Canta, ó musa, as intempéries enfrentadas por esta pequena troiana, nas plagas do Piratininga, ao enfrentar a ira dos deuses do Olimpo para entregar seu terceiro relatório FAPESP, com pedido de prorrogação...
Tudo começou às sete e meia da manhã, quando o despertador tocou e acordou essa que vos escreve, depois de uma baita noite de insônia. Fui deitar quatro da manhã.
Meu etrusco acordou comigo e me levou no Hades ( Rodoviária de Campinas). Saindo da minha casa, tudo entupido, campineiros enlouquecidos com obras na Avenida Aquidabã, ironicamente chamada de Expressa ( de Expressa não tem nada)...
Peguei um Cometão. Na saída da Rodoviária, o motorista brecou forte e uma senhora que estava no corredor enfiando malas no bagageiro caiu. Só ouvi os "ai, ai, ai, estou morrendo"... pára tudo, desce o motorista, busca enfermeira e moças da empresa,que tentam, junto com o senhor de cara preocupada que se tornou instantaneamente o líder dos demais passageiros, dissuadi-la de prosseguir viagem e ser atendida num Pronto-Socorro.
Nisso, o ônibus ficou parado 50 minutos ( é, meus caros, 50 minutos), de uma lenga-lenga infindável. Eu não sabia, mas por lei a empresa precisa mudar o motorista, o ônibus, tudo, e dar total assistência ao passageiro. O pessoal da Cometa fez tudo isso, mas o que demorou foi a conversa com a acidentada, que ao mesmo tempo que se recusava a ficar e ser medicada, ficava gemendo e dizendo que estava pra morrer.
Cheguei na Rodoviária do Tietê com uma hora e meia de atraso. Precisava passar na casa do meu orientador, na Lapa, pegar assinaturas, e ir pra Batcaverna, vulgo FAPESP, que fica no mesmo bairro. Em vez da via-crúcis de pegar o metrô, descer na estação Paraíso, mudar de linha, descer na Vila Madalena e pegar um ônibus pra Lapa, peguei um táxi na Rodô mesmo, corrida fechada.
Mas o taxista, muito simpático por sinal, insistiu em ir pela Vila Romana. Pra quem não conhece, o bairro da Lapa, na nossa combalida capital, é um dos maiores da cidade, e tem uma engraçada peculiaridade: é na verdade um monte de morros, ou seja, ladeiras e ladeiras de quase 90 graus. No meio, tem essa Vila, em que todas as ruas têm nome de romanos. Nos perdemos no meio de Titos, Lívias, Augustos, até achar a rua do meu orientador.
Assinaturas pegas, tudo pronto, vou pra Batcaverna. E descubro: meu chefe mora no Baixo da Lapa, a FAPESP fica no Altíssimo da Lapa. Subo uma ladeira em 90 graus, sol de meio-dia, dez quarteirões. Entro na rua Cerro Corá, ainda muito longe da FAPESP; pego um ônibus. No busão, comecei a pensar que tinha esquecido um dos formulários X3POzeta; abro a mochila, a pasta, e nisso tudo...
A rua Cerro Corá sobe, sobe, sobe, e tem um ponto num supermercado Pão de Açúcar. Você desce nesse ponto; do outro lado, a mítica Padaria Dona Deôla anuncia que sim, você está na rua Pio XII, a rua da Batcaverna. Mas tem o seguinte: depois desse ponto, o ônibus vira uma transversal, a famigerada rua Bairi, outra ladeira em 90 graus. No meio do rolo de pasta, mochila, o escambau, o clássico acontece. Perco o ponto.
Puxo a corda desesperada. Todos no ônibus riem de mim; o cobrador e o motorista não dão sinal de vida. E vou parar de novo no Baixo da Lapa, dez kms depois.
Outra ladeira, chego na Batcaverna parecendo uma figurante de filme de Vietnã. Suando em bicas, fedida, parecendo uma Medusa. Estou lá, esperando o mocinho da FAPESP ver todos os meus erros e passar errorex em todos os meus formulários, e ouço a conversa de outros dois atrás.
As planilhas da FAPESP são no Excel, coloridas, pesadas, e mágicas: tudo que você põe nelas some. Pois bem: os dois funcionários da Fundação discutiam o fato deles não conseguirem imprimir o que eles próprios põem no site e obrigam todo mundo a fazer e assinar. Entrei na conversa e afirmei que tive o mesmo problema desde sempre. E sabe o que eles fazem? Me dizem assim, mas olha, a gente vai te passar o email e o telefone do cara que fez isso, e você reclama, por favor, porque a gente já cansou de mandar o dito ir catar coquinho. HAHAHAHAHAHA...

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