Comecei a escrever sobre História do Brasil há quatorze anos. Evidentemente, agora também faço parte da História do Brasil. Meu objeto de estudo eram algumas manifestações artísticas no período de 1964 a 69, o que se chamou, pela imprensa ( mais precisamente, Nelson Motta chamou) o Tropicalismo. Muito da minha empreitada era encomenda do meu pai, que achava, no início do primeiro governo FHC, que se precisava pensar os acontecimentos da ditatura militar.
Fiquei os quatro anos seguintes na biblioteca do IFCH e no AEL, vasculhando teses, memórias, jornais, revistas, atrás de alguma pista. Li tanto as entrevistas do Geisel e dos homens da repressão quanto os tocantes relatos do Gabeira e de frei Betto.
Claro que, nascida no início da chamada abertura, eu mesma não tinha memórias dos anos de chumbo. Minha mente alcança eu, batendo na TV, toda vez que aparecia Delfim Netto, ou ver pela TV o mundo de gente na Sé, nas Diretas.
Acompanhei, pelos anos seguintes, as discussões sobre o passado recente do país, meio decepcionada, e, depois dos governos Lula, totalmente deprimida. Muito horrível ver pessoas que se advogavam defensoras de valores de esquerda montarem esquemas nababescos de corrupção, e também, ver que o passado se distorce, se fere, se deturpa.
Não vi a cinebiografia de Lula, nem pretendo. Parece que o filme termina na prisão do nosso atual presidente, depois dos idos das grandes greves do ABC. Lembro que, pequenina, tinha fonoaudióloga na rua Tutóia, e passávamos sempre pelo DOI-CODI.
As distâncias da memória são ótimas pros desvãos dos discursos políticos. Eu me ressinto de que a construção da história do Brasil mais recente está marcada, crivada, por escolhas que me parecem meio equivocadas, quando não completamente equivocadas.
O problema é que, penso, não vejo na universidade sair reflexões melhores sobre tudo isso. Aliás, ando muito pessimista em relação à universidade. Não vejo o povo trabalhar no sentido de esclarecer as coisas, só vejo lutas internas e tudo isso, como disse no post abaixo, tá me cansando. Então, nesses dias de calor infernal, leio Machado e pronto.

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