Sunday, January 08, 2006

O fascínio do brega

Eu já escrevi aqui que muito me admira o fato de hoje eu ser fã do Roberto Carlos.
Lá em casa, o bom gosto imperava. Tudo bem que até um certo ponto: seu Pedro e dona Meire não eram ouvintes de música clássica. Era Milton Nascimento, Chico Buarque e Caetano Veloso, além dos Beatles.
Mas, pra viajar, nos nossos Voyages metálicos, a gente tinha um toca-fitas. Lembro que era uma das primeiras coisas que meu pai punha no carro, um estojo com as cassetes. Nas longas e sofridas viagens pra Campos dos Goytacazes, a gente ouvia Milton ( o lindo disco Sentinela, de 82, acho), uma fita com coisas da Jovem Pan ( eu lembro que tinha a Morena Tropicana, do Alceu Valença, uma linda do Queen, e Memory, de um cara chamado Barry Manilow, conhece?), e outra, azul, que era a grande curtição. Eram os grandes sucessos do Abba.
Eu adorava aquela fita, apesar de não entender lhufas do que as moças cantavam. A única palavra que a gente entendia era Fernando, que lástima...
Outra paixão era o som lá de casa, um Gradiente prateado, daqueles enormes. Toda vida ouvi muito rádio, mesmo hoje não passo sem rádio, agora no caso a Terra Rádio, na internet. Ouvia tudo. Aos onze anos, ganhei o primeiro micro-system ( sim, lembram-se deles?) e o mundo da música popular, nacional e internacional, se abriu pra mim.
Escutava escondido, e baixinho, as estações de música brega. Os meus pais tiravam sarro, o meu irmão tirava sarro, e na escola então? Lembro bem que queria construir a imagem de uma garota séria, estudiosa, e isso não batia com música brega, de jeito nenhum.
Os leitores, por favor, me entendam nesse ponto. Eu gosto de música, todo tipo de música. De Bach a mpb, de forró a Erick Satie. Devo ser um dos raros casos de gente que gosta de Leandro e Leonardo e Billie Holliday, de rock pesado e Ray Conniff, eu gosto de tudo. A chamada música clássica, sem sombra de dúvida, inspira e alimenta. Mas como explicar o fascínio do brega?
De uns três, quatro anos pra cá, tá essa moda brega escancarada. De repente, é legal ouvir Sidney Magal a todo volume nas festinhas. É natural discutir horas a fio, via msn, telefone ou mesmo pessoalmente ( coisa rara hoje em dia) sobre Menudos. Ou sobre... Leandro e Leonardo. Tem música que deveria ser proibida pelo Ministério da Saúde: ou porque é muito infame, ou porque é glicose pura. Mas como explicar que multidões enlouquecidas, de todas as idades, raças, credos, classes sociais e leituras preferidas ( da Bíblia aos Manuscritos Econômico-Filosóficos do Marx, passando por Quem Mexeu no meu Queijo) possam se emocionar ouvindo Wando? Outro dia o Nando Reis, ele mesmo, super cabeça, declarou que é fã do Wando. Como explicar?
Eu tenho por mim que o brega fascina porque é divertido. É divertido quando é infame, tipo Tiririca; é divertido quando é romântico, porque quando você está no estágio de amar, se emociona até com Celine Dion, e quando você ainda não caiu na besteira de amar de novo, ou se emociona de lembrar do amor que se foi ou se emociona ao lembrar que um dia você já se emocionou daquele jeito. Ou ri porque mesmo que tenha lido as Obras Completas de Baudelaire, Verlaine e Rimbaud, sim, você é brega pra cacete!

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