Wednesday, May 14, 2008
Educação
Monday, May 12, 2008
De joelhos
Não morro de amores pela cidade. É cara, violenta, sem nada pra fazer e cheia de um espécime raro de gente chata: os campineiros. Enfim. Mas o fato de não morrer de amores não significa detestar e não ver nada de bom, como muitos. Tenho um carinho ilimitado por algumas coisas. E dentre essas coisas tem uns cantinhos no centro da cidade, que são de um outro tempo.
Um tempo em que Campinas, rica e orgulhosa, se dava ao luxo de nem se importar com a primeira exposição de Lasar Segall, a rigor, a primeira exposiçao de arte moderna no país. Simplesmente porque a elite daqui era muito mais escolada, viajada e quetais que a paulistana, que levaria uma porrada quatro anos depois, com Anita Malfatti. Viagens de historiador à parte, eu me comovo com algumas coisas da arquitetura, do tempo que a cidade era toda art-nouveau, e resplandecia no dinheiro do café.
Pois hoje eu estava com a máquina na mochila e idéias na cabeça. Comecei fotografando algumas coisas de perto da Estação Ferroviária, inclusive a própria, e fui descendo o calçadão da 13 de Maio. Como nunca ninguém fotografa nada nessa cidade, logo eu própria, a pandinha velha de guerra, virou atração turística, com sua mochilinha vermelha e cachecol azul.
O povo parava pra me ver e ficava observando. Fiquei meio cabreira porque sou desligada e pra me assaltarem seria um pulo. Alguns encaravam feio, achando que tava tirando fotos das mercadorias nas lojas; meninos ficaram um tempão me vendo fazer contorcionismos pra tirar foto de um singelo hotelzinho art déco, perto do Terminal Central de ônibus, que, junto com o Fórum e a Prefeitura, concorrem ao título de coisa mais feia no universo conhecido ( junta com o Shopping Dom Pedro e teríamos os Quatro Horrores da Humanidade)...
Fui descendo e clic, clic, e os populares ali. Consegui bater fotos do lindo e destruído Palácio da Mogiana, e de um sobradinho que o povo pintou de laranja apaga-a-luz. Sim, porque existem tradições campineiras que são mantidas à risca: ninguém fotografar o centro, podarem tanto a copa das árvores que acabam matando as coitadas, e gastar a cartela inteira da Suvinil e escolherem as piores cores pra pintar tudo ( vide a linda Escola de Catetes, no Chapadão, sempre em rosa bebê, o que avilta a fama já aviltada da nossa urbs).
Pois bem, na frente da Catedral Nossa Senhora da Conceição ( cuja história é interessante: dentro, do início do século XIX, fora, do início do XX: dentro, em cedro, oficina baiana que fez Senhor do Bonfim, fora, risco de Ramos de Azevedo), sai a rua Conceição, que logo ali encontra com a Barão de Jaguara. Na esquina, está um casarão, que hoje é uma farmácia. Pois bem. Quis tirar uma foto de algo que sempre me encantou; o medalhão que encima a fachada, e que fica espremido, hoje, por uma horrenda placa. Tentei do outro lado da rua e não obtive sucesso. Só que detalhe, duas da tarde de uma segunda-feira, eu no coração da velha Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, Ponte Preta que perdeu de novo, aquilo tava mais cheio de casamento de pobre.
Tento e só dá fio do poste, neguinho me empurrando, os negos da farmácia achando que eu tava tirando foto de prateleira de remédio ( ó Senhor, pra quê?), uma chata com um carrinho de bebê, uma multidão dos jovens da Toca de Assis, e um mendiguinho que achava tudo um barato. Vou pro outro lado, e passa carro, resolvi ir pra perto e tentar, mesmo sem muito recuo, pegar uma imagem. Nada, recuei o zoom da máquina, até que...
Sem perceber, fiquei de joelhos. Foi algo surreal, no meio daquela gente toda, eu de joelhos, mochila, cachecol, e de joelhos, na esquina da Conceição com a Barão de Jaguara, tirei essa foto aí de cima. Não é Paris, meus amores; sim, é Campinas.
Monday, May 05, 2008
O pulo de Guido

Boccaccio nos conta, no Decameron, que de certa feita o poeta Guido Cavalcanti, amicíssimo de Dante e homenageado pelo tiozão na Comédia, estava a andar por Florença, quando perto dos túmulos do cemitério foi atacado por jovens inúteis da cidade, em seus cavalos. Os jovens desocupados quiseram pegar o poeta, que cortesmente se despediu e, dando um salto e uma pirueta, saiu voando e fugiu por entre as sepulturas.
Ítalo Calvino, nas suas Seis lições americanas, que aqui no Brasil sairam como Seis propostas para o próximo milênio, dedicou um belo texto ao caso, sob o título e na qualidade da Leveza. Segundo Calvino, a marca da poesia de Guido era justamente a leveza, ou, como num poema seu, a singeleza de um floquinho de neve, de uma gota de chuva na vidraça, de uma borboleta amarela no caminho ou de um pouquinho de queijo ralado em cima do macarrão na manteiga. A leveza, segundo Calvino, era atributo dos heróis e dos deuses: basta pensar em Perseu, cavalgando Pégaso pelos ares, ou de Hermes e suas sandálias aladas. Porque a leveza não vem da superficialidade, como alguns se permitem supor: como diria Bashô, vem do pulo da rã no tanque.
Hoje eu acordei, fiz a lista dos meus afazeres, preparei um capuccino bem cremoso, e me deitei enroladinha no cobertor azul. E pensei em várias coisas, no meu trabalho e na minha vida, nos últimos anos. Pensei, com muita clareza, que meus anos do doutorado foram uma incursão num mundo de trevas, de dor, de destruição e angústia: esse Meio do Caminho tudo registrou, anteviu, e discutiu. Eu me sentia pesada, em todos os sentidos. Nunca tive o dom, meio paranóico, de ver/antever adversários, oponentes, ou meros mauricinhos de Florença em seus cavalos cheios de plumas. Me sentia pequena, insignificante, a ponto de estar sempre fora das competições, dos torneios da vida acadêmica. Hoje sei que nem tanto ao mar, nem tanto à terra: sim, continuo sendo alguém de posição muito modesta, mas que encontrou jovens florentinos pelo caminho sim. A sorte é que, no último minuto, meu último pulo me levou rumo a um novo caminho, a este novo caminho que o Meio registra também, em sua generosidade.
Numa de minhas novas tarefas, descobri algo muito lindo: um manuscrito florentino, circa 1427, do Decameron. Está guardado na Biblioteca Nacional da França, sob o tombo de Ms.Italien 63. Dá pra ver todas as ilustrações dessa maravilha no portal Mandragore, em http://www.bnf.fr/. Digitar Bocacce, se não não vai. Ficou inacabado, mas é uma jóia, e ver Boccaccio ilustrado é como ver o tiozão ilustrado: ou seja, uma panela cheia do melhor macarrão, ou uma noite de amor daquelas! Porque todos nós temos que ter um pulo de Guido.
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