Thursday, July 05, 2007

Das atuais letras

Falar em Eduardo Sterzi, poeta, ensaísta e amigo, ex-editor da revista Cactus e atual editor e colaborador do jornal K ( que revive os gloriosos tempos dos pasquins literários, como o Nicolau paranaense), pra mim é falar da Verônica Stigger, companheira-comparsa do Eduardo em tais atividades, ela mesma escritora, ensaísta, etc e tal. A Verônica lançou, pela Cosac &Naify, agora em maio, Gran Cabaret Demenzial, uma experiência literária onde mescla poesia, prosa, sátira e tragédia, com bastante coragem e contundência.
O lançamento do livro da Verônica foi acompanhado pela panda com um vestido estampadão Renner, escova no cabelo e direito a fofocas das rodas literárias campino-paulistanas. Sou suspeita pra falar dos Stigger-Sterzi, mas de qualquer forma admiro a capacidade da Verônica em criar, muitas vezes, pelo non-sense e pela escatologia, uma crítica afiada do princípio "a literatura contemporânea é sei lá entende". Verônica está na Feira de Paraty, nesse momento.

Bom, o lançamento do Cabaret foi anunciado por algumas reportagens em vários jornais, dentre as quais uma entrevista coletiva dela com outros jovens escritores e poetas, identificados pelo texto como "a nova geração" ( Folha de São Paulo, Ilustrada, 12/05/07). Em outros lugares o livro da Verônica, suas propostas e as da tal "nova geração" ( a imprensa sempre tem que rotular as coisas, pro leitor não se perder e achar que está na crista da onda) apareceram, nos últimos dois meses.


E daí no domingo, o professor Alcir Pécora, diretor do Instituto de Estudos da Linguagem aqui da Unicamp, escreveu uma crítica à parte da produção dessa tal "nova geração", incluído o livro de Verônica. No jornal, a crítica saiu junto com uma ilustração de um velhinho, numa poltrona, de costas para o espectador, jogando uma massa de livros no chão. Apropriada a ilustração, devido ao tom corrosivo do autor: começa o texto detonando o livro da filha do dramaturgo Dias Gomes. Depois, falando de Verônica, comenta que a imitação de Hilda Hist não valeria a pena, e destaca:
"O livro ostenta humor negro; pretende-se desbocado. Aspira a inteligência aguda. Não vai além da amplificação escatológica de situações banais, sem que a amplificação chegue a constituir questão, mais do que figura, ou a escatologia mais do que referência afetada. Evidencia o procedimento a narrativa de um casal de estudantes morando em cubículos, cuja situação vai sendo amplificada até a literalização escatológica do espaço mínimo. Por vezes, o humor negro e o nonsense ganham feições denuncista, como no caso do casamento inter-racial no qual a crueldade dos pais do noivo branco é castigada, assim como a beleza da noiva negra é reconhecida. Quer dizer, o humor negro se contém nos limites do admissível genérico que compõe o cenário pós-moderno. O mundo dos pretos feios e das crueldades sem castigo passa ao largo." E depois:
"Acontece que no Brasil já existe uma Hilda Hilst. É bobagem imitá-la. Mesmo porque, excessiva como é, não admite imitações que prestem: imitam-se os sestros, e deixa-se passar o essencial, que é a obsessão da franqueza e da verdade."
Bom, fazendo a crítica da crítica, ou como diriam Marx e Engels na Ideologia Alemã, a crítica da crítica da crítica. Não considerei que Verônica imite Hilda Hist. É evidente que as referências ( pra usar um termo bastante em voga nas reportagens sobre a atual produção literária) da jovem escritora passam pela bruxa Hilst, e por Leminski e tudo o mais. O non-sense, o escatológico, o humor negro, tudo isso confere. Mas acho que Verônica quer dar um passo além.
O conto ao qual Pécora se refere é uma narrativa do casamento inter-racial entre um moço branco e uma moça negra. A família do moço constrói uma festa de casamento cruel, com purgante nas bebidas, giletes nas cadeiras, e uma piscina com curto-circuito elétrico, bem como um capacho à entrada com cola super bonder, e convida "aqueles negros". O que ocorre é uma tragédia (não vou narrar aqui). E Pécora denuncia o que seria um lugar-comum pós-moderno, pretos legais- brancos filhos da puta, sendo que realidade seria mais ( "o mundo dos pretos feios e cruéis", onde estaria?). O politicamente correto é um lugar comum pós-moderno, sim. Mas na narrativa de Verônica tudo é satirizado, inclusive esse mesmo lugar comum que Pécora cai, a crítica pelo avesso ( é claro que o crítico esperto, que também aspira à inteligência aguda, detestaria a denúncia social e a reduziria ao estereótipo do politicamente correto pós moderno. O óbvio, enquanto isso A inserção do negro na sociedade de classes, do Florestan, pega poeira na estante).

Considerei que o artigo de Pécora é antipático. Coisa de gente que tá em cima e claro que não vai gostar dos novos: fácil colocar os novos no mesmo balaio e dizer ao conservador leitor do Estadão, em seu domingo sem preocupações, que nem se preocupe com as atuais tentativas dos jovens em fazer Literatura, porque tudo nessa produção é óbvio demais. Sendo que a própria crítica que faz também recai na obviedade: crítica e produção estariam empatadas. E vamos às Teses contra Feuerbach.



A bibliografia está:




Press release da Verônica na FLIP, tem um perfil dela e um artigo sobre o Cabaret, por Fabrício Carpinejar: http://flip2007.wordpress.com/veronica-stigger/



Reportagem na Folha sobre a tal atual nova geração: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1205200707.htm


E, finalmente, o artigo do Pécora:

2 comments:

Anonymous said...

Do mesmo Pécora:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/
mais/fs1706200704.htm

O link vai em duas linhas, só pra garantir.

Maria said...

Uia! E tem continuação da polêmica ali em cima, Marcelo Rubens Paiva se manifestou hoje. Veremos!