais amado de todos os tempos. Taí a criatura, numa das estátuas feitas pelos florentinos arrependidos, quando do Risorgimento. Faz uns dois anos, o povo do partido do Berlusconi , na Câmara Municipal de Florença, resolveu repatriar o tio. O único descendente do homem, o conde Peralvise Alighieri, mandou todo mundo encontrar Lúcifer, depois de ser acusado de estar no complô.

Monday, August 15, 2011

Lágrimas ao sol

Hoje de manhã, acordei e fui caminhar. Fiquei lá, caminhando, pensando em mil coisas inúteis e ouvindo Shakira. Voltei, peguei o Exumóvel, ensinei uma moça como fazia pra chegar no Centro de Convivência, fui pra cidadela de Zeferino, comi pão na chapa com café com leite, ouvi um conselho e tive um aborrecimento, enviei documento, tentei ajudar uma amiga ao telefone, e sentei para ler, na sombra de uma árvore, um ensaio de Erich Auerbach sobre Dante ( "Dante e Virgílio", in Ensaios de Literatura Ocidental. São Paulo: Ed.34, 2007). E chorei.


"Dante era dono de um senso aguçado de gratidão; mais que isso, tinha necessidade de ser grato- em especial para com aqueles a quem devia algo de espiritual (...). Mas talvez o mais belo e terno seja o amor com que Dante procura reconstruir, das trevas dos séculos, o objeto de sua gratidão. O anima cortese mantovana- assim Beatriz se dirige a ele, e essa cortesia, a grande virtude dos correligionários do stil nuovo, ganha na pessoa de Virgílio um âmbito bem mais amplo que na terminologia daqueles poetas líricos. Ela significa a dignidade interior, sempre disposta ao bem, por mais que lhe seja interdito gozar de seus frutos- pois Virgílio está excluído do reino de Deus."

p.108



Thursday, August 11, 2011

Esquentando os tamborins



Volto, agora, a estudar Dante. Pois é, queridos leitores ( se é que ainda existem) do Meio do Caminho. Os gnominhos da Bat Caverna resolveram que a pequena panda precisava reencontrar o mestre tiozão nas veredas do reino de Lúcifer.
Fiquei muito feliz, e ao mesmo tempo, super aflita. Faz já alguns anos que eu e o tio tivemos encontros ocasionais, porque eu nunca deixei de amá-lo profundamente. Mas daí a viver de estudos sobre o Inferno, exclusivamente, não deu, e o tio teve que entender minhas ausências. Agora, tenho que abraçar a causa, e a selva oscura taí, gente.

"(...) A Divina Comédia não é desconexa, mas, por causa de sua complexidade, do número de personagens e dos fatos relatados (tudo que ao céu e à terra diz respeito, como Dante afirmou), pode-se desconjuntar cada frase dessa obra e usá-la como fórmula mágica ou artíficio mnemônico."

Umberto Eco, Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p.134.

Acima:Dante e Virgílio entram no Purgatório. Luca Signorelli, 1499-1502. Afresco. Capela di San Brizio. Orvieto, Duomo.

Wednesday, August 10, 2011

Clássicos

"1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: 'Estou relendo...' e nunca 'Estou lendo...'.
2.Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menos menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.
3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.
4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.
5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.
6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.
7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram ( ou simplesmente na linguagem ou nos costumes).
8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente os repele para longe.
9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.
10. Chama-se clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.
11. O 'seu' clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.
12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo seu lugar na genealogia.
13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.
14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível."
Italo Calvino, Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993

Sunday, August 07, 2011

Peregrina

E quando eu estou triste, ela está lá.
Vem do mundo inteiro: das favelas do Rio, do deserto do Golfo Pérsico, da Suécia.
Sempre é diferente; ensina, repreende, consola, acalma, revolta.
É o centro da minha ação. O meu esteio.
Sem você, nada existe.
Por isso eu te saúdo,
μουσική τέχνη (musiké tekné).

http://www.4shared.com/audio/zXxBPQGF/Khaleeji_Music-Rashed_Al-Majed.html

Wednesday, August 03, 2011

Lembrete

"O ideal do erudito é expressar o que sabe tão clara e integralmente quanto possa. Ele esquece a própria mão e fica quieto, por assim dizer, cabendo ao leitor executar a partitura. O professor pode visualizar seu trabalho como um erudito que se ponha a popularizar o que sabe, ou seja, pondo no varejo informação classificada e assim deixando-a ao alcance do estudante menos avançado. Essa concepção de ensino como pesquisa de segunda mão é muito comum no meio acadêmico, mas devo dizer que a considero inadequada.

Desde o Meno, de Platão, é possível estabelecer que o professor não é, em primeiro lugar, alguém que sabe instruindo quem não sabe. Ao invés disso, ele é alguém que tenta recriar o assunto na mente do estudante."

Northrop Frye, O Código dos códigos: a Bíblia e a Literatura. São Paulo: Boitempo, 2004, p.13/14.

Ornato

Quem acompanha ( se é que tem alguém que ainda acompanha) este velhíssimo blog sabe que quem o escreve é doida, apaixonada, louca varrida pelas fachadas cheias de guirlandas, carinhas de leões, e outros enfeites da também velha Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí. Já caí em buraco no meio da rua por me espantar com a capacidade dos capomastri (mestres de obras) italianos em transformar construções de planta retangular ( sempre a mesma planta) com suas platibandas que a legislação requeria em entradas de sonho.

Existe, de fato, algo irreal no ornato da Arquitetura chamada Eclética. Algo que é delicado demais para esse mundo.

