Então, a pouco menos de um mês do meu aniversário, tenho pensado muito no meu bairro de origem. O velho Cambuci.
Eu nasci, a rigor, no Ipiranga; como a Independência brasileira, às margens deste. Mas com um dia de vida subi a ladeira e me instalei na Theodureto Souto, no coração da chamada Vila Deodoro, paralela à Lins de Vasconcelos. Meu avô, que já virou personagem do Meio, ( ver lá atrás), por obra e graça da minha conterrânea Dani Mônica, ops, Manica, era zelador num prédio ali. Meu pai, jovem engenheiro da Light, nos dias que se seguiram ao parto, foi convidado para trabalhar na CESP. E minha avó era brigada com minha mãe, o que fez com que a napolitana Dona Ofélia, moradora do primeiro andar e que fazia massas, me adotasse e me desse os primeiros banhos, me levasse nos primeiros passeios e me integrasse na cultura ítalo-paulistana.
Cultura essa que, no Cambuci, granjeia. Como já foi observado por importantes personalidades do bairro, como Alfredo Volpi, dona Ofélia, Dani Manica e o povo da comunidade do Cambuci no Orkut, o Cambuci não é um bairro: é uma garantia que você vai ser um monte de coisas.
Em primeiro lugar, você amará com todas as suas forças comer. É sabido que o melhor lanche da cidade de São Paulo é o da Chapa, o melhor pastel, do Yokoyama, o melhor espanhol, e uma das melhores pizzas. E padarias. E gente que cozinha de tudo. E muito. E que convida a rua toda pra comer. Comer faz bem e alimenta!
Em segundo lugar, você falará muitos palavrões. Em todas as ocasiões, de velório a aula em colégio de freira. Não temerá a opinião classe média de outros bairros, cidades e países, de que ser desbocado não é bom. Sim, você será desbocado. Perderá o amigo mas não a piada. Perderá a classe, a grana, a mulher, mas não o bom humor. Baterá o carro, quase morrerá, seu time perderá o campeonato, mas o Cambuci te segura. O sotaque te segura. Porque sempre terá alguém pra te zoar. E pra você zoar. E é tudo anárquico mesmo, o anarquismo em São Paulo, segundo consta, surgiu no Cambuci. O povo se escondia na igreja de Nossa Senhora da Glória, o agulhão em cima do morro, e jogava pedra na polícia de catapulta. Sim, porque no Cambuci o padre era anarquista e jogava pedra na polícia.
Não, o Cambuci não é fashion. Não tem prédio bonito. Aliás, não é bonito, ali perto tem a Baixada do Glicério, é feio, pobre, acanhado. Tem cortiço, tem mendigo, é sujo. Sim, quase é engolido pela gigantesca Móoca, pela fresca Aclimação, pelo contraditório Ipiranga. Mas o povo malha o Judas. Eu lembro que na rua dos Lavapés o povo sempre malhava o Paulo Maluf. Evidente que a polícia passava, o povo dizia que o Judas era o Judas. Era a viatura dar meia volta e ir embora e o povo punha os óculos e a plaqueta Paulo Maluf, o governador da época, e malhava, malhava, malhava.
As crianças do Cambuci achavam viável vender pipoca na rua. E jogar o tênis do amiguinho na fiação elétrica. Sim, porque em terceiro lugar, se você foi criança no Cambuci, você andava no Parque da Aclimação, teu pai te levava pra comer na Liberdade, e você achava a Catedral da Sé um portento. E seu peito tremia, quando, de Fusca, você singrava a Paulista. Ou ia ao Shopping Ibirapuera ver brinquedos que você nunca teria. Mas pelo menos você malhava o Judas e comia pastel no Yokoyama. E morava perto de Volpi e não sabia!

2 comments:
E viva o Cambuci!!!
Muito bom, amiga, amei.
Ou melhor, do caralho.
Beijo.
Do cacete! HAHAHAHAHAHAHAHAH!
Beijos Dani M(ônica), da única panda do Cambuci!
E você sabia que morava perto do Volpi, sua marrrrrrrdita!
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