Sunday, February 26, 2006

A polêmica dos bolinhos de chuva

Como diria Max Weber, as origens traem.

De vez em quando me dá vontade de comer umas coisas da minha infância, de Campos dos Goytacazes ou da velha família Vermeersch, que são totalmente proibidas hoje em dia, em nome da saúde e da boa forma. Eu às vezes sonho que tô comendo pernil com farofa, macarronada com frango assado e maionese, e docinhos de festa feitos com leite condensado. Tudo não-light, tudo cheio de colesterol e que, se eu comer, graças à extrema facilidade que tenho pra engordar e ter celulite, eu me transformo de panda em baleia.
Mas esses dias eu tive um desejo assassino, um desejo incontrolável, nos finais de tarde que tô em casa escrevendo: comer bolinho de chuva. Meu Deus, há quantos anos não como bolinho de chuva! Banana frita então esquece. Eu nunca fiz fritura aqui em casa, eu tenho colesterol alto e preciso me cuidar ( já não sou mais tão jovem, né, bela) mas que dá vontade de traçar pastel e bolinha de queijo, de vez em quando, dá.
Eu li um livro de um médico de São Paulo, muito bom, alertando para todos os perigos contidos na alimentação. Eu tô careca de saber que batata frita é veneno, Coca-Cola não pode e hambúrguer é cruel porque mata boizinhos. Mas eu não aguentei a vontade de comer bolinho de chuva, e fui atrás de uma receita na Internet.
Descobri que existe uma grande polêmica nacional sobre a receita dessas pequenas bombas contra as curvas de capa de revista. Acompanhei por toda a semana as discussões acaloradas nas comunidades do Orkut, de gente do país inteiro se matando e mandando diferentes receitas.
Metodologicamente, existem três grandes debates. O primeiro é sobre o número de ovos ( dois ou três): tem gente que prefere mais amarelinho, outros preferem mais branquinho ( meu caso, não curto muito ovo). O segundo é sobre a utilização ou de farinha de trigo ou maisena ( hum, isso é difícil, né?). O terceiro é uma novidade bombástica que tem dividido os corações: surgiu não sei de onde a receita perversa que traz leite condensado ( ai, se você olha a lata já ficou com 300000 calorias no quadril) na massa.
Eu ainda não fiz meus bolinhos, mas consegui uma receita boa. Lá vai:
NGREDIENTES : 1 lata de leite condensado, 2 colheres (sopa) de manteiga ou margarina, 2 ovos, 1 colher (sopa) de fermento em pó, 3 xícaras (chá) de farinha de trigo
MODO DE PREPARO : Numa tigela misture todos os ingredientes, e por último o fermento em pó, deixe descansar por 5 minutos mais ou menos. Frite as colheradas em óleo não muito quente.
RENDIMENTO : 45 bolinhos
Vou fazer uma dieta boa, perder dez quilos e quem sabe eu faço bolinho de chuva, rs, rs, rs!

Saturday, February 25, 2006

Dicionário Jorgês-Português

Eu tinha me esquecido de fazer um post que prometi pra Dani e pro Chris...

Negócio o seguinte. Nós passamos o Reveillón em casa do pai de Dani, dr. Jorge, cardiologista nas horas vagas e criador de gado kanchin e figura em tempo integral. Com ele, descobrimos um monte de coisas: que o boi hoje em dia vem em lata ( é, em lata, graças a inseminação artificial), que tem que cortar carne no sentido inverso da fibra, senão até filé mignon vira coxão duro, e o nome dos bichos, como o sapão horroroso que segundo a Dani tava a fim de mim, que dr. Jorge batizou como General ( graças às inúmeras condecorações em suas costas) e o gatinho cinza lindo e danado, o Fubá.
Mas a mais importante contribuição do dr. Jorge são suas expressões idiomáticas. Filho de alagoanos, e figura rodada na Paulistéia, dr. Jorge nos brinda com várias categorias, como Immanuel Kant, todas politicamente incorretas. Vejamos:
1) "bateu na trave": diz-se do indivíduo limítrofe, aquele que não caiu na idiotia completa ( muito comum, segundo dr. Jorge) mas também não é brilhante nos assuntos do intelecto.
2) "queimar na periquita": expressão com vários usos possíveis. O mais usual é sinônimo de sair às pressas, sair picando a mula. Outro é fazer as coisas rápida e destramente.
3) "mas vai chupar cu de periquito australiano": o pior xingamento possível a ser feito para um vivente.
4) "escambau de Madureira": lugar muito, muito longe.
5) "rolo de fumo de Arapiraca": outra expressão polivalente. No pior sentido, é utilizada para se descrever uma peculiaridade anatômica, no caso da história do Negão do INPS.
6) "Nem Thomas Mann nem Robespierre pagaram as minhas contas": frase do mais puro anti-intelectualismo, ou seja, da pior casca-grossice....

