Madonna del Padiglione. Sandro Botticelli, c.1493. Têmpera sobre madeira, 65 cm de diâmetro. Milão: Pinacoteca Ambrosiana.Quando eu era criança, tinha verdadeira paixão por estojos em geral. Lembro dos de madeira, com tampa deslizante, depois os de tecido, os fatídicos de botão ( a gente apertava botões e lá vinham uma lupa, uma régua e outros rejuntes) e os de lata, pesadelo da classe ( caíam no chão e já viu). Lembro dos de couro, com elásticos pra prender os lápis. Não tive muitos lápis, canetas e lapiseiras, nem estojos muito bonitos. Sofria nas aulas de Arte, no ginásio, porque só tinha lápis da Labra e a professora quase me bombou por isso, nem tintas e pincéis adequados.
Então, hoje resolvi escrever um post-estojo de presente. Uma Madonna do Botticelli das menos conhecidas, dos "amigos de Sandro" como dizia o historiador Bernard Berenson.
Nunca estudei com afinco a chamada Teoria Crítica, apesar de um amor infundado por alguns dos aforismas da Dialética do Esclarecimento ter me levado a um dia, surpreendemente nessa encarnação, ter defendido um mestrado sobre Adorno. Nunca havia lido Walter Benjamin, até o dia de hoje, onde o Rua de Mão Única me chamou, na estante. Me senti várias vezes ali, o que não me surpreendeu; uns trechos do Diário de Moscou haviam suscitado isso, e eu sou muitíssimo ignorante pra realmente compreender Benjamin. Mas lá vai uma frase do grande pensador: "O olhar é o fundo do copo do ser humano", Walter Benjamin. Rua de Mão Única, pg.49.
Não sei o que fazer no dia do meu aniversário, um sábado que promete ser um forno. Aliás, não sei o que quero fazer da minha vida, mas tudo bem. Andei angustiada e triste, como sempre, mas não desesperada. Sem São Paulo, o meu dono é a solidão, como entoa 365 no Neguinho do Pastoreio. Tinha pensado em ir assistir uma missa na igreja do Cambuci, tive vontade de ver umas pessoas e com toda a sinceridade, tive vontade de sumir do mapa e só aparecer cinco dias depois. Mas faço 30 anos, o tempo urge e ruge. Num telefonema, um amigo me devolve ao normal da vida. Segundo ele, não cheguei ao fundo do poço, que seria usar calcinha sem elástico ou com o elástico frouxo.
E hoje eu tenho lápis, canetas Stabilo, e um jogo completo de coisas da gatinha Marie, dos Aristogatas. Não derrotei tanto assim, apesar do sol maldito que peguei no meio-dia pra poder conversar com quem eu queria. Aquele calor, o sol e o nervoso fundiram meus miolos, mas a tudo a gente se adapta.

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