Sou considerada elite científica do país. Pago minhas contas com uma bolsa de doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
A gente está numa situação tão preta, na universidade, que sou um bicho raro, invejado pelos colegas, que têm que se virar pra levar seus cursos de pós-graduação. Muitos de meus amigos mandaram pedidos e não foram atendidos; a Grande Mãe me socorreu porque eu participava de um Projeto Temático, que inclusive já foi pro espaço.
Foram meses na biblioteca, escrevendo o projeto nos moldes da FAPESP. Quase não mandei, problemas de comunicação com o orientador.
Um ano depois, a hora temível. O relatório. Se você foi bolsista da FAPESP, sabe o que é. São trezentos formulários, todos coloridos e numa planilha do Excel que teima em sumir ou travar seu pobre micro. Você escreve tudo o que fez no ano, tudo que pesquisou, se justifica de todas as formas possíveis, explica até porque foi na casa da tia no Reveillón.
Nessa linda hora, onde o bolsista se acha a pior pessoa na face da Terra, o ser mais desprezível de todas as cadeias alimentares, e nem pode desabafar na cantina, porque senão corre o risco de ser linchado por todos os colegas que não tem bolsa nenhuma, quanto mais da FAPESP, sofri um terrível acidente de carro. De volta pra casa, onze da noite, com a Comédia, a Bíblia, um fac-símile da Crônica de Nuremberg ( livro publicado nessa cidade em 1497) e mais um monte de coisa no porta-mala, um louco enfiou o carro na minha porta.
Capotei duas vezes e quase morri. Por sorte, os livros saíram ilesos. Mas atrasei o relatório três dias, e tive que mandar a radiografia da minha cabeça e o BO do acidente pra Grande, descobri, Madrasta. Engraçado que eu tinha um piercing na orelha, na radiografia aparecia como se eu tivesse um parafuso... hahahahahaha....
Mas enfim. Desde então desenvolvi uma neurose Relatório FAPESP. Fico com medo de tudo: do negócio não ser aceito, dos caras mandarem mafiosos me matarem porque errei no CPMF dos cheques da Reserva Técnica...
Janeiro e fevereiro foi eu, em casa, ouvindo rock e escrevendo o bichinho que hoje ficou pronto, foi impresso e espera que sua dona o leve até a Batcaverna ( o prédio da FAPESP), lugar super bem localizado no velho Piratininga ( no Alto da Lapa. É, a Batcaverna fica no Alto, Altíssimo da Lapa. Eu sempre pego o ônibus errado e tenho que subir a pé o Gólgota).
Chega lá, é a lenga-lenga de sempre. Não, eu não trouxe o extrato da conta Reserva Técnica porque fiquei sem movimentar o dinheiro mais de 60 dias e a Nossa Caixa não dá extrato nesse caso. Não, eu esqueci de imprimir o formulário X3PO mas o GHJ&8zeta tá aqui. Depois eu saio e vou na Dona Deola. É uma padaria na frente da Batcaverna. Como um bauru e penso, elite científica é isso aí.

3 comments:
Toda a vez que eu ia entregar algum relatório na Fapesp eu falava para mim depois: Parabéns, agora vc merece uma recompensa. E ia no McDonald mais próximo me entupir de sanduba gordurento, lá perto da USP. Um dia falei, bom, deixa eu entrar nessa padoca porque to morrendo de fome e vai ser aqui mesmo que eu vou ganhar a minha recompensa. E era a entrega do relatório final. E não é que a padoca é chique e tem uns sandubas muito bons? Depois ficava com vontade de pedir bolsa para a Fapesp só para ter a desculpa de poder ir comer sanduba nessa padoca ai do lado da bat caverna....eita...O que nào é o desespero do ser humano passando maus bocados em SP...Ninguém merece...
hihihi, a Dona Deola é a melhor coisa de ser bolsista da FAPESP!
É, essa vida de elite intelectual cada vez me parece menos atrativa...
Viu só que fotinho chique? rs Depois tenho que mostrar pra vcs todas as fotos. Tiramos quase 300!
Ah, quanto ao alemão... Basicamente, em alemão tabajara, eu digo que tenho muito pra contar, como a quinta vez que eu apareço na tv: no jogo do Barça. Falo que tô com frio, sono, e tudo está fechado em Frankfurt.
Depois podíamos fazer algo, não?! A Cris sugeriu uma noitada com jogo e morritos! Ah, depois temos lembrancinhas pra vcs!
Beijos!
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