Comecei a fotografar e a investigar essas fachadas. Na verdade, esses ornamentos eram feitos com um concreto, diferente do que se usa hoje, e existe uma discussão sobre as formas utilizadas para modelá-los. Enfim. O professor de Ornato do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo era o italiano Domiziano de Rossi, projetista do escritório de Ramos de Azevedo. Não vou cacetear os pobres e poucos leitores que ainda me restam com detalhes sobre os debates historiográficos a respeito destes senhores. Só queria mostrar pra vocês uma foto do Pavilhão do Estado de São Paulo na Feira Nacional, montado provisoriamente na Urca, no Rio, obra e graça de Rossi, que, ao que tudo indica, assinou o Teatro Municipal de São Paulo. O sonho máximo das pandas campineiras, em madeira. Pensar que isso foi construído um dia para acabar me deixa comovida.

Fonte: Ramos de Azevedo e seu escritório, Carlos Lemos.

Monday, July 25, 2011

Agridoce



Acompanhei, como o mundo inteiro, a saga da menina inglesa judia linda, talentosa, dona de uma das melhores vozes de todos os tempos, inventora do visual mais genial, da teimosia mais atrevida e feminina, rumo ao fim. Mas, diferentemente de milhões de babacas, eu esperei até o fim que a doidinha que me fez tão feliz desse a volta por cima. Esse mês vi a notícia, de rabo de olho, que ela estava mal, e pensei mais uma vez, vamo lá, Amy. Não deu.

Dependência química não é falta de caráter. Não é coisa de gente que não tem o que fazer. É enfermidade, e das mais graves. Ora, os caretas dirão, é só não mexer a primeira vez com drogas. Tá certo, mas nem sempre a caretice dá suporte, e atire a primeira pedra quem nunca bebeu demais, ou comeu demais, ou falou besteira demais. Enfim.

A Nina Lemos escreveu um texto belo sobre Amy, tá aqui:



Nina disse tudo: o pior é aguentar as hordas de babacas agora. Mas a gente foi feliz com você, Amy. Thank you, so much, baby.

Thursday, July 21, 2011

Desalento

Que fazer
se meu amor é triste, torto
ciumento
mas insiste em existir?

Monday, July 04, 2011

Recomeço

Encerrei na semana passada mais uma fase da minha trajetória profissional.

Agora, retomo estudos, pesquisas emperradas há muito tempo; projetos, anseios, desejos que ficaram lá atrás, quando fiz a opção de me focar na docência. Enfim, o sagrado exercício do magistério, como diziam antigamente os livros das normalistas, me fascina muito. Mas nem só de docência vive o homem, principalmente se ele é historiador; e principalmente se ele tem a mania de colecionar textos, imagens, legendas, sonhos e cacarecos do passado.

O problema é que me falta o foco, a dedicação, a paciência pra enfrentar mais tardes em silêncio na biblioteca, ou pior, presa ao scanner, ou aos catálogos das bibliotecas digitais. Estou bem enferrujada; mas tenho que acreditar que pesquisar é que nem andar de bicicleta, e afinal de contas eu andei bastante de bicicleta na minha vida. Vou me ralar um pouco e ficar com a perna doendo no início, mas assim são as coisas.

Thursday, June 16, 2011

Sole

"Levava no rosto todos as insígnias do amor, e já não podia mais escondê-las".

Dante Alighieri, Vita Nuova.

Piero e Francesca. Alexandre Munro, 1852. Mármore. Birmigham: Gallery of Art.

Sunday, June 12, 2011

Roque ên roul

Como já disse aqui, neste mal parado blog, a veneranda panda campineira estudiosa do Inferno de Dante começou sua carreira de historiadora aos 13 anos, quando, intrépida, gravou em cassete uma narrativa da História do Rock and Roll, de sua própria lavra, citando Chuck, Elvis, The Beatles e o que mais pudesse citar, na sua condição de autora da periferia do gênero. Sem discos, sem dinheiro pra ir em nenhum show e apenas com a programação das rádios de Jundiaí a sua disposição, eu gostava de U2, o que correspondia ser a vanguarda do conhecimento roqueiro entre minhas amigas.

Passaram-se os anos e o rock se tornou algo esporádico na minha vida de ouvinte eclética e desordenada. Too old to rock and roll, too young to die, sabe cumé.

O último mês, acreditem ou não, passei montando aulas sobre... a História do Rock. A primeira parte foi de Chuck a Creedence, e a segunda, de The Who a Faith no More. Já o rock no Brasil ficou extraordinário: de Celly Campelo a Casa das Máquinas, e de Secos e Molhados a RPM...

Me dei conta que, durante todos esses anos, a velha panela do demônio me acompanhará para todo o sempre, mesmo eu hoje sendo uma senhora com cabelos brancos, contas em dia e trabalho sério na praça. Porque, quando ouço rock, eu sou eu mesma.





Sunday, May 01, 2011

Eu, e os amantes de Verona

Sempre choro quando leio esse trecho:


“Romeu, Romeu? Por que és Romeu? Renega teu pai e abdica de teu nome; ou se não o quiseres, jura me amar e não serei mais um Capuleto (...) Teu nome apenas é meu inimigo. Tu não és um Montecchio, és tu mesmo (...) Ó! Sê algum outro nome! O que há num nome? O que chamamos uma rosa teria o mesmo perfume sob outro nome (...). Romeu, renuncia a teu nome; e em lugar deste nome, que não faz parte de ti, toma-me toda!"
Ato I, Romeu e Julieta, William Shakeaspeare

E eles esperaram um tempo em que o amor vencerá... como eu espero, também.