Sábado de carnaval, trabalho, o velho Gato e a melancolia

Começo de ano atípico nas terras tupiniquins, pelo menos pra mim. Nunca tive tanto trabalho no Carnaval.
Os congressos da categoria historiadores da Arte mirins, que costumavam acontecer no segundo semestre, esse ano pipocaram em março, abril e maio. Conclusão: se a pequena panda quer participar, tem que suar a pelagem branca e preta enquanto o povo tá no Sambódromo. E taca sabadão trabalhar, depois de almoçar num japonês muito bom, afinal ninguém é de ferro ( comida japonesa é um dos meus luxos. Outro é óleo de banho. Outro é música, e outro é ter brogue)...
Trabalhei ouvindo o The Very Best of Cat Stevens. Eu já postei algo sobre o velho gato lá, lá, lá atrás, nesse pequeno Meio do Caminho. Hoje deixei o disquinho rolar, na velha Terra Rádio ( outra das manias)... tão linda, "Lady D'Arbanville", me faz lembrar uma amiga muito querida. Ou "Very Young", ou "Another Sathurday Night", enfim, é tão bonito o mundo de Cat. Todo mundo sabe, o rock star inglês, filho de imigrantes, se converteu à fé muçulmana e hoje vive em Londres, pregando o Corão e arrumando confusão com o governo norte-americano.
É difícil descrever o estado de melancolia que as canções da década de 70 deixam essa pobre escriba. Eu me recordo de mim mesma, pequena, à tarde, depois de voltar da escola. E minha mãe e eu ouvindo rádio na cozinha, a nossa cozinha amarela, que tinha uma janela prum pátio interno que dividia o bloco em dois. Isso, lá no Cambuci. E tinha uma cestinha de plástico amarela onde a gente punha os pregadores de roupa. E as latas debaixo da pia. E minha mãe ouvindo "Rock and Roll Lullaby", do BJ Thomas, passando roupa. E brigando comigo. É engraçado, mas na minha cabeça tudo que é década de sessenta é meu pai, e setenta, minha mãe. Por causa dela gosto das 70's songs. Mas se eu falar isso pra ela hoje, ela vai dizer, que de coisa velha já basta ela... hahahahaha....

Thursday, February 23, 2006

Se você fosse sincera, ôôôô, Auroraaaaaaaaa...

Carnaval.
Todo ano eu esqueço do reinado de Momo.
Simples. Eu nunca tenho dinheiro pra ir pra lugar nenhum no Carnaval. E sempre tô trabalhando, fazendo alguma coisa, e o feriadão atrapalha.
Por um lado, é bom ficar em casa enquanto milhões e milhões de cidadãos da República Federativa do Brasil se acotovelam nas praias, usam fantasias de gnomos espaciais no Sambódromo, lotam as perigosas rodovias nacionais, rebolam ao som do último axé ou simplesmente bebem até cair.
Enfim, mais um ano que vou pular da sala pro quarto, do quarto pra cozinha, da cozinha pro banheiro...
Quando eu era criança, com uns sete anos, ganhei minha primeira fantasia, uma bailarina cor de rosa... depois, meus pais me levavam nas matinês de um clube, em Jundiaí. A segunda fantasia que eu tive foi aos dez anos, um Pierrô estilizado: um top e uma calça bufante de cetim branco listrado de vermelho, um colar de pérolas falso e uma máscara de lantejoulas prata com um penacho vermelho. Era elegante, né? E eu no meio do salão, confete, serpentina...
Agora, uma coisa. Eu adoro música de carnaval... marchinha antiga, axé da moda, eu acho tudo muito bacana... afinal, atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, né vero, bello?

