Monday, May 05, 2008

O pulo de Guido


Boccaccio nos conta, no Decameron, que de certa feita o poeta Guido Cavalcanti, amicíssimo de Dante e homenageado pelo tiozão na Comédia, estava a andar por Florença, quando perto dos túmulos do cemitério foi atacado por jovens inúteis da cidade, em seus cavalos. Os jovens desocupados quiseram pegar o poeta, que cortesmente se despediu e, dando um salto e uma pirueta, saiu voando e fugiu por entre as sepulturas.

Ítalo Calvino, nas suas Seis lições americanas, que aqui no Brasil sairam como Seis propostas para o próximo milênio, dedicou um belo texto ao caso, sob o título e na qualidade da Leveza. Segundo Calvino, a marca da poesia de Guido era justamente a leveza, ou, como num poema seu, a singeleza de um floquinho de neve, de uma gota de chuva na vidraça, de uma borboleta amarela no caminho ou de um pouquinho de queijo ralado em cima do macarrão na manteiga. A leveza, segundo Calvino, era atributo dos heróis e dos deuses: basta pensar em Perseu, cavalgando Pégaso pelos ares, ou de Hermes e suas sandálias aladas. Porque a leveza não vem da superficialidade, como alguns se permitem supor: como diria Bashô, vem do pulo da rã no tanque.

Hoje eu acordei, fiz a lista dos meus afazeres, preparei um capuccino bem cremoso, e me deitei enroladinha no cobertor azul. E pensei em várias coisas, no meu trabalho e na minha vida, nos últimos anos. Pensei, com muita clareza, que meus anos do doutorado foram uma incursão num mundo de trevas, de dor, de destruição e angústia: esse Meio do Caminho tudo registrou, anteviu, e discutiu. Eu me sentia pesada, em todos os sentidos. Nunca tive o dom, meio paranóico, de ver/antever adversários, oponentes, ou meros mauricinhos de Florença em seus cavalos cheios de plumas. Me sentia pequena, insignificante, a ponto de estar sempre fora das competições, dos torneios da vida acadêmica. Hoje sei que nem tanto ao mar, nem tanto à terra: sim, continuo sendo alguém de posição muito modesta, mas que encontrou jovens florentinos pelo caminho sim. A sorte é que, no último minuto, meu último pulo me levou rumo a um novo caminho, a este novo caminho que o Meio registra também, em sua generosidade.

Numa de minhas novas tarefas, descobri algo muito lindo: um manuscrito florentino, circa 1427, do Decameron. Está guardado na Biblioteca Nacional da França, sob o tombo de Ms.Italien 63. Dá pra ver todas as ilustrações dessa maravilha no portal Mandragore, em http://www.bnf.fr/. Digitar Bocacce, se não não vai. Ficou inacabado, mas é uma jóia, e ver Boccaccio ilustrado é como ver o tiozão ilustrado: ou seja, uma panela cheia do melhor macarrão, ou uma noite de amor daquelas! Porque todos nós temos que ter um pulo de Guido.

2 comments:

Anonymous said...

Que "pessoa muito modesta", o que! Levanta daí e vai dar porrada em todo mundo!

Maria said...

Tava demorando pro meu pulo de Guido virar um Charles Bronson!


Cê tá vivo filhote? Vou mandar emeio pra ocê então. Beijos!!!!!!