A canção do filme de Zefirelli, o clássico:
http://www.4shared.com/audio/BSXzxiSf/Johnny_Mathis_A_Time_For_Us___.htm


A versão em italiano de A Time For Us, do Josh Groban:
http://www.4shared.com/audio/KqhaZbMC/Josh_Groban_-_Un_Giorno_Per_No.htm

Wednesday, April 27, 2011

Desejos



Um dos cursos que ministro esse semestre é de Arte Oriental. É a primeira vez que tenho a oportunidade de estudar Arte Chinesa, Japonesa, Indiana... tenho aprendido tanto, tantas coisas interessantes, que mesmo nos momentos de cansaço até físico por conta da maratona que virou meu cotidiano, estou animada e as pessoas dizem que estou com uma cara boa. Enfim.

Ontem, por exemplo, era uma da manhã e eu não tinha decidido o tema da aula de hoje. Depois de um mês de Arte Chinesa ( e tardes no scanner da Unicamp, porque não há um site que preste que traga imagens boas da Arte do Grande Império), resolvi então passar para o subcontinente indiano. Semana passada, investi numa Introdução ao Budismo, então passei os olhos na Wikipédia e encontrei um universo de sonho...

No centro da Índia, na região de Dekhan Norte, existem 31 cavernas, no meio da selva, decoradas com pinturas e esculturas sobre a vida de Sidarta Gautama, o Buda, datadas do século II antes de Cristo. Ficaram esquecidas, depois do século V da era cristã, e um cidadão inglês chamado John Smith as encontrou, no século XIX, caçando tigres. Desde 1983, aprendi, as Cavernas de Ajanta são Patrimônio Universal da Humanidade, tombadas pela UNESCO.

Enchi os olhos com as belezas de Ajanta. São tantas... vale a pena googlar Ajanta Caves. A pintura de cima, por exemplo, representa Sidarta e sua esposa. São elefantes, Budas, Bodhisattvas, arte erótica, pinturas murais a têmpera, grandes colossos de pedra, pequenas figurinhas policromadas... escadas, terraços, a multiplicidade das encarnações de Sidarta, sua iluminação e seu legado infinito. Um oceano de informações, que banhou minha praia de desejos.

Tuesday, April 26, 2011

Tá tudo explicado

Fazia tempo que não lia o Xico Sá. Li bastante o blog dele, quando este aqui dava seus primeiros passos, no longínquo ano de 2005, em Chicago. Hoje, perambulando pela página inicial do UOL, vi um post divertidíssimo dele, num blog novo que ele abriu no portal.

O cara entrevistou Paulo César Pereio num jogo de sinuca. Cito textualmente porque é uma pérola da sabedoria universal:


"-Chegou mulher bonita começa a dar merda no ambiente- Pereio admoesta a diva que flana em volta da área da sinuca.

Homem que é homem não chama uma moça à atenção, homem que é homem admoesta, mata no peito, desliza na coxa, e faz do pito uma tese dramática de catega, jamais uma cantada, tão-somente uma isca para movimentos futuros.

É o que nos professa o cara, agora já retomando a sua melhor fase no jogo depois do alumbramento com o mulherio."


Sunday, April 17, 2011

Je suis malade...

Outro dia, uma pessoa que me fez muito mal perguntou de mim para uma amiga muito querida. Essa pessoa disse, como vai a panda e tal, ela é muito competente profissionalmente, mas tem sérios problemas psicológicos, não é mesmo, etc. e tal. Minha amiga ficou horrorizada e imediatamente respondeu que eu estava ótima, e que todos nós, incluindo ela mesma e a pessoa dos infernos, temos problemas psicológicos.

De fato, os leitores vão compreender que a pandinha estudiosa do Inferno de Dante tem motivos para ter sérios problemas psicológicos, com gente falando assim de mim por aí. E gratuitamente, nunca fiz nada pra essa criatura dedicar um tempo de sua existência me ferrando e reforçando a velha fama da panda doida de pedra.

Sinto muita dor ao pensar que minha fragilidade ficou tantas vezes exposta pra tanta gente ruim, que tanto do meu sofrimento virou piada, motivo de riso sarcástico. De fato, eu tenho sérios problemas psicológicos, pensei, no meio de uma crise de choro, pensando nas coisas que só eu sei o quanto doém, o quanto sofro pelo sofrimento meu, mas principalmente dos outros.

Hoje, foi um desses dias que acordei, respirei fundo e pensei, não estou sozinha nessa, Serge Lama cantou o que eu sinto, há tantos e tantos anos atrás.
http://www.4shared.com/audio/fySdXcxS/Serge_LamaJe_suis_malade.htm

Sunday, April 10, 2011

Vermelho com chuva

Hoje fui ao velho Piratininga natal. Faz uns anos que minhas (raras) visitas a São Paulo se restringiram a compromissos profissionais, e visitas a amigos queridos. No quesito lazer, fico entre tirar fotos mentais da arquitetura paulistânica ( em breve paro com essa mania de esquecer a máquina em casa) e uma coisa que eu não consegui abrir mão, mesmo em períodos de penúria financeira: torrar dinheiro na Liberdade, comprando estojos do Chococat, canetinhas da Pucca, sabonete e maquiagem na Ikesaki e comidas em geral na Marukai. Não vivo sem meu chiclete da Hello Kitty e meu biscoito do Koala, bem como os chás medicinais chineses da loja cujo nome de fato eu nunca vou conseguir pronunciar.

Claro que a pandinha honra a tradição e come também um espetinho, um tempurá, um guioza básico na feirinha que cada vez mais entope de gente, ou pior, desce a linguagem de sinais nas moças do Shi Fu, restaurante chinês venerando do bairro onde absolutamente nada, nada, está em português, vem sempre toneladas de comida boa e que custa nada ( o imperialismo chinês, de fato, crianças, é uma coisa muito impressionante).