Monday, February 20, 2006

Os velhos irlandeses

Pesadelo brazuca. Além do abafa das últimas semanas, o ano que já começa com o IPVA atrasado, seguido, pedras rolantes e os homens da terra da Guinness. Pesadelo, pesadelo.
Eles vieram, o show é hoje, eu não tive dinheiro pra ir. Não tive dinheiro nem pra fazer compra no Pão de Açúcar e concorrer a ingressos. Me consolo pensando que Bono & cia ainda vão estar na ativa...
Eu era muito fã do U2, era fã desesperada, a ponto de aos treze anos ganhar de amigo secreto o The Unforgettable Fire. Enfim... lembro do desespero e da suprema glória de ouvir o magistral Achtung Baby. Nos últimos tempos, confesso que andei meio separada deles, não entendi direito o Pop e as mega turnês. Mas que é a melhor banda, é, o melhor vocalista é o Bono, o The Edge é uma lenda, eles são ultra simpáticos, corretíssimos, enfim, a depressão por não ver o show é grande. Vamos fazer uma camiseta, parodiando o Rock in Rio: Rolling Stones e U2, eu não fui...

70's songs

Quem me acompanha sabe que tenho minhas manias. Uma delas é a porcaria da Terra Rádio.

A vida toda escutei rádio. Escutava de tudo. Sou viciada. Estou em casa, o som tá ligado. Pra tudo. Agora que vivo presa no computador, essa Terra Rádio me pegou.

Tenho uma lista com umas 550 músicas, mas essa semana viciei numa coleção chamada Have a Nice Decade, com os hits da década de meu nascimento. São sete cds, com tudo, tudo mesmo. Procurei na internet e achei um site de um fanático por 70's songs. Tem a história de cada música, fotos dos artistas, comentários técnicos, muito legal: wwww.superseventies.com. A minha playlist, no meu ipod de pobre:


1)Kiss You All Over, Exile: banda do Midwest, mais precisamente do Kentucky ( eu adoro uns midweasterns, hahahaha). Essa música é demaaaaaaaaaaaais, boa pra namorar... hit de 78!

2)The Night Chicago Died, Paper Lace: muito engraçadinha, conta a história de um menino filho de policial, morando em East Side de... de... Chicago, sure, esperando o pai voltar nas noites que o Al Capone botava pra quebrar. Ai, que saudade dos gângsters, chuif...

3)Joy To The World, Three Dog Night: hit de 73, anima qualquer defunto.

4)Love Grows ( Where My Rosemary Goes), Edson Lighthouse: é que nem o povo que ia no Show de Calouros...

5)You Are so Vain, Carly Simon: Gente, essa é de 73 também, e sabe quem tá no coro? MICK JAGGER!!!!!!!! Confiram!!!!!!!

6)Long Train Runnin', Doobie Brothers: outra de Chicago, tá lá, Illinois Central e os trens passando embaixo do Art Institute.

obs) eu vou fazer a playlist brazuquinha, senão o povo me lincha e me chama de paga-pau de gringo!!!!! Não se esqueçam, como toda panda eu sou comunista!!!!!! ( mas não da linha maoísta, peloamordeMarx)...

Sunday, February 19, 2006

Projeto de Coluna, ou a Pequena Panda no Jornal!

Pois é, um dos meus pequenos planos panda vingou. Vou escrever uma coluna num jornal!


Calma, o New York Times ainda não me descobriu, nem o Le Monde. Negócio seguinte: tenho um amigo véio de guerra, o Luis Fernando. Essa peça escreve uma coluna sobre política, quinzenal, num jornal da cidade de Lençóis Paulista, chamado Folha Popular. O Luis me chamou pra escrever uma coluninha sobre assuntos culturetes. Não vou ganhar nada, mas estou super animada. A minha idéia é publicar na Folha Popular e aqui no meu broguetes. Abaixo, o projetinho de coluna que mandei e o Luis, famoso internacionalmente como Tio, aprovou:


É com grande satisfação que inauguro minha pequena coluna na Folha Popular. Meu projeto é escrever, semanalmente, sobre livros, CDs, filmes, revistas e notícias, ou seja, esquadrinhar e compartilhar impressões sobre a chamada vida cultural, nacional e internacional.
Um assunto que ocupa mentes e corações nestas abafadas semanas é o show que a banda inglesa Rolling Stones realizará na praia de Copacabana, no Rio, no dia 18 próximo. Os moradores do bairro posicionaram-se contra o evento, e notícias pipocam nos meios de comunicação, como o cardápio encomendado pelas veteranas pedras rolantes.
De certo, a abertura pelos Titãs e o tamanho do palco, com 22 metros de altura. Já a modelo, apresentadora e mãe de um filho de Mick Jagger Luciana Gimenez não garantiu presença, tampouco a do rebento, por temer o assédio da imprensa. Sei, essa nem a velhinha de Taubaté, velho personagem de Luís Fernando Veríssimo que acreditava em tudo, acreditaria.
No meio de tanto bafafá, só me resta apelar pro site Terra Rádio, que disponibilizou a discografia inteira dos Stones. O site, pra quem não conhece, é uma rádio online. O problema é que algumas gravadoras não permitem a execução das músicas por completo. Para a sorte de quem é fã dos Stones ou quem reconhece a importância da turma de Keith Richards na história do rock, a maior parte da discografia está inteira. E as pedras rolam.



