Sunday, January 15, 2006

Tratamento literário

Pois enfim, preciso dar um tratamento literário às minhas confusões interiores. Como você, filósofo pré-socrático, preciso escrever sobre a matéria e o Universo, e as prementes necessidades.
Te vejo me olhando num canto de olho distraído, mas será mesmo que tudo aquilo morreu? E aqui estou eu, de volta à transcendência mais barata e de almanaque. Oswald lascou pra Tarsila, "Ando desperdiçando beleza longe de ti", no verso de uma foto da fazenda. E o Largo de São Bento permanece invulnerável.
Já o de São Francisco guarda a lembrança da missa que mandei rezar pelo meu pai e pelo seu. Não adianta, estou presa na metafísica mais medíocre, coisa de gente que não tem refinamento, não adianta, moça fina não sou, apenas disfarço com bravatas fáceis de desmontar pelo filósofo.
Pego o metrô e desço na estação Paraíso. Com o mundo entalado na garganta. Difícil pensar nos movimentos dos átomos com essa dor presa no peito.

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