Hoje, então, circulei pela Liberdade na maior chuva. Geralmente, eu detesto sair na rua com chuva, outro dia peguei um toró no centro de Campinas e fiquei super aborrecida. Mas não, embaixo daquela água, na Liberdade, eu estava total, e puramente, feliz.

Thursday, March 31, 2011

O retorno


E os dois vates sempre retornam às plagas do reino de Lúcifer, acompanhados por nós, que tanto os amam. O grande estudioso austríaco radicado no Brasil Otto Maria Carpeaux lia a Comédia todos os anos, começando o Inferno no dia que "il fiorentino di nascità" o inicia: na Sexta-feira da Paixão. Seguindo a tradição, então, mais uma vez nos perdemos na selva oscura...

Aí em cima, Dante e Virgílio, Canto I do Inferno, no Manuscrito Yates Thompson 36 da British Library, feito em Siena, cidade que, segundo os registros, viveu um cidadão que se dizia filho natural do poeta Dante Alighieri... bom, segundo o biográfo e amigo Giovanni Boccaccio, o viúvo de Gemma Donati fez imenso sucesso com as mulheres em seu exílio. Acredito totalmente no Boccaccio, porque 7 séculos depois o tio faria sucesso instantâneo com certas pandinhas campineiras!

Wednesday, March 30, 2011

Simples

Mês de luta. Coisas deram errado e eu tive que recomeçar, do zero, algumas vezes. Mas hoje fui tão feliz, mas tão feliz, que valeu a pena. Simples assim.

Friday, March 04, 2011

O que eu quero

Tua companhia
A luz do sol poente
Cheiro de mato, brisa
A paz, amor.

Vincent Van Gogh, Passeio ao crepúsculo. Óleo sobre tela, 49,5 x 45,5 cm. São Paulo: MASP.

Tuesday, March 01, 2011

As palavras de amor

Quando eu era pequena, a gente lá em casa tinha um Gradiente prateado, e o rádio ficava ligado o dia inteiro. As fitas cassetes, laranja, da BASF, ficavam engatilhadas pra que, quando tocasse uma canção que alguém gostasse, qualquer outro apertasse o famigerado REC junto com o Play. Claro que na confusão da Saudosa Maloca, neguinho fatalmente cortava a música dos outros, o que gerava homéricas discussões.
Mas algumas músicas, artistas, eram unanimidades. E um desses, claro, era o Queen. E uma dessas, claro, era Las Palabras de Amor.
Eu ouvi durante anos essa canção numa das velhas fitas lá de casa. E quando tocava no rádio ( o que era raro) meu coração sempre se enchia de espanto: para mim, um paradoxo de pessoa tagarela e tímida, era inconcebível falar palavras de amor. Na minha cabeça, apenas um Lord Byron seria capaz de expressar o que eu sentia no fundo do coração, e claro, na minha cabeça tais palavras, mesmo se existissem, não seriam correspondidas. E também, claro, pra mim não existia a possibilidade de um homem dizer tais palavras pra mim.
Fui crescendo e aprendi que os poetas escrevem tais palavras, o que sempre me deixou muito grata a eles. E pra mim os ingleses do Queen também eram bardos, comparáveis aos companheiros do Dante, na Florença guelfa e malcheirosa dos inícios da era moderna. Na verdade, desde que os pastores da Arcádia cantaram seus amores, todos que falam as palavras de amor estão nessa bela tradição.
Hoje, chove. Hoje, eu me perfumei, pus um velho vestido. Hoje, ainda, eu não tenho coragem de falar as palavras de amor que eu quero tanto. Mas qualquer hora dessas, eu serei capaz de dizer o que sinto, no meio de um abraço, no meio de sorriso e de lágrimas.
http://www.4shared.com/audio/8Sox1QIN/08-Las_Palabras_De_Amor.htm

Saturday, February 26, 2011

Gincana

Semaninha difícil. Sabe, daquelas semanas que parecem gincana? Aquela gincana de colégio, em que sua equipe não tem tempo, dinheiro, união, saco, nada, pra poder cumprir as tarefas malucas boladas pelos professores pra se vingar da criançada? Pois é. Essa semana, me senti numa gincana do meu colégio, com a camiseta da equipe vermelha, correndo atrás de uma peruca preta, de um LP da Fafá de Belém e de uma receita de bolo de fubá cremoso escrito por uma avó.
A semana inteira foi permeada pela sensação de estar no lugar errado, fazendo tudo errado. Me senti deslocada o tempo inteiro.
No lado errado do espaço-tempo, no buraco errado do universo de Newton, passei a semana na minha gincana dos desesperados. Domingo, antes mesmo da gincana começar, tropecei no cadarço do tênis Conga e levei um puta tombo: consegui cortar o dedão da mão esquerda com a faca de pão, e estou até agora com três pontos adornando o dito.
Segunda-feira, foi a tarefa da peruca preta. Retomei a rotina de ir dar aula, e na primeira fase tudo estava bem. Mas... primeiro dia de aula em universidade, sabe como é, o povo quer dar trote nos bichos e daí, armou-se a confusão.
Terça-feira, foi o dia do LP da Fafá de Belém. Ou seja, o dia do nada de ruim mas nada de bom também, sempre tem um tio com um LP da Fafá de Belém perdido.
Quarta-feira, porém, foi de lascar o carbureto. Foi o dia de tentar achar a receita da avó. O problema todo reside que avó de verdade não anota receita, faz o bolo de cabeça, e daí você tenta fazer de novo ou tenta arrancar da santa velhinha a receita e nunca, nunca, nunca vai dar certo. Enfie isso na sua cabeça de uma vez por todas.
Quinta-feira, seria o dia de conseguir um autógrafo de um jogador de futebol. Tive sorte, virei a esquina e encontrei um, no seu carrão cheio de loiras. Valeu tudo.
Sexta-feira foi o dia das últimas tarefas, e de levar tudo pro ginásio. E no final, sabe, no finalzinho do segundo tempo, a equipe amarela deu o bote e roubou nosso LP da Fafá de Belém. Foi aquele Deus nos acuda, aquele "empurra o Juquinha filho da puta que ele levou a peituda embora". Cacete, dureza total.
Já no sábado, posso dizer que o LP da Fafá foi resgatado, e eu ganhei a gincana. Veremos a semana que vem. Torçam, caros leitores, pra eu achar fácil um vídeo de uma bailarina caindo, um estoque de jacas maduras e 35 pirralhos que queiram fazer uma coreografia da Gretchen.