Eu escrevi isso há duas semanas atrás. Fui uma pequena panda-Nostradamus. O show dos Stones foi ótimo, a Gimenez deu o ar da graça e eu continuei na velha Terra Rádio.

Friday, February 17, 2006

História Sem Fim

Todos os sábados, quando eu era criança e morava em São Paulo, eu ia com meus pais e meu irmão brincar na Cidade Universitária. Apesar da gente morar na Aclimação, era na USP que eu andava de bicicleta, corria, jogava bola, tomava sol. Só quando fiquei adulta é que descobri o motivo: meu pai, assim como eu, fez dois mestrados. Na época ele fazia um deles, na Poli, e assistia aulas enquanto eu rodava no Queijinho da Química.
Um sábado foi diferente. Meu pai foi com meu irmão pra USP, mas eu e minha mãe paramos na Paulista, no Cine Gazeta, pra assistir um filme. História Sem Fim.
Eu fiquei maravilhada com a história do Bastian, de Fantasia, do Atreiú, do Dragão da Sorte ( como eu queria ter um Fuchur na minha vida)... foi tanto encantamento que decidi ler o livro, que a Mara, amiga da minha mãe, tinha na estante.
Só pude comprar na Unicamp, no sebinho que tinha do lado da antiga cantina do IEL. Hoje, pedi pro Celo baixar a música-tema. Pra quem não sabe, é um homem que canta a voz principal, e o nome do cantor é Limahl. O cara usava um cabelo Chitãozinho e Xororó, mas tudo bem. História Sem Fim faz com que Fantasia não vire Nada, nunca.

Thursday, February 16, 2006

Urso panda

Eu estou me sentindo que nem um urso panda. Só quero saber de dormir, coçar a cabeça e comer bambus.
Explico: há três semanas não vou na minha análise, esse mês não fui à academia, perdi duas aulas de italiano, rachei a unha do dedão no meio, não vejo mais meus amigos, e minha toca está um lixo. Preciso fazer uma faxina, botar um tênis e ir andar, não faltar na análise, retocar a raiz do cabelo... retomar os planos.
Me convidaram pra escrever uns artigos aí, e não é em revista acadêmica. Não sei se vai dar certo, por isso não vou adiantar detalhes, mas se der, vai ser muito legal. Outros planinhos, nada de vai pagar minhas contas ou me deixar rica e famosa, mas pelo menos vou ser uma panda feliz.
Uma nota de rodapé. Olha, quem quiser me acompanhar, tem o Greatest Hits do Springsteen no Terra Rádio. Ouça "The River".... ou "Secret Garden"... ou "Badlands".... ou tudo mesmo.
Outra nota. Tem um monte de gente que diz que me lê, mas nunca deixa comentário! Poxa vida, aí é que eu fico me sentindo mais urso panda ainda... gordinha, branca, com olheiras e em extinção!!!!!!!!!

