Hoje eu fui ter com o velho Michigan. Moro a uns quatro quarteirões desta imensidão azul e que muda minha concepção de "gelado"... o "gelado" pode ser sempre mais "gelado", essa é a verdade.
Andando pela Lake Drive, achei os túneis para os pedestres irem para a praia. É, dá praia esse pedaço de geleira. No calor, o povo se joga mesmo, tudo nessa vida refresca. Agora, início de outono, a brisa gelada diz que o Michigan está respirando, e trazendo o frio. O dia, ensolarado, céu de brigadeiro, como se diz em aviação, convidavam ao passeio e às reflexões inúteis.
Você atravessa estes túneis, e dá com o Lago. Nas margens, um pouco de areia, pedras ou grandes degraus de cimento. Toda a segurança possível, etcs, etcs, estamos falando de EUA, enfim...
Tem um parque ao lado, com as inevitáveis árvores gigantescas, começando a amarelar. E depois, o tal Navy Pier, um parque de diversões também gigante. Tudo aqui é gigante...
Sentei-me às margens da divindade potawatomi e entreguei-me a uns dos piores pecados: a preguiça.
É que do outro lado, o skyline inteiro dessa cidade arrojada e elegante despontava, na orla. Senti aquela preguiça que a gente sente diante do que é bonito: no Rio, também tenho vontade de deitar e ficar vendo a vista. Roma, etcs, etcs, lugares bonitos dão preguiça. Depois de dias difícies, eu me encontro comigo mesma, com a cabeça numas músicas, entendendo essas músicas, e ouvindo o Lago resfolegar, se encrespar e ficar frio, muito frio.
Quando eu era muito jovem, mas muito jovem mesmo, li o Poder do Mito, do Campbell. Meus amigos antropólogos podem me desancar: esse livro é horrível, não presta, e tudo o mais. Mas me lembrei de uma história, aqui de uma nação indígena das terras que mais tarde deram nessa confusão de EUA. A história de uma moça que se casou com um cara, e descobriu que ele era um feiticeiro, que se transformava em cobra, como todos os parentes dele. Depois de várias peripércias, essa moça se dá conta que o cara não prestava, vamos dizer assim, estava a serviço do mal.
Ela corre, corre, e o feiticeiro da tribo dela a puxa para cima... ela estava vivendo dentro de um lago. Depois de tanta beleza, e um belo omelete de três ovos, café fraco e água gelada, dormi no sofá e sonhei que entrava dentro do lago. Depois, sonhei que saía, e isso foi de um extremo alívio. Aí lembrei dessa história e achei engraçado, e decidi que Oak Street Beach é um dos lugares mais bonitos que eu já vi, na minha vida.
Ela corre, corre, e o feiticeiro da tribo dela a puxa para cima... ela estava vivendo dentro de um lago. Depois de tanta beleza, e um belo omelete de três ovos, café fraco e água gelada, dormi no sofá e sonhei que entrava dentro do lago. Depois, sonhei que saía, e isso foi de um extremo alívio. Aí lembrei dessa história e achei engraçado, e decidi que Oak Street Beach é um dos lugares mais bonitos que eu já vi, na minha vida.

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