Sunday, February 20, 2011

Vai entender


Eu sou uma pessoa muito inconseqüente. Acordo todos os dias, no meio dessa puta crise internacional ( Europa indo pro brejto, Egito em chamas, agora Líbia, Marrocos, acredito que até em Mônaco o bicho tá pegando), com uma só coisa na cabeça: a Casa da Bóia, a legendária Casa da Bóia, a loja de ferragens e afins na rua Florêncio de Abreu, no velho Piratininga natal, que tem a fachada mais ornamentada de todos os tempos. Taí em cima uma fotinha de 1920 que não me deixa mentir, a Casa da Bóia é talvez o maior símbolo dos edifícios que eu tanto amo, em São Paulo, Campinas, Rio, Paris, Buenos Aires, Piracicaba, e afins.
Meu venerando amigo Luís Fernando já me disse que se eu começar a abraçar prédio velho e me jogar no meio da rua pra impedir demolições, ele não me dirige mais a palavra. Temo que o momento da ruptura dessa velha amizade esteja próximo; só consigo pensar ( sofro, além de asma e miopia, de TOC) na Casa da Bóia. Se algum dos leitores tem uma solução para pandas que só pensam na Casa da Bóia, por favor, escrevam sem demora!

Wednesday, February 16, 2011

Justine



Justine vive em Montmartre, nos bares e restaurantes. Posa para artistas, e é também, ela própria, uma artista. Às vezes as coisas apertam e ela precisa arrumar um bico de costureira, mas logo ela aparece, toda serelepe, onde os homens das cores e das formas estão.

Apesar da origem muito simples, ela compreende esses homens, os seus sonhos. Sabe que os lilases de Montmartre só ficam mais bonitos com eles, e para eles. Mudos, muitas vezes imersos na sua dor, ou alegres beberrões, esses homens a admiram por ser quem ela é. E hoje, pelas mãos da fada Lili, Justine vive também numa mesa de laca branca, perto do Chat Noir de Steinlen e de um verão de Monet, num bistrô escondidinho. E dentro do meu coração tão cansado, que sonha Toulouse-Latrec.

Express Yourself

Aconteceu uma coisa engraçada nos últimos tempos. Tava ali na Praça é Nossa virtual, vulgo msn, com dois amigos, falando algumas coisas que eu andei matutando. E os dois meio que deram risada, falaram assim, o que é isso, andou lendo livro de auto-ajuda, e tal.
Claro que literatura de auto-ajuda é uma das cabeças da Hidra de Lerna, pro povo que se formou em Humanas na Unicamp. Acho que é até é mesmo, junto com outras coisas como a preocupação com a aparência física, a propaganda e o Campeonato Brasileiro. Mas não, eu não me rendi à literatura de auto-ajuda. Eu cheguei à essas conclusões por mim mesma, penando muito. Talvez, se eu tivesse lido auto-ajuda, teria sido mais fácil, do que sofrer o tanto que eu sofri!
Paralelo a isso, a semana foi marcada pelo lançamento do novo single da minha ídala Lady GaGa, Born This Way. O povo logo caiu de pau matando, falando que é cópia da velha, e ótima, Express Yourself, do antológico Like a Prayer da Madonna. A própria GaGa se antecipou e explicou tudo no Leno, parece, confirmando as semelhanças entre as duas canções, super pra cima, super momento glitter... com você mesmo.
Pois é, porque é tão mais fácil a gente ter momentos glitter com o namorado, com as amigas, com os amigos, com a mãe, o filho, o sobrinho, a prima, o porteiro, mas tão foda ter com a gente mesmo. A gente mesma, quem é essa chata, cheia de problemas, feia, sem graça, sem glamour, que a gente tem que enfrentar todo dia? Tem quem prefira pagar outra pessoa pra lhe fazer companhia, só pra não ter que encarar a si mesmo no espelho. Estar sozinho? Tão sem sal. Você prefere ter um marido que te bate, um namorado que tá casado com outra, um amante que não te satisfaz, do que ficar consigo mesma, quieta, tomando chá chinês medicinal. Tudo, menos ter que ficar com a gente mesma.
E outro dia me ocorreu uma coisa óbvia. É auto-ajuda? Não sei porque nunca li, mas se for, então o Meio do Caminho vai começar a me dar dinheiro, o que não seria de todo ruim. Mas lá vai. Eu prefiro eu. Eu me amo. Prefiro tomar chá chinês medicinal, e ouvir GaGa e Madonna a todo o vapor!