Tuesday, February 14, 2006

A epopéia-Canto II

Termina de cantar, ó musa blogueira, os feitos e desfeitos da pequena troiana no Piratininga, enfrentando a ira dos deuses.
Entregue o relatório, fui comer na Dona Deôla. Pedi um sanduíche show,tô lá, mas não é que meu dente volta a doer, que nem em Chicago? CECOM aí vou eu. Tratamento dentário na cabeça.
Ligo num amigo querido. Ele me convida pra ir na sua casa. Detalhe: o cidadão mora no Itaim, e eu estava no fim do Alto da Lapa. Pego um busão e desço na Paulista, no Trianon. Um cheiro de xixi matando, entro no Trianon. Só homem, e calados. O Parque dos Homens Calados de dia, o Parque dos Homens Animados de noite.
Entro pra ver e cumprimentar um velho amigo, o Fauno do Brecheret. Entrando no Trianon na entrada em frente ao MASP, você encontra a velha divindade dos bosques. Lindo, sólido... e abandonado. Vejo um buraco na bochecha da estátua: penso, mas isso parece um cano! Meu Deus, o que é isso, e chego perto do Fauno. Não vejo uma teia de aranha gigante bem na frente do meu amigo; entro na teia de aranha gigante... e lá fico.
Meia hora depois, desço contornando o MASP e vou pra Nove de Julho. Pego o primeiro ônibus Terminal Santo Amaro; penso, desço na São Gabriel a tempo. Mas a porcaria do ônibus lota, e eu não consigo ver nada, e... perco o ponto. Vou parar vinte quarteirões depois, na Cidade Jardim, quase Marginal de Pinheiros.
Desço do busão e ando, ando, ando, ando, ando, até conseguir pegar outro veículo com motorista e cobrador. Aviso o motorista, amigo, preciso descer na São Gabriel. De novo, o busão lota, o cobrador pega no sono... e vou parar na casa do ca&*))_. Volto tudo de novo a pé, já com o desespero na alma, e falando, nunca mais vou sair de casa pra nada.
Na São Gabriel, paro numa floricultura e vejo uma pimenteira amarela, com flores, linda, e decido comprá-la para o meu amigo. Mas a floricultura não tem REDE SHOP; você paga na padoca vizinha, porque o dono da floricultura, que pôs uma tv no balcão e fica deitado no chão paga a conta da padoca assim.
Na padaria, uns dois velhinhos cantando a moça do expresso e ninguém no caixa. Meia hora depois, desço a rua Itacema, a primeira transversal da São Gabriel, com a pimenteira e uma rosa amarela. E penso, mas essa rosa eu podia dar pra irmã do Paulo... o que eu não me dei conta é que minha combalida mente, disléxica e cansada, estava me alertando pro fato de eu estar descendo a rua do irmão do Paulo, não a dele, que é a próxima, a Pedroso Alvarenga.
Me dou conta do meu erro lá, lá, lá embaixo. Subo tudo de novo, com pimenteira, rosa amarela, e penso, eu joguei pedra na cruz.

