Eu amo rock. Não adianta. Eu tinha uns onze anos e assistia um programa na TV Cultura com o tresloucado e ótimo Kid Vinil. Lia a Bizz e o André Forastieri, e todas as polêmicas que são a glória e o sarro do mundo dos roqueiros e metidos a roqueiros. Eu tinha um pôster dos Mutantes e procurava as músicas deles no rádio. Não adianta, eu amo rock.
Eu gosto de tudo, desde rockabilly até White Stripes. Do rock progressivo ao heavy metal, pra mim todas as experiências foram válidas.
É tanta gente interessante, é tanta coisa legal... tanta história. Tanto solo de guitarra, tanta maluquice, pra mim o velho ritmo deu origem aos trovadores modernos. Inovadores como o pessoal do Dante, do Petrarca, que escandilazavam Florença com os cabelinhos, a boemia e a criação de um universo de sentimentos, de idéias e imagens onde cabe o mundo inteiro e todo mundo.
Nunca tive dinheiro pra ser descolada, e também muito acesso a informações. Por exemplo, as bandas chegam pra mim com atraso, pelo rádio, pelos amigos e festas. Muita coisa em CD pirata, agora nas rádios pela internet da vida. Ou seja, se você me perguntar o que está na crista da onda agora, eu sinceramente não tenho a mínima idéia. Historiador vive atrasado.
Mas os Beatles, os Stones, Led Zeppelin, The Who, Cat Stevens, Creedence, Janis, Elvis, os pioneiros ( Chuck, Little Richard, Bill Halley, etcs, etcs), The Police, Clash, Smiths, os loucos da new age ( B-52's), o U2, REM, os 80's ( onde surgi, afinal), David Bowie, meu Deus, como recusar a companhia dessa gente? Como dormir depois de ouvir os Stones? Me diz, eu estou morrendo de vontade de pegar um Cometão e dormir na areia pra ver os velhos. Tá na playlist do show, Honky Tonky Women, essa ressuscita até gente escrevendo relatório da FAPESP ( comprovadamente uma das experiências mais cacetes que um ser humano pode ter)...
E tem as grandes paixões. Pra quem me lê há algum tempo, sabe que eu amo o Bruce Springsteen. Eu sempre fui fã, desde que era pequena, pra mim era uma figura masculina forte, positiva. E nos EUA, eu me enfurnei nas livrarias e li a bibliografia sobre ele. E acabei descobrindo uma história ótima.
Se você for ler algo sobre o Bruce, assim como sobre o Dylan, o Lennon, ou o Elvis, vai se deparar com polêmicas infindáveis. O Bruce se vendeu ao sistema na década de 80? Afinal, o Dylan gostava ou não dos hippies? O Elvis não morreu? E talvez a mais intrigante, porque o Lennon casou com a Yoko?
Mas o primeiro texto de um crítico sobre o Bruce, o primeiro que deu o que falar, é de 74, de um cara formado em História na Universidade Brandeis, conceituada pra cacete. O cara se chama Jon Landau. Esse cara era músico, tocava numa banda, e acabou virando crítico da Rolling Stones, na época áurea da revista.
Uma bela noite, Landau assiste um show do Bruce numa taverna. Os caras da banda estavam no início, o Bruce era um ilustre desconhecido. Bom, o Landau escreveu um texto dizendo que era madrugada, ele estava com 27 anos, casado com uma moça que não o compreendia, e sofrendo de uma doença rara. E que havia perdido, em algum lugar, o prazer que o rock lhe dava, na época da graduação.
Mas naquela noite, Landau viu "o futuro do rock, e o futuro do rock se chama Bruce Springsteen"...
O resto é história. O Landau virou empresário do Bruce, depois de uma briga judicial com o primeiro empresário do cara. Empurrou Bruce pro estrelato, produzindo um disco que agora tá fazendo 30 anos, Born to Run. Se você nunca ouviu, ouça, faça como eu, pegue na Terra Rádio, em mp3, roube do vizinho, faça uma macumba, sei lá.
Mas esse artigo é uma pérola. Porque virou uma experiência arquetípica: o cara ferrado que ouve o roqueirinho biruta e tem uma revelação. Hoje em dia o povo gosta muito do Nick Hornby. Ele é ótimo, porque revive a todo minuto nos escritos dele a experiência Landau. Pra mim, essa experiência é forte porque é uma recriação da relação artista-crítico, uma coisa que fascina desde o Baudelaire com o Delacroix.
Por isso eu gosto do rock. Porque ele tem a força da experiência estética. O resto é firula.

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