Friday, February 11, 2011

O próximo amor

Quando eu amar de novo um homem, quero ser feliz. Não quero amar do jeito torto que sempre amei, sofrendo, me desvalorizando, esquecendo de mim. Quero me lembrar, quando olhar nos olhos dele, que aqueles olhos são espelhos, e não punhais.
Quero o prazer, a alegria, o encontro, o abraço, não a dor e a desesperança. Tenho que aprender a amar melhor, eu sei. E isso começa por mim: quero me amar mais, quero acreditar mais em mim, na minha beleza, nos meus princípios, na minha origem, na minha história, nos meus valores. Não estou derrotada; guardo dentro de mim a certeza inabalável da vitória, e parte da vitória pra mim será essa: eu serei amada.
Porque hoje eu tenho por mim mesma uma ternura inabalável; hoje sentei sozinha num dos meus restaurantes favoritos e pensei, estou na melhor das companhias, sou ótima companhia. Olhei para mim como quem olha pra uma velha amiga, uma pessoa querida que mora longe, mas que às vezes vem me visitar e sempre traz novidades, um pão de queijo e pede pra que eu passe um café. E a gente senta na mesa e conversa horas, fofoca, chora, ri, eu tenho certeza que irei me encontrar mais vezes, aqui em casa, na esquina, na viagem tão sonhada para Buenos Aires. E quando eu me encontrar, quando eu estiver comigo, encontrarei meu próximo amor, como se nada fosse.
http://www.4shared.com/audio/vofudmi_/Jacques_Brel_-_Le_Prochain_amo.htm

Wednesday, February 09, 2011

De quem foi

Na terça-feira, encontrei uma colega de graduação que não via há mais de dez anos. Minha turma de graduação era muito desunida. O povo teve brigas homéricas, durante todo o curso, muitas pessoas se detestavam e no final até hoje não sei porquê, mas pessoas que eu adorava simplesmente pararam de falar comigo, depois que entrei no mestrado.
Tentei entrar em contato com esses colegas de quem ainda guardo boas lembranças, pela internet. Mas foi em vão. Não consegui achar ninguém, e olha que o Orkut taí desde 2003 atazanando a minha vida. Google, Facebook, nada. Nem Diário Oficial. Desconfio que as meninas casaram e mudaram de nome, porque nunca encontrei mais nada sobre elas, depois da nossa formatura.
Os dois primeiros namorados que tive também sumiram na névoa dos tempos. O primeiro menino que beijei não, o Cláudio vira e meia aparece e me diz que tá vivo, mas os meus dois primeiros amores... não, não sei onde estão. Sei que casaram, um deles mudou de Estado, acredito que já tenham filhos. Mas mais nada apareceu.
Sempre senti muita falta dessas pessoas. Mas hoje lembrei de um trecho de A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, onde a Clara, a personagem principal, diz que não pode achar, mesmo sendo médium, quem não quer ser encontrado. E de repente, pensei que o que importa foram as pessoas que ficaram ao meu lado todos esses anos, e me imaginei num salão, numa grande festa, com todos que foram. E pra cada um deles disse que eu os amei muito, e que era grata por tudo que vivi com eles. E eles se iam, um a um, afinal, o baile acabou.

Tuesday, February 08, 2011

L'ombra

Estou bem ansiosa. Quer dizer, eu sou bem ansiosa, mas ontem e hoje estou nos dias de ansiedade máxima. Tudo dói e eu sofro por tudo. Enfim.
Detesto estar assim, desse jeito. Há muitos anos fujo como o diabo da cruz dessa sensação de perigo iminente, dessa dor, dessa aceleração do tempo. Já fiz muita besteira nesse estado: liguei pra quem não devia ligar, falei com quem não devia falar, fiz o que não deveria fazer. Me afobo, troco os pés pelas mãos, tiro conclusões precipitadas, me desespero. Estou um barril de pólvora perto de um fósforo, o pote até aqui de mágoa. Cansada demais.
Agora, faz uns anos, aconteceu que eu arrumei um jeito de fugir desse sentimento. Esse jeito correspondia a uma pessoa, a uma situação, que me amortecia, supostamente me apaziguava e me deu a ilusão de que nunca mais eu me sentiria desse jeito. Como toda ilusão, me protegeu de fato do que eu considero a minha sombra; mas hoje sei que quem me amar de verdade não anulará isso, apenas me dará a mão quando eu me sentir assim. Abraço, hoje, minha sombra, agradeço por ela existir, agradeço todos os momentos que pra mim foram horríveis, porque neles, simplesmente, eu estava viva.

Sunday, February 06, 2011

Compartilhar

É difícil a gente se colocar por inteiro nas situações. Existe sempre o perigo da rejeição, o medo da incompreensão... enfim. Antigamente, por carência, eu acabava falando demais, mostrando demais, me ligando rápido demais. Hoje, ando rabugenta, e meio distante. Não sei se vão me aceitar assim, mas fazer o quê, é o meu jeito e quem me agüenta sabe que tudo isso é pose, no fundo eu continuo a pandinha de sempre, que adora carinho e é super sentimental.
Ando compartilhando. Tudo. Tem sido gratificante. Também, selecionei melhor com quem compartilhar. Foi duro cortar algumas pessoas e situações, mas agora o retorno tem sido tão completo que penso que, de fato, rabugice funciona melhor nos começos.
Acima, prédio da Cricoletti, na frente da Estação Ferroviária, aqui da antiga vila de São Carlos das Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí.