A epopéia- Canto I

Canta, ó musa, as intempéries enfrentadas por esta pequena troiana, nas plagas do Piratininga, ao enfrentar a ira dos deuses do Olimpo para entregar seu terceiro relatório FAPESP, com pedido de prorrogação...
Tudo começou às sete e meia da manhã, quando o despertador tocou e acordou essa que vos escreve, depois de uma baita noite de insônia. Fui deitar quatro da manhã.
Meu etrusco acordou comigo e me levou no Hades ( Rodoviária de Campinas). Saindo da minha casa, tudo entupido, campineiros enlouquecidos com obras na Avenida Aquidabã, ironicamente chamada de Expressa ( de Expressa não tem nada)...
Peguei um Cometão. Na saída da Rodoviária, o motorista brecou forte e uma senhora que estava no corredor enfiando malas no bagageiro caiu. Só ouvi os "ai, ai, ai, estou morrendo"... pára tudo, desce o motorista, busca enfermeira e moças da empresa,que tentam, junto com o senhor de cara preocupada que se tornou instantaneamente o líder dos demais passageiros, dissuadi-la de prosseguir viagem e ser atendida num Pronto-Socorro.
Nisso, o ônibus ficou parado 50 minutos ( é, meus caros, 50 minutos), de uma lenga-lenga infindável. Eu não sabia, mas por lei a empresa precisa mudar o motorista, o ônibus, tudo, e dar total assistência ao passageiro. O pessoal da Cometa fez tudo isso, mas o que demorou foi a conversa com a acidentada, que ao mesmo tempo que se recusava a ficar e ser medicada, ficava gemendo e dizendo que estava pra morrer.
Cheguei na Rodoviária do Tietê com uma hora e meia de atraso. Precisava passar na casa do meu orientador, na Lapa, pegar assinaturas, e ir pra Batcaverna, vulgo FAPESP, que fica no mesmo bairro. Em vez da via-crúcis de pegar o metrô, descer na estação Paraíso, mudar de linha, descer na Vila Madalena e pegar um ônibus pra Lapa, peguei um táxi na Rodô mesmo, corrida fechada.
Mas o taxista, muito simpático por sinal, insistiu em ir pela Vila Romana. Pra quem não conhece, o bairro da Lapa, na nossa combalida capital, é um dos maiores da cidade, e tem uma engraçada peculiaridade: é na verdade um monte de morros, ou seja, ladeiras e ladeiras de quase 90 graus. No meio, tem essa Vila, em que todas as ruas têm nome de romanos. Nos perdemos no meio de Titos, Lívias, Augustos, até achar a rua do meu orientador.
Assinaturas pegas, tudo pronto, vou pra Batcaverna. E descubro: meu chefe mora no Baixo da Lapa, a FAPESP fica no Altíssimo da Lapa. Subo uma ladeira em 90 graus, sol de meio-dia, dez quarteirões. Entro na rua Cerro Corá, ainda muito longe da FAPESP; pego um ônibus. No busão, comecei a pensar que tinha esquecido um dos formulários X3POzeta; abro a mochila, a pasta, e nisso tudo...
A rua Cerro Corá sobe, sobe, sobe, e tem um ponto num supermercado Pão de Açúcar. Você desce nesse ponto; do outro lado, a mítica Padaria Dona Deôla anuncia que sim, você está na rua Pio XII, a rua da Batcaverna. Mas tem o seguinte: depois desse ponto, o ônibus vira uma transversal, a famigerada rua Bairi, outra ladeira em 90 graus. No meio do rolo de pasta, mochila, o escambau, o clássico acontece. Perco o ponto.
Puxo a corda desesperada. Todos no ônibus riem de mim; o cobrador e o motorista não dão sinal de vida. E vou parar de novo no Baixo da Lapa, dez kms depois.
Outra ladeira, chego na Batcaverna parecendo uma figurante de filme de Vietnã. Suando em bicas, fedida, parecendo uma Medusa. Estou lá, esperando o mocinho da FAPESP ver todos os meus erros e passar errorex em todos os meus formulários, e ouço a conversa de outros dois atrás.
As planilhas da FAPESP são no Excel, coloridas, pesadas, e mágicas: tudo que você põe nelas some. Pois bem: os dois funcionários da Fundação discutiam o fato deles não conseguirem imprimir o que eles próprios põem no site e obrigam todo mundo a fazer e assinar. Entrei na conversa e afirmei que tive o mesmo problema desde sempre. E sabe o que eles fazem? Me dizem assim, mas olha, a gente vai te passar o email e o telefone do cara que fez isso, e você reclama, por favor, porque a gente já cansou de mandar o dito ir catar coquinho. HAHAHAHAHAHA...

Monday, February 13, 2006

Balada dos dois jogadores

-Nós dois somos cartas marcadas,
nós dois já jogamos demais.
Dos ases, nenhum permaneceu.
A sensação de sentir
Sua perna pressionando a minha
Debaixo da mesa de pôquer
Não é mais a mesma, amor.
O sentimento amadureceu.

-Disse bem. Agora somos,
homem e mulher, e só,
não mais adversários, no fim.
A excitação passou,
e entre copas, ouros e espadas
vejo em teus olhos o doce palpitar
de quem encontrou a quem amar.

-Dê-me sua mão. É hora
de levantarmos da mesa.
Somos nós dois, não mais coringas,
mas rei e rainha do mesmo naipe.
Guarda o baralho, porque nossas vidas
já encontraram as cartas.

Uma pequena dúvida

Se amar não vale a pena
porque o poeta antigo
colocou palavras doces no poema?

