Tuesday, July 03, 2007

A arca de Noah Kalina


O Portal Terra sempre me atualiza nas bizarrices do mundo atual, o que talvez seja um contrapeso pro século XV. E aí vi na seção "Celebridades da Internet" o projeto do fotógrafo americano Noah Kalina.


Desde 2000, quando tinha 19 anos, Noah Kalina tira uma foto sua, todos os dias. Todos os dias. Li na Wikipedia e depois vi no Youtube ( que, junto com o Google, são a Santíssima Trindade do Ciberespaço) que outra moça, Ahree Lee, havia feito o mesmo e colocado o resultado no Youtube ( tá lá também, em sua bonita face asiática). Mas Noah começou antes, e seu registro é maior, apesar de ter dito em entrevistas que Lee o inspirou a dar vazão à essa produção. De qualquer forma, o que seria uma bizarrice, pra mim virou um início de uma reflexão que achei digna da perspicácia dos meus caríssimos leitores.


É incrível ver o tempo passar, na sucessão de cortes de cabelo, barbas por fazer, roupas e cenários, no mesmo rosto impassível e de grandes olhos de Noah. Me fez lembrar os retratos antigos de Fayoum ( acima), os retratos funerários dos cristãos egípcios de grandes olhos e que venceram séculos em sua enigmática beleza. O que remete, à pequena historiadora da arte mirim, várias questões sobre o chamado gênero da retratística. Celo que anda debruçado sobre esse problema, poderia nos ajudar aqui: sempre se associou o retrato à necessidade de memória, de eternizar o efêmero por excelência, a figura humana. O retrato esteve associado aos ritos e cultos funerários, e mais tarde ao poder político. Se isso estiver correto, o projeto de Noah é bizarro, caiu no bricabraque da internet, mas me fez pensar em várias coisas.
Noah construiu uma arca, no seu próprio rosto, para enfrentar o tempo. Interessante que fez isso em plena juventude, o que me dá uma tristeza indizível. Pensei primeiro em mim, e no não-registro que fiz do meu rosto nesses anos de juventude ( ao contrário de Noah, passei anos e anos sem tirar fotos,e se as tirava era por acaso e não as guardava nem via. Empatei em obsessão com Noah, mas no sentido inverso). Depois pensei no espelho de Narciso. Mas, como nos mostrou Caravaggio, nas águas ficou eternizada a expressão embevecida do belo jovem, prestes a morrer de amor por si mesmo: na expressão concentrada e ao mesmo tempo terrível de Noah, não há embevecimento, não há piedade, não há escamoteamento. É realmente uma face de patriarca do Antigo Testamento, irônica e contundente, mas não um ícone: a face de alguém. O que também é espantoso nos retratos de Fayoum: as faces de alguém que se foi ( no caso, há séculos), e em Noah, o tempo que foge. E terminei ouvindo Bola de Meia, Bola de Gude, do Milton: há um passado no meu presente.


http://www.youtube.com/watch?v=6B26asyGKDo

http://en.wikipedia.org/wiki/Noah_Kalina

http://www.everyday.noahkalina.com/

2 comments:

Skywalker said...

Interessante o post amore. Além do meu comentário feito lá no ancientportraits.blogspot.com, o que eu tenho a dizer e que é muito mais importante é que a Sra devia parar com essa frescura e me deixar tirar fotinho sua, porque assim não dá! E tenho dito!

Maria said...

Eu sabia que ia descambar... beijos, lindo.