Thursday, February 03, 2011

Manual de sobrevivência Panda na selva

Continuando o tema Panda e Homens.
Durante muitos anos, por questões profundas e trágicas, me envolvi em relacionamentos abusivos, de co-dependência, nada saudáveis, prejudiciais à saúde mesmo, com homens que só me fizeram mal. Me envergonho disso, claro. Outro dia desses, uma pessoa me disse que estava cansada do meu papo "Sofri muito" e que meu blog era um saco por isso. Enfim, não obrigo ninguém a me ler, no entanto um monte de gente me lê e até hoje eu não sei o motivo mas tudo bem. Não vou deixar de escrever e acho que preciso de fato encontrar as palavras pra tanto sofrimento, mas também pra tantas alegrias que eu vivi. Descobri muitas coisas sobre o lado ruim das pessoas e do mundo, mas não deixei também de ver a luz do sol, de me encantar com árvores em floração e de amar as pessoas.
Durante muitos anos, meu tormento me fez uma figura de quem se diz "é louca". De fato, eu sou muito maluca. Apesar disso, sou doida mansa, incapaz de fazer o mal pra alguém. Mesmo nos piores momentos, mesmo nos momentos em que eu vivi no lado escuro da Lua ( e acreditem, lá faz muito frio) não tive o ímpeto de matar ninguém nem de prejudicar os outros. Portanto, isso faz de mim uma pessoa de fato louca, e ao mesmo tempo rara: sei o que é conviver com muita dor e não revidar, sei o que é sentir desamor e não partir pro ódio, pra guerra.
Hoje vejo tudo muito mais colorido e legal. Me vem horas de felicidade extrema, simplesmente porque passou. O lado ruim passou. E eu recebo agora as coisas boas com tanta gratidão, me sinto plena em mim mesma; esses momentos são os melhores da vida pra mim. Antes, eles estavam embaixo dos escombros, agora, eles brilham nas minhas paredes.
Mas como passar pelas tormentas? Tem que ter sonho, tem que ter graça, sempre.

Tuesday, February 01, 2011

Pandas e Homens: Convergência Impossível?

Dri e Marcelo me convenceram, depois de uma pizza, um suco muito gostoso e várias risadas, a escrever um livro sobre curiosidades do mundo masculino. A idéia seria escrever crônicas, ao estilo da velha panda, sobre suas experiências com os machos de sua espécie. O título do post é uma brincadeira com as teses que o povo anda defendendo por aí, com títulos escalafobéticos e dois pontos, seguidos por títulos explicativos.
De fato, a pequena panda tem histórias curiosas sobre homens, bem como tem sobre Dante, Catedrais e receitas de biscoito. Esses animais aparentemente racionais já brindaram a habitante do Tibete campineiro com experiências trágicas, cômicas e tragicômicas. Algumas delas, em resumo. Já vi:
1) um homem terminar um namoro no dia do aniversário de alguém;
2) um homem terminar um namoro na semana que alguém tinha que entregar dissertação de mestrado;
3) um homem dar em cima de todas as suas amigas e achar isso natural;
4) um homem dizer que você não é atraente mas no entanto te agarrar sempre que possível;
5) um homem apostar uma caixa de cerveja que ia te beijar ( leia-se, a garota considerada a mais feia da classe) e perder,porque além de não te beijar você fechou uma janela no dedo dele;
6)um homem te dar um par de brincos de safira e um mês depois dizer que faria esse gesto para qualquer mulher com quem ele saísse;
7) um homem ser absolutamente generoso com uma menina que não o conhecia;
8) um homem levá-la para comer um filé num sábado simplesmente porque você queria;
9) um homem dar uma casinha de bonecas pra filha no Natal;
10) um homem escrever a Divina Comédia.
Elaborações posteriores em futuros posts. Aguardem a nova série Panda Sex in the City!

Monday, January 31, 2011

Carta a alguém muito longe

Você está muito, muito, muito longe. Na verdade, sempre esteve. Continua a viver tão longe que nem sei o lugar ao certo, é um lugar aonde nunca fui, e não faço idéia de como seja. Não faço idéia de nada do que pertence a esse lugar que é tão longe e é tão seu. Não sei se as mesmas estrelas que brilham aqui brilham onde você está, se vemos a mesma lua e se as nuvens que passam aqui, de repente, passam perto da árvore embaixo da qual você se senta, com sua felicidade e a mulher que o ama tanto a ponto de até eu, que estou aqui do outro lado do mundo, saber.
Sei de você as coisas públicas e portanto totalmente desnecessárias para mim. Seu cheiro, o brilho dos seus olhos e o calor do seu abraço, que seriam os meus tesouros máximos, permanecem mais longe de mim quanto Marte. Marte é algo possível; posso me inscrever nas listas das primeiras colônias humanas do planeta vermelho e me mudar pra lá, posso facilmente me inscrever também na Legião Estrangeira, ou atravessar a Cordilheira dos Andes, posso deixar de ser eu mesma e tudo isso será mais fácil do que meu caminho cruzar com o seu.
De tão longe que estou, observo algumas constelações da sua vida, que brilham a ponto de me cegar. Respeito e admiro a mulher que está ao seu lado; ela vive um sonho que eu não ousei sonhar. A vida dela está repleta de você, e eu aqui, no Pólo Norte, me acostumei a viver nesse frio. Fazer o quê, nem nos meus sonhos mais loucos você aparece, minha solidão é total e a escuridão é completa. Mas mesmo assim, eu olho pra cima e vejo o Cruzeiro do Sul, o símbolo da minha utopia que foi estar com você. Porque no fundo, no fundo, um domingo de sol, um mamoeiro e algumas palavras foram o suficiente pra construir a minha felicidade.