Relatório FAPESP

Sou considerada elite científica do país. Pago minhas contas com uma bolsa de doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
A gente está numa situação tão preta, na universidade, que sou um bicho raro, invejado pelos colegas, que têm que se virar pra levar seus cursos de pós-graduação. Muitos de meus amigos mandaram pedidos e não foram atendidos; a Grande Mãe me socorreu porque eu participava de um Projeto Temático, que inclusive já foi pro espaço.
Foram meses na biblioteca, escrevendo o projeto nos moldes da FAPESP. Quase não mandei, problemas de comunicação com o orientador.
Um ano depois, a hora temível. O relatório. Se você foi bolsista da FAPESP, sabe o que é. São trezentos formulários, todos coloridos e numa planilha do Excel que teima em sumir ou travar seu pobre micro. Você escreve tudo o que fez no ano, tudo que pesquisou, se justifica de todas as formas possíveis, explica até porque foi na casa da tia no Reveillón.
Nessa linda hora, onde o bolsista se acha a pior pessoa na face da Terra, o ser mais desprezível de todas as cadeias alimentares, e nem pode desabafar na cantina, porque senão corre o risco de ser linchado por todos os colegas que não tem bolsa nenhuma, quanto mais da FAPESP, sofri um terrível acidente de carro. De volta pra casa, onze da noite, com a Comédia, a Bíblia, um fac-símile da Crônica de Nuremberg ( livro publicado nessa cidade em 1497) e mais um monte de coisa no porta-mala, um louco enfiou o carro na minha porta.
Capotei duas vezes e quase morri. Por sorte, os livros saíram ilesos. Mas atrasei o relatório três dias, e tive que mandar a radiografia da minha cabeça e o BO do acidente pra Grande, descobri, Madrasta. Engraçado que eu tinha um piercing na orelha, na radiografia aparecia como se eu tivesse um parafuso... hahahahahaha....
Mas enfim. Desde então desenvolvi uma neurose Relatório FAPESP. Fico com medo de tudo: do negócio não ser aceito, dos caras mandarem mafiosos me matarem porque errei no CPMF dos cheques da Reserva Técnica...
Janeiro e fevereiro foi eu, em casa, ouvindo rock e escrevendo o bichinho que hoje ficou pronto, foi impresso e espera que sua dona o leve até a Batcaverna ( o prédio da FAPESP), lugar super bem localizado no velho Piratininga ( no Alto da Lapa. É, a Batcaverna fica no Alto, Altíssimo da Lapa. Eu sempre pego o ônibus errado e tenho que subir a pé o Gólgota).
Chega lá, é a lenga-lenga de sempre. Não, eu não trouxe o extrato da conta Reserva Técnica porque fiquei sem movimentar o dinheiro mais de 60 dias e a Nossa Caixa não dá extrato nesse caso. Não, eu esqueci de imprimir o formulário X3PO mas o GHJ&8zeta tá aqui. Depois eu saio e vou na Dona Deola. É uma padaria na frente da Batcaverna. Como um bauru e penso, elite científica é isso aí.

Wednesday, February 08, 2006

O despertar

Terminando o relatório FAPESP. Agora faltam as pendengas: Caderno de Imagem, formulários, em suma, minha vida está uma chatice. O dia inteiro na frente do computador. Tem dias que não rende, tem dias que rende, vida de escrevinhador é assim.
Mas hoje tive um lindo despertar. Eu fui dormir altas horas da madrugada, devido à minha clássica insônia, depois de muito ouvir o Abbey Road. Eu viciei de novo nos Beatles, e o que tem me mantido viva esses dias foi o famoso lado B desse disco ( agora CD que não tem lado), aquela pancada linda, onde as músicas se fundem todas numa beleza só.
Eu deixei a janela aberta e dormi mal. Mas acordei com o dia despertando, cedinho, cedinho, estava chovendo uma chuva fininha e tudo estava branco, ao meu redor e dentro de mim. E acordei pensando, Here Comes the Sun.

Saturday, February 04, 2006

E também tem o seguinte...

No post abaixo, tava falando do meu amor irrestrito e incontrolado pelo rock.
Mas tem mais. Eu vivo enfurnada no século XV, entre gente muito culta e ótima. Mas percebi uma tendência interessante em alguns colegas: o povo acaba escutando música do período que estuda.
Eu adoro música. De todo tipo. Eu ouço de tudo, desde os Concertos de Bradenburgo até Genival Lacerda. Eu acho que música não tem fronteira, você pode sentir vários universos. A alma da gente não é uma quitinete.
Mas eu amo muito o seguinte contraste: tô escrevendo algo sobre o Dante, escutando Rolling Stones. Escrevi uma dissertação sobre Adorno ouvindo Creedence, Dire Straits e Eric Clapton. Sabe porquê? Porque eu acho que esse contraste me salva um pouco da ilusão meio positivista que, no fundo, todo historiador alimenta: de descobrir a verdade sobre o período que estuda. Esse contraste me lembra que tudo é uma construção, que eu não posso criar ilusões, que estou fazendo uma opção, e que meu estudo, ele próprio, tem a marca do humano, que é a marca do tempo.
E também tem outra. Eu tenho pra mim que o Dante seria um roqueiro.

