Quando eu era pequena, a gente lá em casa tinha um Gradiente prateado, e o rádio ficava ligado o dia inteiro. As fitas cassetes, laranja, da BASF, ficavam engatilhadas pra que, quando tocasse uma canção que alguém gostasse, qualquer outro apertasse o famigerado REC junto com o Play. Claro que na confusão da Saudosa Maloca, neguinho fatalmente cortava a música dos outros, o que gerava homéricas discussões.
Mas algumas músicas, artistas, eram unanimidades. E um desses, claro, era o Queen. E uma dessas, claro, era Las Palabras de Amor.
Eu ouvi durante anos essa canção numa das velhas fitas lá de casa. E quando tocava no rádio ( o que era raro) meu coração sempre se enchia de espanto: para mim, um paradoxo de pessoa tagarela e tímida, era inconcebível falar palavras de amor. Na minha cabeça, apenas um Lord Byron seria capaz de expressar o que eu sentia no fundo do coração, e claro, na minha cabeça tais palavras, mesmo se existissem, não seriam correspondidas. E também, claro, pra mim não existia a possibilidade de um homem dizer tais palavras pra mim.
Fui crescendo e aprendi que os poetas escrevem tais palavras, o que sempre me deixou muito grata a eles. E pra mim os ingleses do Queen também eram bardos, comparáveis aos companheiros do Dante, na Florença guelfa e malcheirosa dos inícios da era moderna. Na verdade, desde que os pastores da Arcádia cantaram seus amores, todos que falam as palavras de amor estão nessa bela tradição.
Hoje, chove. Hoje, eu me perfumei, pus um velho vestido. Hoje, ainda, eu não tenho coragem de falar as palavras de amor que eu quero tanto. Mas qualquer hora dessas, eu serei capaz de dizer o que sinto, no meio de um abraço, no meio de sorriso e de lágrimas.
http://www.4shared.com/audio/8Sox1QIN/08-Las_Palabras_De_Amor.htm

2 comments:
E você expressou uma admiração aos poetas que eu não estava conseguindo expressar. :)
Brigadaaaaaa! E eu achei esse post tão chulezinho. Beijos, bom carnaval procêis.
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