Sunday, January 30, 2011

As vidas passadas

Vim para o Piratininga natal. Compromissos profissionais e afetivos lotaram meus últimos dois dias, nesse calor do Malebolge.
Vi amigos muito queridos, passeei, comi comidas gostosas, fiquei cansada, comprei um vestido de malha vermelho e fui a uma exposição excelente, do gravurista Carlos Oswald, no Centro Cultural da Caixa no Conjunto Nacional (recomendo vivamente).
Assisti "Tio Boennme", o filme do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes do ano passado, um dos filmes mais bonitos que eu já vi na vida. Fiquei toda embaralhada, como acontece quando assisto um filme excepcionalmente bom; sou particularmente suscetível ao cinema. Lembro de quando assisti "História Sem Fim" com minha mãe, no Cine Gazeta, na Paulista, com 8 anos. Um mundo se abriu pra mim. Acho que o filme do Apichatpong abriu outro mundo também.
Junta com uma sensação estranha que tive nesses calorentos e suados dias paulistanos. Algo morreu dentro de mim. Não sei explicar. Mas algo morreu dentro de mim. Algo antigo, sofrido. Morreu. Não faz falta. Acabou. Passou. O filme conta a história de um homem que lembra de suas reencarnações. Eu lembro de todas as vidas que tive em São Paulo. Lembro e não lamento mais. Lembro e não quero que o tempo volte. É isso.

Friday, January 28, 2011

Silêncio

Acho que sempre tentei cobrir com palavras o medo que sinto de outras pessoas, de situações novas, de me colocar e dizer, gosto disso, não gosto daquilo e assim por diante. Era reconfortante saber que podia ser tagarela, falar qualquer coisa e esconder a timidez, a insegurança, o medo da rejeição. Afinal, assim eu era forte; podia ir em frente. Podia esconder de mim mesma que no fundo estava em pânico, pedindo pelo amor de Deus para ir pra casa, me esconder no meu quarto e ouvir música.
Tudo isso era mesclado também pela certeza da incomunicabilidade. Sim, a grande tagarela e piadista no fundo não punha fé na capacidade dos outros em ouvi-la, e muito menos compreendê-la. No fim, depois de muito me ferrar, resolvi que várias coisas que eu fazia e pensava ficariam encerradas dentro de um baú do meu coração. Hoje vejo que o medo me impedia de tentar mostrar algo daquilo, das imagens, canções, memórias e sentimentos. Também ocorria a falta de oportunidades para que eu pudesse "mostrar meu futebol"; claro que eu me aproximava de gente que de fato não estava nem aí para o que eu pudesse falar ou mostrar.
Agora, prefiro ficar em silêncio. E esperar. E um pouco de mim se revelou, mais, esta semana.

Tuesday, January 18, 2011

My favorite things

Dias aborrecidos e tristes. A Convergência do Atlântico Sul é um fenômeno climático extremamente f&**, se me permitem o comentário adolescente.
Daí a gente lembra da fofa Julie Andrews em The Sound of Music, ela e os meninos todos ilhados pela chuva e cantando suas coisas favoritas:
Perfume
Abraço
Pão quente
Café com leite
Sorriso
Reencontro
Forró
Boneca de pano
Cílios longos
Fitas de cetim

Wednesday, January 12, 2011

Verão na laje

Na velha Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, tem feito um calor digno das valas do Malebolge. Pra piorar, outro dia achei que o famoso Exumóvel ia virar carro anfíbio, em plena Norte Sul transformada num idílico braço do rio Atibaia. No final do dia, cai cada toró que é melhor ficar em casa.
Dito isto, e sempre considerando a atávica preguiça da panda, não tenho feito nada de muito útil nos dias que correm. Apesar da minha indolência e falta de vergonha na cara, recebi uma linda notícia na segunda-feira: fui premiada como Tradutora do Ano por uma das fundações ligadas à Biblioteca Nacional. Como o feito se liga à nobre língua do tiozão mais sexy da História da Poesia Ocidental, achei por bem destacá-lo no Meio, sempre no Meio.
Acima, um dos desenhos de Delacroix para a Barca de Dante, lápis sobre papel, 20,4 x 30,7 cm, Louvre.

Sunday, January 02, 2011

As fadas e a política

Um tempo atrás, prestei um concurso público numa universidade de renome. Tudo,absolutamente tudo, deu muito errado. O colega que se considerava favorito na disputa fez uma das piores coisas que um ser humano pode fazer, no meio do processo. E um dos integrantes da banca portou-se da pior maneira possível. Paralelo a isso, enfrentei uma situação super dolorosa, no plano pessoal. Enfim.
Deste pesadelo, resultaram duas coisas: uma aula sobre as máquinas da Revolução Industrial e um texto sobre a importância das fadas no imaginário político do século XVII.
Foi assim. Eu descobri que o último capítulo do Leviatã de Hobbes é dedicado às fadas, comparadas com os padres, pelo arguto filósofo inglês. Do outro lado do Canal da Mancha, Charles Perrault, homem forte de Luís XIV, terminou a vida publicando os Contos da Mamãe Ganso, os famosos contos de fada, porque uma das narrativas é a corte das fadas. Claro que essa corte é a corte do Rei Sol, recriada.
Fiquei com as fadas na cabeça. Até porque um dos meus filmes favoritos é Peau D'Âne, obra prima de Jacques Demy. Pele de Asno é um dos contos de Perrault, que Demy recriou magistralmente no cinema. O cineasta escreveu as canções do filme, todas inspiradas no francês perraultiano, cheias de fórmulas jurídicas e de politesse, e justamente a Fada dos Lilases é, vamos dizer assim, uma pequena Maquiavel, grande filósofa política.
Juntei tudo e escrevi, no meio de tantas dores e azares, esse texto das fadas. Resolvi retomá-lo, afinal, se as fadas ajudaram Hobbes e Perrault, talvez se apiedem dessa pobre e triste panda.
Acima, o frontispício da primeira edição dos Contos de Perrault, Paris, 1697.