Sunday, September 23, 2007

Risco azul sobre tela preta

Eu estava desanimadíssima, tendo uma crise de angústia atrás da outra. E na véspera do meu aniversário, resolvi tomar uma providência ( poderia tomar a cachaça mineira Providência também, mas só tava com uma pinga artesanal em casa, da qual tenho medo). Ou melhor, umas providências.
Eu tava sem vontade de ver ninguém, nem de fazer nada. Mas no meio de uma crise de angústia ( mais uma, nessa semana de recordes de crises de angústia) resolvi ligar pro Zé. O Zé, o Luís Fernando e o Flávio têm, em comum, uma rara capacidade: eles me salvam da angústia com três palavras idiotas e o riso franco de quem não leva a panda nem um pouco a sério. O Zé falou que o fundo do poço tinha mola, e no meu caso a mola era bastante elástica, e que era pra parar de bobagem e combinar logo de ir no Cambuci, pra espairecer. Detalhe, Zé vem do Cambuci, Luís Fernando de perto do Bauru e Flávio, de Minas, de modo que três partes da minha alma ficam contempladas ( Celso do Rio. Nunca tinha parado pra pensar nisso. Enfim, amigos e alma se espelham).
Liguei no Flávio a cobrar. Ele no CRUSP me informa bem delicadamente que se era pra ligar a cobrar, que eu ligasse do orelhão. E Luís Fernando fala no msn, sua orelhuda, vá passear um pouco, vai na igreja que você sossega o facho e dá um pouco de paz pra mim. Tão bom se sentir querida, né.
Daí no meio disso tudo me deu vontade de jantar no japonês de Barão e toca entrar no emeesseene pra combinar, e no meio da maluquice eu vejo um risco azul, fino, varar de ponta a ponta, verticalmente, a tela do Caronte. E taca falar com um, com outro, constato que o LCD ( vulgo tela) do barqueiro do inferno sofreu um abalo. Me chateio horrores, Caronte apesar de dar pau é bom companheiro diário,e a risca azul me irrita profundamente, um Poltergeist me lembrando que eu não vou ter grana pra consertar.
Enfim, com risco azul e tudo combinei japonês, caipirinha de saquê com morango e muito sushi. No dia seguinte, às sete da manhã, minha mãe como há trinta anos atrás me acorda pra vida. Me diz coisas bonitas, emocionada. Vindo dela seria o maior presente que eu poderia querer, porque há trinta anos, apresentada à minha pessoa embrulhada num cobertor pela dra. Iracema, dona Meire lascou, que menina feia.
Fui pro Piratininga, atrasada como sempre, eu sofro de várias coisas crônicas ( sinusite, asma, bronquite em geral, prolapso da válvula mitral, dislexia, déficit de atenção, esquecimento múltiplo, angústia, miopia de dez graus e atraso constante). Zé me busca no Paraíso e a gente se perde na cidade, em busca do tempo e do caminho pro Cambuci perdido. Mas uma hora começo a reconhecer coisas, coisas que não via há mais de quinze anos, sei lá eu. A saída pra Radial Leste, da Nove de Julho. A Baixada do Glicério, a rua São Paulo, onde moraram meus avós. Zé faz uma viradinha embaixo do viaduto, que em tempos idos foi a Rodoviária de São Paulo, e de repente eu me vejo com meu pai no carro, voltando pra casa. O INSS, e a gente vira mas a mão da rua tá do outro lado. E do nada surge a virada da Lavapés, e lá em cima, a Igreja Nossa Senhora da Glória, Paróquia de São Joaquim.
Tudo me comove, por estar exatamente igual. A especulação imobiliária ainda não chegou e as vilas, as casinhas operárias estão lá, bem cuidadas, as casinhas Volpi. O bairro é tranqüilo; não existe trânsito nem na Lins de Vasconcelos nem na Lacerda Franco, as duas artérias principais. As ladeiras. As casinhas. As lojas são as mesmas, vejo a ótica dum grande amigo dos meus pais, A Chapa, onde se come o melhor lanche da cidade, e do lado o Yokoyama, a pastelaria celestial. Não tem metrô, não tem ônibus, isso explica o isolamento, o ar de cidade do interior, e mesmo a deterioração é igual a trinta anos ( os mesmos cortiços, as mesmas crianças descalças na rua). Tudo me comove por brilhar, por estar lá, por existir sem grandes mudanças. Talvez eu não tenha mudado tanto também, algo dentro de mim é o mesmo.
A igreja reluz de tanta tinta suvinil, obra e graça dos paroquianos animadíssimos e que em termos de patrimônio histórico, equivale a uma bomba. Mas o que me comoveu fundo foi o fato de a igreja, no alto do morro, dar vista pro centro inteiro: a cúpula da Sé, o prédio do Banespa, resplandecem em meio à névoa, que é 99% poluição e 1% a mesma desde os séculos passados. Do morro se vê o caminho antigo pro litoral, hoje a Radial Leste, que realmente num momento vira o sistema Anchieta-Imigrantes. A igreja tem de um tudo; na verdade, um dos templos mais antigos da cidade. A paróquia do Cambuci seriam duas, a Glória e São Joaquim, mas a segunda igreja nunca foi construída, restando pro pequeno aguilhão neogótico o amor irrestrito do bairro. Na minha lembrança e nas fotos do meu batizado, a igreja era sóbria, fazendo par com a Sé. Eu e o Zé trocamos observações sobre milhões de coisas, e eu fiquei num estado de espírito muito peculiar que se convencionou chamar felicidade.
Fomos almoçar na Móoca, bairro da família dele, e depois rumamos pra Cultura do Nacional, onde encontraria o mineiro Flávio. No café, uma surpresa que foi um presente do acaso, dos deuses, do Deus hebreu: avisto o velho de olhos negros dr. Na Prática, acompanhado de lindas mulheres, dentre as quais a eleita do seu coração. Falamos sobre tantas coisas. Sobre o passado mas principalmente calamos sobre o mais importante, o laço de afeto, como convém às grandes ocasiões. Celso me conta do sucesso inesperado do Meio do Caminho no Banco Central (???), então aos meus leitores de lá, um beijo carinhoso.
Depois foi Flávio, me presenteando com Ataíde e com seus olhos azuis e sua mansidão das Gerais. Chorei muito. De felicidade. Depois amigos no celular, de longe, de perto, de todos os lugares. Sou feliz. No jantar, uma conversa sobre se existe justiça ou não no mundo. Se vale a pena ou não ser ético. Sim, vale. Porque a verdadeira felicidade só existe na beleza do momento em que a gente se reconhece gente.

4 comments:

Na Prática said...

Paulinha!

Estava com saudades! A assembléia da mulherada lá de casa resolveu que você é muito gente boa.

Feliz Aniversário de novo, picareta!

Maria said...

Seu estrupício! Só o acaso pra unir o que ele próprio separou!

Adorei a mulherada também. A propósito, eu tô te devendo o docinho... beijos pra todos!

Na Prática said...

Se pagar o docinho leva uma muqueta.

Maria said...

E eu amarrei a fita vermelha do docinho na minha bolsa de recordação, seu trouxa!