Uma vez, eu li um texto do Chico Buarque, acho que no Pasquim. Não, apesar de velha, não sou da época do Pasquim. Mas eu li alguns Pasquim. E li os lindos textos de Caetano exilado, e depois os de Caetano na volta, puto com a esquerda brasileira, que segundo ele, o preferia exilado. Tirando Paula Lavigne, revista Caras e apadrinhamento de gente medíocre, além de alguns discos muito ruins, Caetano estava certo.
Voltando. Eu li esse texto, não sei se foi uma declaração do Chico, que ele estava no aeroporto de Caracas, quando ouviu a voz de Roberto Carlos essoar pelo saguão, cantando Jesus Cristo ou qualquer coisa que o valha. E que, naquele momento, exilado, compreendeu que Roberto era o Brasil, que sua voz era o nosso país.
Exilados, Caetano e Gil embevecidos receberam a visita do Rei. Muita gente não foi visitá-los. E Caetano escreveu, num daqueles momentos de lucidez, que quando Roberto Carlos entrou na sala da casa inglesa, o Brasil entrou com eles.
Aqui estou eu. Não exilada, não por tanto tempo. Mas problemas familiares atingiram quem tem o mais caro do meu coração. Por acaso, no Terra Rádio, Roberto Carlos, e chorei muito, chorei horrores. O Brasil veio me visitar.
Meus pais eram suficientemente de esquerda para me dizer que Roberto Carlos era ruim, brega, vendido à ditadura e à Globo, sendo essa última muito pior que a segunda. Todos os anos, íamos nos Volkswagen da família ( primeiro o infalível Fusca branco, depois Voyages metálicos) para Campos dos Goytacazes. Depois de horas e horas de uma viagem cansativa, quente, enjoada mesmo, chegávamos na casa de dona Maria. Para o de sempre: Natal com meu pai ajudando minha avó, minha mãe brigando com as irmãs folgadas mas tias sempre carinhosíssimas e divertidas, meu pai e minha mãe brigando selvagemente entre eles, noite de Natal atribulada, com gente cozinhando todo tipo de comida, muita briga e baixaria, e TV ligada no especial do... Roberto Carlos.
Lembro de um Natal na casa de minha tia Maria José, depois que dona Maria se foi. Ela morava num apartamento muito pequeno, e cuidava da minha prima abandonada pelos pais. Armaram uma mesa na sala e outra na cozinha. Minha tia gostava muito da Xuxa e do Wando, o que deixava meus pais, fãs de Mílton Nascimento, Chico Buarque e Caetano Veloso, de cabelo em pé.
Naquele ano, fizeram arroz à grega, tender, peru, nhoque (???) e meu pai começou a tirar sarro da minha tia servindo nhoque com arroz. Eu, de saco cheio, querendo estar em qualquer outro lugar que não ali, olho na TV e vejo a figura de branco cantando Jesus Cristo.
Os anos se passaram, eu sempre escutando muito rádio. Quando mudamos pra Campinas, ficava no quartinho dos fundos, ouvindo baixinho a Laser FM, porque achava divertidíssimo, nos meus quinze anos, o brega de Leandro e Leonardo. Nessas, o Rei me pegou. Ouvi a gravação de uma música boba, do Sullivan e Massadas, "Amor Perfeito", boba, boba.
Mas eu percebi, naquelas noites de rádio baixinho, minha mãe histérica me tratando pior que o tapete da sala, que aquela voz era muito, muito bonita.
Depois disso, segui o conselho que Maria Bethânia deu ao irmão em 1965, ou 6, ou 7: preste atenção em Roberto Carlos. Gente, eu vi, é o Brasil.

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