Há uns dois anos atrás, recebemos a notícia da abertura do FAP Livros, o programa de compra de obras pros acervos das universidades paulistas, obra e graça da Madrasta FAPESP. Todos os pesquisadores doutores, inseridos em Projetos Temáticos, orientadores de bolsistas, etc e etc, poderiam enviar sugestões bibliográficas para a aquisição de livros.
Tanto o meu orientador, no IEL, quanto o Paulo, com quem trabalhei no IA, podiam enviar listas, e pediram colaborações, sugestões de todos. A recomendação era a mais doida possível: fazer listas de maravihas, ilhas paradisíacas e outros portentos da bibliografia internacional. Pensou-se que atirando pra cima, o tiro sempre cai um pouco mais embaixo, e no máximo os Tahitis em forma de livros não viriam, mas as Praias Grandes nos encantariam a vida.
Eu, sempre propensa ao pensamento utópico mais descabido, fiz listas fantásticas, com coisas surreais, baixando o catálogo das grandes editoras italianas. Claro que fiz isso de molecagem, pra compensar o desejo, no sentido mais erótico e deslavado que existe nisso, de ter em mãos a bela edição da Salerno Editrice de todos os comentadores renascentistas de Dante.
Pois bem. Estava eu em plena incursão da nau dos desvalidos do IEL, semana passada, chega professora Maria Bethânia, da área de Italiano. E ela me diz, Paula, chegaram livros belíssimos, raríssimos, Divinas Comédias ilustradas de sonho. Tudo isso ninguém sabe como veio parar aqui, porque tudo custou uma fortuna, uma fábula, ela me disse; uma edição lá custou nada mais nada menos que 2000 euros. E enquanto Bethânia falava, eu empalidecia e quase perdia os sentidos.
Por um motivo obscuro, a FAPESP aceitou minha lista absurda, e agora a Biblioteca do IEL possui um acervo completo de Dante ilustrado, comentado, e sei lá o quê mais. Hoje, livre dos compromissos do aniversário e calma diante do horizonte duvidoso e sofrido, habitual, da minha lascada vida ( o drama é fundamental numa mulher né não?) fui ter na biblioteca e saber dos portentos. E realmente, na estante já está esperando, pelos séculos vindouros, o Comentário de Piero Alighieri, filho do tiozão narigudo, e outras pérolas dantistas. E no processamento, porque não há estagiário nem funcionário, 90% das compras. Fizeram inglês, alemão, francês, espanhol, entrar primeiro no acervo; a brava língua de Leopardi ficou pra depois, talvez por ciúme das outras esquadras. Lá estava, numa caixa de papelão, a edição de 2000 euros das ilustrações de Federico Zuccaro, do séc.XVI, para o venerável poema do tiozão.
De vez em quando, por acaso, a utopia acontece. Fiquei me sentindo culpada, afinal o dinheiro do contribuinte paulista poderia matar a fome de várias crianças, ajudar gente que sofre de verdade. Isso que dá a pessoa ser doida.

2 comments:
Amore,
não se sinta culpada. Afinal de contas, sabe cumé Fapesp, se a gente não aproveita a verba que oferecem pra usar em coisa boa, vem outro neguinho gastar com coisa estúpida.
Aliás, neguinho devia inaugurar a Ala Paula Vermeersch da biblioteca.
Afinal, o povo brasileiro tem que saber que Dante não é o Gianechini na novela das sete. E ponto.
E eu tava pensando justamente em comentar o Dante-Gianechini! Post já! Beijos nenem!
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