Monday, January 31, 2011

Carta a alguém muito longe

Você está muito, muito, muito longe. Na verdade, sempre esteve. Continua a viver tão longe que nem sei o lugar ao certo, é um lugar aonde nunca fui, e não faço idéia de como seja. Não faço idéia de nada do que pertence a esse lugar que é tão longe e é tão seu. Não sei se as mesmas estrelas que brilham aqui brilham onde você está, se vemos a mesma lua e se as nuvens que passam aqui, de repente, passam perto da árvore embaixo da qual você se senta, com sua felicidade e a mulher que o ama tanto a ponto de até eu, que estou aqui do outro lado do mundo, saber.
Sei de você as coisas públicas e portanto totalmente desnecessárias para mim. Seu cheiro, o brilho dos seus olhos e o calor do seu abraço, que seriam os meus tesouros máximos, permanecem mais longe de mim quanto Marte. Marte é algo possível; posso me inscrever nas listas das primeiras colônias humanas do planeta vermelho e me mudar pra lá, posso facilmente me inscrever também na Legião Estrangeira, ou atravessar a Cordilheira dos Andes, posso deixar de ser eu mesma e tudo isso será mais fácil do que meu caminho cruzar com o seu.
De tão longe que estou, observo algumas constelações da sua vida, que brilham a ponto de me cegar. Respeito e admiro a mulher que está ao seu lado; ela vive um sonho que eu não ousei sonhar. A vida dela está repleta de você, e eu aqui, no Pólo Norte, me acostumei a viver nesse frio. Fazer o quê, nem nos meus sonhos mais loucos você aparece, minha solidão é total e a escuridão é completa. Mas mesmo assim, eu olho pra cima e vejo o Cruzeiro do Sul, o símbolo da minha utopia que foi estar com você. Porque no fundo, no fundo, um domingo de sol, um mamoeiro e algumas palavras foram o suficiente pra construir a minha felicidade.

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