Quero pedir desculpas pelos erros de português que andei cometendo. Lendo o post abaixo, vi um estinção. O que está em extinção é o meu português... nesses últimos dias, não falei língua nenhuma. Falo uma mistura de inglês, português e espanhol ( esse com meu porteiro mexicano, e não vai do Arriba! Buenos dias! Buenas noches! etcs, etcs).
É horrível, e pra piorar, tenho que ler um monte de coisa em francês e italiano. Línguas das quais não domino nada ou quase nada.
Mas o pior foi com a companhia telefônica daqui. Graças ao financiamento da turma do Alckmin, aluguei um apartamento da Biblioteca. As bibliotecárias me deram um 0800, para ligar para a tal SBC e "set up a telephone service"...
Bom, na segunda-feira, do orelhão do saguão de entrada da Newberry, liguei pro tal 0800. Uma gravação atende, e eu compreendo que devo apertar o botão #, porque não recebo nenhum auxílio da previdência daqui, não pago conta de luz junto com o telefone e, o que é mais importante, não tenho nem nunca tive telefone nenhum nos EUA.
Depois, entendo que preciso apertar o número 2, porque se não me enquadrei em nenhuma das alternativas anteriores, que raio estou fazendo nesse serviço. A gravação informa que minha ligação será gravada, para fins de qualidade no serviço.
Música clássica ( acho que é Mozart) e atende uma representative service. Todas aquelas coisas de praxe, que bom que ligou pra nós, blablabla, e a mulher me pergunta em que posso ajudá-la. Digo que sou pesquisadora numa biblioteca pública em Chicago, e que aluguei um apartamento e gostaria de set up a new telephone service. Ela me faz as mesmas perguntas do menu, e digo que não, não recebo nenhum auxílio de previdência social, não, não pago a conta de luz junto com o telefone, e não, não tenho nem nunca tive telefone nenhum nos EUA.
Ela fica meio brava. Me diz para falar meu nome. Eu me confundo, e digo meu sobrenome. Que, para quem acompanha esse blog, sabe que é a única herança que seu Armando deixou pra mim: um sobrenome ilegível em qualquer língua que não seja o holandês.
Ela se atrapalha, eu também. Entendo que é o primeiro nome, e digo o latino e fácil nome que meu pai me lascou na pia batismal. O sobrenome, please, aí é a tortura... preciso soletrar, e não consigo! O alfabeto em inglês me foge da cabeça completamente.... peço desculpas, digo que estou aqui há uma semana apenas... e nada do ABC dos Jacksons Five aparecer na minha combalida mente. Vou me enrolando cada vez mais, e a mulher perde a paciência, diz que não consegue me entender, e que vai me passar pros atendentes que falam polonês ( ???). Vejo que minha situação vai piorar, e digo que me passe pra quem sabe falar Espanhol...
Bom, atende uma moça que diz Hola. Detalhe: nunca em minha vida inteira em estudei Espanhol. Eu não sei falar Espanhol. Digo isso em inglês, a moça ri... e me pede para soletrar meu sobrenome. E eu soletrei de um jeito que seu Armando, onde quer que esteja, está rindo até agora: "a violet, an elephant, a rose, a mouse, two elephants, other rose, a serpent, a city, and a ... a... hydrogen"...
A moça me pede para que eu passe um fax com cópias de duas identidades e comprovante de endereço no Brasil ( ????). E me pede um número para contato. Explico que não tenho o número para contato, ( não, não é piada), que estou falando de um orelhão numa biblioteca pública. A mulher insiste. Sou obrigada a sair do orelhão, correndo e levando uma bronca do chefe de segurança daqui, e pegar qualquer folheto da biblioteca. Passei o primeiro número que vi.
No outro dia, trago xerox do passaporte, do visto, faço um xerox do meu RG com o moço daqui da biblioteca ( que ficou olhando meu RG como se fosse algo vindo de Marte) e peço para Erin, a superauxiliar de bibliotecária daqui, passar o fax pra mim. Ela gentilmente acede, mas me faz ver que o número está errado. Desço as escadarias, vou pro orelhão, enfrento o 0800 de novo e peço prum moço gentil e bem educado o número correto. Ele me informa e explica que, se eu passar o fax o quanto antes, meu telefone será ligado no dia seguinte.
Erin passa o fax pra mim. No dia seguinte, ligo novamente no 0800, tudo de novo, soletro meu ilustre sobrenome flamengo, aparentado do grande pintor, do jeito mais tosco possível, e a moça começa a me informar das opções de serviço que existem. Digo ya, ya, ya, sem entender direito, e ela me pergunta o número do meu cartão de crédito, que por razões de segurança deixei no apartamento. Digo que tenho cartão de crédito, mas que ele não está comigo. Ela me pede um momento, diz que não pode fazer nada.
Dia seguinte, levo meu cartão de crédito, e ligo de novo num número que foi informado no dia anterior. A moça me escuta, eu soletro meu sobrenome de novo ( ai!) e ela me diz que meu nome constra no cadastro, mas ela está na central do estado de Ohio (???), não pode fazer nada a respeito em Illinois, e que eu devo ligar para o número XYZbetaalfaomega.
Perco a paciência e vou almoçar. Já estou quase desistindo do meu intento, quando lembrei dos versos de Camões: "É fraqueza desistir de cousa começada". Acho que o ilustre poeta da nossa língua não previa a companhia SBC, e que atravessar o Cabo da Boa Esperança, perto disso, é fichinha.
Ligo novamente, e toda a tortura de ver um sobrenome digno, católico de quatro costados e que é a única coisa que me resta do meu avô virar violeta, elefante e etcs. A moça desta vez é mais simpática, ri quando eu falo "Paula like Paula Abdul", e me explica pausadamente os pacotes de serviços. Digo que estou com meu cartão de crédito a mão, que a outra moça pediu, e ela estranha. Diz que o cartão é necessário nos casos em que o indivíduo assina o SuperMegaUltraGoldenPlus Package, com direito a ligações ilimitadas para todos os EUA, Europa, taxas ótimas para América Latina, internet a cabo e wireles, massagista tailandês e tudo o mais. Quando pergunto quanto custa tudo, ela me lasca cem dólares por mês. Pergunto novamente, e entendo que ficar falando ya, ya, é concordar com o que estão te oferecendo!
Digo na linguagem universal dos duros que não dá. Moral da história: hoje meu telefone está funcionando, no plano SuperMegaUltraHomelessPoverty, ou seja, só posso fazer ligações locais e olhe lá, não tem nem secretária eletrônica e internet, um abraço.

1 comment:
Hahaha
Peripécias de minha amiga na terra dos gângsters!!!
Seu diário de campo virtual tá muito engraçado! Ah, se todo antropólogo fizesse assim...
Beijinho!!
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