Rock and roll

E no princípio eram os Beatles.
Eu amo rock. Não adianta. Eu tinha uns onze anos e assistia um programa na TV Cultura com o tresloucado e ótimo Kid Vinil. Lia a Bizz e o André Forastieri, e todas as polêmicas que são a glória e o sarro do mundo dos roqueiros e metidos a roqueiros. Eu tinha um pôster dos Mutantes e procurava as músicas deles no rádio. Não adianta, eu amo rock.
Eu gosto de tudo, desde rockabilly até White Stripes. Do rock progressivo ao heavy metal, pra mim todas as experiências foram válidas.
É tanta gente interessante, é tanta coisa legal... tanta história. Tanto solo de guitarra, tanta maluquice, pra mim o velho ritmo deu origem aos trovadores modernos. Inovadores como o pessoal do Dante, do Petrarca, que escandilazavam Florença com os cabelinhos, a boemia e a criação de um universo de sentimentos, de idéias e imagens onde cabe o mundo inteiro e todo mundo.
Nunca tive dinheiro pra ser descolada, e também muito acesso a informações. Por exemplo, as bandas chegam pra mim com atraso, pelo rádio, pelos amigos e festas. Muita coisa em CD pirata, agora nas rádios pela internet da vida. Ou seja, se você me perguntar o que está na crista da onda agora, eu sinceramente não tenho a mínima idéia. Historiador vive atrasado.
Mas os Beatles, os Stones, Led Zeppelin, The Who, Cat Stevens, Creedence, Janis, Elvis, os pioneiros ( Chuck, Little Richard, Bill Halley, etcs, etcs), The Police, Clash, Smiths, os loucos da new age ( B-52's), o U2, REM, os 80's ( onde surgi, afinal), David Bowie, meu Deus, como recusar a companhia dessa gente? Como dormir depois de ouvir os Stones? Me diz, eu estou morrendo de vontade de pegar um Cometão e dormir na areia pra ver os velhos. Tá na playlist do show, Honky Tonky Women, essa ressuscita até gente escrevendo relatório da FAPESP ( comprovadamente uma das experiências mais cacetes que um ser humano pode ter)...
E tem as grandes paixões. Pra quem me lê há algum tempo, sabe que eu amo o Bruce Springsteen. Eu sempre fui fã, desde que era pequena, pra mim era uma figura masculina forte, positiva. E nos EUA, eu me enfurnei nas livrarias e li a bibliografia sobre ele. E acabei descobrindo uma história ótima.
Se você for ler algo sobre o Bruce, assim como sobre o Dylan, o Lennon, ou o Elvis, vai se deparar com polêmicas infindáveis. O Bruce se vendeu ao sistema na década de 80? Afinal, o Dylan gostava ou não dos hippies? O Elvis não morreu? E talvez a mais intrigante, porque o Lennon casou com a Yoko?
Mas o primeiro texto de um crítico sobre o Bruce, o primeiro que deu o que falar, é de 74, de um cara formado em História na Universidade Brandeis, conceituada pra cacete. O cara se chama Jon Landau. Esse cara era músico, tocava numa banda, e acabou virando crítico da Rolling Stones, na época áurea da revista.
Uma bela noite, Landau assiste um show do Bruce numa taverna. Os caras da banda estavam no início, o Bruce era um ilustre desconhecido. Bom, o Landau escreveu um texto dizendo que era madrugada, ele estava com 27 anos, casado com uma moça que não o compreendia, e sofrendo de uma doença rara. E que havia perdido, em algum lugar, o prazer que o rock lhe dava, na época da graduação.
Mas naquela noite, Landau viu "o futuro do rock, e o futuro do rock se chama Bruce Springsteen"...
O resto é história. O Landau virou empresário do Bruce, depois de uma briga judicial com o primeiro empresário do cara. Empurrou Bruce pro estrelato, produzindo um disco que agora tá fazendo 30 anos, Born to Run. Se você nunca ouviu, ouça, faça como eu, pegue na Terra Rádio, em mp3, roube do vizinho, faça uma macumba, sei lá.
Mas esse artigo é uma pérola. Porque virou uma experiência arquetípica: o cara ferrado que ouve o roqueirinho biruta e tem uma revelação. Hoje em dia o povo gosta muito do Nick Hornby. Ele é ótimo, porque revive a todo minuto nos escritos dele a experiência Landau. Pra mim, essa experiência é forte porque é uma recriação da relação artista-crítico, uma coisa que fascina desde o Baudelaire com o Delacroix.
Por isso eu gosto do rock. Porque ele tem a força da experiência estética. O resto é firula.