Saturday, November 26, 2005

O clima pesou na Gringolândia...

Aos meus queridos leitores, peço desculpas pela melancolia e aporrinhação dos últimos posts.
Ando meio triste e pra baixo, sem grana e de saco cheio do frio. E acho que muitas coisas aconteceram nos últimos tempos, preciso esperar a poeira baixar.
Hoje eu fui pra Newberry, pra trabalhar pra me distrair. Eu lembrei que não descrevi a Newberry ainda aqui... pois bem. A Newberry é uma das maiores bibliotecas dos EUA, e é onde eu estou sediada aqui em Chicago, por assim dizer. É interessante a história: um dos homens mais ricos de Chicago, Walter Newberry decidiu, em seu testamento, que sua casa, aqui na Golden Coast, seria a primeira biblioteca pública da cidade. E deixou fundos pra sobrevivência da coleção, e das duas filhas, isso mais ou menos em 1860.
Nos 1880, a cidade ardeu. Tudo foi destruído, inclusive a biblioteca. Os homens ricos de Chicago decidiram reconstrui-la em duas partes: uma, a Biblioteca Municipal propriamente dita, com obras contemporâneas, e a Newberry, que não é uma biblioteca circulante. Ou seja, você não pode emprestar livros da Newberry: você só pode consultar no local. A maior parte das coleções são de livros raros; o destaque é o grande número de incunábulos. Os incunábulos são os primeiros livros editados, entre 1460, quando o Gutenberg inventou a tal da prensa, e 1500, quando os alemães maluquinhos sediados em Veneza inventaram novas técnicas de impressão.
Eu vim pra cá pra ver incunábulos. As primeiras edições da Divina Comédia. Vi todas, menos a de Florença, 1481, porque essa vai demorar uma semana.
Mas existe uma vantagem. Os livros até 1850 estão nas Coleções Especiais, e a gente só pode ver esses livros em um salão especial, onde os bibliotecários são todos fofos e existe um busto em mármore do Dante, com uma cara muito feia.
Os outros, podem ser consultados no segundo andar, ou, se você for pesquisador, ou melhor, Reserve Reader, você pede em fichas coloridas e eles levam no seu cafofo. Sim, no quarto andar, está a abadia. Um labirinto de escrivaninhas, tapete bem grosso pra não ter barulho, luminárias e gente mandando ver. Eu tenho um carrel na abadia, 4-59, e lá estão os meus livrinhos sobre iconografia pra Divina Comédia, a lista de restaurantes perto da biblioteca, e uma bandeirinha do Brasil.
A biblioteca é linda, linda. Organizada, limpa, fofinha. É uma pena, mas não posso tirar fotos dentro do prédio... sei que vou sentir falta da Newberry, que pra mim esse pedacinho de história chicagoan vai ser sempre, sempre, muito importante e querido. Coisas boas aconteceram na Newberry, e eu não gosto de ingratidão! Graças a deus os ricaços de Chicago tiveram bom gosto.

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