No meu primeiro ano de Ciências Sociais, fiz o curso de Política Clássica com a mestre jedi Amnéris Maroni. Pequena no tamanho e carinhosamente apelidada, por mim e pela minha mãe, de duendinha, vinha dar aula na IH 02 lotada por calouros burros de guarda-pó branco, impecável. Às duas horas, Amnéris começava as suas análises meticulosas, perfeitas. Eram sempre duas aulas sobre ensaios de grandes historiadores sobre o período do pensador que vinha a seguir: Jacob Burckhardt e sua "Cultura do Renascimento na Itália" abriram o universo de Maquiavel; Christopher Hill o de Hobbes e Starobinski, o de Rousseau.
Era um universo múltiplo, enriquecedor ao extremo, apesar da braveza sem limites da supracitada mestra. Um dia o Smith, de saudosa memória no IFCH, chegou às quatro e meia e sentou na primeira fileira ( as duas primeiras fileiras sempre ficavam vazias, todo mundo se espremia no fundo de medo da pequena duende, com nome de princesa egípcia vilã de ópera do Verdi) e começou a coçar o pé sujíssimo na havaiana desbotada. E a mestre, que compartilha o sobrenome com ninguém menos que Públio Virgílio, discorria concentrada sobre a máxima maquiaveliana do "É melhor ser temido que amado". Smith:" Pô, Amnéris, o príncipe só quer ser amadoooooooo".
Amnéris sempre nos chamava de senhor e senhora. E pelo sobrenome. Então pra ela eu era a senhora Vermeersch, e não tinha conversa. E nesse dia o tempo fechou e Amnéris bradou: "O senhor Smith tem a cara de pau de chegar às dezesseis e meia da tarde, sentar na minha frente e coçar seu pé sujo e fedido nessa havaiana maldita e ainda me dizer a maior bobagem proferida por um ser humano desde os tempos da escrita cuneiforme dos sumérios. Pois o senhor suma da minha frente, senhor Smith, senão serei obrigada a lhe rogar uma maldição terrível!".
Outra peculiaridade da duende-egípcia-etrusca: ela é jungiana. De carteirinha. Talvez, depois da dra. Nise da Silveira, a maior apaixonada pelo dr. Carl Gustav na terra brasilis. O nó-górdio da questão é que Amnéris era jungiana depois de ter sido, muitos anos, uma das marxistas mais articuladas das plagas do IFCH, e autora de um estudo célebre sobre as greves de 68 ou 78, nunca sei direito, porque ela renegava esse livro. Ela dizia, de forma sincera e heterodoxa pra academia, que havia sofrido uma experiência de descentramento psíquico violenta, uma descida aos infernos trágica, e desse processo de sofrimento atroz ela havia saído outra. E que a obra de Jung condensava seu ideal de vida, seu projeto intelectual mais completo.
A erudição, a braveza e a doçura inesperada fizeram da Amnéris, pra mim, uma heroína. Eu tive a coragem de fazer o Leviatã do Hobbes em quadrinhos pro seminário dela, a melhor coisa que fiz em todos esses anos de universidade. No último dia, ela falou que queria aceitar alunos pra projetos de iniciação científica. Eu estava sentada no fundo, com um vestido florido que ela elogiava muito, e que eu comprei no Bom Retiro, na compra de roupa que meu pai me deu "pra poder ir pra Unicamp"( antes disso, não tinha roupas, porque nos anos do colegial usei uniforme, e algumas peças velhas de ficar em casa). Levantei emocionada. Mas detalhe, estava menstruada e uma colega invejosa logo veio me dizer que o vestido tava manchado. Pensei, que se lasque, eu queria tanto essa bolsa, queria tanto que Amnéris fosse minha orientadora.
E assim foi. Muito, muito, muito aprendi com ela. Nos anos que se seguiram, minha vida girou em torno de várias questões apresentadas por ela, solucionadas prematuramente por ela, ou que ela enunciou pra mim. Em várias ocasiões ela foi terrível, mas em todas ela me abriu o caminho. E hoje, na cama, li o final da autobiografia do mestre da minha mestra. Ele escreveu, ainda jovem, uma obra de caráter gnóstico, sermões para os mortos. Uma coisa bela, intrincada. E é linda a idéia de Jung, que os mortos precisam dos vivos para conhecer: porque só mundo das três dimensões pode-se entender os processos. E que os mortos só sabem o que sabiam no momento da sua morte. Pensei no porquê de ter estudado o personagem Virgílio na Comédia: e a relação Dante-Virgílio é exatamente essa: o passado, a memória, unido ao calor do afeto, do sofrimento de quem vive. E o Bruce, de quem eu gosto tanto, tem uma canção graciosa no Human Touch, chamada Soul Driver. Tem pessoas que são Soul Drivers, vivas e/ou mortas.

3 comments:
E, graças à aula da Amnéris e aos seus brilhantes quadrinhos, larguei a biologia e fui parar no IFCH.
vocês duas são minhas mestras Jedi.
Te amo, querida!
Dani
Eu também te amo, Nenem!!!!!!!!
Aliás, realmente o Hobbes em quadrinhos foi a melhor coisa que fiz na universidade. Dani Mônica também concorda!
Post a Comment