Sunday, October 09, 2005

Profundezas

Hoje, um amigo no msn disse que viu um ex meu num bar, em São Paulo, com uma moça.
Essa notícia boba veio quando eu estava em papos complicadíssimos, no mesmo msn. Eu tensa, falando de umas coisas foda, e aí eu me lembrei de uma coisa.
Esse meu ex, quando quis dar tudo por encerrado, me disse que não me entendia. Que eu era muito pesada, que eu levava tudo muito a sério, que uma coisa que era pra ser leve, comigo virava procissão de Sexta-Feira Santa.
Esse comentário dele me marcou muito fundo. Tão fundo que os anos seguintes, me condenei à profundeza. Eu ainda fiquei apaixonada por ele, e sofria muito com sua indiferença. E achava que o meu jeito era o culpado por ele ter se afastado de mim.
Mas agora, eu acho que a profundeza é o que me salva. Ou melhor, a consciência da profundeza. Na época que ele me disse isso, eu passava por problemas de saúde, coisas péssimas na minha família, e ele era casado quando a gente se conheceu.
Isso me lembra outra história. Eu tinha nove anos quando mudamos pra Jundiaí. Meu pai era fiador de um irmão. Esse cara tentou dar um golpe na G&M, em São Bernardo, onde ele trabalhava, e descobriram. Ele fugiu e meu pai teve que pagar tudo. Na época, ele dava aulas num curso técnico num colégio de Jundiaí, e os padres de lá ofereceram ajuda.
Eu fui parar nesse colégio. Apesar do catolicismo do meu pai e da minha avó, eu havia sido uma pequena pagã até então. A minha profesora, na Páscoa, nos levou na capela do colégio, um lugar escuro, com lindos baixo-relevos em cor de marfim e moldura de madeira escura, com os Passos da Paixão. Ela nos contou dos sofrimentos de Cristo, e eu comecei a chorar, desesperada.
Dessa experiência veio a profundeza. Não consigo ver gente sofrendo. Sofro pelo mundo ser péssimo, e sou meio Cassandra. Sabe, a moça profetisa de Tróia, que ninguém acreditava? Sou eu mesma. Eu vejo buracos. Na relação entre as pessoas, nas pessoas. E, se eu amo a pessoa, falo do buraco. Mas isso é péssimo. Minha analista já me alertou claramente que isso é sinal de onipotência narcísica brava, que eu não vou salvar o mundo, e que preciso ver primeiro e sempre o meu buraco. Ela tem toda a razão. Mas que eu sou tensa, e vejo buracos, isso eu vejo mesmo. Que posso fazer?

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