Quando era mais jovem, achava que amor necessariamente é compreensão. Quando se ama, pensava, as pessoas se entendem. Existiria um conhecimento, dado pelo amor, que garantiria a concórdia. Se eu não compreendia alguém, ou o contrário, logo sofria, pensando que ao invés do sentimento mais nobre, ali estava o desprezo, ou a indiferença, ou o desamor.
Eu tinha certeza que, quem me amasse, me entenderia nos mínimos gestos e em todas as palavras. Hoje, começo a desconfiar e achar que é exatamente o contrário: quando se ama, menos se compreende, se entende, se aceita... porque o amor não passa por essas esferas. É feito de dor, de calor, de confusão, de desacertos, de erros, de saudades, de conflitos. De angústias. Grandes silêncios.
Hoje, chorei de saudade do meu pai- na minha cabeça de garota, ele, sempre viajando, trabalhando demais, sem tempo pra nada, não me compreendia, não me amava. Pela primeira vez, me ocorreu que ele teve saudades de casa o tempo todo; que viajar pra ele muitas vezes era um sacrifício; e que com certeza ele preferia ter feito qualquer coisa boba conosco em casa, como fazer limonada, estourar pipoca e assistir Noviça Rebelde, do que ficar na estrada, consertando usinas hidrelétricas. Hoje, encontrei o homem que foi minha grande paixão- e olhando para ele, tantos anos depois, tantos silêncios, os cabelos já mais brancos, percebi o quanto fui dura nos meus julgamentos, e que ele também me amou demais. Então, agora posso dizer: o amor não era nada daquilo que eu pensava.

2 comments:
Pessoas mudam. De formas e em ritmos que nem nós mesmos notamos, quanto menos o outro. Conhecer o outro é como segurar água entre os dedos, e é a nossa condição.
Falou tudo.
Post a Comment